VIOMUNDO

Diário da Resistência


Você escreve

Washington e os observadores da imprensa


25/07/2010 - 15h58

por Luiz Carlos Azenha

Desde o Viomundo mais antigo, ainda hospedado na Globo.com, venho chamando a atenção de meus leitores para a atuação internacional do National Endownment for Democracy (NED), uma entidade suprapartidária criada durante o governo Reagan para “promover a democracia” no mundo. O NED foi uma resposta de Washington ao escândalo que ficou conhecido como Irangate, quando o governo Reagan vendeu armas secretamente ao Irã e usou o dinheiro para financiar os contras, que tentavam derrubar o governo sandinista da Nicarágua. Reagan teria usado do subterfúgio para driblar o Congresso americano controlado pelos democratas, onde era forte a oposição às guerras que Washington promovia na América Central (com resultados bárbaros em El Salvador e Guatemala, especialmente). Pode-se dizer que o tenente-coronel Oliver North, que articulou o Irangate, foi o primeiro neocon de altíssima visibilidade nos Estados Unidos.

Pois o NED foi a saída de consenso: receberia fundos aprovados pelo Congresso e teria braços independentes no Partido Democrata, no Partido Republicano, no movimento sindical e no movimento dos empresários. Todos, assim, unidos, para promover a política externa dos Estados Unidos. Uma espécie de CIA civil. Obviamente que isso não acabou com as ações clandestinas, que foram turbinadas especialmente depois dos atentados de 11 de setembro, quando os militares passaram a assumir um papel cada vez mais importante na estrutura de poder dos Estados Unidos, a ponto de tomar espaço antes exclusivo da diplomacia do Departamento de Estado.

Como as atividades do NED são públicas, ficou muito mais fácil seguir o dinheiro e conseguir provas factuais do envolvimento de Washington, ainda que indireto, na derrubada ou tentativa de derrubada de governos não amigáveis. “Promover a democracia”, na verdade, se resume a isso: derrubar ou tentar derrubar governos não amigáveis. Foi uma estratégia que obteve sucesso especialmente em países da antiga esfera de influência da União Soviética, onde alguns milhares de dólares podem fazer uma diferença considerável para a organização da militância antigovernamental. Não se trata, pois, de defender regimes autocráticos ou autoritários, mas de registrar que o NED e outros órgãos ligados ao governo dos Estados Unidos investem muito mais em “promover a democracia” na Venezuela do que na Arábia Saudita, muito mais no Irã do que no Egito. Por que?

Garanto que se a China investisse dinheiro equivalente para promover seus interesses nos Estados Unidos seria um escândalo.

As táticas empregadas pelos “empreiteiros” de Washington são razoavelmente conhecidas: a mobilização de jovens, que são muito mais voláteis e sem compromisso com a ordem estabelecida; o ciberativismo, que garante um impacto desproporcional ao investimento em dólar; organizações com nomes simples, símbolos visualmente fortes e identificadas com a sociedade civil, ou seja, “apartidárias”.

Minha razoável experiência de vida nos Estados Unidos me ensinou uma coisa: os estadunidenses são muito bons em defender os interesses dos Estados Unidos. Fazer isso não requer convencimento. Em torno dessa ideia cresceu em Washington uma extraordinária burocracia, que não responde a um comando centralizado. Nem precisa: Chávez contraria interesses de Washington? É inimigo. Se Barack Obama determinar por escrito que é política de Estado buscar uma conciliação com Hugo Chávez, esse gigantesco aparato levará quatro anos para atendê-lo, se um dia o fizer.

O NED é apenas uma das faces públicas desse aparato. A privatização das ações de estado não se deu apenas no campo militar (com a Blackwater como símbolo mais visível do fenômeno), mas também na rede de prestadores de serviço do Departamento de Estado. Como narrei em um texto antigo, republicado aqui, do nada uma empresa de “pesquisa de mercado” e “consultoria”, a Penn, Schoen, Berland, foi à Venezuela fazer pesquisas eleitorais antes do referendo revogatório que manteve Hugo Chávez no poder e antes da mais recente eleição presidencial. Produziu pesquisas grotescamente distorcidas. Foi por acaso?

As ações de promoção dos interesses da política externa dos Estados Unidos, mascaradas como de “promoção da democracia”, avançaram nos últimos anos por caminhos virgens. Com a divulgação de arquivos antes secretos, está factualmente estabelecido que jornais como El Mercurio, do Chile, receberam ajuda financeira e editorial para promover golpe de estado. Hoje, no entanto, além de treinar “democratas”, Washington financia uma rede de observadores da imprensa  e de entidades que se apresentam sob a fachada de defensoras da liberdade de imprensa e de expressão.

Faz algum tempo o Viomundo chegou a denunciar o financiamento que uma delas, o Instituto Prensa Y Sociedade, o IPIS, recebia do Departamento de Estado. Critiquei o fato de que um dos integrantes do IPIS, Ewald Scharfenberg, ter sido mencionado como observador da imprensa sem que se fizesse menção ao fato de que recebia financiamento dos Estados Unidos, o que é absolutamente relevante quando consideramos o confronto entre Washington e o governo de Hugo Chávez.

Na ocasião, Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa, escreveu uma nota sugerindo que eu seria movido por interesses escondidos.

Cheguei a trocar mensagens com Scharfenberg, que me enviou um texto publicado no site antigo.

Ele argumenta que é absolutamente natural que entidades de defesa da liberdade de imprensa recebam financiamento externo. Concordo, desde que isso fique claro quando essas entidades forem convidadas a emitir opiniões, relatórios ou pareceres ou participar de encontros, convenções e missões de investigação.

O papel do IPIS e de outras entidades com financiamento externo na Venezuela vem sendo continuamente denunciado pela advogada estadunidense Eva Golinger, em seu blog.

Agora, o blog Tijolaço, do deputado Brizola Neto, publicou reprodução de documento do Departamento de Estado que menciona o IPIS e a  Espacio Publico (que se define como “uma associação civil sem fins lucrativos, não governamental, independente e autônoma de partidos políticos, instituições religiosas, organizações internacionais ou de qualquer governo”):

Autônoma em relaçao a “qualquer governo”, Espacio Publico?

Para os documentos originais, em inglês, divulgados em atendimento a pedidos feitos através do Freedom of Information Act, clique no link oferecido pelo deputado Brizola.

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
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Por Laurindo Lalo Leal Filho



28 comentários

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Hans Bintje

26 de julho de 2010 às 15h46

Azenha:

Você escreveu que "cresceu em Washington uma extraordinária burocracia, que não responde a um comando centralizado."

Cada um por si. São todos "farmacêuticos", mas quantos querem cuidar dos verdadeiros problemas dos EUA, já que as "feridas" das guerras produzem muito mais dinheiro?

Do Observatório da Imprensa ( http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos…. ):

"Em uma pequena cidade do interior brasileiro, um farmacêutico prático vivia com dificuldades para dar à sua família o que considerava o mais valioso bem, que era a educação e uma formação profissional.

Finalmente, após anos de dificuldades, o seu primogênito volta com um diploma de medicina, pronto para ganhar a vida ajudando a comunidade e a educação dos irmãos mais jovens.

Um belo dia o jovem doutor chegou à casa esfuziante por ter curado uma ferida crônica de um fazendeiro da região. O farmacêutico ao tomar conhecimento da cura ficou lívido e disse: foi cultivando esta ferida durante anos que você se formou em medicina. E agora os outros irmãos?"

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Marat

26 de julho de 2010 às 08h00

Muitos de nossos agentes policiais fazem cursos com FBI, CIA e outras agências terroristas estadunidenses e voltam completamente colonizados e orgulhosos de participar dos seus convescotes!

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Marat

26 de julho de 2010 às 07h56

Existem inúmeras ONGs, entidades "filantrópicas" (ou pilantrópicas?), religiões et al, estrangeiras, espalhadas pelo mundo, recheadas de espiões e agentes desestabilizadores… Cabe a todos nós denunciarmos!

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kalango Bakunin

26 de julho de 2010 às 02h59

protesto veementemente contra mais essa infâmia da quadrilha petralha fabricante de dossiês !!!
esse suposto dossiê foi feito pelos petistas dilmistas do Departamento de Estado dos USA
não é a primeira vez que a petezada de Washington faz um dossiê contra pessoas decentes
há pouco tempo vazou um dossiê dilmista do mesmo Departamento de Estado dos USA onde o ínclito Presidente Uribe estava na lista negra dos narcotraficantes e que havia trabalhado com Pablo Escobar
o Departamento de Estado dos USA, que recebeu 5 caixas de uisque com dólares de do ditador Fidel, ainda, para o cúmulo da infâmia, não colocou o indígena Evo Morales, o grande narcotraficante cocaleiro,denunciado pelo mais preparado dos brasileiros e por seu esplêndido vice
a imprensa livre, patriota, legal, honesta, imparcial jamais se vendeu, nem se venderá barato para ninguém!!!!!

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O Brasileiro

26 de julho de 2010 às 02h04

Até ai, direito de cada um lutar por sua "ideologia" (leia-se, interesses econômicos).
O que é inaceitável é o autoritarismo daqueles que se dizem democratas, mas que não querem que as pessoas se defendam denunciando essas relações obscuras que envolvem propinas e "grants".

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Milton Hayek

26 de julho de 2010 às 02h01

O Diario da CIA,em espanhol,pra todo mundo ficar por dentro da mecânica:
http://www.scribd.com/doc/31541300/Diario-de-la-C

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dukrai

25 de julho de 2010 às 23h27

nem precisa de NED, Ipis ou Espacio Publico, a Falha de SP faz de graça

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    André LB

    26 de julho de 2010 às 16h31

    Será que é mesmo de graça? Saiu na Carta Capital, uns 5 anos atrás, entrevista com um ex-espião americano. A galera da "grande mídia" recebe presentinhos do Tio Sam.

Marcelo Fraga

25 de julho de 2010 às 20h14

Aqui no Brasil o PiG não precisa de financiamento para desetabilizar o governo. Isso eles fazem de graça e com prazer.

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mariazinha

25 de julho de 2010 às 20h07

Tudo faz sentido depois de ler tais palavras; o que era uma sensação de desconforto perante as atitudes dos buches, torna-se uma certeza de que algo muito podre e fedorento transita pelo poder subterrâneo daquele país e seu satélite sionista. São simplesmente demoníacos em se tratando de usurpar a tranquilidade alheia para implantar o terror e a discórdia, no seio de outros países e, assim, conseguirem surrupiar os mesmos. Será por acaso que o Brasil despontou, enquanto alienígenas quebraram? Quanto dinheiro dos brasileiros era desviado para os cofres dos buches? Tremo de horror ao pensar que o Sr. Chirico poderá fazer voltar tudo à estaca zero. Os alienígenas estão por aí, trabalhando com afinco para isto.

Existe mais:

Isto É de 21/11/02
A CIA continua no Brasil
Documentos obtidos por ISTOÉ provam que a agência de espionagem atua clandestinamente no Brasil. Delegados da PF afirmam que até FHC foi bisbilhotado por equipamentos da CIA http://www.policiaeseguranca.com.br/cia_brasil.ht

Aposto que estão bem entranhados na máquina governamental brasileira, na Amazônia e de olho no Aquífero Guarani, prontos para dar o bote fatal. http://www.suapesquisa.com/geografia/aquifero_gua

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    Milton Hayek

    26 de julho de 2010 às 00h10

    Eu tinha lido algo sobre isso, na Carta Capital, em 2001.Mas essa matéria da IstoÉ é mais detalhada.Fica claro que FHC depredou a Polícia Federal(retirando dinheiro do seu orçamento) para entregar essa área à CIA.
    Eu me pergunto,até hoje,como o Brasil pode eleger um imbecil,um cretino,um chupa ovo de americano para ser presidente do Brasil!!!!!!!!!!!!!!
    Fela da puta!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Carlos

    26 de julho de 2010 às 15h39

    Sugestão: destacar sempre datas, maneira de perceber entrelaçamentos dos fatos.

Marcos C. Campos

25 de julho de 2010 às 20h05

Um dia teremos uma "intervenção" na internet para acabar com o livre fluxo de pensamento ?

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Fabio_Passos

25 de julho de 2010 às 19h35

Nem os estadunidenses aguentam mais o lixo produzido pelo sistema… e nós vamos embarcar nesta roubada de eleger um lacaio dos interesses ianques?

Nem pensar.

Saca só Cypress Hill e Tom Morello fazendo um som prá descaderar a ricaiada avarenta:

"Rise Up"

[youtube detVOuK8v-U http://www.youtube.com/watch?v=detVOuK8v-U youtube]

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Maria Dirce

25 de julho de 2010 às 22h34

Nesse exato instante que escrevo, os cientistas políticos da USP na Globo News, detonam o Chaves elogiam a Colombia, dizendo afirmativamente que Chavez apóia as Farcs, e sobre as bases americanas não, são feitos acordos com governos legitimamente democraticos.Vergonhoso Brasil que decadência a USP chegou, ao frequentar a Globo News detonar o Lula, a política do mercosul, apoiar descaradamente o Serra, manipular pesquisas, escutar a Lucia Hipólito bebada ao telefone difamar o governo Lula ,destroem a diplomacia brasileira, ridicularizam a Dilma,mas esquecem a origem da emissora que estão sendo entrevistados.Os assinantes dessa horrorosa emissora que esvaziem as assinaturas assim como eu farei agora!!!!!!Os nomes dos entrevistados são-Marcos azambuja,Sergio Fausto,marco antonio Villa!!!

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    mariazinha

    25 de julho de 2010 às 23h44

    Parabéns, Dirce.
    É de palavras assim, de repúdio e revolta que construiremos, junto aos homens/mulheres de bem, um BRASIL, melhor e mais justo.

    Marco

    25 de julho de 2010 às 23h54

    kkkk!!! Calma Maria Dirce! Esses tres "especialistas" já são figurinhas carimbadas na Globonews!!! São sempre chamados quando a Globo precisa de um aval de "doutores" de acordo com as suas conveniências. Ninguém mais dá bola para o que dizem. Eles vão lá apenas para ganhar o cachê da emissora. Falam qualquer coisa para "agradar" a mídia corporativa nacional! São irrelevantes!

    Cristiana Castro

    26 de julho de 2010 às 00h30

    Tive que desligar. Não aguentei.

    kalango Bakunin

    26 de julho de 2010 às 02h54

    tem como saber se os "especialistas da USP" receberam cachê? afinal de contas os seus salários devem estar também congelados por 16 anos…

    Marat

    26 de julho de 2010 às 07h58

    Eles são uns estúpidos ditadores da "informação"… depois possam de democratas… só se for democrata ao estilo DEM.

Fabio_Passos

25 de julho de 2010 às 22h16

O objetivo dos ianques é sabotar e desestabilizar nações que ousarem cometer "crime de nacionalismo".
Nenhum povo tem o direito de afirmar sua independência… washington quer representantes submissos e servis aos seus interesses.

Isto acontece no Brasil?
Será?

Imagine…

Tem algum candidato bancando o boneco de ventrícolo da mídia-corporativa?
Caluniando governos progressistas e independentes como o de Evo Morales exatamente como faz a quadrilha veja / fsp / globo / estadão?

Será que tem algum parceiro do joaquim silvério dos reis querendo ser o novo lacaio de washington na AL?
Tem algum figura que aceita o papel de capacho? Um entreguista? Um vendido?

Responder

jefferson

25 de julho de 2010 às 22h09

Por aqui, podemos ficar tranquilos.

O Serra já desmentiu qualquer suspeita de que tenha ligações com a CIA:
http://is.gd/dDUo1

Responder

Morvan

25 de julho de 2010 às 22h08

Não sei porque, ao ler este texto, me vem à memória a palavra CEBRAP, bem como outras (Cone Sul, por exemplo)…

Morvan, Usuário Linux #433640

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leosfera

25 de julho de 2010 às 22h01

Será que o Millenium leva o seu?

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IV Avatar

25 de julho de 2010 às 18h26

O esquema é pesado, muitos interesses em jogo, a mídia dando suporte

Responder

Ed.

25 de julho de 2010 às 18h09

Há muitos anos atrás li o livro "O Diário da CIA", de Philip Agee, um ex agente para a Améria Latina.
Nunca mais consegui olhar para certos políticos e jornalistas sem antes avaliar se e quão "recrutados" possam ser.
De acordo com ele, de líderes estudantis e sindicais até presidentes (México). qualquer um pode ser um financiado.
Os EUA, que independentemente de qualquer coisa, devem ser reconhecidos como uma grande nação, precisam repensar seu papel no mundo, que sempre prioriza governos em vez de povos.
Não percebem que seu próprio bem estar já esta desnecessariamente afetado por tal política ou doutrina.
Precisam aprender a trocar a palavra "interferência" por "convivência"…

Responder

    Marat

    26 de julho de 2010 às 07h57

    Esse triste país pensa que tudo pode ser comprado…

Ramalho

25 de julho de 2010 às 17h18

Como se diz, o diabo mora nos detalhes. Artigos como este são absolutamente essenciais, pois sustentam, com relatos comprováveis de fatos, impressões vagas e desconfianças. Informações fundamentais da interferência estrangeira, especialmente de americanos, na política interna brasileira "just in time" são difíceis de se encontrar. Deveria haver uma linha permanente de artigos sobre o tema.

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