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A fúria nas zonas industriais dos EUA


27/05/2010 - 13h33

24/05/2010 – 18:41

por Noam Chomsky, em Opera Mundi

Em 18 de fevereiro, Joe Stack, um engenheiro de computação de 53 anos de idade, suicidou-se chocando seu pequeno avião contra um edifício em Austin, Texas, destruindo um escritório do Serviço de Arrecadação Fiscal (IRS, na sua sigla em inglês), matando outra pessoa e ferindo várias mais no ato.

Stack deixou um manifesto contra o governo que explicava suas ações. A história começa quando ele era um adolescente que vivia na penúria em Harrisburg, Pensilvânia, próximo ao coração do que alguma vez foi um grande centro industrial.

Sua vizinha, uma octogenária que sobrevivia com alimento para gatos, era a viúva de um operário metalúrgico aposentado. Seu esposo trabalhara toda a sua vida nas fundições do centro da Pensilvânia, confiante nas promessas das grandes empresas e do sindicato de que, por seus 30 anos de serviço, teria uma pensão e assistência médica durante sua aposentadoria.

“Em vez disso, foi um dos milhares que não receberam nada porque a incompetente administração das fundições e o sindicato corrupto (para não mencionar o governo) incursionaram em seus fundos de pensões e roubaram sua aposentadoria. O único que ela tinha para viver era a seguridade social”.

Poderia haver acrescentado que os muito ricos e seus aliados políticos prosseguem tratando de acabar com a seguridade social.

Stack decidiu que não poderia confiar nas grandes empresas e que empreenderia seu próprio caminho, só para descobrir que tampouco poderia confiar num governo ao qual não lhe interessava as pessoas como ele, mas só os ricos e privilegiados; ou em um sistema legal no qual “há duas ‘interpretações’ de cada lei, uma para os muito ricos e outra para todos nós”.

O governo nos deixa com “a piada que chamamos de sistema de saúde estadunidense, incluídas as companhias farmacêuticas e de seguros (que) estão assassinando dezenas de milhares de pessoas ao ano”, pois racionam a assistência, em grande medida, com base na riqueza e não na necessidade.

Stack remonta a origem destes males a uma ordem social na qual “um punhado de rufiões e saqueadores podem cometer atrocidades impensáveis… e quando é a hora de que sua fonte de dinheiro fácil se esgote sob o peso de sua cobiça e de sua estupidez opressora, a força de todo o governo federal não tem dificuldade de acudir em sua ajuda em questão de dias, se não é de horas”.

O manifesto de Stack termina com duas frases evocadoras: “O credo comunista: de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade. O credo capitalista: que cada um dê segundo sua ingenuidade, que cada um receba segundo sua cobiça”.

Estudos comovedores das zonas industriais abandonadas dos Estados Unidos revelam uma indignação comparável entre os indivíduos que foram deslocados à medida que os programas corporativo-estatais fecham fábricas e destroem famílias e comunidades.

Uma aguda sensação de traição se percebe nas pessoas que aceditavam que haviam cumprido seu dever com a sociedade num pacto moral com as empresas e o governo, só para descobrirem que foram instrumentos do lucro e do poder.

Existem semelhanças assombrosas na China, a segunda maior economia do mundo, investigada pela especialista da UCLA Ching Kwan Lee.

Lee comparou a indignação e o desespero da classe operária nos descartados setores industriais dos Estados Unidos com o que ela chama de a zona industrial da China: o centro industrial socialista estatal no nordeste, agora abandonado pelo desenvolvimento da zona de rápido crescimento no sudeste.

Em ambas as regiões, Lee encontrou protestos laborais maciços, mas de diferentes características. Na zona industrial abandonada, os operários expressam a mesma sensação de traição que suas contrapartes nos EUA; em seu caso, a traição dos princípios maoístas de solidariedade e dedicação ao desenvolvimento da sociedade que eles consideravam um pacto social, só para descobrir que, fosse o que fosse, agora é uma amarga fraude.

Em todo o país, vintenas de milhões de milhões de trabalhadores separados de suas unidades de trabalho “estão embargados por uma profunda sensação de insegurança” que engendra “fúria e desespero”, escreve Lee.

O trabalho de Lee e estudos da zona industrial abandonada dos Estados Unidos deixam claro que não deveríamos subestimar a profundidade da indignação moral que radica por trás da amargura furiosa, a miúdo autodestrutiva, em relação ao governo e ao poder empresarial.

Nos Estados Unidos, o movimento populista chamado Tea Party – e mais ainda nos círculos mais amplos a que chega – reflete o espírito da desilusão. O extremismo antifiscal do Tea Party não é tão imediatamente suicida como o protesto de Joe Stack, mas não obstante é suicida.

Atualmente, a Califórnia é um exemplo dramático. O maior sistema público de educação superior do mundo está sendo desmantelado.

O governador Arnold Schwarzenegger diz que terá que eliminar os programas estatais de saúde e de assistência social, a menos que o governo federal aporte uns 7.000 milhões de dólares. Outros governadores estão se unindo a ele.

Enquanto isso, um poderoso movimento recente pelos direitos dos estados está demandando que o governo federal não se meta em nossos assuntos, um bom exemplo do que Orwell chamou “duplo pensar”: a capacidade de ter em mente duas ideias contraditórias quando se acredita em ambas, praticamente um lema de nossos tempos.

A situação da Califórnia é o resultado, em grande parte, de um fanatismo antifiscal. É muito similar em outras partes, inclusive em subúrbios ricos.

Alentar o sentimento antifiscal tem caracterizado a propaganda empresarial. As pessoas devem ser doutrinadas para odiar e temer o governo por boas razões: dos sistemas de poder existentes, o governo é o único que, a princípio e ocasionalmente de fato, responde ao público e pode restringir as depredações do poder privado.

Entretanto, a propaganda antigovernamental deve ser matizada. As empresas, por suposto, favorecem um Estado poderoso que trabalhe para as instituições multinacionais e financeiras, e inclusive as resgate quando destroem a economia.

Mas, num exercício brilhante de duplo pensamento, as pessoas são levadas a odiar e temer o déficit. Dessa forma, os sócios das empresas em Washington poderiam acordar a redução de benefícios sociais e direitos como a seguridade social (mas não os resgates).

Ao mesmo tempo, as pessoas não deveriam opor-se ao que, em grande medida, está criando o déficit: o crescente orçamento militar e o sistema de assistência médica privatizado completamente ineficiente.

É fácil ridiculizar como Joe Stack e outros como ele expressam suas inquietações, mas é muito mais apropriado compreender o que está por trás de suas percepções e ações numa época em que as pessoas com verdadeiros motivos de queixa estão sendo mobilizadas em formas que representam um grande perigo para elas mesmas e para os outros.

*Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge, Massachusetts.



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16 comentários

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Hélio Jacinto

30 de maio de 2010 às 16h44

Desde que a constituição norte Americana foi promulgada, que a opção do Povo Americano ficou restrita a escolher entre os Democratas ou Republicanos. É o mesmo que optar entre seis ou meia duzia, os dois Partidos representam o Capitalismo Selvagem que ve nos Estados Unidos o Centro do Universo.
O pior quem discordar deste modelo "Democratico", sempre é visto como Traidor da Patria.
A tendência sera cada vez mais Americanos sufocados por este modelo Neoliberal, partirem para atos extremos.

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Urbano

28 de maio de 2010 às 12h28

O mundo encurtou de uma maneira, que hoje sabemos perfeitamente que os Estados Unidos nunca foram o 'nirvana' e, pior, nunca será.

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CIRO

27 de maio de 2010 às 22h40

NOAM CHOSKY, COMO SEMPRE, BRILHANTEMENTE, MOSTRA A REALIDADE EM SUA VERDADEIRA FACE. JÁ PENSOU SE AS PESSOAS EM GERAL TIVESSEM ACESSO ÀS OBRAS DE NOAM CHOMSKY. É, MAS O SISTEMA NÃO É TOLO, ALIÁS É MUITO PÉRFIDO, MAL. ELE ATRAVÉS DE SUAS MÍDIA OFERTA E PROPAGANDEIAO TRIVIAL E ESCONDE O ESSENCIAL QUE LHE PODE SER AMEAÇADOR.

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    clemes

    28 de maio de 2010 às 02h05

    Ciro, por favor, letras minúsculas nos próximos comentários; é uma das normas do Viomundo para aprovação. Abs

Leandro

27 de maio de 2010 às 20h45

Fiquei muito feliz… enfim, americanos sofrendo!!!!

E espero que seja só o começo…

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    Emilio GF

    28 de maio de 2010 às 00h20

    Sofrem a muito tempo. Hoje, 1 em cada 7 estadunidenses vive abaixo da linha de pobreza.

    Certa vez, numa viajem à Europa, perguntaram ao rei da Etiópia, Haile Selassie, o que mais o impressionou na viagem. Resposta: – "A quantidade de pobres nos países ricos".

    Não acreditem em filmes ou folhetos de viajem.

francisco.latorre

27 de maio de 2010 às 20h30

usamerika.

vai de fascismo.

melhor se preparar.

..

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    Werner_Piana

    28 de maio de 2010 às 21h50

    latorre, o risco é grande. Se acontecer, poderemos enfiar nossa 'viola no saco' e esquecer, pois virá chumbo grosso pro nosso lado, será o fim dos nossos sonhos do Brasil Esplêndido… eles não nos 'permitirão'.

    Será guerra, guerra, guerra. Deus nos acuda!

    francisco.latorre

    30 de maio de 2010 às 13h27

    vamos de diplomacia.

    alianças com o mundo.

    ..

Hans Bintje

27 de maio de 2010 às 18h16

Eu me lembrei do eufemismo que os antigos usavam para as Fúrias, "Eumênides, que em grego significa as bondosas ou as benevolentes, eufemismo usado para evitar pronunciar o seu verdadeiro nome, por medo de atrair sobre si a sua cólera. (…)

As Erínias (Fúrias para os romanos) eram personificações da vingança, semelhantes a Nêmesis. Enquanto Nemesis punia os deuses, as Erínias puniam os mortais. Eram Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Implacável). (…)

As Erínias são divindades presentes desde as origens do mundo, e apesar de terem poder sobre os deuses, não estando submetidas à autoridade de Zeus, vivem às margens do Olimpo, graças à rejeição natural que os deuses sentem por elas (e é com pesar que as toleram, pois devem fazê-lo).

Por outro lado, os homens têm-lhe pânico, e fogem delas. Esta marginalidade e a sua necessidade de reconhecimento são o que, segundo conta Ésquilo, as Erínias acabam aceitando o veredito de Atena, passando mesmo por cima da sua inesgotável sede de vingança.

Eram forças primitivas da natureza que atuavam como vingadoras do crime, reclamando com insistência o sangue parental derramado, só se satisfazendo com a morte violenta do homicida.

Porém, posto que o castigo final dos crimes é um poder que não corresponde aos homens (por mais horríveis que sejam), estas três irmãs se encarregavam do castigo dos criminosos, perseguindo-os incansavelmente até mesmo no mundo dos mortos, pois seu campo de ação não tem limites. As Erínias são convocadas pela maldição lançada por alguém que clama vingança. São deusas justas, porém implacáveis, e não se deixam abrandar por sacrifícios nem suplícios de nenhum tipo. Não levam em conta atenuantes e castigam toda ofensa contra a sociedade e a natureza, como por exemplo, o perjúrio, a violação dos rituais de hospitalidade e, sobretudo, os assassinatos e crimes contra a família.

As Erínias são representadas normalmente como mulheres aladas de aspecto terrível, com olhos que escorrem sangue no lugar de lágrimas e madeixas trançadas de serpentes, estando muitas vezes acompanhadas por muitos destes animais. Aparecem sempre empunhando chicotes e tochas acesas, correndo atrás dos infratores dos preceitos morais."

Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Er%C3%ADnias

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monge scéptico

27 de maio de 2010 às 18h13

O noticiário que vem da USA por quem viaja pel interior e meandros ianques, são inquietantes, pois muitos
de nós e, não sou o único pensavamos que não poderia haver casos como esse, que na verdade, é uma ocorrência comum.
Que coisa não?

Responder

Paulo

27 de maio de 2010 às 16h28

Azenha,

Lembrei das propagadas patrocinadas pelo Instituto Millenium contra a alta taxa de impostos, contra qualquer beneficios social, contra as cotas. Essa elite é mais que suga o governo quando está em dificuldades. Temos sim uma responsabilidade social, principalmente com os mais pobres e por morar em um país com desigualdades sociais enormes.
Os que ganham mais, sim, tem que pagar mais impostos.

Responder

    Bonifa

    27 de maio de 2010 às 20h13

    Precisamos garantir ao país de que nunca mais ele ficará à mercê da destruição neoliberal, destruição sobretudo de valores humanos eternos, como a solidariedade e a compaixão.

    dukrai

    27 de maio de 2010 às 20h29

    Pensei a mesma coisa, e eu, se fosse vc arranjava outro nick, tem um Paulo que anda por aqui que é um estrupício planetário.

O índio

27 de maio de 2010 às 15h18

É o mesmo artigo publicado noutros blogs, sob o título de "Reacender a imaginação radical", o mesmo da conferência.

Está por exemplo emhttp://www.vermelho.org.br/blogs/outroladodanotic

Aliás, a tradução de "O outro lado da notícia", que eu li antes, é muito melhor do que essa, do Pravda, colada aqui.
Discordo também da ideia de que haveria alguma "fúria de trabalhadores". Há fúria, sim. Mas Chomsky não dá a entender que seria fúria de trabalhadores, que se imagina que reivindique melhores salários, emprego, condições de trabalho.

Essa fúria aí, é só fúria sem ponto (político) de apoio. Mais facilmente gera movimentos fascistas, como os "Cansados" da Daslu, os de "impostômetros" da Fiesp, as Tea Party dos Republicanos racistas nos EUA.

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Tweets that mention Chomsky: A fúria dos trabalhadores nas zonas industriais dos EUA | Viomundo - O que você não vê na mídia -- Topsy.com

27 de maio de 2010 às 14h27

[…] This post was mentioned on Twitter by Alessandra Carvalho, Pedro Penido and Marquinho, Sibele Fausto. Sibele Fausto said: RT @alesscar Noam Chomsky: A fúria dos trabalhadores nas zonas industriais dos EUA http://bit.ly/cHl1GE […]

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