VIOMUNDO

Diário da Resistência


Claudia Wanderley: Que a gente floresça internamente também!
Bate-papo de yoga 08/07/2022 - 11h39

Claudia Wanderley: Que a gente floresça internamente também!


Por Claudia Wanderley

Por Claudia Wanderley* Há cerca de um mês tive a felicidade de reencontrar a Chris e o Mario, que foram os meus primeiros mestres de yoga, quando eu ainda tinha 19 anos. Eles estavam de passagem por Campinas. Que alegria! Ambos são grandes referências, fontes de inspiração constantes. Nesse encontro, falamos muito de família. A espiritual, a de sangue, as que a gente vai constituindo ao longo da vida, a humana, a dos seres do planeta… Para a família dos interessados em se aprimorar no yoga, usamos  o termo sampradaya. É a nossa turma. São nossos pares, como se diz na universidade. O pessoal com quem você tem afinidades. São as pessoas que podem trocar contigo em relação ao seu caminho de forma mais intensa, porque se constituem também como parte deste processo. Vamos nos relacionar Até onde entendo o que se pede nas relações é basicamente uma atenção compassiva. Uma atenção que tem como fundo o interesse genuíno de que essa pessoa, nossa família, esses seres próximos floresçam. Se realizar plenamente é o propósito de todos nós. Um olhar que favoreça isso, conscientemente, é muito apreciado. Quem pratica yoga vai aprendendo gradativamente a realizar essa experiência. E vamos nos dando conta de que tem gente perto da gente com mais afinidades do que outras pessoas, que tem aspirações parecidas com as nossas. Que tem atitudes que nos favorecem, que favorecem o nosso crescimento. Identificar essas pessoas é muito importante. Entretanto, abrir mão da diversidade e da diferença é algo que nos restringe. Porque seríamos como uma flor de estufa, que só floresceria em ambiente extremamente controlado. E isso nos torna de certa forma dependentes. É preciso meditar sempre para acharmos este doce equilíbrio entre o que se parece conosco e o que é diferente de nós, para sermos capazes de nos instalar de maneira firme e confortável na vida. Nossas questões e dificuldades O Brasil há muito vem confiando a sorte de suas crianças em grande medida às mães, muitas vezes mães que cuidam de seus filhos sem o reconhecimento nem apoio dos pais biológicos. Essas mulheres são dignas de muito respeito e admiração. São fortalezas que devemos reconhecer e honrar. Não é um contexto simples crescer em uma composição familiar sem uma das figuras presente. Ou está presente mas é omissa em seus vínculos e responsabilidades. Embora seja uma situação difícil, pessoas próximas podem fazer este papel. Ou seja, dar generosamente o que não tivemos na infância, seja um colo, um olhar de incentivo, um elogio, um bom papo, uma companhia, uma família, uma referência, a possibilidade de participar de uma comunidade, até mesmo um propósito para nossa vida. Um adulto que cresce sem essas referências positivas terá muita dificuldade de oferecê-las na vida adulta. É preciso fazer um grande esforço para quebrar esse ciclo de debilidade, e ser capaz de oferecer referências positivas às próximas gerações e para quem está perto de nós. Gayatri e Kashyapa como referência

Imagens de Gayatri e Kashyapa, na Índia

A mãe do universo é Gayatri. Ela dá origem a nós, seres humanos, inclusive. Seu nome, etimologicamente, quer dizer ares sagrados, ela é responsável pelos hinos. Como o universo tem um som como sua base, faz todo sentido que a mãe de todos os seres de todos os planos seja uma cantora. Mas o que mamãe Gayatri canta? Ela canta de várias maneiras que há uma luz de consciência, que é importante estarmos atentos a esta luz. Quando olhamos para a origem da humanidade também encontramos um sábio, um rishi, que é o pai de todos nós: o Sr. Kashyapa. Ele não é apenas pai de toda a humanidade, ele também é pai de Devas, Asuras e Nagas. O Rishi Kashyapa, entre outras coisas, é um grande amante do estudo, e famoso por drenar as águas estagnantes da ignorância. Quem não sabe claramente qual sua família, ou sua linha, e tem interesse no yoga pode ser considerado filha ou filho de Kashyapa, já que ele é o pai de todos nós. Não é possível dar o que não se recebeu, mas é possível se dispor a receber e dar Nesse sentido, uma boa dica é atualizar nossos vínculos com gente capaz de responder, que tenha a habilidade de responder e a responsabilidade de cultivar a alegria no outro. Sei que não é uma dica simples, já que às vezes o tempo de receber essa acolhida passou. É um processo difícil quando a gente já cresceu, mas é possível. Se houver essa disposição genuína, é um benefício que geramos não apenas para nós, mas para todos os que nos cercam. Quando a gente – mesmo com dificuldades – se permite receber, a gente fica mais disponível para dar afeto, atenção, amor. E os afetos, como diz a querida Eliara, são revolucionários. O sistema do yoga permite que nas práticas conjuntas exista essa atenção compassiva em relação a nós praticantes. Qual o nosso papel? Simplesmente se permitir ser visto, ser apreciado, ser cuidado, aprender também esse modo de ser, de florescer. Aprofundar na sua própria essência buscando a consciência de si. Aproveite! O yoga permite que essa convivência com diferentes fontes de realização – essas diferentes pessoas com as quais convivemos – vá lentamente se desenhando e expandindo. Esse olhar que a gente recebe, com o tempo a gente é capaz de dar também. Vai por mim, é um caminho muito bonito. A noção de família no yoga é bastante estendida, e inclusiva. O importante, basicamente, é assumir que é nossa responsabilidade cultivar felicidade para nós, e dentro do possível viabilizar isso para nosso entorno. A consciência de si anda juntinha com a consciência social, a solidariedade, a inclusão. São possibilidades de encontro e criação coletiva que fazem parte desta tradição que estamos aprendendo a apreciar aqui no país. Se você tem a sorte de ter crescido em uma família bacana, provavelmente servirá de exemplo em muitas esferas de atuação. Sempre é possível aprender um pouco mais, expandir um pouco mais, avançar no caminho do autoconhecimento através do yoga.

Flor de lotus indiana. Foto: Wikimedia Commons

Tradicionalmente a imagem da flor de lotus é utilizada como imagem de um ser que se alimenta da lama do lodo de lagoas e lagos, e se ergue diariamente em direção ao sol. E, por ter uma capacidade de repelir poeiras e microorganismos, suas pétalas estão sempre lindas, sem máculas. Metaforicamente, todos nós estamos sujeitos ao sofrimento, às dificuldades do cotidiano. E o modo como nos conduzimos nesses momentos nos permite também que a gente floresça internamente. A luz da consciência é como um sol, vamos dar atenção para isso. Minha sugestão de meditação: – tome um banho; – sente-se de maneira firme e confortável, olhando para o leste; – verifique se sua coluna está alinhada; respire profundamente; – imagine que a base de sua coluna dá início a uma raiz que está ancorada no seu cotidiano; sua coluna é o caule de uma flor e o topo da cabeça, as pétalas abertas voltadas para o sol (imagine que você é uma flor linda); – coloque sua atenção no topo de sua cabeça (nas pétalas da flor); – contemple pelo tempo que puder sua existência; com uma atitude compassiva quando terminar, agradeça a experiência. Vamos nos cuidar! *Claudia Wanderley coordena o grupo de estudos Yoga na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde é também pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência. No programa de extensão da Faculdade de Educação Física da universidade, dá aula de saudação ao sol.




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