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Diário da Resistência


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Fátima Oliveira: Para os ianomâmi, “nabuh”, para os “nabuh”, ianomâmi


15/09/2013 - 02h51

David Good e Yarima, sua mãe, durante viagem que ele fez à Amazônia. Foto: quantum.esu.edu

Fátima Oliveira, em O TEMPO
[email protected] @oliveirafatima_

Há anos sabia do casamento entre antropólogo norte-americano Kenneth Good e a índia ianomâmi Yarima, da Amazônia venezuelana. Casados na aldeia natal dela, Hasupuweteri, desde 1982, ela com 15 e ele com 39 anos, em 1986 foram residir nos EUA, onde se casaram de “papel passado” e, nove dias depois, David Good nasceu! Tiveram dois filhos (David e Daniel) e uma filha (Vanessa).

Kenneth Good chegou à Amazônia em 1975 como aluno do antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon, autor de “O Povo Feroz” (1968) – registro de suas pesquisas com ianomâmis da Venezuela na década de 60, obra de referência sobre etnia durante décadas –, embora o ex-aluno Kenneth Good, que morou com os ianomâmis até 1986, alegasse que Chagnon manipulara dados em suas pesquisas.

Foi rebatido pelo mestre com sua vida pessoal: o casamento com Yarima, até hoje polêmico. Dizem, não consegui confirmar, que não há um código de ética que proíba antropólogos de relações de ordem afetiva e/ou sexual com sujeitos de suas pesquisas. Porém, Kenneth Good até hoje é acusado de pedofilia: ficou noivo de Yarima quando ela tinha 12/13 anos, mas diz que só se relacionaram sexualmente quando ela completou 15 anos.

A oferta de uma esposa a Kenneth Good foi feita, em 1978, pelo irmão dela, o cacique da tribo, onde Good era chamado de “shori” (cunhado), numa cultura que, após a menarca, a mulher já pode ter marido, conforme Kenneth Good em seu livro “Into the Heart: An Amazonian Love Story” (“Coração Adentro: Uma História de Amor Amazônica” (1991). Disse o cacique: “Shori, você vem sempre aqui nos visitar e viver conosco… estive pensando que deveria ter uma esposa. Não é bom para você viver sozinho”. A oferta não foi aceita de imediato, mas acabou sendo concretizada.

Os estudos de Chagnon foram questionados com mais vigor desde o documentado pelo jornalista Patrick Tierney, autor de “Darkness in El Dorado” (“Trevas no Eldorado – como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia”). Na referida obra há acusações de que Changon tenha forjado, por encenações, mas com mortes reais, conflitos entre aldeias ianomâmis para provar que o povo ianomâmi é bélico, de natureza.

Aventam que Changon deu aval aos experimentos do geneticista da Universidade de Michigan James Neel: uma vacina antissarampo, que desencadeou uma epidemia que matou centenas de ianomâmis.

Em 1993, Yarima, que parecia adaptada à vida fora da tribo, decidiu ficar com seu povo, quando lá esteve participando de um filme sobre a sua vida. A prole ficou sob os cuidados do pai, embora ela tenha insistido em ficar com a menina.

Em “Americano vai à Amazônia em busca de mãe ianomâmi”, David Good diz o quanto tentou esconder sua ascendência ianomâmi: pedia ao pai que dissesse que ele era hispânico. Adulto, cheio de perguntas, partiu em busca de suas origens. Em 2011, teve um reencontro emocionante com a sua mãe, quando firmou o propósito de “criar vínculos de amizade entre a cultura ianomâmi e o mundo lá fora – mas do ponto de vista de alguém que pertence a essa cultura”.

“Quem sou eu? Sou ianomâmi ou sou ‘nabuh’ (branco)? Os ianomâmi me veem como um ‘nabuh’, e os ‘nabuh’ me veem como ianomâmi? Hoje me orgulho de ser um americano-ianomâmi, tenho orgulho da minha herança cultural. Eu amo minha mãe e anseio estar com ela novamente, aprendendo os costumes ianomâmi. Não sou antropólogo, não sou político, não sou missionário. Sou um irmão e sou um filho” (BBC 7.9.2013).

Frases de alguém em paz com a sua verdadeira identidade.





24 comentários

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Érica Batista

17 de setembro de 2013 às 10h34

A regra da civilidade é não dar palco para papagaios de piratas.
Gostei do artigo. O filho de Yarima fez bem em procurar a mãe dele.

Responder

    Douglas da Mata

    21 de setembro de 2013 às 14h47

    Bom, no dia que o debate se resumir a seu julgamento sobre as pessoas, ou ao seu gosto por este ou aquele texto, aí sim deveríamos ficar preocupados com os rumos da civilização.

    A adoração “religiosa” (aquela que não questiona) dos “cânones”, ainda que com pés-de-barro, isto sim é um perigo as chamadas regras de civilidade.

    Até para adular alguém é preciso algum conteúdo, senão fica…fica….ah, deixa pr’á lá, você sabe como fica.

Douglas da Mata

16 de setembro de 2013 às 22h52

E tem gente por aqui que ainda se arvora a questionar as políticas do governo sobre os índios…

Entendo, deve ser “reserva de mercado”…

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Douglas da Mata

16 de setembro de 2013 às 22h50

Vamos celebrar todas as índias estupradas desde 1500…

Sirvam-se bwanas…

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Ulisses

16 de setembro de 2013 às 20h02

Cara Fátima, fiquei bem impressionado de o filho de Yarima, duas décadas depois procurar a mãe, o que significa que mesmo numa cultura como a norte-americana ele não sofreu alienação parental, ou pelo menos ela não foi suficiente para apagar a mãe que ele carregava no peito e na memória. E a reencontrou e se descobriu também ianomâmi. Importa o que pensa o filho, o reconhecimento que ele demonstrou por sua mãe. Mas eu também gostaria de saber sobre os outros filhos, mas não encontrei na internet, talvez porque eu não saiba ler em inglês, mas quem souber por favor dê notícias aqui.

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Douglas da Mata

16 de setembro de 2013 às 18h19

Pois é…foi este mesmo pessoal que, há algum tempo, se levantou e vociferou (muito justamente) quando um “juiz” do STF absolveu um estuprador porque a vítima era uma menina que se prostituía, e por isto, na visão torpe do julgador, tinha “noção” de sua sexualidade e da realidade que a cercava, ratificando outro traço “cultural” e a “escolha”(se bem que não foi da cultura índia, é verdade…).

O que será que mudou?

O sotaque?

Fomos acometidos pela nossa atávica síndrome de vira-latas?

Engraçado é que o texto chama o criminoso antes pela sua suposta profissão(antropólogo), quando certo seria dizer: “O estuprador fulano de tal…” ou “Fulano de tal, filho de uma relação onde sua mãe foi entregue pelos machos da aldeia como um objeto para ser usado como uma diversão…”

Depois dizem que o texto não “alivia”…tsk, tsk, tsk…

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Douglas da Mata

16 de setembro de 2013 às 17h00

Estuprador quando é “bwana” muda de nome…

Espelhos, miçangas e outras traquitanas, e um bom sotaque servem para acalmar nossas feministas…

A tese da “cultura” é uma agressão ao bom senso!

Ora, se entre os índios este absurdo é legitimado, e se as repercussões de seus atos se mantêm dentro dos limites das relações sócio-políticas de cada comunidade, vá lá, ainda podemos relevar…

Mas justificar a “entrega” de uma menina de 12 anos a um estrangeiro, que nem deveria estar naquele local, haja vista que só os idiotas que acreditam nesta “curiosidade científica” alienígena, é como revistar o massacre das culturas indígenas passadas…

Fico com Cortez e outros “conquistadores”…pelo menos eram menos hipócritas, e a violência era feita de uma vez só…

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Kadu

16 de setembro de 2013 às 11h58

Acredito na declaração de David Good, o filho de Yarima e Kenneth Good: “Ele se enamorou do povo. E se apaixonou por minha mãe.”
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/09/130829_mae_ianomami_wk_cc.shtml

Uma crônica correta e uma leitura que acrescenta muito aos meus conhecimentos.

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Gerson Carneiro

16 de setembro de 2013 às 10h31

“A raça humana é
Uma semana
Do trabalho de Deus

A raça humana é a ferida acesa
Uma beleza, uma podridão
O fogo eterno e a morte
A morte e a ressurreição”

A Raça Humana – Gilberto Gil

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Maria das Graças

16 de setembro de 2013 às 08h40

Fiquei bem impressionada que David Good tenha procurado a mãe e buscado suas origens. Para mim agora não está em discussão como ele e seus irmãos nasceram, até porque é um assunto que já correu o mundo, há várias opiniões sobre o assunto; e jamais chegaremos a um consenso de como Yarima e Kenneth se relacionaram; o que não dá para alguém que se julga a espada do mundo dizer que os filhos de Yarama não deveriam ter nascido. Talvez, mas já nasceram e já são adultos. É um absurdo alguém chegar e dizer: morram, desapareçam, o mundo não concorda com o nascimento de vocês!
Gostei da forma como Fátima Oliveira escreveu o texto, dando enfâse ao que de fato está em discussão no artigo dela, um filho em busca da mãe, de suas origens:
“Frases de alguém em paz com a sua verdadeira identidade”.

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    Douglas da Mata

    16 de setembro de 2013 às 16h51

    Talvez não tenha diferença para você, mas fica a pergunta: se você descobrisse que sua mãe, moradora de algum rincão do país, com 12 ou 13 anos foi entregue a um caixeiro viajante como “presente”, ou em alguma troca comercial, e deste “romance” nasceu você, como se sentiria?

    Eu cada vez mais fico perplexo, mulheres defendendo um estupro…com a teoria do “fato consumado”….pois é…

Douglas da Mata

16 de setembro de 2013 às 08h31

Basta o recalque ancestral das culturas ditas civilizadas, sua eterna culpa, misturada com uma hipocrisia antropológica secular para transformar estupro em cultura, ou em um caso de amor…

Não é à toa que a antropologia ainda é pouco velada à sério no campo das ciências sociais, rs.

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Douglas da Mata

15 de setembro de 2013 às 20h14

Engraçado…

Durante anos, as polícias, associações de mulheres, parlamentares e um punhado de organizações de defesa dos direitos das mulheres e combate à pedofilia vêm tentando diminuir a margem de “relativização” promovida por argumentos que legitimam aspectos “culturais” como justificativas para abusos de crianças…

Em matéria na Carta Capital, há um ano e pouco, o tema foi tratado com extrema responsabilidade, onde as relações intrincadas do Brasil profundo, mormente no quesito sócio-econômico, reforçam a noção patriarcal estabelecida, onde aos homens “bons provedores” são oferecidas as meninas em tenra idade.

Tática de sobrevivência, de cruel sobrevivência…

Fato semelhante acontece com as meninas ciganas, e por aí vai.

Por isto me assusta um texto como este, onde a autora se esgueira da sua notória e conhecida “combatividade”, e busca amparo em um suposto “rigor relativista antropológico” para fugir de uma evidência:

A menina índia foi abusada sexualmente!

Defender, ou neste caso, NÃO DENUNCIAR isto, é como defender que as meninas muçulmanas africanas podem ter seu clitóris mutilados, tudo sob o manto do respeito a soberania e autonomia das crenças e costumes religiosos.

A alegoria textual da autora para romantizar o encontro se choca com o que defende em relação ao aborto e aos abusos sexuais…Este rapaz sequer deveria ter nascido!!!!

Como se não bastasse a violação da criança índia, agora ela tem que se deparar com o fruto de seu estupro, ainda que culturalmente consentido…

Responder

    Rui

    15 de setembro de 2013 às 20h51

    Sr. Douglas, onde a autora relativizou? Qual a sua raivinha contra Fátima Oliveira? Inveja intelectual? Pois é só se tornar um escritor. Ou seja, mostre trabalho como ela e se submeta ao escrutínio público. Qual é a sua produção teórica mestre?
    Outra coisa, o senhor saber ler, não é? Pois leia! A autora não omitiu as acusações de pedofilia que pesam sobre o antropólogo até hoje!

    “Porém, Kenneth Good até hoje é acusado de pedofilia: ficou noivo de Yarima quando ela tinha 12/13 anos, mas diz que só se relacionaram sexualmente quando ela completou 15 anos”.

    A autora não emitiu opinião sobre oacontecimentos, tendo como base os relatos da busca do filho. Ela contou uma história e
    inclusive pontuou a acusação de pedofilia, caso crasso em nossa cultura, mas na cultura dos ianomamâmis, a menina menstruou a primeira vez pode casar.
    Além do que a autora destacou que não encontrou Código de Ética que proíba antropólogos de realecionamento sexual e afetivo com sujeitos de suas pesquisas, em qualquer idade e em qualquer cultura. O que é grave caso não exista!
    Mas quem é mesmo o senhor para decretar que os filhos de Yarima não deveriam sequer ter nascido?

    Douglas da Mata

    16 de setembro de 2013 às 08h28

    Sr Rui, não imagino que eu deva satisfações a “você”(ou a quem “você” representa) sobre o que eu escrevo, sobre quem quer que seja.

    Também não acredito que supostas “obras literárias”, ou o exercício desta ou daquela “profissão” possa hierarquizar saberes, colocando qualquer crítica, por mais dura que seja, na conta de “inveja”, ou no seu coloquial e ta-ti-bi-ta-ti vocabulário, de “raivinha”.

    Sinceramente, não conheço nenhuma produção literária da autora, o que não quer dizer que não as haja, mas o fato é que tal “qualidade” não me chegou, e posso dizer, sem medo de parecer arrogante, que não sou um leitor desleixado…

    Isto é, NÃO LER a “dôtora” não fez muita falta na minha construção cultural, pode acreditar…

    Eu já a li vários em debates por aqui…E posso afirmar, em nenhum caso o estupro de vulnerável foi tratado com tamanha parcimônia e “cuidado”…

    Não é preciso ser um gênio para descobrir neste expediente narrativo a relativização implícita neste trecho:

    “(…)Porém, Kenneth Good até hoje é acusado de pedofilia: ficou noivo de Yarima quando ela tinha 12/13 anos, mas diz que só se relacionaram sexualmente quando ela completou 15 anos(…)”.

    Hu-hum, sei…

    O tal benefício da dúvida…justamente o que o séquito da “dôtora” não dedica a outros casos ou aos debates sobre saúde feminina, aborto, etc, o que aliás, em alguns casos, me leva até a concordar com ela, ao contrário de suas obtusas e apaixonadas conclusões.

    A defesa que você fez do estupro de vulnerável na “cultura ianomami” é merecedora de registro(negativo, por óbvio)…Talvez precisemos dela quando outro debate sobre o tema aparecer por aqui, com outros atores…

    Aí, novamente, vamos te recordar, e os oliveiretes, como você, estrebucharão quando confrontados com suas iniquidades teóricas

    A cobrança é só por coerência, o que não é pedir muito para quem se arroga de palmatória de governos, das políticas de saúde pública, e de comportamentos, pois, pessoalmente, pouco me importa a “dôtora” e sua turma de fãs apaixonados (poucos é verdade).

    Fica a sugestão: se o problema de vocês for religioso, fundem uma nova seita, e desde já dou a dica do nome: os quatro segredos de fátima.

    Se for político, fundem um partido, e passem a adotar os alfarrábios da autora como bíblia política, e passem a mediar o debate de vocês de forma, ao menos, mais honesta…

    Agora, se ainda assim, não houver jeito, façam como este rapaz deveria fazer: voltem para a barriga da mãe de vocês e possibilitem a ela a escolha por uma aborto, a humanidade agradeceria….

    Jorge

    15 de setembro de 2013 às 21h12

    Gostaria que o nobre comentarista-acusador faz no comentário contra Fátima Oliveira é bullying.
    O VIOMUNDO, permite por que?

    Douglas da Mata

    16 de setembro de 2013 às 08h28

    ‘tadinho do Jorge, quer mamar filho?

Elias

15 de setembro de 2013 às 13h29

Yarima viveu 15 anos na Amazônia venezuelana e 6 nos Estados Unidos. Yarima deu à luz três filhos, David, Vanessa e Daniel.

Óbvio que o Sr. Kenneth Good sequer pensou em homenagear os ianomâmis ao escolher esses nomes.

Olha, há muito material na rede sobre esse assunto, e vou não buscar detalhes infringentes para citá-los aqui. Mas há boas bizarrices nessa relação. Para mim, o antropólogo ao ganhar Yarima de presente, a usou como objeto, não acredito que a amou de verdade.

Quanto a David, o primogênito, que foi em busca da mãe depois de quase 20 anos a história sugere um final feliz. Isso contenta a muitos e disfarça outras realidades.

E Vanessa? (Que o Sr. Good não permitiu que Yarima a criasse)

E Daniel, o caçula?

PS: “Dizem, não consegui confirmar, que não há um código de ética que proíba antropólogos de relações de ordem afetiva e/ou sexual com sujeitos de suas pesquisas.” Fátima Oliveira

PS 2: Creio que se não existe um código de ética proibitivo de relações de pesquisadores com pesquisados deveria existir urgentemente. Há muito tempo doenças do homem urbano são transmitidas às populações indígenas, entre elas a blenorragia.

Responder

    Laís Almada Cordeiro

    15 de setembro de 2013 às 18h45

    Elias, gostei muito do seu comentário.
    Eu acho que Good amou Yarima. De verdade. E por que não a amaria? E por que duvidar do que diz o antropóloga e a estudiosa? Não é possível um branco amar uma índia e vice-versa? Não posso duvidar do que disse Kenneth Good. É o sentimento dele. E é ele quem o diz.
    Há o livro dele, onde ele meniciona o amor e há “O romance de Kenneth Good e Iarima”, extraído de de Exotismo e Ciência:os Yanomami e a construção exoti cista da alteridade -Maria Inês Smiljanic, UFPR
    Também gostaria de saber mais sobre os outros filhos. Dizem que David Good é biólogo. Gostaria de confirmar. Li em algum lugar, mas depois não encontrei mais a informação. Acho que era em inglês.

    Elias

    16 de setembro de 2013 às 01h28

    Respeito sua opinião, Laís, sobre o amor de Good por Yarima. Infelizmente o romance Coração Adentro: Uma História de Amor Amazônica, escrito pelo antropólogo, não me convenceu. Além de ser meio autobiográfico é um livro para leitores estadunidenses ávidos por ler qualquer coisa. Para mim o Sr. Kenneth Good era um indivíduo esdrúxulo que aos trinta e tantos anos precisou ouvir de um índio uma triste sugestão: “Shori, você vem sempre aqui nos visitar e viver conosco… estive pensando que deveria ter uma esposa. Não é bom para você viver sozinho”. Abs.

Jorge

15 de setembro de 2013 às 11h31

O romance de Kenneth Good e Iarima

O romance de Good com Iarima desenvolveu-se lentamente. Primeiro, umpedido em tom de brincadeira à mãe quando Iarima ainda era pequena. Foi umgracejo com respaldo cultural, visto que entre os Yanomami uma criança é prometida em casamento a um homem adulto, e este passa então a prestar o serviçoda noiva.Mas a mãe de Iarima respondeu com um não, pois não queria que sua filha fosse levada para o distante mundo dos brancos.

Foi na segunda viagem a campo, juntamente com Eibl-Eibesfeldt, que a his-tória de amor com Iarima tomou impulso. Barba Longa lhe fez a proposta detomar uma mulher yanomami como esposa. Good recusou, pensando estaremlhe propondo a partilha de alguma mulher já casada. Entretanto, sua resistênciafoi vencida aos poucos, pois poderia ser uma forma de integrar-se melhor aosHasupuweteri. Aceitou. Barba Longa afirmou-lhe então que daquele momentoem diante Iarima seria sua esposa.Iarima contava então 12 anos de idade. Good a princípio não levou a sé-rio seu “casamento”. Em breve Eibl terminaria sua pesquisa e ambos parti-riam. Nem mesmo os Yanomami pareciam dar importância àquele casamento.Entretanto, com o passar do tempo, as mulheres passaram a chamar Good deIarimaheorope.

Iarima agora lhe levava comida e Good, aos poucos,passou aachar a ideia interessante.Iarima, acompanhada do irmão, começou a acompanhar Good em suas an-danças pela mata para caçar e pescar. Nessas ocasiões, ela cozinhava para os trêse a relação entre ela e Good se tornava cada vez mais próxima. Quando che-gou a hora de Good voltar para a Alemanha, ele resolveu ficar. Racionalizou,dizendo-se que poderia realizar as transcrições, as traduções e as análises detextos ali, ao lado de Iarima. Quando novamente chegou a hora de partir, destavez sem a menor possibilidade de adiamento, Good já estava completamente afeiçoado a Iarima.

Trecho de Exotismo e Ciência:os Yanomami e a construção exoticista da alteridade -Maria Inês Smiljanic, UFPR

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Maria Inês Smiljanic

Foi na segunda viagem a campo, juntamente com Eibl-Eibesfeldt, que a his-tória de amor com Iarima tomou impulso. Barba Longa lhe fez a proposta detomar uma mulher yanomami como esposa. Good recusou, pensando estaremlhe propondo a partilha de alguma mulher já casada. Entretanto, sua resistênciafoi vencida aos poucos, pois poderia ser uma forma de integrar-se melhor aosHasupuweteri. Aceitou. Barba Longa afirmou-lhe então que daquele momentoem diante Iarima seria sua esposa.Iarima contava então 12 anos de idade. Good a princípio não levou a sé-rio seu “casamento”. Em breve Eibl terminaria sua pesquisa e ambos parti-riam. Nem mesmo os Yanomami pareciam dar importância àquele casamento.Entretanto, com o passar do tempo, as mulheres passaram a chamar Good deIarimaheorope.

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Iarima agora lhe levava comida e Good, aos poucos,passou aachar a ideia interessante.Iarima, acompanhada do irmão, começou a acompanhar Good em suas an-danças pela mata para caçar e pescar. Nessas ocasiões, ela cozinhava para os trêse a relação entre ela e Good se tornava cada vez mais próxima. Quando che-gou a hora de Good voltar para a Alemanha, ele resolveu ficar. Racionalizou,dizendo-se que poderia realizar as transcrições, as traduções e as análises detextos ali, ao lado de Iarima. Quando novamente chegou a hora de partir, destavez sem a menor possibilidade de adiamento, Good já estava completamenteafeiçoado a Iarima.

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Jorge

15 de setembro de 2013 às 09h44

Como Good e Chagon se tornaram inimigos:
Trecho de Exotismo e Ciência:os Yanomami e a construção exoticista da alteridade -Maria Inês Smiljanic, UFPR

Desdobramentos do exotismo yanomami

Em 1975, Chagnon organizou uma expedição de pesquisa composta porele, Robert Carneiro, curador do Museu Americano de História Natural paraAmérica do Sul, o arqueólogo William Sanders e três alunos: Kenneth Good,Ray Hames e Eric Fredlung. Seus alunos deveriam recolher dados com o objeti-vo de demonstrar a inveracidade das afirmações de Marvin Harris sobre a rela-ção entre a guerra e o índice proteico alimentar yanomami. Kenneth Good, porser o mais robusto, foi designado para a aldeia de Hasupuweteri que, segundoChagnon, por não ter ainda sofrido contato com a sociedade externa, vivia emguerra intensa com seus vizinhos.
……

O primeiro trabalho de campo de Good, previsto inicialmente para durar 15meses, se estendeu por dois anos. Findo seu primeiro trabalho de campo, esgo-tado física e psicologicamente por uma crise de malária, pelo choque cultural e

pelos problemas enfrentados em sua volta − um naufrágio e a perda de grandeparte de seus dados − Good retornou aos EUA em junho de 1977, 26 meses

após o previsto, disposto a romper definitivamente com Chagnon.Seu primeiro encontro com Chagnon foi tenso. Após contar-lhe tudo o quelhe acontecera na Amazônia, ouviu Chagnon dizer que lhe enviara inúmeras car-tas e, como não recebera nenhuma resposta, escreveu à sua família dizendo que,diante de seu desaparecimento, dava por encerrado o projeto. Good adiantouque suas conclusões eram diferentes das de Chagnon e que não o queria presidin-do a banca. O Departamento de Antropologia não concordou. Good começoua ser pressionado para entregar a Chagnon suas anotações de campo; por fim,Chagnon lhe disse que deveria entregar seus dados, pois sua responsabilidade eracoletar informações para o projeto que coordenava, e que seu PhD era apenasuma consequência. Foi a gota d’água para que Good rompesse definitivamentecom seu antigo orientador, rompimento que veio acompanhado pela ameaça deChagnon de que nenhum outro departamento de antropologia o aceitaria e deque ele jamais trabalharia como antropólogo ou concluiria seu doutoramento(Good & Chanoff, 1991:135).Diante deste quadro, Good ligou para Harris, que o aconselhou a se desligarda Universidade de Penn State. Good acabou se inscrevendo na Universidadede Columbia, mas outros acontecimentos adiaram seu doutoramento. Foi nes-sa época que recebeu a proposta para trabalhar com um discípulo de KonradLorenz, Prêmio Nobel por seus trabalhos em comportamento animal, Eibl-Eibesfeldt, que se dedicava a um trabalho comparativo em Etologia Humanapara estabelecer aspectos comportamentais universais.

http://www.academia.edu/2077190/Exotismo_e_Ciencia_Os_Yanomami_e_a_construcao_exoticista_da_alteridade

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Patrícia

15 de setembro de 2013 às 09h17

SEGREDOS DA TRIBO
De: JOSÉ PADILHA
22.02.2013 Por Carlos Alberto Mattos

Divergências de interpretação, disputas de primazia e ataques pessoais se misturam numa guerra que, em vez de bordunas, é feita com textos e falas de antropólogos Os filmes de José Padilha são corajosos. Isso implica estarem sempre no lusco-fusco entre a complexidade e o sensacionalismo. Em Garapa, prevaleceu o sensacionalismo. Em Tropa de Elite, as duas coisas se equilibraram e geraram polêmica. Seu novo documentário, Segredos da Tribo, junta-se a Ônibus 174 como vitória da complexidade sobre o efeito.Secrets of the Tribe é uma coprodução da brasileira Zazen (de Padilha e Marcos Prado) com a BBC. Foi adquirida pela HBO depois de estrear no Festival de Sundance com resenhas quase perplexas diante dessa visão demolidora do universo da Antropologia. Para quem vê de fora, os antropólogos formam uma comunidade razoavelmente coesa, sóbria e colaborativa. Motivados pelas melhores intenções, os antropólogos modernos também se autoexaminam, procurando assumir e refletir sobre as interferências de seu trabalho sobre os grupos humanos que estudam. Em contraponto à ideia do “bom selvagem”, eles seriam os “bons cultos”, devotados ao conhecimento e à defesa dos povos primitivos.Mas o que Padilha vai revelar é bem diverso desse quadro, digamos, onírico. São histórias de pedofilia, indução ao homossexualismo, exploração de prostituição, experiências danosas à saúde dos índios. Não se poupa nem mesmo a palavra genocídio. A tribo do título, claro, é a comunidade dos etnógrafos.O filme começa com cenas fortes de índios rejeitando a presença de antropólogos em suas tribos. Volta e meia, índios da região do Orinoco (sul da Venezuela e norte do Brasil) aparecem citando exemplos que confirmam a veracidade das denúncias apresentadas. Mas quem faz as denúncias são primordialmente outros antropólogos. Na verdade, estamos no meio do fogo cruzado de uma guerra que usualmente só explode nos limites das páginas das revistas científicas ou num livro como Darkness in Eldorado, do jornalista investigativo Patrick Tierney (2000), publicado no Brasil pela Ediouro como Trevas no Eldorado – como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia e violentaram a cultura ianomâmi. O doc de Padilha rastreia as fagulhas desse livro.No centro das denúncias estão diversos antropólogos de renome internacional. Napoleon Chagnon, um pioneiro no estudo dos ianomâmi e personagem central do filme, defende-se das acusações de ter construído uma teoria manipulatória sobre o pendor daqueles índios para a violência. Kenneth Good justifica seu casamento com uma adolescente ianomâmi, que ele levou para uma experiência de vida americana padrão. Jacques Lizot, que se recusou a falar para o filme, é acusado – em detalhes explícitos – de abusar de meninos indígenas e instituir prostíbulos na tribo. O geneticista James Neel, já falecido, teria conduzido experiência de vacinação que exacerbou uma epidemia de sarampo entre os ianomâmi, com a cumplicidade do onipresente Chagnon.Sobram farpas até para o venerando Claude Lévi-Strauss (1908-2009), que teria acobertado os desvios éticos do discípulo Lizot. Lévi-Strauss é visto relevando a interferência dos antropólogos por ser mais “desculpável” que a dos colonizadores.Nada soa simples ou unilateral na trama de depoimentos recolhidos por Padilha e montados com a sempre inteligente parceria de Felipe Lacerda. Fica claro, por exemplo, que o combustível das acusações recíprocas vem em grande parte de rivalidades notórias no meio. Napoleon Chagnon e Kenneth Good, por exemplo, não escondem que são adversários figadais. Divergências de interpretação, disputas de primazia e ataques pessoais se misturam numa guerra que, em vez de bordunas, é feita com textos e falas. “Os antropólogos são etnocêntricos e racistas”, atira o antropólogo Good.Os ianomâmi, por sua vez, fazem declarações desconcertantes sobre a normalidade do uso do sexo como moeda de troca nas relações com os cientistas. Eles frequentam ainda as cenas de antigos filmes etnográficos que alimentam a inquietação de tudo o que é dito.Não sei bem o impacto que Segredos da Tribo produziu no meio etnográfico. Esses casos extremos, se não abalam o prestígio da disciplina, pelo menos apontam fissuras éticas que se multiplicam em graus diferenciados. Mesmo sendo a discussão levantada por Patrick Tierney já conhecida há pelo menos 10 anos, a força dos depoimentos diretos dos protagonistas é digna de consideração.O dossiê de Padilha termina com uma espécie de tributo/desagravo a Chagnon na American Anthropological Association e imagens de uma alegre feira de livros de Antropologia. O sentido do filme fica, então, mais claro. Não se trata de encampar esta ou aquela acusação, mas de mostrar que a Antropologia, tomada muitas vezes como algo próximo de uma religião, é na verdade uma ciência suscetível à política, às vaidades e às paixões. – See more at: http://criticos.com.br/?p=3434#sthash.NNu8gvZr.dpuf

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Ester Nolasco

15 de setembro de 2013 às 07h56

Já havia lido a notícia, mas ler a crônica dá uma dimensão mais histórica e humana dos acontecimentos. Acho que o antraopólogo resolveu sair da aldeia pela perspectiva do filho que estava para nascer. E também que ele amou de verdade Yarina, porém não queria criar o filho como índio. Bonito gesto o do filho que resolveu procurar a mãe.

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