
Carta aberta a Vladimir Safatle
de Antônio David, via e-mail
Vladimir,
Não foi com surpresa que recebi seu e-mail, alguns dias depois de ter publicado um artigo no qual dirigi críticas a você.
Caro,
Dentro de um debate honesto e respeitoso (como você já fez outras vezes), poderia discutir sua colocações e discordâncias, mas chamar-me de integralista é algo de vil, baixo e que não merece resposta alguma. Peço que, por favor, tire-me de sua lista de e-mails.
Sem mais,
Vladimir
Obviamente, a última frase não interessa a ninguém. Se você tivesse limitado-se a ela, não haveria razão alguma para essa carta ser escrita. O que interessa é a primeira frase: “Dentro de um debate honesto e respeitoso (como você já fez outras vezes), poderia discutir sua colocações e discordâncias, mas chamar-me de integralista é algo de vil, baixo e que não merece resposta alguma”.
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Em primeiro lugar, vil e baixo é responder privadamente a uma crítica que lhe foi feita publicamente.
Teria sido digno de sua parte ter escrito uma nota para o Viomundo. Ou, uma vez que minha crítica “não merece resposta alguma”, ao invés de responder (!) privadamente, talvez o melhor fosse fazer como você sempre fez no nosso debate honesto e respeitoso: silenciar.
Em segundo lugar, se você tem realmente interesse em debates honestos e respeitosos, penso que caberia ler com mais cuidado as críticas que lhe são dirigidas.
O que eu disse é que o discurso integralista é um caso exemplar de uma forma autoritária de pensar que opera com pontos fixos, externos ao pensamento, aos quais o pensar deve se subjulgar.
Isso foi o que eu disse no artigo. O que eu não disse é que, quando Marilena Chaui analisou o discurso integralista, ela constatou que essa mesma forma autoritária de pensar está presente não apenas entre os integralistas, mas também entre liberais e socialistas. Portanto, você não deveria se surpreender com a crítica.
(Desnecessário dizer que o que eu escrevo em meus artigos é de minha responsabilidade).
Eu não o “chamei de” integralista. Não tenho interesse em chamar ninguém de nada. Meu interesse é criticar ideias. Portanto, quando você diz que eu o “chamei de” integralista, além de dizer uma inverdade, no fundo você está apresentando um pretexto para não discutir a crítica que lhe foi feita. Está fugindo do assunto.
Não precisaria de pretextos. Bastaria silenciar.
Em terceiro lugar, como você dessa vez resolveu não silenciar, mas responder – e da pior forma –, penso ser o caso de reiterar o núcleo da crítica, que você ignorou em sua resposta.
Ao trabalhar com pontos fixos, tomados como verdades de antemão, verdades tão autoevidentes que sequer necessitam ser examinadas, seu discurso cumpre o papel de interditar a reflexão e bloquear o debate.
Pois, quem parte do pressuposto de que é necessário construir algo “realmente novo e diferente” (seja lá o que isso signifique) – esvaziando o caráter problemático da construção para, em seu lugar, introduzir um mero slogan –, de que a estratégia em vigor merece uma “rejeição clara” – esvaziando toda a contradição e com isso igualando-se àqueles que defendem uma aceitação total e acrítica dessa mesma estratégia –, e de que todo o impasse atual se resume à “falta de coragem” – esvaziando o debate mesmo sobre estratégia, seja qual for o ponto de vista, pois o próprio ato de pensar a estratégia passa a ser supérfluo e até mesmo inútil –, só pode chegar a uma única conclusão: não há reflexão a fazer, não há o que debater.
Há quem seja contra toda forma de propaganda, vendo na propaganda apenas um instrumento de emburrecimento. Eu não sou contra a propaganda por princípio. Mas quando a propaganda coloniza o pensamento, quando o pensar é instrumentalizado e tem como único objetivo persuadir, quando o que se faz é reafirmar e repetir algo para um público específico, já convencido, quando o pensar cede lugar a um discurso que na prática apenas serve para coesionar, não há pensamento algum.
Ao cumprir o papel de formular um discurso coesionador, saiba que você contribui para reforçar as “estruturas dirigistas, hierárquicas, hegemonistas e centralizadas” que você pretensamente quer combater. Afinal, um exército persuadido não pensa, apenas obedece.
Em suma, existe um problema a ser enfrentando pela esquerda no seu conjunto. Esse problema chama-se estratégia. Seu discurso, meu caro, interdita a reflexão e o debate sobre esse problema.
Essa é a crítica. Como você pode ver, trata-se de uma crítica às suas ideias. Não tenho problema algum em ser criticado. Ao contrário. Caso você queira ainda responder, apenas peço que não invente pretextos: responda à crítica que lhe foi feita. E, por favor, responda publicamente. Caso, no entanto, você prefira, como de praxe, silenciar, estamos acertados.
Antônio David
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