VIOMUNDO

Diário da Resistência


Claudia Wanderley: Fogo no parquinho?! Experimente meditar onde estiver
Bate-papo de yoga

Claudia Wanderley: Fogo no parquinho?! Experimente meditar onde estiver


11/05/2022 - 16h23

Por Claudia Wanderley*

Na semana passada, eu e uma amiga fomos a uma escola pública que fica aqui em Campinas (SP), para ver se teríamos condições de iniciar uma experiência modesta lá: uma hora de yoga por semana.

Logo, detectamos ótimo ambiente e predisposição para a prática de yoga.

Ao encontrar os estudantes, perguntei-lhes o motivo de terem vindo experimentar yoga.

“Para fazer alguma coisa” e “para relaxar”, dois nos responderam.

Confesso-lhes que me animei muito com essas respostas.

De fato, quando cansamos do nosso piloto automático do cotidiano, precisamos fazer alguma coisa conosco. E yoga é, sem dúvida, uma boa opção.

E, se escolhemos yoga para relaxar, é um sinal positivo de que estamos nos dando conta que nosso sistema está de alguma forma estressado. Acredito que começamos bem.

É de nossa natureza crescer, cuidar e cultivar

Nós, seres humanos, temos como característica a mudança, o trânsito natural de um estado a outro.

Esse trânsito nos faz experimentar múltiplas sensações ao longo do dia.

Por isso, de manhã, acordamos querendo algo e, logo em seguida, uma segunda e uma terceira coisa. Isso sem falar que às vezes desejamos várias ao mesmo tempo.

É muito amplo o que é possível pensar a cada dia.

Outra coisa incrível são os nossos sentidos; eles também nos acionam em diferentes direções.

Essa amplitude de possibilidades e experiências é muito bacana. Quando a gente está nessa festa de sensações, ideias, desejos, a yoga ajuda a promover uma certa integração.

O sucesso, a fruição, o desenvolvimento de nosso potencial, nossa realização enfim, precisa de algo que vou chamar aqui de um tipo de nutrição.

No nosso caso, essa nutrição é composta de um certo cuidado consigo mesmo e com o nosso entorno, coisas a cuidar e coisas a cultivar.

Por mais que a gente queira, nem sempre é possível levar adiante todos os projetos que conseguimos pensar para nós mesmos.

Eventualmente, precisamos fazer escolhas com sobriedade e, conscientemente, nos movermos num sentido que articule nossas sensações, nossas emoções, nossas ideias e nossas aspirações.

Quando a gente considera que pode crescer de maneira integrada, yoga é uma boa companheira de caminho.

A ética entre nós e a curiosidade

Até onde sei, o jeito de crescer tem uma medida simples. É preciso que seja em harmonia com outras pessoas e seres, porque não há sucesso possível, ou não há sucesso que se sustente, se a gente prejudicar qualquer ser.

Florescer como pessoa, como casal, como família, como parte de uma comunidade, como parte de seu país, como um ser integrado no planeta é uma proposta de vida que é possível abraçar sem qualquer vínculo religioso, é um voto de boa vontade em relação a nós mesmos. É uma boa!

Vamos considerar, vamos partir do princípio de que eu, de que você, de que nós somos pessoas bacanas, capazes de viver nossa integridade e garantir que as outras pessoas e outros seres com os quais a gente convive também podem viver essa experiência de integridade.

É um abraço diário, um tipo de trabalho artesanal, um exercício que fazemos dentro de nossas possibilidades. É um esforço colocar para nós mesmos um modo de melhorar, e sermos consistentes com o que nos propusemos.

Dá para fazer isso todo o tempo? Não.

Na minha experiência muitas vezes não dá, a gente escorrega, faz besteira sim. Mas voltamos, nos damos conta, e retomamos a proposta. Devagarzinho essa experiência se alarga. Assim, vamos ficando mais à vontade com a compreensão de que estamos avançando; e de que estamos promovendo nosso bem estar.

É preciso também considerar que o esforço precisa estar associado com o conhecimento, é uma associação altamente recomendável, para não ficarmos em um circuito fechado.

Quando a gente estuda, a compreensão do que estamos fazendo se alarga, e nós continuamos expandindo.

Daí, entra nosso entendimento de yoga, e a importância de termos alguém que já pratica há algum tempo por perto.

Também é bom transitarmos por diferentes ensinamentos, assim como é importante termos a possibilidade de estudar o que está nos livros sobre a filosofia do yoga.

A curiosidade é muito bem-vinda no yoga. É justamente por isso que estamos com este projeto na universidade de organizar um curso de filosofia do yoga, com o apoio dos professores de yoga de Campinas e região. A gente sonha alto, aqui.

Fogo no parquinho?! Meditação!

Quando a gente está em casa, a luz do fogo, por exemplo, mostra-nos o caminho quando estamos no escuro.

O fogo, dizem os mais velhos, nos aquece e transforma as coisas.

O sábio Angiras é um sacerdote, um rishi, um sábio, uma inteligência que muitas vezes é confundida com a inteligência do próprio fogo.

Sri Aurobindo [1] fala da importância do fogo para nós que gostamos de yoga.

E muitas meditações são feitas olhando para o fogo. Eu particularmente gosto muito de saudar o sol, acho uma experiência incrível. É algo que me organiza.

O mestre Estrada dizia algo do tipo: quando clareia, amanhece (“Aclarando amanhece”).

E todos nós, é claro, queremos amanhecer, florescer, crescer, progredir, nos desenvolver.

Então deixo, aqui, esta sugestão de meditação.

Quando estiver em casa e puder meditar um pouco, tome um banho, coloque uma roupa limpa, sente-se com a coluna reta.

Fique de frente para o leste, acenda uma lamparina, uma vela, um pavio (o que for possível).

Coloque o fogo aceso em uma altura que permita o seu olhar se manter mais ou menos alinhado com o horizonte.

Observe o fogo por alguns minutos.

Observe o que você via antes de ter o fogo aceso, e o que você vê agora com o fogo aceso. Observe sem julgar.

Respire fundo durante toda a meditação.

Quando terminar, agradeça a experiência, e apague o fogo.

Vamos nos cuidar!

[1] Sri Aurobindo, The Secret of the Veda with Selected Hymns, Volume 15 -The Complete Works of Sri Aurobindo © Sri Aurobindo Ashram Trust 1998

*Claudia Wanderley coordena o grupo de estudos Yoga na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde é também pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência. No programa de extensão da Faculdade de Educação Física da universidade, dá aula de saudação ao sol.





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