VIOMUNDO

Diário da Resistência


Claudia Wanderley: Ao meditar hoje, faça um teste. Escute o som do seu coração batendo
"Yoga na Unicamp: Corpo e Transcendência"; evento da CLE/FEF/Unicamp, realizado em 2018. Fotos: http://cobalto.me
Bate-papo de yoga 05/06/2022 - 17h56

Claudia Wanderley: Ao meditar hoje, faça um teste. Escute o som do seu coração batendo


Por Claudia Wanderley

Por Claudia Wanderley*

Da perspectiva tradicional do yoga, o som é uma questão central da existência.

Tudo o que existe vibra, portanto tem um som, que é a reverberação.

No yoga, a tecnologia de escuta é um sistema altamente desenvolvido.

Inclusive, há um conjunto de textos antigos que carrega o nome de Shruti, que, resumidamente, podemos traduzir aqui por escuta.

Esses textos são inspirações, “escutas”, feitas pelos sábios, os Rishis, e registradas na escrita.

É uma alegria ter acesso a esse conteúdo (a maioria, em língua estrangeira) que põe em palavras essa reverberação.

Aqui, dentro de nossas possibilidades práticas, a ideia é ouvir os professores de yoga e as diferentes experiências que  promovem nas respectivas regiões.

E, a partir dessa reflexão conjunta sobre os textos filosóficos, praticarmos juntos.

Neste momento, junho de 2022, nós estamos começando a estudar yoga de maneira sistematizada na Unicamp. Uma universidade pública no Brasil de hoje.

A vibração de uma pessoa não é necessariamente o que ela fala. Afinal, pode falar uma coisa e fazer outra.

Mas, no yoga, há um esforço para que essas duas reverberações  — a do falar e a do fazer —  se afinem e se encontrem em nossa existência. E algo muito confortável.

A tradição diz que todas as pessoas vibram em um tipo de som. É o chamado de “nāda”, o supremo “kalā“*. Sinteticamente  é uma vibração consistindo de consciência. Os desdobramentos desse tipo de percepção são incríveis.

O fato é que somos parte de uma mesma consciência, de uma mesma natureza.

Às vezes isso é perceptível ou compreensível. Alguns com mais emoções. Outros com mais amor devocional. Outros, ainda, com um pouquinho de cada uma dessas coisas…

O modo de assimilar esse lugar de encontro consigo e com os que estão no entorno varia muito,  considerando, por exemplo, os temperamentos, os tipos de práticas, época da vida em que estamos.

No início, pode ser uma intuição de que estamos “vibrando na mesma sintonia”, como é frequente dizermos no dia a dia.

À esquerda, tocador de tambor tradicional indiano, templo em Bihar, Índia. À direita, o aerofone/trombone de Keralla, Índia. Fotos: Wikipedia

Vamos fazer um som?

Basicamente quando fazemos um som, estamos em uma região muito íntima para toda a existência, podemos tocar profundamente uns aos outros.

Para abrir uma conversa, é importantíssimo fazer esse som de modo amoroso, falar diretamente do coração o que é verdade, de forma que o que promete possa ter respaldo objetivo na realidade e na vida.

Nem sempre é fácil começar, mas devagarzinho conseguimos.

Existem vários textos que falam do que chamamos de “mantras”.

De modo mais simples, mantras são sons.

Se ganhamos o hábito de expressá-los, eles nos ajudam a harmonizar a nossa mente.

Também há o que chamamos de hinos: músicas ou textos, cantados ou lidos em voz alta ou não.

Todo esse arcabouço de potência sonora propõe uma relação de expressão. Ou, também, de impressão de que alguma  coisa passa pelo nosso coração, pela reflexão sobre nossa própria vida, pela internalização em nós mesmos desses sons. E, claro, por nos ouvir, ouvir a nossa própria vibração.

Os sábios são grandes referência no yoga

A composição de hinos é uma das grandes atividades de um rishi chamado Atri.  Um sábio.

O Sr. Atri origina-se diretamente da língua do seu pai dele, o Sr. Brahma.

Atri nasce da língua de Brahma. Ele traz para nós um ritual de inicio de estudos mais profundos, o início de um tipo de educação para a vida adulta, que inclui o aprendizado de uma variedade de conhecimentos e técnicas para a gente se virar e viver bem por aqui.

Como não poderia deixar de ser, o Sr. Atri é uma das grandes e respeitadas fontes de conhecimento que ajuda as pessoas a se moverem na direção certa e as conduz ao caminho espiritual.

Dentro das nossas possibilidades, o que ele faz, nós podemos fazer também.

Por exemplo:

— fazer hinos para aquilo que apreciamos;

— elogiar e agradecer de coração a presença do que nos permite expandir a consciência;

— escrever poemas sobre as maravilhas que somos capazes de perceber;

— expressar nossa felicidade conscientemente através de nossa própria vibração, do som que realizamos, do que imprimimos em nosso cotidiano. E isso certamente alegrará a nós mesmos e a quem estiver próximo a nós.

O som da amizade

Músicos no templo Hoysaleswara, India, dedicado a Shiva. Foto: Wikimedia Commons

Já que compartilhamos essa reverberação com toda existência, uma das coisas que faz parte do cotidiano de quem pratica yoga é adotar uma atitude amistosa para todos os seres, dentro de nossas habilidades. Inclusive sermos amistosos com o ser que nós mesmos somos.

Podemos cultivar simpatia por nós mesmos e pelos seres que participam de nosso cotidiano. E desejar, inclusive, o bem de todos os seres mais próximos de nossa convivência; se possível, desejar o bem indistintamente para todos os seres do cosmos.

A compreensão de ser inclusivo, estar disponível para a diversidade, atento a outras existências e a outras possibilidades de interação é um traço objetivo, que vai sendo cultivado por quem pratica yoga.

É completamente inadequado, dentro desta percepção de mundo, agredir, ameaçar ou excluir outra existência.

Experimente não ser reativo, não mentir, não responder a gatilhos que querem nos desestabilizar, tentar resolver questões de modo objetivo, ouvindo você mesmo profundamente.

Procure  sintonizar o dial o mais próximo possível da sua melhor versão. Observe se algo muda.

Quando a gente melhora, se aprecia e aprecia de maneira amistosa quem – e o que – faz parte de nosso cotidiano, o nosso entorno melhora também.

Faça esse teste!

Se der certo, vem junto com a gente, aqui no Viomundo, ajudar na construção das “forças amadas”, como diz neste artigo o cineasta Silvio Tendler.

A sintonia do dial de quem faz yoga é manter sua integridade, autenticidade e ser responsável consigo e com o que está a sua volta.

Somos parte de uma mesma situação, de uma mesma contingência, de um mesmo tempo, em uma reverberação contínua.

Estamos interligados. Portanto, é preciso transitar e avançar com atenção e cuidado.

Vários elementos compõem nossas interações e, se prestarmos atenção, aprenderemos muito com essas experiências.

Exercitar um olhar amistoso e observar é um bom começo.

Hoje, a minha proposta de meditação é você ouvir o seu coração:

– tome um banho;

– coloque uma roupa limpa;

– sente-se de maneira confortável e firme, com a coluna reta, olhando para o leste;

– respire profundamente durante toda a prática;

– escute o som de sua respiração;

– se possível, concentre-se e escute o som de seu coração batendo

Fique o quanto puder no embalo do som de sua respiração ou do seu coração.

Quando terminar, agradeça a experiência.

Vamos nos cuidar, vamos cantar!

*Claudia Wanderley coordena o grupo de estudos Yoga na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde é também pesquisadora do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência. No programa de extensão da Faculdade de Educação Física da universidade, dá aula de saudação ao sol.





2 comentários

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Valdir Rocha de Freitas

07 de junho de 2022 às 14h02

Na oração a gente conversa com Deus, já na meditação a gente ouve o que Deus tem a nos dizer.

Responder

    Claudia

    08 de junho de 2022 às 17h16

    E ambas muito necessárias no nosso dia a dia, Valdir.


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