VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Você escreve

Marcio Pochmann: Clássico brasileiro é Vaco vs. Fama


22/08/2011 - 09h35

21 de Agosto de 2011 – 9h38

Marcio Pochmann*: A encruzilhada brasileira

na Folha de S. Paulo, reproduzido pelo Vermelho

O processo democrático das três últimas eleições nacionais conformou uma nova maioria política comprometida com a sustentação do atual ciclo de expansão econômica. A antiga maioria política, constituída pela Revolução de 30, e que por cinco décadas conduziu o projeto de industrialização nacional, desfez-se com a crise da dívida externa (1981-1983).

A imposição imediata da queda na taxa de lucro do setor produtivo se manteve sobretudo pelas medidas macroeconômicas de esvaziamento do mercado interno em prol de alta exportação e baixa inflação.

Nesse contexto, as alternativas implementadas por acordos políticos de ocasião buscaram compensar o sentido redutivo da taxa de retorno dos investimentos produtivos por meio da crescente valorização dos improdutivos ganhos financeiros. Assim, o Brasil mudou da macroeconomia da industrialização para a da financeirização da riqueza, com elevados ajustes fiscais.

Nos anos 1990, por exemplo, a sustentação do custo ampliado com o pagamento do endividamento público, derivado de altas taxas de juros reais, se mostrou capaz de repor aos grupos econômicos tanto o retorno econômico perdido pelo fraco desempenho da produção como a garantia do próprio sucesso eleitoral. Mesmo assim, os sinais de regressão econômica e social tornaram-se maiores.

Nas eleições de 2002 a 2010, contudo, fortaleceu-se inédita força política gerada pela aglutinação dos setores perdedores do período anterior com parcela crescente de segmentos em trânsito do ativo processo de financeirização da riqueza para o novo ciclo de expansão dos investimentos produtivos.

Com isso, reacendeu-se o compromisso da maioria política emergente com a manutenção da fase expansiva da economia, embora dúvidas permaneçam em relação ao perfil do desenvolvimento brasileiro. A encruzilhada nacional dos próximos anos reside aí: o resultado da disputa no interior da maioria política pelo Brasil da Fama (fazenda, mineração e maquiladoras) ou pelo Brasil do Vaco (valor agregado e conhecimento).

O cenário atual de moeda nacional valorizada faz avançar o Brasil dependente da exportação de matérias-primas e da geração de produtos internos com forte conteúdo importado. Dessa forma, a taxa de investimento abaixo de 20% do produto é suficiente, assim como a contenção da inovação tecnológica, suprida por compras externas.

O Brasil da Fama cresce, gerando mais postos de trabalho na base da pirâmide social e ocupando maior espaço global. Sua autonomia e sua dinâmica parecem menores diante dos imutáveis graus de heterogeneidade econômica e social que marcam o subdesenvolvimento.

O Brasil do Vaco, por outro lado, pressupõe reafirmar a macroeconomia do desenvolvimento sustentada em maior valor agregado e conhecimento. A superimpulsão dos investimentos é estratégica, pois gera agregação de valor em cadeias produtivas e ampliação da inovação tecnológica e educacional. Assim, o novo desenvolvimento brasileiro rompe com o atraso secular da condição subordinada do Brasil no mundo.

* Marcio Pochmann é professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Rodrigo Vianna: Esfaqueando a Dilma pelas costas

Marcos Coimbra: O que há de novo no governo Dilma

Últimas unidades

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



10 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Marcio Pochmann questiona otimismo brasileiro | Outras Mídias - Outras Palavras

05 de maio de 2012 às 23h26

[…] Márcio já havia escrito, anteriormente, na Folha de S. Paulo, um artigo que refletia a encruzilhada brasileira. Reapresentamos o artigo, no Viomundo, com o título: Clássico brasileiro é Vaco vs. Fama. […]

Responder

Pedro Luiz

04 de maio de 2012 às 08h17

Concordo com o professor, que vem a tempos alertando para a dualidade entre a fama e o Vaco.Agora enquanto não se discutir a relação capital e trablaho,a taxa de retorno no capital financeiro e a renegociação de nossa dívida interna, que aumenta assustadoramente, temos chances reduzidas de algum sol, no céu cinzento.Acredito também que a relação republicana também deveria ser discutida.Mas por quem?. Por essese legisladores travestidos de representantes do povo e que tomam banho de cachoeira no conselho de “ética do nosso parlamento?. Por esses sindicalistas que fazem sorteios no dia do trabalho de “brindes”?.Esse não é o meu, o seu país.

Responder

Márcio Pochmann: Despolitizada, “nova classe média?” é desafio para partidos e sindicatos « Viomundo – O que você não vê na mídia

04 de maio de 2012 às 00h18

[…] Márcio já havia escrito, anteriormente, na Folha de S. Paulo, um artigo que refletia a encruzilhada brasileira. Reapresentamos o artigo, no Viomundo, com o título: Clássico brasileiro é Vaco vs. Fama. […]

Responder

Leonardo Câmara

25 de abril de 2012 às 01h29

Não vai haver aumento do valor agregado sem investimento maciço em educação, pra começar. Não adianta trapacear como faz o governo Dilma com estas bolsas no exterior. Tem que meter a mão no cofre e investir em todo o espectro da educação, a começar pelo salário dos professores, afim de atrair mais qualidade.

Responder

Economista: A terceira revolução industrial | Viomundo - O que você não vê na mídia

24 de abril de 2012 às 19h56

[…] para tapar o rombo na Espanha. Como já perguntou o economista Márcio Pochmann, mais de uma vez: é Vaco ou Fama? Conhecendo a elite brasileira, desinformada, medíocre e complacente, aposto na Fama. […]

Responder

“Evitar que os cidadãos pensem é uma tarefa permanente da mídia” | Viomundo - O que você não vê na mídia

25 de agosto de 2011 às 12h38

[…] Marcio Pochmann: Brasil vai ingressar na era do conhecimento?   […]

Responder

Novidade: Prefeitura de São Paulo a serviço da especulação imobiliária | Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de agosto de 2011 às 23h41

[…] Marcio Pochmann: Dois setores disputam hegemonia econômica no Brasil   […]

Responder

FrancoAtirador

22 de agosto de 2011 às 21h52

.
.
E quem é o árbitro desta partida?
.
.

Responder

Dario Pignotti: FHC e o Pensamento Jornalístico Único | Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de agosto de 2011 às 11h23

[…] Marcio Pochmann: Quem vai vencer, Fama ou Vaco?   […]

Responder

Rodrigo Vianna: Pelas costas, Estadão “crava” espada em Dilma | Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de agosto de 2011 às 11h21

[…] Marcio Pochmann: Fama ou Vaco?   […]

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.