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Sulamita Esteliam: As mulheres decidem


27/10/2010 - 14h15

As mulheres decidem, e podem se orgulhar

por Sulamita Esteliam, em  A Tal Mineira

Nós mulheres somos mais da metade da população brasileira: 51,3%, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/2007. De há muito ocupamos as universidades – 57% das matrículas no ensino superior. No mercado de trabalho, também, beiramos a metade: 49,7% da população economicamente ativa, pelos dados de 2009 do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Podemos, sim, governar um país. E devemos nos orgulhar de termos essa oportunidade, ainda rara no mundo.

Comandamos nossos lares, não apenas como mães, donas de casa, cuidadoras: 65,8% das mulheres casadas contribuem com 40,9% das despesas dos lares, ainda segundo o IPEA. A cada ano, mais e mais mulheres são responsáveis pelo sustento de suas famílias: na classe C, esse percentual chega a 32%; nas classes A e B, 25%. Ombro a ombro com os homens ou sozinhas, somos cada vez mais protagonistas de nossos destinos

Ganhamos salários menores que os homens, mesmo em funções idênticas. Somos minoria, ainda, nos cargos de direção, postos executivos, públicos e privados, legislativos, judiciários, sindicais, religiosos. Ainda reclamamos parceria na dupla, tripla jornada.

Não obstante, estamos a um passo da Presidência da Republica. Só depende de nós. Afinal, somos a maior parte do eleitorado: 51,8%, de acordo com o TSE – Tribunal Superior Eleitoral.

Amassamos barro, manejamos enxadas, rodos e vassouras. Pilotamos fogão, tanques e máquinas de lavar. Mas também dirigimos empresas, clínicas, hospitais, escolas, hoteis, mercados. Comandamos obras, redações, linhas de produção, veículos individuais e coletivos – lares, templos, terreiros e bordeis. Brilhamos nos palcos das artes e da vida.

Nos perdemos e nos achamos em meio a fraldas, livros, cuecas, computadores, laços, tratores,  espinhas, terços, cólicas,  textos, véus, tintas, cálculos, desejos, culpas e odores – redes, humores e lençóis. Sangramos, regularmente. “Bicho esquisito”, já cantou Rita Lee.

Parimos. “Somos metade da humanidade e mãe da outra metade”, ecoa a frase de uma líder comunitária recifense, há coisa de 10 anos.  Somos mãe, e isso é sublime, quando temos o direito de escolha. Nosso existir vale mais do que querem nos fazer crer o moralismo obsceno e o fundamentalismo conveniente. Também temos o direito ao cuidado da vida.

Semeamos. Esperneamos. Plantamos. Regamos e colhemos. Pintamos e bordamos. Muitas vezes, tudo ao mesmo tempo: somos estéreo – múltiplos canais para diferentes ressonâncias. Talvez por isso, nos traduzam anjas ou demônias – trôpegas, loucas, absolutas. Quem não é?

Mulher assertiva é autoritária, agressiva? Ou é fêmea que se impõe num mundo onde o macho sempre deu as cartas? “Mulher que nega, nega o que não é para negar”? Ou valoriza o direito de ser senhora dos seus próprios caminhos.

Há quem ache que mulher pode, no máximo, ser sindica de prédio. Claro, miss simpatia, também. O estereótipo da imagem não sustenta nossa realidade. Nosso cotidiano é faina. Nosso tecer é teia delicada, muitas vezes, nas dobras do talvez. Ainda assim seguimos adiante, dominamos nossos medos, galgamos escarpas, construimos trilhas – passo a passo.

Somos de Vênus, sim. Mas também somos de Marte. Navegamos conforme a maré. Todavia,  sabemos nadar contra a corrente, contornar obstáculos, feito um rio que traça seu próprio curso. Temos mãos que afagam e pulso que sustenta.

Por que não podemos governar um país?

Minha geração levou duas décadas para poder votar para presidente da República. Vivenciamos  o obscurantismo da negação da nossa cidadania por 21 anos. Esta reles escriba faria 29 anos quando votou para governador pela primeira vez, em 1982. Fomos para as ruas na campanha das diretas, muitas de nós empurrando carrinhos de bebê ou com filhos no colo e/ou pelas mãos. Só conquistamos o direito de escolha cinco anos depois, em 1989.

A nova geração de mulheres brasileiras vive outro tempo, outra realidade. Quem tem hoje 17 anos, como minha caçula, pôde dar seu primeiro voto para uma mulher, no primeiro turno destas eleições. Melhor, pôde optar entre duas mulheres. Não duas mulheres quaisquer, porque mulheres existem de diferentes matizes. Mas duas mulheres forjadas na luta, na defesa dos direitos democráticos e da cidadania plena. Uma delas se tornou a mulher mais votada de todos os tempos no Brasil, quiçá do Planeta – por livre expressão da vontade popular.

Estamos a dois passos de decidir os destinos da Nação, numa segunda oportunidade de escolha. Um gesto, aparentemente, simples, mas de profundo impacto no futuro de várias gerações. Há dois projetos, bem distintos, em disputa. E ainda há muito o que fazer para o Brasil se tornar um país mais justo e igualitário, um país com oportunidades reais para todos seus filhos e filhas. Podemos avançar ou retroceder.

Nós decidimos.

Sobretudo, as mulheres decidem. Não fujamos de nossa responsabilidade. Antes, dela nos orgulhemos.

* Sulamita Esteliam é jornalista e escritora. Autora dos livros Estação Ferrugem, romance-reportagem que resgata a história da região operária de Belo Horizonte-Contagem, Vozes, 1998; Em Nome da Filha – A História de Mônica e Gercina, sobre violência contra mulher em Pernambuco; e o infantil Para que Serve Um Irmão, os dois últimos ainda inéditos. http://www.atalmineira.wordpress.com //[email protected]





15 comentários

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João Marco

31 de outubro de 2010 às 15h39

Essa foi uma luta que todos sairam derrotados.
Na época do meu avô, um homem era capaz de gerar riqueza o suficiente para sustentar um lar sozinho, hoje
homem e mulher precisam trabalhar para se ter uma condição razoavel. O trabalho aumentou para todos, a oferta
de empregos diminuiu por conta da força de trabalho feminino e com isso os salários abaixaram.
Enfim não sou tão retrogado ao ponto de achar que lugar de mulher é na cozinha e afins, mas acho ridiculo vocês encararem isso como vitória, quando na realidade foi a derrota de todos.
Viva a tripla jornada para todos, vocês conseguiram….

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Lenilson Avelino

31 de outubro de 2010 às 11h26

Trabalho rodeado por muitas desses lindas mulheres e sei o quanto são guerreiras, mulheres que não fogem da luta, que amam quando é para amar, choram quando é para chorar, dizem sim quando é para dizer sim … e que mesmo penduradas
em um "pau-de-arara ou presas uma camisa-de-força não se submetem a fazer o jogo dos tiranos … e mentem, apenas ,
quando a verdade colocar em risco a vida da sua cria ou ameaça a liberdade dos seus rebentos.

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Paulo

31 de outubro de 2010 às 09h55

Pois é, mas se dependesse do eleitorado feminino a Dilma teria muito menos votos do que terá. Segundo as pesquisas, a vantagem da Dilma é bem maior entre os homens do que entre as mulheres. Ironicamente, quem deve decidir a eleição a favor da Dilma é o voto masculino.

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Gerson Carneiro

31 de outubro de 2010 às 08h56

As mulheres decidem:

SERRA NÃO MAMÃE!

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maria izabel

29 de outubro de 2010 às 12h52

Lendo esse lindo artigo, me lembrei que ontem, em Uberlândia, o serroja incentivava a prostituição, descaradamente. Triste fim de um pobre homem. O que espero é que as mulheres da cidade respondam nas urnas a esse cafetão f.d.p. Afinal, como diz minha filha de 23 anos, eleitora da DILMA," melhor evitar a fadiga."

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Angélica

28 de outubro de 2010 às 17h15

Maravilha de texto, parabéns! Eu só sinto pelas mulheres descritas nessa bela crônica que ainda não desfrutam do direito de ter acesso a leitura, pq sei que muitas delas chorariam por se saberem lembradas e certamente ficariam feliz além de convocadas a serem mesmo a vontade que decide pq faz parte da maioria. Estou espalhando como sempre tudo que de bom leio aqui.

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Mércia Vasconcelos

28 de outubro de 2010 às 14h41

Sula querida,
Que belo texto.Saudade de nosso tempo no Diário do Comércio, em BH.
Você é uma guerreira, nunca foge da luta.
Tenho participado das atividades de campanha da Dilma. A mobilização está muito forte. No sábado, ela e Lula estarão aqui para o encerramento desta campanha que vai levar a primeira belo-horizontina à presidência da República.
Até a vitória.
Abraços e beijos a todos da família.
Mércia

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Liliane Lucena

28 de outubro de 2010 às 09h08

Excelente artigo. Bola pra frente minha gente. É DILMA LÀ!

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alexis

28 de outubro de 2010 às 06h41

É verdade!
Na pesquisa recente da CNT/SENSUS se observa que Dilma ganha por 25 pontos de Serra no voto masculino, mas, por apenas 6% no voto feminino.
Pré-conceito? Mulher não vota em mulher?
A campanha da Dilma deve-se focar no voto feminino e, simultaneamente, focar nos pontos fracos do Serra que evidenciam aspectos que as mulheres têm pavor: a sua falta de gentileza, o seu desdém com os pobres e nordestinos, a falta de caráter, as mentiras, fraco como marido (assunto aborto) e frangote, pelo episódio do papelzinho.

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    vinicius vitoi

    28 de outubro de 2010 às 11h31

    Alexis, na sociedade brasileira ainda há muitos mitos que precisam ser desmanchados. Há preconceitos que devem ser quebrados. Infelizmente, aqui no Brasil, ainda há muitos machões que submetem suas mulheres a um regime de terror doméstico.
    Tenho distribuido adesivos da Dilma toda tarde aqui em Brasília.
    Diversas mulheres me falaram que votam na Dilma, mas não podem pegar o adesivo porque o marido vai ficar bravo.
    Alexis, o problema não são as mulheres, mas os homens que as matêm em um regime de "escravidão doméstica moderna".
    Pense nisso!
    Tenho direcionado a minha militância diária para esse publico, ou seja, mulher, não importa de que classe social!!!

Fábio Venâncio

28 de outubro de 2010 às 04h56

Eu não tiro uma virgula do texto e ainda acrescento que nós homens ainda temos muito que apreender com as mulheres ,nós que já aprendemos muito com nossas mães e professoras .
Pena que nem todas as mulheres se deram conta do papel que elas exercem na sociedade de hoje no mundo todo ,e da importância que é para toda mulher que vive no Brasil a eleição de Dilma como a primeira mulher Presidente do Brasil.
Se todas tivessem essa consciência ,Dilma já teria sido eleita no primeiro turno.

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@marisps

27 de outubro de 2010 às 22h43

Sulamita é uma pessoa divina e maravilhosa! Esse texto não poderia ser mais oportuno! Dilma lá!

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Lourival RJ

27 de outubro de 2010 às 18h29

Sei que o que vou falar, posso até ser taxado de: Não sabe brincar, não brinca!
Mas não é fácil acordar, ligar aTV e ver Renato Machado, Fazendo caras e bocas ao noticiar aumento da violência, como se fosse novidade, não quero dizer nem, matéria política, para todos nós, Zé povinho.
O Fato é que ontem mesmo, na Band, programa do Amaury Jr. vi o funcionário/mídia PIG, Arnaldo Jabor propagandiando novo filme, resaltando o fato que, era um movie rilex, ao contrário de tudo que vinha sendo feito em Hollywood, pois lá, existe essa necessidade de fazer um filme sempre mais violênto que o anterior. É assim que o americano Pensa.
Então vem a Globo e joga na nossa cara todo dia, dezenas, centenas de cenas cada vez mais violentas, existem filmes que respinga sangue em nossas salas, quartos… e o que dizer do erotismo, (sem demagogia), cada vez mais cedo e presente na programação como todo.
Chegamos então a conclusão, onde o Jose Serrarojas fez essa Faculdade fantástica de mentir e rir de nós, como se nós, Zé povinho, (Lula e Dilma no meio), fossemos culpados, por tudo de ruim que acontece no País.
O onus é só nosso. O JABÁ milionário é da Rede Nojo.

Ainda me perguntam Porque voto na Dilma?

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blogdacoroa

27 de outubro de 2010 às 18h23

Avançam os blogs progressistas
http://blogdacoroa.wordpress.com/2010/10/27/avanc

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maria e. ferrarezi

27 de outubro de 2010 às 16h05

Ótimo o artigo de Sulamita.Hoje ,mullher é pau para toda obra.Só diferente no salário que é maior para os homens.Somos mulheres,esposas,mães,trabalhadoras e eleitoras.Vamos de Dilma 13

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