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Fátima Oliveira: De olho nos prefeitos sem compromisso com o SUS
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Fátima Oliveira: De olho nos prefeitos sem compromisso com o SUS


08/01/2013 - 22h13

2013 já deu as caras: há desejos e sonhos pessoais e políticos
DE CERTEZA TEREI MAIS TEMPO PARA FICAR DE OLHO NOS PREFEITOS

por Fátima Oliveira, no Jornal OTEMPO
Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Muita gente abomina as listinhas de Ano Novo. Eu, médio. Nunca listei meus desejos nem os sonhos que acalento. Acredito em projetos de vida, que podem ser feitos a qualquer época do ano. No entanto, o começo de um novo ano é sempre momento de algum balanço de vida, pois os rituais de passagem de dia de ano são impulsionadores de sonhos. O ar de algo abominável sobre as listinhas de Ano Novo soam de algum modo falso, como uma recusa a se dobrar ao frenesi da chegada do ano novo.

Depois de quase 60 anos vividos, não abro mão de projetos de futuro. E por que não? Há um futuro para as pessoas sexagenárias de hoje, já que a expectativa de vida nos concede, via de regra, mais uns 15 anos de sobrevivência. Não sei viver ao léu. E sei que o futuro, está em grande medida em nossas mãos planejá-lo, inclusive o político.

A incapacidade de elaborar projetos de futuro é a senha da infelicidade. Não há dúvida de que alguns distúrbios mentais têm como sintoma exponencial a incapacidade de elaborar projetos de futuro. Aquilo de “deixar a vida me levar…”. E daí pra bater com os burros n ‘água é uma certeza… Digo sempre aos meus botões que não escapei do tétano neonatal para bater com os burros n ‘água…

Desde criança queria ser médica e pautei a minha vida para concretizar tal sonho, coisa que parecia impossível, tendo nascido onde nasci, mesmo com algum aporte econômico suficiente para a dedicação aos estudos; mas era negra, oriunda de uma família negra remediada para os padrões econômicos do sertão, que hoje seria algo como a nova classe média, ou talvez bem menos. Ou seja, coisa pouca, quase nada.

Em minha cidade, o máximo de estudo era até a quarta série do primário, numa época em que, culturalmente, às mulheres bastava saber assinar o nome e esperar casar ou ficar no caritó. Tive a sorte de minha avó compreender que “a gente bota filha para estudar fora para não casar com esses caboclos daqui”. Foi assim que, aos dez anos, fui mandada para estudar na escola do padre Macedo, em Colinas (MA). E virei médica.

Sonhei e planejei ser médica. E concretizei o meu sonho… Tudo sem listinha, mas com projetos de vida. E derramei lágrimas de sangue para torná-los reais. Depois, quase tudo partiu da profissão que escolhi: ela passou a ser o eixo. Não tenho dúvidas em dizer que a medicina legou-me asas e nelas voei… É nelas que planejo vivenciar a minha aposentadoria, em algum lugar de calmaria, aproveitando as delícias de ser avó, tendo mais tempo para escrever… E cutucando com vara curta quem merece, pois a opção de ser uma livre pensadora contém em seu bojo um compromisso vitalício para com as necessidades do ponto de vista dos oprimidos.

De certeza terei mais tempo para ficar de olho na falta de compromissos de 99,9% dos prefeitos, alguns feitos a facão, de nosso Brasilzão em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive daqueles que não têm pudor de emitir normas regulamentadoras do caos, exigindo que hospitais contratados do SUS, mesmo não havendo mais leitos contratados ou em caso de extrapolação deles – digo: na superlotação criminosa -, não “recusem” nenhum doente – e desde quando não ter mais leitos é igual a recusar doentes? -, sob pena de diminuição da verba a que têm direito por serviços prestados!

Se quem cala consente, eu pergunto: como pode o Ministério da Saúde concordar com tal descalabro? Com a palavra o ministro Padilha, a quem já concedi a palavra várias vezes e faz ouvidos de mercador.

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15 comentários

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Claudio Gress

10 de janeiro de 2013 às 18h23

Francamente , o debate tem de ser ordenado. O financiamento do SUS e sua regulamentação é função da União. A lógica da descentralização exige uma postura objetiva de atuar no nível local para os desmandos administrativos serem corrigidos no nível que é competente. Há erros da União que merecem ser discutidos aqui , como a questão da gestão dos H. Universitários , completamente desfocada da função primeira destes , como o abandono da luta pelo retorno da CPMF EM % suficiente ( talvez 1%) para o adequado financiamento da saúde) .
O que ocorre com as UPAS é o fim de um grande projeto de atenção às emergências, prejudicado por um desinvestimento no SAMU e na atenção básica . Aqui no Rio , a terceirização que grassa é o modo de o governo manter o ” outdoor” da UPA e desonerar-se , em definitivo, do seu custeio e gestão articulada do sistema .
É essa gestão articulada do sistema , escrita nas primeiras linhas do SUS , o maior erro dos governos . Não irá esta articulação ocorrer sem uma gestão estatal solidária e com profissionais comprometidos e motivados( com plano de cargos e salários suficiente para tal ). Gestão articulada, referência e contra – referência não é igual a colocar o caso do paciente no Sistema de regulação computadorizado. Na verdade , o Sistema de regulação , como ocorre nos grandes municípios , é a prova de que as pontas do sistema estão desarticuladas e não se comunicam de forma efetiva .

A questão do deficit previdenciário do sistema público , alegado motivo pra esta terceirização destruturant do sistema , está resolvida com a reforma de 2003 , regulamentada recentemente , onde o servidor passa a ter um teto semelhante ao do INSS , optando , ou não , por uma previdência complementar . Contudo , insistem numa terceirização que torna o sistema acéfalo ( sem a gestão plena ,real , do município, e sem as diferentes ” organizações sociais ” falarem – se para resolução dos casos .

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Lu

10 de janeiro de 2013 às 14h04

Mas quem disse que interessa ao ministro cnter os descalabros? Se interessasse muita coisa já teria mudado.
Nina Guarani Kaiowá Caetano deu um exemplo bem comum em Belo Horizonte.

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Alberto

09 de janeiro de 2013 às 23h38

Eu acho que mesmo antes de se aposentar Vossa Excelência acabou de cutucar o prefeito Lacerda. Fale logo tudo o que ele andou aprontando na saúde nos últimos dias para ver se o ministro Padilha se antena! Se antena e toma providências. Coisa que ele tem feito pouco. Em todos os sentidos.
Será que ele, o Padilha, não se dá conta de que cada UPA que ele já ianugurou a toque de caixa virou um posto de saúde 24 horas? Se é pra ser posto de saúde que se faça posto de saúde de uma vez, porque eles também são importantes e fazem muita falta. Além do que são mais baratos. Alguém conhece alguma UPA que não seja um postão ampliado? Uma vergonha, pra quem tem. Enquanto isso a rede básica de saúde vai sumindo. E as UPAS não cumprem o seu papel de serviço intermediário de saúde. Desgraçadamente não há UPA de exceleência e todas elas deveriam ser. Por que não são?

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Alice Matos

09 de janeiro de 2013 às 23h11

Para ser mais transparente: entendo que se um hospital possui 100 leitos tudo ali desde o pessoal da limpeza, cozinha, lavanderia, enfermagem e médicos é para atender a 100 pessoas internadas decentemente; na hora em que o número de doentes ultrapassa a 100, começa o desequilíbrio, a cair a qualidade da atenção de modo global. Penso que se um hospital de 100 leitos colocar ali mais um terço de doentes, em primeiro lugar não haverá leitos, vai ter de começar a amontoar gente em maca, e maca não é leito. A atenção cai de qualidade a níveis assustadores, pois não há recursos humanos para cuidar decentemente de mais gente. Como um lugar desses, que não possui mais leitos, pode ser penalizado a receber mais doentes? Mas se o prefeito emite uma ordem que o hospital, não importa se não há mais leitos, tem de receber todos os doentes que querem ser internados ali, isso tem de ser chamado de CRIME! E o ministro Padilha fica calado?

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Alice Matos

09 de janeiro de 2013 às 22h59

Em minha cidade o SUS vai bem mal: faltam leitos para internar os que são atendidos nas UPAS e nos pronto-socorros, sem falar que as filas para internações eletivas e as cirurgias são de fazer vergonha de tão grandes. Até dois anos para operar uma vesícula com pedras! O prefeito vive fazendo terrorismo também querendo que os hospitais conveniados com o SUS de certa maneira coloquem beliches nas enfermarias para caber mais gente. E ainda diz que paga tudo, o problema é que os conveniados com o SUS não querem atender mais gente. Há um hospital de 150 leitos dos quais só a metade é conveniada com o SUS e o prefeito exige que 100% dos leitos sejam SUS. Como pode? Por que o prefeito não faz serviços próprios para dar conta da demanda ou credencia mais leitos? A empresa privada não pode ser obrigada a oferecer todo o seu patrimônio para o SUS; nenhuma quer ser só SUS. Aí entra o terrorismo do qual falou Fátima Oliveira dos prefeitos que querem fazer cortesia com o chapéu alheio.

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Dialética

09 de janeiro de 2013 às 21h23

E há prefeitos que fazem um belo plano de saúde privado para os empregados da prefeitura pago pelos cidadãos que não tem SUS, enquanto isso abominam o SUS.

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renato

09 de janeiro de 2013 às 13h34

Não sei se isto ajuda.
Mas minha sogra (72), que é sozinha, ou seja, não tem marido e os
filhos estã casados e não são abastados.
Pois bem ela precisou de cirurgia para retirada de uma infinidade de pedras. Deu entrada e em tês meses estava na sala de cirurgia, após todos os exames e entrevistas terem ocorrido a contento, correu tudo bem.
Recebeu alta, 15 dias depois recebemos comunicação do SUS sobre dados da
minha sogra, e se estava tudo bem com ela, e se havia reclames.
Dois meses depois de receber alta. Recebemos uma ligação do Sus perguntando se estava tudo bem com a cirurgia. Minha sogra ficou feliz com o interesse deles.Para mim está ótimo.
Fora a visita que fiz ao site do SUS.
Se eles não tivessem tirado os 40 bilhoes, acredito que estaria melhor para muitos!

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    renato

    09 de janeiro de 2013 às 13h36

    Pedras da visícula, pedras no sapato no o PSDB!

    Larissa Dias

    10 de janeiro de 2013 às 09h04

    Renato o seu depoimento é valioso. Há ilhas de excelência no SUS, sim. O que estamos dizendo é que se governos estaduais e os prefeitos tivessem mais compromissos com o SUS a nossa vida poderia ser bem melhor. Como gosta de dizer Fátima Oliveira, para o povo, abaixo de Deus o SUS

baader

09 de janeiro de 2013 às 11h24

o arcabouço jurídico do SUS é algo que demonstra o avanço do país… na legislação (por uma pressão histórica dos que trabalhavam/trabalham na saúde, certo?). ocorre que os conselhos municipais de saúde são uma ‘piada’ de muito mau gosto. (pode-se recorrer ao ministério público [sempre reativo, nunca proativo?], para denúncias dos desvios éticos e legais, desde que se tenha uma paciência budista e alguns anos mais de vida…)

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Gerson Carneiro

09 de janeiro de 2013 às 09h47

São Paulo, que não coloca um centavo sequer no SAMU, vai mandar as vítimas de ação policial para o… SAMU.

http://www.redetv.com.br/jornalismo/portaljornalismo/Noticia.aspx?118,4,438766,126,Apenas-o-SAMU-podera-atender-vitimas-de-confronto-

Alô @Padilhando!

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Mardones

09 de janeiro de 2013 às 08h47

“Se quem cala consente, eu pergunto: como pode o Ministério da Saúde concordar com tal descalabro? Com a palavra o ministro Padilha, a quem já concedi a palavra várias vezes e faz ouvidos de mercador.”

Muita gente custa a acreditar que o PT e sua governabilidade abriu mão da Constituição em aspectos sociais importantíssimos.

Mas, um dia, ainda espero que essas pessoas acordem desse delírio. O governo do PSDB foi péssimo, mas o PT nem de longe mudou as regras do jogo.

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Gerson Carneiro

09 de janeiro de 2013 às 08h13

Vamos apimentar ainda mais a questão posta nos dois últimos parágrafos do post.

Acabam de me dizer que em São Paulo o SAMU ficará responsável por atender vítimas de ação policial. Mas tem um detalhe: São Paulo é o único estado que não investe um centavo no SAMU/192.

https://www.viomundo.com.br/denuncias/sao-paulo-e-o-unico-estado-que-nao-investe-um-centavo-no-samu192.html

Ministro Padilha, tô na fila aguardando resposta. Se quiser falar em off pra mim, prometo não contar nada pra dona Dra. Fátima Oliveira.

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Martin

09 de janeiro de 2013 às 03h26

Entre 2005 e 2011, o Brasil perdeu 11.214 leitos hospitalares, cujo número total, de 432.996 unidades, é o menor dos últimos 33 anos. (Fonte: http://sindimed-se.org.br/noticia/318/editorial-do-jornal-da-cidade-leitos-hospitalares).

Temos aproximadamente 49 milhões de brasileiros com planos PRIVADOS de Saúde… Imagina a FORÇA desse lobby !!(Fonte: http://www.ans.gov.br/index.php/materiais-para-pesquisas/perfil-do-setor/dados-gerais).

Será que a “saúde” que dispomos atualmente é aquela que os partidos da Base de Apoio Parlamentar do governo nos permite ?? E não aquela que o Artigo 196 da Constituição diz que DEVERÍAMOS TER ??! Complicado “governar” assim, né Dilma ?!

O SUS e a Estratégia de Saúde da Família (ESF) estão sendo SUCATEADOS à luz do dia, as ações fundamentais para os seu desenvolvimento estão sendo renegados, e NADA PODEMOS FAZER porque essa é a VONTADE da Base de Apoio Parlamentar de NOSSO GOVERNO ??

Por exemplo em Santa Catarina, o governo neoliberal de Raimundo Colombo terceirizou o Hospital Regional de Araranguá e o SAMU-UTIMóvel Estadual, e está sucateando o que pode do Sistema de Saúde para, provavelmente, depois “arrendar” o máximo possível a seus “amigos” da SPDM de São Paulo (opa ?!) como uma solução emergencial “necessária”…

Da mesma forma a Segurança Privada, nas mãos da família de Dário Berger (prefeito de Florianópolis) só vê seus negócios crescerem em TODO o ESTADO …Adivinha de quem é a “Segurança” de TODAS as Escolas Estaduais de SC, por exemplo ??

Enquanto isso a especulação imobiliária, o crime e as drogas “correm solto” nas grandes cidades, destruindo famílias, a natureza e a qualidade de vida !! Bom para poucos, e RUIM para a MAIORIA !!

Att.
Martin

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Urbano

08 de janeiro de 2013 às 23h47

De hoje em diante, eu estarei de olho é no comportamento do serviço de viação e obras da groubonoma, com relação à Cidade do Recife, que se encontra nas mãos do seu novo aliado, o ‘jênio’ geraaaaaldo, o prefeito de algibeira do eduardo moita, o multicaras… Este inclusive tirou o pé do acelerador e passou a dizer que apoiará a Presidenta Dilma Rousseff em 2014. Acredite não Presidenta… deve ser uma nova estratégia para uma outra rasteira no Eterno Presidente Lula e dessa vez incluindo a senhora também. Com ele, e não tenhamos a menor dúvida sobre isso, tem que se ter um olho no padre e outro na missa. Ou então botar para dormir um olho de cada vez, senão ó…

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