Fátima Oliveira: Rainha de Sabá, racismo explícito

Tempo de leitura: 3 min

Racismo explícito: negras (in)confidências & rainha de Sabá

Elogio ou crítica ferina? Hoje sei que era uma crítica!

Fátima Oliveira, em OTEMPO

[email protected] @oliveirafatima_

“Negras (in)confidências – Bullying, não. Isto é racismo”, livro organizado por Benilda Brito e Valdecir Nascimento (Mazza Edições), é uma coletânea de depoimentos de mulheres negras sobreviventes do racismo nosso de cada dia na escola. Dói. Deveria ser lido por quem dá aulas porque é uma panorâmica de como as escolas permitem e reproduzem o racismo. São memórias dolorosas da meninice de mulheres negras sob a batuta do racismo.

É uma leitura imperdível e faz a gente evocar fatos que julgava perdidos ou inexistentes. Num papão animado com a Mazza e a Kia Lilly, peguei um gancho da Kia que indagou qual era a profissão da mamãe. Disse-lhe que era costureira e que fazia vestidos de fadas. E eu pude usar belos vestidos de organdi, pele de ovo, seda pura, broderie, chiffon e musseline, de algodão e de seda – tudo com muito frufru: rendas, fitas e paetês!

Mamãe e vovó, que dizia que na família dela mulher tinha que luxar, não mediam esforços para concretizar o lema. Quando eu voltava para a Casa do Estudante – havia a masculina e a feminina, anexos do Colégio Colinense –, levava, em média, 16 a 20 vestidos novos: um para cada domingo do semestre – jamais repetia um vestido na missa aos domingos! Sem falar que o Louro, sapateiro famoso de Graça Aranha, fazia meus sapatos pespontados à mão, de várias cores… Sempre que o encontrava (morreu há uns dois anos), dizia: “Essa doutora aqui, eu fazia os sapatos dela à mão, desde criança”.

Sempre que eu saía para a missa domingueira, dona Estela (a professora Estela Rosa e Silva), diretora da Casa do Estudante, que é negra, dizia: “Esse povo da Fátima faz dela uma rainha de Sabá”, que eu não sabia quem era, mas entendia que ela dizia que eu me vestia como uma rainha.

Era elogio ou crítica ferina? Mamãe achava o máximo! Era a constatação da perfeição de seu trabalho e o reconhecimento de que os vestidos que ela fazia para a filha eram de uma beleza incomum. No entanto, anos a fio ouvindo que eu era como a rainha de Sabá, incomodava. Hoje, entendo que meus belos vestidos despertavam inveja porque eu era uma menina negra vestida com esmero. Em suma, hoje sei que era uma crítica!

Basta lembrar que Brizola, um dia, muito emputecido com Benedita da Silva, não se conteve: “Como pode uma pessoa simples, humilde, muito querida como a Benedita, como vice-governadora, se comportar que nem a rainha de Sabá?” (…) Fiquei sem entender se Brizola criticou ou elogiou Benedita.

(“Rainha de Sabá”, O TEMPO, 7.7.2004). Belkis, a rainha de Sabá (atual Iêmen do Sul), era negra e rica. Contemporânea do rei Salomão, de quem se cogita que teve um filho (Menelik I, fundador da Monarquia etíope, 1.000 a. C.), viajou sete anos até Jerusalém com uma caravana enorme e abarrotada de especiarias, ouro e pedras preciosas para presentear Salomão.

Repito: era elogio ou crítica ferina? Eu era a única menina negra na Casa do Estudante. Minha família, de todas que mantinham filhas ali, de certeza, era a única negra e a de menos posses – nada que se comparasse com as filhas do Nilo Pacheco da Fortuna (rico afamado, ex-prefeito); Maria Inês do Buriti Bravo; a filha dos Borges de São Domingos; a Meirinha, filha de um Pacheco do Saco (fazenda nos arredores de Colinas), por aí… Os nomes se perderam no tempo, mas a branquitude e a riqueza do sertão estavam todas ali… Sobrevivi. A menina das roupas de rainha de Sabá teve a honra de cumprimentar Nelson Mandela com um aperto de mãos, em Durban, 2001.

 Leia também: 

Ana Flávia Pinto: Saúde dos negros corre o risco de continuar negligenciada

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Comentários

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cristina marioto

Dia 14 de dezembro, sai do Rio rumo a um churrasco na capital de São Paulo, lá tive uma aula de racismo que nunca vou esquecer, estou chocada até agora com o o que ouvi.

Romanelli

então, como até hoje pouco se falou, vou aproveitar a chance..

..Aqui tb, nenhuma palavra sobre as candidatas que querem ser GLOBELEZA ? ..notadamente todas negras e/ou pardas que se orgulhavam em se exporem as nádegas durinhas e o corpinho NU em pêlo ?

Olha,desculpe, mas racismo tb parte de dentro, de estereótipos, de valores que não condizem com o que se almeja.

..aqui é aquilo, em muito tenho que concordar com Bill Cosby que dizia aos negros americanos (e por eles quase foi trucidado) que eles TAMBÉM deveriam mudar algumas atitudes se quisessem se impor dentro da sua própria sociedade (como estudar e se cobrar por exemplo)

Afinal, penso, não da pra se pedir respeito dum lado se nem ao respeito muitos se dão, né não ?

http://www.youtube.com/watch?v=KoNvA8npCeM

alexandre de melo martins

vendo a foto da mão negra espalmada lembro da camisa
do vascão da colina , a famosa camisa das mãos negras.
pobre vasco time sem igual no mundo, abriu as portas do futebol
para os negros, junto com o bangu , para justiça historica.
perseguido pelos bandidos marinhos, flamenguistas e filhos da puta.

alexandre de melo martins

o reino de saba ,cuja capital mariaba situa-se no que hoje é o Iemen,
das antigas cidades como mariaba e sanna,
balquir suposto nome da rainha nao é citado no cantico dos canticos, livro do rei
salomao ,como tambem o livro das lamentações.
salomão se referia a ela ,nigra summ sede formosa, de onde sabemos ser ela negra.

Joana Medeiros

Fátima ao resgatar suas memórias nos mostra que mesmo uma pessoa negra em boas condições financeiras, num ambiente onde ela pode estar não está livre de práticas racistas. Chamá-la de Rainha de Sabá era racismo

Érica Batista

E pensar que quem apelidou a Fátima Oliveira de Rainha de Sabá foi uma professora NEGRA, que era diretora do internato! Deu para sacar a dimensão da coisa? É dose cavalar

Ribamar Costa Ramos

As Grandes Mulheres da História: Rainha de Sabá

Pouco se sabe sobre a belíssima rainha de Sabá, cuja história é repleta de mistério. A parte conhecida de sua história está relatada no Velho Testamento, datadas no século 6 d.C., e em um dos livros de Talmudu (coletânea das tradições orais judaicas).
No Alcorão (livro sagrado muçulmano) encontramos referência à suposta cidade natal da rainha, Marid. Dentre todos os relatos a respeito da rainha de Sabá, o mais conhecido é o da Etiópia, o Kebra Nagast, do século 11 a.C. Segundo esse documento, ela teria assumido o trono com apenas 15 anos de idade, após a morte do pai.

Em Sabá as mulheres e os homens possuíam praticamente os mesmos direitos, por isso sua coroação foi muito festejada pelos súditos. A única coisa que fazia a diferença entre homens e mulheres em seus direitos era a determinação religiosa de a rainha manter-se virgem. Como uma boa seguidora dos costumes de seu povo, Bilqis como era chamada no Alcorão, aceitou conformada. Já que não poderia jamais deliciar-se dos prazeres carnais, dedicou-se ao estudo da filosofia e do misticismo. Seu reinado esbanjou luxo e riqueza, isso graças à farta colheita, que era estimulada por avançadas técnicas de irrigação, e à localização privilegiada que impulsionava o comércio. Sabá era ponto de encontro de mercadores vindos de todos os lugares. Vendia-se e comprava-se de tudo pelas pequenas ruas do reino, em especial mercadorias oriundas do Oriente. Para se distrair a rainha circulava em meio ao tumulto do comércio. Gostava de conversar com os viajantes, foi em uma dessas conversas, que sobe da existência do rei Salomão. Foi o chefe das caravanas reais, Tamrim, que lhe relatou a história de tal rei.

Ele vendia incensos de Sabá para diversos lugares do mundo e trazia muitos tecidos e jóias para a rainha. Ao retornar de uma viagem à cidade de Jerusalém, ele contou que havia feito negócios com um rei cujo nome era Salomão, muito rico e que tinha fama de sábio e generoso. A soberana ficou muito intrigada com os dotes intelectuais do rei de Jerusalém, então resolveu viajar para conhecer o soberano pessoalmente. Anunciou que iria junto com Tamrim em sua próxima viagem à Jerusalém, para isso saiu pelo reino em busca de presentes para Salomão.

A comitiva tinha 800 animais, apesar da curta distância a viagem durou seis meses. Chegando à Jerusalém, a rainha se dirigiu ao palácio, trajando roupas caras, coberta de jóias e seguida por servos trazendo os presentes para o anfitrião. Divertiu-se testando a sagacidade de Salomão, muito culta e bem-humorada ela disparou um arsenal de charadas com a intenção de desafiá-lo. O rei, muito sábio, não deixou nenhuma pergunta sem resposta.

Por sua vez, Salomão pregou a ideologia e os valores de sua religião, o Judaísmo, e conquistou mais uma adepta. Como um grande sedutor, ele também cortejou a visitante. Mesmo tendo feito o voto de castidade, a rainha de Sabá em sua primeira noite no palácio não resistiu ao charme de Salomão e se entregou a ele. Permaneceu meses na companhia de Salomão e retornou para casa grávida do amado, o filho foi chamado de Menilek.

Após o retorno da rainha, os relatos foram se tornando escassos. Nenhuma das histórias sobre a rainha de Sabá é arqueologicamente comprovada. Dessa forma, a célebre e lendária rainha tornou-se um grande enigma da história, não há comprovação de sua verdadeira história e nem relatos de seu fim.

Por Eliene Percília
Equipe Brasil Escola
http://www.brasilescola.com/historia/rainha-saba.htm
As Grandes Mulheres – História – Brasil Escola

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Ótimo, texto completo

Bom, mas faltam exemplos e/ou imagens

Regular, faltam informações

Ruim, texto confuso

Péssimo, pouco esclarecedor

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comentário

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segunda-feira | 14/10/2013 | rogerio

Responder00

gostei do texto envie mais…

sábado | 17/11/2012 | Leticia

Responder60

Amei o texto , muito objetivo , e principalmente porque eu adoro a rainha Sabá!

quinta-feira | 29/03/2012 | matheus

Responder32

bom de mais.posso a dizer que estar esplendido maravilhoso

segunda-feira | 07/11/2011 | mário

Responder22

interessante o assunto estudado e relatado

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    FrancoAtirador

    .
    .
    Há menções de recentes descobertas arqueológicas sobre o Reino de Sabá:

    Em maio de 2008, pesquisadores da Universidade de Hamburgo anunciaram que arqueólogos alemães descobriram em Aksum, cidade sagrada da Etiópia, os restos do palácio da rainha de Sabá.

    “As investigações revelaram que o primeiro palácio da rainha de Sabá foi transferido pouco após sua construção, e levantado de novo orientado para a estrela Sirius.”

    “Os dados atuais indicam que, com o Judaísmo, chegou à Etiópia o culto de Sothis, praticado até 600 d.C. pelos descendentes da rainha de Sabá.”

    Esse culto tinha como características a orientação de todos os prédios de culto para o nascimento de Sírius e o sacrifício de reses.

    Segundo uma lenda etíope, o nome da rainha de Sabá era Makeda.

    Seu rosto foi perpetuado nas telas de cinema por Gina Lollobriga no filme Salomão e a Rainha de Sabá, de 1959.

    Há vários séculos, os pesquisadores tentam associar ruínas arqueológicas com o palácio da rainha de Sabá, seja na antiga cidade de Axum ou em Marib, no Iêmen.

    Há menções à lendária rainha na Bíblia, no Corão e na Kebra Negast (Glória dos Reis), considerada a bíblia rasta, que conta a história da rainha Makeda de Sabá e seu romance com o rei Salomão, do qual se originou Menelek, o primeiro imperador da dinastia etíope.

    (http://www.dw.de/arque%C3%B3logos-alem%C3%A3es-descobrem-onde-morou-rainha-de-sab%C3%A1/a-3326975)
    (http://setegrausdeseparacao.blogspot.com.br/2008/11/belkisnicaula-ou-rainha-de-sab.html)
    .
    .

    FrancoAtirador

    .
    .
    Leia também:

    As sandálias simbolistas da Rainha de Sabá:
    Belkiss de Eugénio de Castro

    Por Isabel Boavida

    Resumo

    A Rainha de Sabá é uma das mais interessantes figuras femininas geradas na matriz judaico-cristã-islâmica, já que os discursos sobre si formam uma teia intrincada e cheia de dinamismo.
    O poema dramático de Eugénio de Castro, ‘Belkiss’ (1894), foi um dos fios dessa teia, recortado no modelo estético simbolista.
    Encena o desejo e a sua maldição,opondo volúpia sensual e propostas quietistas.
    As sandálias desta Belkiss finissecular sãoas da sedutora perversa, da Bebé caprichosa, da mulher-marioneta e da heroína trágica presa do ‘pathos’ de uma paixão excessiva pelo objecto ausente (Salomão) e da impossibilidade de controlar o próprio corpo.

    a. antelóquio

    O objecto deste estudo é o processo de construção da imagem da Rainha de Sabá, uma das figuras femininas de matriz judaico-cristã e islâmica mais interessantes e fecundas do ponto de vista dos discursos produzidos a seu respeito, no poema dramático de Eugénio de Castro (1869-1944), ‘Belkiss, rainha de Sabá, de Axum e de Hymiar’ [1].

    [1] A fechar o texto, traz uma data, 23 de Julho de 1894.
    Foi publicado no mesmo ano em Coimbra, pelo editor Francisco França Amado.
    Dois anos depois, estava traduzido para italiano por Vittorio Pica e publicado pela editora dos Fratelli Treves, de Milão.
    Em 1897 saiu do prelo de Jorge A. Hern, de Buenos Aires, a tradução espanhola de Luis Berisso, acompanhada por um estudo de Leopoldo Lugones.
    Atestando o sucesso da obra entre os leitores de língua espanhola, a versão de Berisso voltou a ser publicada em 1899 (Buenos Aires) e 1919 (Madrid e México).
    Na edição mexicana, com um estudo de Ruben Dario, não foi dada na versão integral, uma vez que se tratava de ‘Poemas escogidos’.
    Em 1900, Arnost Procházka traduziu-a para checo e foi publicada em Praga pela ‘Moderní Revue’; em 1916, teve 2.ª edição pela editora Kamilla Neumannová.
    Em 1910, saiu uma 2.ª edição portuguesa (Coimbra, França Amado).
    Em 1927, teve nova edição portuguesa, no segundo volume das ‘Obras Poéticas’ do autor, que foi a última edição revista pelo autor (reeditada em 1968 e, em versão facsimilada, dirigida por Vera Vouga, em 2001).
    Foram publicados excertos do drama, em 1979, no estudo de Luís Francisco Rebello sobre ‘O teatro simbolista e modernista’ (1890-1939)
    e, em 1987, na Antologia do autor, organizada por Albano Martins.

    Íntegra do Artigo:

    (http://www.academia.edu/741407/As_sandalias_simbolistas_da_Rainha_de_Saba_Belkiss_de_Eugenio_de_Castro)
    .
    .

Luana da Silva

A mensagem do artigo da Fátima é um soco no estômago da gente. O racismo se apresenta de mil e uma formas, barbaridades e sutilezas. E não é fácil enfrentá-lo. Muitas vezes não é fácil entender e perceber as artimanhas do racismo.

Tetê Sanches

Parabéns à Benilda e Valdecir pelo livro. Tenho certeza que ele será de muita utilidade para professores na luta contra o racismo

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