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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Dr. Rosinha: Em menos de 2 anos, Temer e seus apoiadores fizeram a fome voltar

16 de janeiro de 2018 às 17h25

O pão nosso de cada dia

por Dr. Rosinha*, especial para o Viomundo

Um drama que se imaginava extinto voltou a ocorrer, principalmente nos dois últimos anos: homens, mulheres e crianças remexendo o lixo em busca de comida.

Costumeiramente vejo, especialmente aos domingos, talvez por ficar em casa pela manhã, pessoas remexendo o lixo, logo cedo, em busca do que comer.

Todas as vezes em que isso acontece, sou tomado de indignação.

Lógico que, ao ler a frase acima, algum(a) idiota perguntará:“e por que você não dá de comer para essas pessoas?”.

Digo idiota, por que só quem pensa que a solução passa pela filantropia individual é idiota ou um completo alienado. Aliás, nem saberia diferenciar um do outro.

A resposta para acabar com a fome implica necessariamente em políticas públicas e não na pura e simples filantropia. A filantropia será sempre emergencial e não curativa.

Domingo, 14 de janeiro, logo cedo, vi na frente de minha casa um cidadão, jovem (menos de 40 anos), com boa musculatura, que parecia ter feito halterofilismo, revirando o lixo em busca de comida.

Sei que buscava comida por que recolheu alguma coisa do lixo e começou a comer. Uma parte do que encontrou, comeu. A outra, guardou. Saiu claudicando e remexendo as lixeiras aqui da rua. O que encontrava de comida, comia. Ou separava para levar. O material reciclável não lhe interessava.

Essa triste cena me trouxe à mente muitas passagens, que já vi, li ou ouvi. Dos que li, me veio o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira; o livro “A pele”, de Curzio Malaparte, e “Geopolítica da Fome” e “Geografia da Fome”, livros de Josué de Castro.

“O Bicho” de Manuel Bandeira é muito representativo:

Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. // Quando achava alguma coisa, / Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. // O bicho não era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato. // O bicho, meu Deus, era um homem.

Comportamento igual tinha ‘o bicho’ aqui da frente de casa.

Muitos escreveram e descreveram a fome, seja de maneira poética, romanceada, ficcional, traumática ou realista. Entre eles Curzio Malaparte.

Em “A pele”, que li há mais de 30 anos, que também virou filme, Malaparte faz um relato do que é o pós-guerra na Itália e de como o ser humano se comporta para sobreviver.

Se, durante a guerra, luta com bravura e dignidade pela vida, no pós-guerra, para sobreviver, se vende, trapaceia e vende até os filhos para servirem de objetos sexuais. O ser humano deixa de ser humano, deixa de ser um bicho que defende o filhote e/ou a manada e passa a ser a pior das coisas.

Digo o pior das coisas por que perde as características de ser humano. Vira uma coisa querendo sobreviver.

No “Geopolítica da Fome”, publicado pela primeira vez em 1951, Josué de Castro, escreve que

“A história da humanidade tem sido, desde o princípio, a história de sua luta pela obtenção do pão-nosso-de-cada-dia. Parece, pois, difícil explicar e ainda mais difícil compreender o fato singular de que o homem – este animal pretensiosamente superior, que tantas batalhas venceu contra as forças da natureza, que acabou por se proclamar seu mestre e senhor – não tenha, até agora, obtido uma vitória decisiva nesta luta por sua própria subsistência”.

Como define Josué de Castro, este animal que é pretensiosamente superior, não o é por que é egoísta e individualista. Luta pela sobrevivência de maneira individual, disputando privilégios com seu semelhante e, se preciso, para manter os privilégios ou obter outros, mata seu semelhante.

Quando no Brasil passou-se a construir um mínimo de igualdades de direitos, como o de estudar e comer, a elite privilegiada e a classe média idiotizada, construiu um Golpe de Estado.

Quando no horizonte foi visualizada a possibilidade de todos e todas, independente da classe social, terem os mesmos direitos (escola, saúde pública, etc.), sob a égide do combate à corrupção, os maiores corruptos da história do país deram o Golpe.

Esses novos homens/bichos/coisas são vítimas dos golpistas. São vítimas do capitalismo, onde impera a lei do individualismo e do egoísmo. A lei do ter tudo a qualquer custo, mesmo que parte da população morra de fome.

Até o golpe, havia políticas públicas ativas de combate à fome. Não há mais.

Em menos de dois anos Temer, seus apoiadores (PSDB, PMDB, PP, PTB, Solidariedade, PPS, PSC, PSL, PSD, et caterva) e os golpistas, entre quais os batedores de panelas, os que se vestiram de verde e amarelo (uniforme CBF/Nike), alguns juízes, representados na figura de Sérgio Moro e vários procuradores, representados por Deltan Dallagnol, Carlos Fernando do Santos Lima, Roberson Henrique Pozzobon e Policiais Federais, representados nas figuras do delegado Márcio Adriano Anselmo, Igor Romário de Paula e Érica Marena, destruíram o Brasil e construíram o retorno da fome, que estava dando adeus a muita(o)s brasileiros.

Claro que não atuaram sozinhos, pois tiveram o apoio da mídia, principalmente da Rede Globo, e do capital internacional.

No mundo, uma das principais razões da fome é a guerra. No Brasil não há guerra, mas há uma elite egoísta que impõe politicas publicas destrutivas, como é o caso da Emenda Constitucional 95 (EC 95), que congelou o orçamento da área social por 20 anos.

Assim que aprovou esta EC, várias entidades brasileiras e a própria FAO, organismo da Organização das Nações Unidas (ONU) para a agricultura e alimentação, fizeram um alerta: o Brasil pode retornar ao Mapa da Fome.

O Brasil é signatário dos “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)” que tem como segunda meta acabar com a fome e a subnutrição até 2030. Mantido o golpe, não atingirá este objetivo.

A ‘ponte para o futuro’ dos golpistas é um engodo, ela faz a curva e nos leva 20 anos atrás. No período de 1997 a 2017, o gasto primário (onde estão incluídos os investimentos sociais) do governo central passou de 14% para 19% do PIB.

Com a EC 95, nos próximos 20 anos (2017 a 2037), se o Brasil crescer na média de 2% ao ano, os investimentos vão retroceder a 14% do PIB e, com eles, voltaremos a ter todos os problemas sociais, inclusive a fome.

No Brasil dos golpistas é que surge um tipo Dória, oferecendo a Farinata (aquilo que não comem), um tipo Rafael Greca, prefeito de Curitiba (cidade em que vivo), que vomita ao sentir o cheiro de pobre.

Sob a égide do capital, a fome continuará existindo, até porque ela é necessária para o lucro do capital.

*Dr. Rosinha é presidente do diretório estadual do PT no Paraná.

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