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Autoengano dos tucanos sobre “evolução natural” da economia


18/10/2014 - 19h39

dilma_fhc

Pai e filha?

Pedro Paulo Zahluth Bastos e Marcio Pochmann

17/10/2014 09:20

Retórica tucana e mito da evolução natural

do Brasil Debate

Samuel Pessôa, economista do PSDB, diz que retórica petista “descontextualiza” FHC e distorce informações para favorecer Lula e Dilma. Na verdade, é ele quem recorre a esses expedientes para favorecer seu partido, omitindo que a plataforma neoliberal do ex-presidente tucano prometia crescimento, mas baixou a renda per capita e manteve a desigualdade

O abuso da retórica da cientificidade como recurso de poder é comum entre neoliberais que travestem a opção política como julgamento neutro. O nível de autoengano, para dizer o mínimo, chegou a extremos em artigo recente de Samuel Pessôa (Folha, 12/10).

O físico-economista alude à genética de Bruna Marquezine para defender que progressos no bem-estar social dos brasileiros devem-se ou à “evolução natural” da sociedade ou a reformas de Fernando Henrique Cardoso que, no fundo, teriam semeado os avanços colhidos por Lula e Dilma. Pessôa alega que a retórica petista “descontextualiza” FHC e distorce informações para favorecer Lula e Dilma.

Na verdade, é Pessôa quem omite informações, recorre a truques de retórica e distorce a realidade visando ao melhor efeito político para o PSDB.

A principal omissão é que FHC executou a plataforma neoliberal de ampliar o papel do mercado e da competição para selecionar os melhores e punir preguiçosos, prometendo crescimento: privatização de estatais, desregulamentação do mercado de trabalho e liberalização comercial e financeira.

A promessa era falsa: a renda domiciliar per capita caiu entre 1995 e 2002, segundo dados do IBGE (Pnad), tendo aumentado mais de 50% a partir de 2003, com a recuperação do papel do Estado com Lula e Dilma. A melhoria de outros indicadores tampouco resultou da “evolução natural”, a saber:

1. Desigualdade (Gini): enquanto se manteve estável com FHC, caiu 10% com Lula e Dilma diante da valorização do salário mínimo, da defesa e formalização do emprego e ampliação do gasto social, que explicam a queda muito mais do que o avanço “natural” da educação e da demografia;

2. A propósito de progresso educacional, em 2001 FHC vetou o 1º Plano Nacional de Educação (PNE), que determinava investimentos de 7% do PIB até 2010, deixou o País sem meta de financiamento e concluiu mandato com 3,5% do PIB; em 2014, Dilma aplica 6,4% do PIB em educação e sanciona o 2º PNE com destino de 10% do PIB até 2024.

3. Sobre demografia, Pessôa alude a um conceito vago para explicar seu impacto na queda do desemprego: a “transição demográfica”. Talvez se refira à queda da natalidade e o envelhecimento da população, mas a verdade é que isso ainda não esgotou o bônus demográfico (maior proporção de pessoas em idade ativa), pois os adultos nascidos na vigência de taxas mais altas de crescimento populacional ainda não se aposentaram.

Ao contrário de reduzir o desemprego, isso o aumentaria caso a oferta de empregos não tivesse aumentado e, principalmente, se não houvesse intensa inserção de jovens à escola, atrasando sua entrada no mercado de trabalho!

De fato, Pessôa omite a significativa ampliação das transferências de renda condicionadas à matrícula escolar, além de bolsas e crédito subsidiado para ensino técnico e universitário e a criação de 18 novas universidades federais (contra zero com FHC) e 178 novos campi.

Com isso, as matrículas no ensino superior elevaram-se de 2 milhões (2002) para 7,5 milhões (2014), complementados por 8 milhões de alunos no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec): produto da evolução natural?

4. Pessôa alega que mais da metade do crescimento da dívida pública com FHC resultou da assunção de dívidas passadas não contabilizadas. Isso é pura invenção: a “assunção de dívidas” explica menos de 10% da dívida e foi compensada em dobro (!) pela venda de estatais e a elevação de impostos.

O que explode a dívida são juros altos e títulos indexados em dólar para evitar a crise da âncora cambial antes da reeleição de FHC em 1998.

No próprio estudo do IPEA citado por Pessôa, correção cambial e juros altos contribuem com mais do que 100% da multiplicação da dívida por cinco entre 1995 e 2002! A dívida só não se elevou mais por causa das privatizações e do superávit primário depois de 1998.

5. Três idas ao FMI: Pessôa cita artigo de M. Bolle que, à maneira de Goebbels, não chama as coisas pelo nome e alega que empréstimos do FMI não indicam que o Brasil “quebrou”, pois “facilitaram a empreitada” da inclusão social. Por que “quebrar” designaria o fato de não obter financiamento do FMI e decretar moratória, ao invés de precisar dele a ponto de, no desespero, realizar políticas que levaram o desemprego a 15% e prometer vender o Banco do Brasil, a Caixa e as demais empresas estatais ainda não privatizadas, inclusive a PetrobraX?

6. Sobre o desemprego, Pessôa incorre naquilo de que acusa o PT: o “truque retórico de escolher estatísticas e bases de comparação de forma oportunista”. Em 2011, ele escreveu que, “entre julho de 2003 e julho de 2011, a taxa de desemprego caiu mais de 50% (!), apresentando redução de 13% da população economicamente ativa para 6,2%”, citando dados de regiões metropolitanas captadas pela Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.

No domingo, usou a PNAD para afirmar que “se tomarmos como base de comparação 2002, último ano de FHC, o desemprego caiu 2,6 pontos percentuais (!), de 9,1% para 6,5%”, sem sequer discutir que a PNAD capta menos a “transição demográfica” que cita.

Ora, 50% ou 2,6%? É provável que a diferença no modo de calcular a redução do desemprego em 2011 e em 2014 se deva a oportunismo político e truque de retórica, não?

A piada sem graça não é que a retórica petista se aproprie da “evolução natural” de Bruna Marquezine, mas que seus críticos precisem se iludir quanto à rejeição da “herança natural” do neoliberalismo tucano por Lula e Dilma.

Pedro Paulo Zahluth Bastos é professor associado (Livre Docente) do Instituto de Economia da Unicamp e ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE); Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

Leia também:

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9 comentários

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FrancoAtirador

19 de outubro de 2014 às 20h23

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Piada Tucana do Dia

Ouvi agora, no programa da Campanha

do AérioNéco (PSDB/DEM/PTB), na Rádio:

Narrador do PSDB:

“Aécio Neves quando assumiu

o Governo de Minas Gerais

pegou um Estado Quebrado”
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AérioNéco só não disse que, antes dele,

o Governador de Minas foi Itamar Franco,

o mesmo que, em 1993, quando Presidente,

nomeou FHC (PSDB) Ministro da Fazenda.
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(http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_governadores_de_Minas_Gerais)

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Itamar_Franco#Na_presid.C3.AAncia_da_rep.C3.BAblica)
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Responder

vinícius

19 de outubro de 2014 às 18h06

Auto-engano é título de um livro do PseudoPhilósofo Eduardo Gianetti da Fonseca. O tal Gianetti deveria ler o próprio livro antes de ter embarcado na canoa furada que pegou há pouco tempo.

Tal qual o bocó-mor, o tal de príncipe dos sociólogos, economistas, sociólogos e historiadores de plumagem tucana precisam ser desconstruídos. Trata-se de pessoas falsas, mentirosas e ardilosas.

São todos do Instituto Millenium e estão destruindo o direito a informação de qualidade dos jovens brasileiros.

Militares fizeram o mesmo em décadas passadas. Mas hoje está muito pior. No período militar uma turma reagiu!!
Parece que hoje a turma acomodou!!!

Pelo bem do Brasil e da formação intelectual de nossos jovens, é preciso reagir com muita força contra a deformação de nossa juventude!

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    Mário SF Alves

    19 de outubro de 2014 às 19h03

    Estou de pleno acordo. Sou pai e sei o porque disso.

FrancoAtirador

19 de outubro de 2014 às 17h41

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Com essa ‘Tese da Evolução Natural da Economia’

O PSDB QUEBROU O BRASIL POR 3 VEZES EM 8 ANOS.
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Responder

Rafael F T

19 de outubro de 2014 às 16h03

O plano real é do governo Itamar Franco, aí alguns diriam que FHC era ministro da fazenda de Itamar e que seria o responsável pelo plano real. Então vem a pergunta, como o FHC seria o responsável pelo plano real se ele mesmo disse recentemente, em uma palestra, ser somente um sociólogo e não saber resolver uma equação de segundo grau?

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Urbano

19 de outubro de 2014 às 14h03

Desculpe-me, mas com tunganos não há enganos, mas firmes propósitos; exclusivamente na maldade, claro.

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Sidnei Brito

19 de outubro de 2014 às 02h16

A grande verdade é que o Plano Real foi salvo por Lula.
Em primeiro lugar, os tucanos se dizem pai, mas, em realidade, o plano é do governo Itamar Franco. Sei que os tucanos viriam com o papo do FHC ministro, mas é bom lembrar que, na ocasião do início do plano, o sociólogo já se afastara para poder concorrer a eleição, deixando a difícil tarefa, no momento mais complicado do plano, nas mãos de Rubens “parabólica” Ricupero.
De todo modo, no fim do primeiro mandato de FHC, o plano já tinha feito água, tanto que uma das primeiras medidas do segundo mandato foi justamente a desvalorização do real, quebrando o encanto da moeda forte que tinha sido responsável pela reeleição de FHC em 1998.
E, no final do segundo mandato, em 2002, aí é que a coisa tinha descambado mesmo, tanto que a inflação já tinha fugido radicalmente da meta, superando os dois dígitos, 12,53%, só voltando a ser domesticada e desde então mantida, ainda que aos trancos e barrancos, pelos governos do PT.
Fora disso, é tentativa de florear muito a história, coisa de tucanos.

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    evair da costa nunes

    19 de outubro de 2014 às 15h17

    Sidnei Brito, você está afiadíssimo na recuperação de nossa história recente, chegando a casa de dois dígitos, 12,53%, (vamos arredondar?)que tal 13%, essa precisão foi para ater-se à realidade factual, que os tucanalhas insistem em desmentir??????

FrancoAtirador

18 de outubro de 2014 às 21h29

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Pessôa

Com Assento

Tem Rabo:

Neoliberal

TucaNéco

Millenar

(http://naofo.de/1nka)
(http://naofo.de/1nkc)
.
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