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Maria Izabel Noronha: Atualização dos professores tem de ser no local de trabalho


04/08/2012 - 22h15

por Maria Izabel Azevedo Noronha

A avaliação dos professores da educação básica tem sido a “fórmula” apregoada por muitas autoridades educacionais, gestores e “especialistas” em educação como a solução para os problemas da qualidade do ensino na escola pública.

Para essas pessoas, aparentemente, o professor é o centro do processo educativo apenas quando se trata de imputar a ele as deficiências do processo ensino-aprendizagem, mas não quando se trata de valorizá-lo, não apenas do ponto de vista salarial, mas também com políticas que lhe assegurem condições de trabalho e uma carreira atraente e digna.

Aqueles que vem implementando essas políticas educacionais centram suas preocupação em avaliar os conhecimentos dos professores, mas não oferecem a esses professores os meios para se manterem atualizados ou programas que lhes permitam aprimorar seus conhecimentos. Em geral, com raras exceções, os programas de formação se resumem a alguns cursos e atividades isoladas, realizadas fora de horário normal dos professores e com vagas limitadas.

No Estado de São Paulo, a “prova de mérito”, para promoção na carreira, e aquela aplicada aos professores temporários prejudicam aqueles professores e professoras que ministram aulas para mais classes e maior número de alunos, que necessitam ministrar aulas em mais de uma unidade escolar e que têm jornadas de trabalho mais longas, dispondo de menos tempo para preparar-se para tais testes. Mas é a própria concepção de avaliação baseada em testes deste tipo que está em questão, porque testes de conhecimentos não são capazes de captar as diversas dimensões do trabalho do professor, sua experiência, seu compromisso com a escola pública e com a qualidade do ensino.

Na realidade uma das grandes lacunas da educação básica está na formação dos professores. Muitos “especialistas”, vinculados a universidades, criticam a qualidade dos professores, mas se “esquecem” de que estes professores são formados pelas universidades. Longe, porém, de pretender fragmentar as lutas no que diz respeito às universidades e à educação básica, quero discutir como podemos preencher essa lacuna.

É preciso que as autoridades educacionais adotem uma atitude corajosa no que se refere à formação de professores, formulando programas de formação continuada no próprio local de trabalho, por meio de convênios entre as escolas públicas de educação básica e as universidades públicas. Desta forma, não apenas as universidades estarão trazendo para o interior das escolas as teorias pedagógicas, aplicando-as à realidade concreta, como também a realidade das nossas escolas e a contribuição dos professores poderá interferir de maneira positiva na formação inicial dos docentes.

Um programa como este, porém, só é possível de ser executado na forma e nas dimensões necessárias caso seja aplicada a composição da jornada de trabalho docente determinada pela lei do piso salarial profissional nacional (lei federal 11.738/2008), a qual destina, no mínimo, 1/3 da jornada para atividades extraclasses. Entre as atividades extraclasses está, justamente, o horário de trabalho pedagógico coletivo, espaço privilegiado para a formação dos professores no seu próprio local de trabalho. Não querer implementar políticas que viabilizem a formação continuada no local de trabalho escamoteia a vontade de não aplicar a lei do piso salarial profissional nacional.

Desta forma, estaremos oferecendo a todos os professores as mesmas condições para a continuidade de sua formação profissional, acabando com uma situação na qual uma parcela dos docentes, por contingências de sua situação pessoal, dispõem de mais condições para se manterem atualizados e melhor preparados inclusive para processos avaliatórios que prejudicam a ampla maioria.

É desta forma, agindo positivamente e não pela via da punição e da exclusão, investindo na formação e na valorização dos profissionais da educação, que vamos melhorar cada vez mais a qualidade da escola pública.

Este é o debate que pretendo levar ao conjunto das entidades que compõem o Conselho Nacional de Entidades da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), para que a nossa luta pela implantação da jornada do piso e pela ampliação dos programas de formação continuada no local de trabalho, que são faces da mesma moeda, ganhem mais fôlego em todo o território nacional.

Maria Izabel Azevedo Noronha é presidenta da APEOESP, vice-presidenta da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação e membro do Fórum Nacional de Educação.

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14 comentários

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mfs

05 de agosto de 2012 às 22h47

Quando converso com qualquer professor, há verdadeira unanimidade em constatar o enorme abismo entre o que se aprende na faculdade e o que realmente é necessário saber para dar aula. O descompasso entre a teorização cinza e a verde árvore da vivência diária na sala de aula. Aquilo é óbvio: os professores universitários criticam os professores pelo que eles aprenderam com esses mesmos professores pouco tempo antes…

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Carlos de Morais

05 de agosto de 2012 às 22h22

Parece que a autora do artigo descobriu a roda! Concordo com Elizene e Josapha. Nos antigos Grupos Escolares, onde reinava o ensino primário, a atualização do professor era rotina. Só para lembrar um detalhe: havia uma especie de estagio, no qual, professores recem formados, denominados substituos efetivos,aprenciam a ensinar ou aperfeiçoavam seus conhecimenos hauridos nas Escolas Normais, da época, na prática da sala de aula, no convivio com professoras mais experientes. Naturalmente, isto deve ser invenção de um professor aposentado que viveu aquele momento intensamente! Mas para quem não perdeu o bonde da história da educação paulista poderá mostrar à autora do artigo que ela não inventou aroda. Simplesmente, repete coisas vividas, mas esquecidas e ignoradas…

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Abdula Aziz

05 de agosto de 2012 às 14h00

Só que há um equivoco ai. Prova de mérito é somente para os professores efetivos da rede e que prestam a tal da prova e aqueles que passarem podem receber até 20% sobre o salário base. Detalhe! O governo paga somente aos 20% inscritos e se tiver verba em caixa para pagar. Isso não passa de um engodo e demagogia desse partido que ai está há 20 anos e povo insiste em não querer mudar. Agora aguenta…

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Elizene Lima

05 de agosto de 2012 às 01h19

Excelente tema para debater junto à CNTE. Como educadora, sempre defendi que a formaçaõ continuada de professores, fosse feito na própria escola e nas duas escolas em que estive conseguimos. Há precedentes e os resultados foram excelentes. Os próprios colegas de escola podem fazer essa ponte com as Universidades. Fiz isso com certificaçaõ para quem pode participar. Mas é uma luta. A centralização é grande, o controle da formação ainda é descabido. Mas com orientação e regulamentação, essa é a melhor opção.

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josaphat

04 de agosto de 2012 às 22h34

Formação é importante. Mas um dos problemas é que os profissionais que ministram cursos de formação (em geral professores pesquisadores) não têm experiência em ensino básico e desconhecem a realidade das escolas.
Mais das vezes são aulas chatíssimas…

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    Eduardo

    05 de agosto de 2012 às 06h40

    Em Minas Gerais, a avaliação de desempenho é o instrumento meritocrata aplicado pelo desgoverno estadual para punir os professores. É bom dizer que o atual desgovernador assinou um TAG (Termo de Ajustamento de Gestão) com o tucanóide TCE garantindo através deste documento a aplicação de menos recursos em educação até 2014, ferindo de morte a Carta Magna. Além disso, os docentes mineiros não recebem o Piso Nacional e foram “contemplados” com um ridículo subsídio (pagamento em parcela única) que congelou a carreira até o distante ano de 2016.
    Em tempo: em 2003, primeiro ano do desgoverno Aécio Neves, mentor político do atual desgovernador mineiro, os gastos com educação não chegaram a 12% do orçamento estadual. A Constituição federal exige 25%. É mole????


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