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Miguel Urbano Rodrigues: O que a mídia esconde sobre a Líbia


06/03/2011 - 15h37

28.Fev.11

por Miguel Urbano Rodrigues*, em ODiário.info

Transcorridas duas semanas das primeiras manifestações em Benghazi e Tripoli, a campanha de desinformação sobre a Líbia semeia a confusão no mundo.

Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egipto são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despoletar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder.

Muamar Kadhafi, ao contrário de Ben Ali e de Hosni Mubarak, assumiu uma posição anti-imperialista quando tomou o poder em 1969. Aboliu uma monarquia fantoche e praticou durante décadas uma politica de independência iniciada com a nacionalização do petróleo. As suas excentricidades e o fanatismo religioso não impediram uma estratégia que promoveu o desenvolvimento econômico e reduziu desigualdades sociais chocantes. A Líbia aliou-se a países e movimentos que combatiam o imperialismo e o sionismo. Kadhafi fundou universidades e indústrias, uma agricultura florescente surgiu das areias do deserto, centenas de milhares de cidadãos tiveram pela primeira vez direito a alojamentos dignos.

O bombardeamento de Tripoli e Benghazi em l986 pela USAF demonstrou que Regan, na Casa Branca, identificava no líder líbio um inimigo a abater. Ao país foram aplicadas sanções pesadas.

A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia.

Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento de se livrar de Kadhafi, um líder sempre incômodo.

As rebeliões da Tunísia e do Egipto, os protestos no Bahrein e no Iêmen criaram condições muito favoráveis às primeiras manifestações na Líbia.

Não foi por acaso que Benghasi surgiu como o pólo da rebelião. É na Cirenaica que operam as principais transnacionais petrolíferas; ali se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos.

A brutal repressão desencadeada por Kadhafi após os primeiros protestos populares contribuiu para que estes se ampliassem, sobretudo em Benghazi. Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA. É esclarecedor que naquela cidade tenham surgido rapidamente nas ruas a antiga bandeira da monarquia e retratos do falecido rei Idris, o chefe tribal Senussi coroado pela Inglaterra após a expulsão dos italianos. Apareceu até um «príncipe» Senussi a dar entrevistas.

A solidariedade da grande mídia  dos EUA e da União Europeia com a rebelião do povo da Líbia é, porém, obviamente hipócrita. O Wall Street Journal, porta-voz da grande finança mundial, não hesitou em sugerir em editorial (23 de Fevereiro) que os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi.»

Obama, na expectativa, manteve silêncio sobre a Líbia durante seis dias; no sétimo condenou a violência, pediu sanções. Seguiu-se a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e o esperado pacote de sanções.

Alguns dirigentes progressistas latino-americanos admitiram como iminente uma intervenção militar da OTAN. Tal iniciativa, perigosa e estúpida , produziria efeito negativo no mundo árabe, reforçando o sentimento anti-imperialista latente nas massas. E seria militarmente desnecessária porque o regime líbio aparentemente agoniza.

Kadhafi, ao promover uma repressão violenta, recorrendo inclusive a mercenários tchadianos (estrangeiros que nem sequer falam árabe), contribuiu para ampliar a campanha da grande mídia internacional que projeta como heróis os organizadores da rebelião enquanto ele é apresentado como um assassino e um paranóico.

Os últimos discursos do líder líbio, irresponsáveis e agressivos, foram aliás habilmente utilizados pela mídia para  desacreditar e estimular a renúncia de ministros e diplomatas, distanciando Kadhafi cada vez mais do povo que durante décadas o respeitou e admirou.

Nestes dias é imprevisível o amanhã da Líbia, o terceiro produtor de petróleo da África, um país cujas riquezas são já amplamente controladas pelo imperialismo.

Vila Nova de Gaia, 28 de Fevereiro

* Miguel Urbano Rodrigues é jornalista e um dos editores do ODiario.info, de Portugal.





28 comentários

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antonio

28 de junho de 2011 às 19h10

se não houvesse petróleo não haveria intervenção,nem dos estados unidos da guerra,nem da Europa chamada democrática,esta guerra e todas as outras são dos exploradores contra os explorados.a propósito
os estados unidos na verdade é um pais ilegal aquelas terras pertencem de facto aos indios americanos.

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Porque parte da esquerda se ilude com Gaddafi

20 de março de 2011 às 08h16

[…] recepção na blogosfera de um artigo do respeitado militante comunista português Miguel Urbano Rodrigues, sintoma da dubiedade com que a Revolução na Líbia tem sido acompanhada por setores da esquerda, […]

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Líbia: Valter Pomar responde às provocações de Ricardo Musse | Viomundo - O que você não vê na mídia

12 de março de 2011 às 14h20

[…] O jornalista português Miguel Urbano Rodrigues, editor do ODiario, publicou o artigo O que a mídia esconde sobre a Líbia. […]

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Fernando resende

09 de março de 2011 às 05h20

Sinceramente, as pessoas nesses paises, e nos outros tambem , nao estao nem ai pra esquerda , direita ,ideologia , Cia , etc… . Querem tirar do poder esses tiranos que se beneficiam por decadas e estao se lixando para o povo

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jucemir

07 de março de 2011 às 16h40

“Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA.”
Sabe-se mesmo?

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    luiz pinheiro

    07 de março de 2011 às 17h04

    Sim, sabe-se. O papel da Frente Nacional para a Salvação da Líbia é público e notório. O que muita gente não sabe, e o jornalista portugues Miguel Urbano Rodrigues afirma, é que essa Frente é financiada pela CIA.

    Kleber Barbosa

    08 de março de 2011 às 09h32

    Claro, claro… Assim como Lula e os sindicalistas que fundaram o PT, e que combatiam a ditadura brasileira, também eram "financiados pela CIA".

    Pelo menos é o que diziam os "comunistas" stalinistas (da mesma linha ideológica do sr. Miguel Urbano Rodrigues), nos idos de 1980. O "crime" de Lula era não se filiar ao "glorioso" PCB nem ao PCdoB.

    Bonifa

    09 de março de 2011 às 05h09

    Quando um homem como Miguel Urbano, comunista europeu, afirma isso, é quase impossível que não seja verdade.

Joaquim Aragao

07 de março de 2011 às 12h15

Nos paises vitimas do imperialismo, duas lutas se relacionam de uma forma contraditória: a luta pela democracia e a luta contra o imperialismo. Há momentos, onde essas duas lutas sao levadas por um mesmo movimento popular, democrático e anti-imperialista. Mas também há momentos, onde a luta anti-imperialista e nacional é apropriada por déspotas (que também se apoderam do fanatismo religioso), sobretudo quando caem em desgraca das forcas do imperialismo. Muitas vezes, esses ditadores terao sido colocados e/ou apoiados pelo próprio imperialismo (e chamados de "presidentes", "reis", "Imperadores"), mas algum conflito pode mudar esse apoio. Aí, os tiranetes se apoderam da luta anti-imperialista, o que faz o imperialismo dar uma de "pró-democrata" (e designá-los de ditadores, claro). Só que quando derrotam o ditador, impoem um "democrata" de fachada, geralmente corrupto e manipulador do processo eleitoral (diante quem os exportadores dos valores democráticos se calam), e altamente vende-pátria: afinal, a custosa operacao militar tem de se pagar, e os povos "salvos da tirania" tem de entregar suas riquezas ao salvador…Decididamente, a situacao mais perigosa é quando a luta democrática se une à anti-imperialista. Aí, o imperialismo fica sem discurso, tenta comprar os vencedores ou, nao conseguindo, transformá-los em um novo "ditador": através de diversos boicotes velados ou mesmo abertos, visam encurralar o novo sistema, detestado (muitas vezes, apoiando uma oposicao vendepátria), e provocar uma atitude defensiva, necessariamente mais autoritária do sistema. Finalmente conseguem impor seu discurso pseudo-democrático e a favor dos "direitos humanos". E assim la nave va…

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Rui Martins

07 de março de 2011 às 11h45

Um texto sobre o mesmo tema no Direto da Redação – http://www.diretodaredacao.com/noticia/o-mundo-va
abrs. Rui Martins

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Mário

07 de março de 2011 às 10h21

Finalmente um artigo que esclarece a questão da Líbia. O que ocorre na Líbia é um rearranjo de forças imperialistas. Com a queda da ditadura de Mubarak, os EEUU não perderiam a oportunidade de derrubar Kadafi.
Viva a liberdade de imprensa da grande mídia!
Viva a liberdade de auto-engano daqueles que continuam a acreditar na grande mídia!
Viva o imperialismo, que tão bem faz à economia ao movimentar sua máquina de guerra!

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Antonio Alves

07 de março de 2011 às 03h11

Se fosse a Líbia o país em que as mulheres sofressem tantas restrições como ocorre na Arábia Saudita, certamente os DONOS da mídia, voz dos interesses imperialistas, ressaltariam tal condição.
A mídia não fala em DITADURA na Arábia Saudita, muito menos em ditador, prefere falar em uma "dinastia" que há 200 anos governa o país.
Está claro que a mídia mundial e os Estados Unidos não têm por princípio lutar contra as DITADURAS mas sim lutar contra governos INDEPENDENTES, pois, estes, em algum momento vão contrariar os interesses do império.
A eminente SUBMISSÃO da Líbia aos interesses dos países europeus e Estados Unidos, será sem dúvida um RETROCESSO no período pós-Kadhafi.

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luiz pinheiro

07 de março de 2011 às 02h08

As forças democraticas do mundo precisam opor-se à intervenção imperialista na Líbia sem contudo se aliar a Kadhafi. Como fazê-lo?

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Luiz

07 de março de 2011 às 01h15

Miguel, bombardear a própria gente é um crime. Foi isso, e não os "discursos", o que preciptou a situação. E mantendo-se no poder durante décadas, Kadafi igualou-se ao Mubarak. Não há justificativa para esse regime.

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    luiz pinheiro

    07 de março de 2011 às 16h59

    Bombardear GENTE é crime, mesmo se não for a PRÓPRIA.

    Bonifa

    09 de março de 2011 às 05h15

    Kadafi bombardeou a própria gente? Tem certeza? Os russos estão dizendo que não, não bombardeou.

SILOÉ

06 de março de 2011 às 22h56

Quando Kadhafi permitiu que a Líbia se tornasse "colônia"dos EUA , abriu espaço para ser manipulado e corrompido: Agora é tarde, vai dançar.
Além de ter outros substitutos mais baratos, ainda ficam bem na fita, com a pseudo ajuda ao povo.

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Marcio Josué

06 de março de 2011 às 21h53

Esse artigo é uma piada de mal gosto. Dizer que as manifestações começaram por ação da CIA é coisa típica de velhas viúvas do Muro esclerosadas…

Se os rebeldes líbios são manipulados pela CIA, então o Sr. Urbano explique porque razão hoje, domingo, os rebeldes fizeram questão de deter soldados britânicos das forças especiais (SAS) que entraram em território líbio de helicóptero. Os rebeldes fizeram questão de deter os invasores imperialistas, que foram prontamente deportados.

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    Jair de Souza

    07 de março de 2011 às 19h43

    Sugiro que você leia o artigo desta postagem. Você deve estar falando sobre algum outro artigo e não sobre o atual de Miguel Urbano Rodrigues.

vander

06 de março de 2011 às 19h06

Do blog do Nassif,

MDL: Como analisa a situação na Líbia?
Tarq Ali: As raízes dos levantamentos na Líbia não são diferentes dos que explicam os acontecimentos na Tunísia ou no Egipto.Mouamar Kadhafi dirigiu o país com mão de ferro. Se por vezes recorreu a uma retórica anti-imperialista num passado longínquo, ele colaborou directamente, nas últimas décadas, com a Euro-América. O ideólogo de Tony Blair, Anthony Giddens, fez elogios ditirâmbicos ao Guia. O estilo de vida deste último e as suas políticas excêntricas tornaram-no inapto para modernizar o seu país. Apesar dos quarenta anos que passou no poder, os líbios têm um nível de educação muito pior que os tunisinos e o sistema de saúde do país é muito deficiente.O balanço de Kadhafi é um Estado de partido único degenerado, as prisões e a utilização da tortura. E tudo isto para manter a sua família no poder. A sua decisão de recorrer ao exército e à aviação para reprimir o seu próprio povo levou à libertação de Benghazi e provocou uma dissidência na instituição militar. Os soldados que recusaram abrir fogo sobre o povo foram executados pelos esquadrões da morte do ditador, como pudemos ver na Al-Jazeera. Fazer querer que este regime é progressista é uma vergonha. Com um país dilacerado e um exército dividido, os dias de Kadhafi estão contados.

Entrevista publicada em Mémoires des luttes , traduzida por Carlos Santos para esquerda.net, reproduzida pelo blog do Nassif

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João

06 de março de 2011 às 17h37

A hipocrisia dos EUA é de dar nojo.
O que falam sobre o Bahrein? E sobre a Arábia Saudita?
Não nos esqueçamos que foram os EUA que colocaram Sadam Hussein no poder no Iraque, para se contrapor ao Irã dos Aiatolás.
Democracia??? Os EUA devem, primeiro, acabar com Guantánamo, sair do Iraque, parar de financiar o ditador do Afeganistão. Depois podem vir falar em democracia ao mundo.

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    Marat

    06 de março de 2011 às 18h33

    É João, os EEUU são a terra onde a hipocrisia se consumou, de maneira indelével!!! Mas eles serão destruídos pela sua própria estupidez e ignorância!

Gustavo Pamplona

06 de março de 2011 às 16h16

"Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egipto são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despoletar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder."

Nada como a bela sintaxe do português de Portugal…

– Egipto (com o 'p' já depreciado pela reforma ortográfica assinada pela CPLP)
– despoletar (um brasileiro usaria de outro verbo como "desencadear")
– conspirativa (idem acima… um brasileiro escreveria conspiradora)

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    Francisco Hugo

    06 de março de 2011 às 18h43

    Oh, gajo!!!
    Sintaxe??????!!!!!!

    Gustavo Pamplona

    06 de março de 2011 às 20h07

    sintaxe (ss)
    (grego súntaksis, -eós, ordenação, disposição, arranjo)
    s. f.
    1. Ling. Parte da linguística que se dedica ao estudo das regras e dos princípios que regem a organização dos constituintes das frases.
    2. Inform. Conjunto de regras que regem a escrita de uma linguagem de programação.

    Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=sint

    Como os constituintes das frases são as palavras levo a crer que "sintaxe" também se aplica as palavras ou deveria eu ter falado de "semântica"?

    semântica
    (francês sémantique)
    s. f.
    1. Ling. Ramo da linguística que estuda o significado das palavras.
    2. Lóg. Estudo das relações entre os signos e os seus referentes.

    Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=sem%

O_Brasileiro

06 de março de 2011 às 16h14

Muitos ditadores no início são vistos como "revolucionários", "salvadores da pátria".
Com o tempo, se tornam incapazes de transferir o poder aos seus pares, e então mostram seu lado egoísta e cruel!

Responder

Pedro1

06 de março de 2011 às 16h07

Kadhafi se perdeu. Ele já foi grande, mas o poder o viciou, ele virou um líder estranho com hábitos no mínimo curiosos. Mas uma intervenção da OTAN só vai criar outro Iraque.

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Ricardo Musse: Por que a velha esquerda se ilude com Kadhafi | Viomundo - O que você não vê na mídia

06 de março de 2011 às 15h50

[…] recepção na blogosfera de um artigo do respeitado militante comunista português Miguel Urbano Rodrigues, sintoma da dubiedade com que a Revolução na Líbia tem sido acompanhada por setores da esquerda, […]

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