VIOMUNDO

Diário da Resistência


Nasser: Revolta da rua árabe vai chegar ao solo europeu
Foto Revista Fórum
Retratos

Nasser: Revolta da rua árabe vai chegar ao solo europeu


14/03/2011 - 13h18

por  Manuela Azenha

O professor Reginaldo Nasser, mestre em Ciência Política pela UNICAMP e doutor em Ciências Sociais pela PUC (SP), tem opiniões que vão contra o “senso comum”, quando se trata das revoluções no Oriente Médio e no norte da África. Ele acha que a alta do preço do petróleo é mero movimento especulativo, já que todos os envolvidos nas revoltas querem preservar o petróleo como sua principal fonte de renda.

Ele acredita que a revolta vai provocar mudanças nas lideranças de Israel, mas também do movimento palestino.

E que o Irã, ao contrário do que muitos comentaristas tem escrito, pode sair perdedor deste período de turbulências.

Publicamos agora a terceira e última parte da entrevista. Para quem não leu, faz mais sentido no contexto geral das partes anteriores.

Manuela– E com esses aliados dos EUA e de Isarel caindo, qual é a implicação para o Irã?

Reginaldo Nasser
– Tem muita gente dizendo que o Irã ganha, mas eu acho que o Irã perde. O Irã está perdendo porque o Ahmadinejad só fica bem num ambiente com radicalização.

Ele se vira bem porque ele afere benefícios disso. Nesse ambiente sem radicalização, ele não tem o que dizer. Ele está tentando desesperadamente capitalizar esses movimentos.

Ele ganharia quando tinham as oposições porque ele dizia lá dentro do Irã, que o Mubarak é um vendido para os Estados Unidos e ele estava certo. Dizia que Isarel queria atacá-lo e era verdade.

Ele vai começar a perder o apoio interno. Ele tem muito apoio popular mas de influência política na região ele perde.

O bin Laden nem se diga, Netanyahu, neoconservadores, estão perdendo. O Iraque, semana passada teve um movimento igualzinho ao da Líbia. Foram mortos dezenas de civis desarmados.

As notícias que vem do Iraque ou são de bomba dos EUA ou de bomba de atentado. Era uma movimentação pacífica e foram reprimidos e mortos.

Se não tivesse havido a invasão, com certeza iriam derrubar o Saddam Hussein agora, sem matar 200 mil pessoas. E os manifestantes não querem ajuda estrangeira.

Materialmente até, tudo bem, mas simbolicamente a ajuda estrangeira é muito ruim. Só serve para não ter assimetria, os caras tem avião supersônico e nós não temos nada. Então tira a zona aérea que nós resolvemos aqui.  Isso é a melhor coisa, é uma das coisas mais importantes que tem.

Manuela – Na Líbia, diferentemente do Egito e da Tunísia, eles carecem de instituições fortes devido à centralização do Gadaffi, instituições que ajudaram a conduzir o processo de transição no Egito e na Tunísia. Como isso vai se resolver na Líbia?

Nasser – Vai ser mais complicado. Mas em Benghazi e na Cirenaica, eles poderiam muito bem ter declarado a independência de Cirenaica e eles não fizeram isso.

Mal comparando com o que já existiu na Europa, nos Bálcãs, eles não fizeram porque eles estão pensando na Líbia. A intencionalidade dos manifestantes é de união.

Terão dificuldade institucionais, é verdade, mas não na intenção. Estão levantando a bandeira da Líbia. Até o momento, não está aparecendo em nenhum lugar nenhum movimento de separatismo.

Isso é muito importante. Muita gente confunde isso com pan arabismo. Isso é da década de 60 e foi entre governantes.

Eu estou falando da rua árabe. É legal porque o Egito fez referência à Tunísia, a Líbia faz ao Egito. Isso é complicado para os EUA .

O [Anuar] Sadat que precedeu ele [Mubarak, no Egito], quando fez o acordo com Israel, que tem a foto com o Jimmy Carter espalhada pelo mundo como momento de paz, foi momento de problema dentro do Oriente Médio, porque ele disse: eu assino o acordo de paz e o resto que se vire, isolando o movimento dos palestinos.

O Egito era o líder do pan arabismo. Israel vai devolver o Sinai [ao Egito], vamos viver bem com Israel, a Síria que se dane, Jordânia que se dane. E depois um a um, foram fazendo suas partes sem essa, conexão então ficou um despropósito.

Os governos se separaram e restou a rua árabe. O Zogby, instituto de pesquisa dos EUA, mostra que a questão palestina e árabe é um problema interno, da rua árabe.

Não tem essa ideia de esquecimento na rua árabe e é essa rua que está trazendo as coisas de novo. Os governantes se venderam, as elites se venderam.

É tudo hipocrisia que alguém ajudou os palestinos, ninguém ajudou em absolutamente nada.

Manuela– E a questão das migrações, como vai se resolver?

Nasser – Quando começou essa rebelião, o Ahmadinejad falou: vai alastrar e vai para a Europa. Ele sabe do que está falando. O problema do europeu não é com o petróleo, é com a migração.

Disso eles estão morrendo de medo. O problema se alargou por causa da migração. A Europa está um caldeirão, um barril de pólvora, vai explodir.

Cresce a direita, aumenta a repressão aos migrantes e vai crescendo a rejeição e a xenofobia. No caso da França, os filhos dos argelinos são mais radicais do que os pais que nasceram na Argélia.

Eles sentem a rejeição da sociedade a reagem a isso. Chamam essa questão da migração de crise humanitária.

Crise humanitária é o que tem em vários países da África. Eles chamam de crise humanitária quando vai para a Europa.

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



11 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Guardian: Os imigrantes que morreram no mar | Viomundo - O que você não vê na mídia

09 de maio de 2011 às 12h28

[…] aqui o alerta que o professor Reginaldo Nasser fez, em entrevista ao Viomundo: Revolta da rua árabe vai chegar ao solo europeu […]

Responder

Bonifa

14 de março de 2011 às 23h44

Na formulação da pergunta: "Na Líbia, diferentemente do Egito e da Tunísia, eles carecem de instituições fortes devido à centralização do Gadaffi, instituições que ajudaram a conduzir o processo de transição no Egito e na Tunísia…" Não é bem assim. As instituições modernas são dificílimas de serem implantadas na Líbia por causa da estrutura tribal do país. No Iraque, o partido Baath destruiu as estruturas tribais a ferro e fogo e implantou o estado laico, mesmo com uma ditadura feroz. No Afeganistão as estruturas tribais resistem à implantação de uma suposta democracia ainda incompreensível para a população. Na Líbia o regime de Kadafi também lutou contra a estrutura tribal e terminou por reduzir em muito o poder dos chefes de tribos. É difícil para a cabeça ocidental compreender países como estes. Agora, a aspiração da liberdade democrática e da modernidade estavam presentes no início das manifestações da juventude líbia. Havia o slogan: "Abaixo a mentalidade tribal". Mas com a evolução dos acontecimentos, a rebelião parece ter-se tornado a luta de uma confederação de tribos contra outra confederação, que apoia Kadafi. A guerra deixou de ser a manifestação da exigência de democracia e modernidade.

Responder

Alexei

14 de março de 2011 às 23h36

O Irã sai é ganhando.
No Bahrein os xiitas ganharam força, assim como no Líbano, e com a lista de inimigos dos EUA aumentando, e de aliados diminuindo, a pressão sobre o irã também diminui. Tudo isso favorece a pérsia. Acho que o que o entrevistado quis dizer é que o Ahmadinejad é que sai perdendo, e isso me parece uma interessante verdade. Parte do seu apoio pessoal está baseado na força brutal dos inimigos do seu país. Radicalismo sempre atrai radicalismo, enquanto que moderação atrai moderação. Não vejo no horizonte queda de regime na pérsia, mas com um mundo árabe democrático o Irã tenderá naturalmente a uma rota mais moderada, o que é bom para todo mundo.
E viva a democracia.

Responder

Beto_W

14 de março de 2011 às 17h52

Gostaria de acreditar em Nasser no tocante a suas previsões para os conflitos no Oriente Médio. Gostaria de acreditar que a direita israelense de Netanyahu e companhia vá se enfraquecer, assim como o apoio a Ahmadinejad, e que surgirão novas lideranças dispostas ao diálogo.

Mas não acredito tanto assim na bondade humana, acho que veremos mais do mesmo. Existem muitas forças nesse jogo às quais interessa manter o conflito. E elas estão constantemente agindo para manter o fogo aceso…

Responder

    Alexei

    14 de março de 2011 às 23h44

    Talvez você esteja certo, Beto.
    Mas faço duas ressalvas. 1) O mundo, sem sombra de dúvida, está mudando nos mais variados aspectos, e nunca mudou tanto e tão rapidamente quanto no período recente da história. É, portanto, razoavel duvidar que o futuro seja igual ao passado. 2) Acreditar que a mudança é possivel ajuda a concretizar essa mesma mudança.

    Abraços

Luiz Albuquerque

14 de março de 2011 às 16h21

excelente entrevista e excelente entrevistado.
Vejam outras matérias sobre o Irã e a Líbia no Observatório de Relações Internacionais
Irã: http://neccint.wordpress.com/tag/ira/
Líbia http://neccint.wordpress.com/?s=L%C3%ADbia
Abraços,
Luiz Albuquerque

Responder

dukrai

14 de março de 2011 às 15h46

como o Irã sai perdendo, se os sionistas "queriam atacá-lo e era verdade", só faltava marcar a hora dos bombardeios das suas instalações nucleares com permissão explícita, implícita ou negaceios barakianos. Derrubar os ditadores aliados dos EUA neutralizou os sionistas e foi a maior conquista do movimento árabe, e por tabela do Irã, deixando Netanyahu e os conservadores com os rabichos de molho, pseudo-machos com diarréia histérica escondidos atrás de 200 bombas nucleares que nada valem para fazer valer tratados e alianças caducos.
A oposição no Irã foi derrotada no tapa e na bola, apanharam na estratégia civil-militar e eleitoral e estão na UTI, de onde só devem sair se o Armadinerrá fizer muita lambança e não aposto um real nisto.

Responder

    Heitor Rodrigues

    14 de março de 2011 às 16h45

    Concordo contigo. O Irã estava encurralado nas cordas e a rua árabe permitiu que o país respirasse. A diferença entre os persas e os árabes é que, no Irã, o regime é formalmente democrático mas os teocratas o controlam. Não creio que este tenha sido o objetivo inicial da Revolução comandada pelo Aiatolah Komeini. É possível que o porre de liberdade após a queda do Xá tenha alertado os clérigos sobre a necessidade de um regime forte, o suficiente para impedir a importação de golpes de estado via Reino Unido e EUA, como aconteceu em 1953.
    Um Oriente Médio novo e democrático não deixará de vender petróleo para o Ocidente, mas o fará considerando os interesses dos povos árabes. É claro que isto é intolerável para o imperialismo, mas uma solução final – ao menos hoje – parece inaceitável, e o Irã também será beneficiado. Sem as ameaças de invasão por Israel e EUA, a rigidez clerical do regime restará obsoleta, e mudanças serão inevitáveis.
    Minha bola de cristal só permite ver até aqui. Daí prá frente, que Alah proteja os árabes, são os meus votos.

    Bonifa

    14 de março de 2011 às 23h48

    Uma solução final parece ser inaceitável, mas não podemos esquecer que em matéria de loucura os líderes 'ocidentais' são dez vezes mais loucos que Ahmadinejad.

Scan

14 de março de 2011 às 15h40

E-X-C-E-L-E-N-T-E!
Pasme! Eu te asseguro que o autor é muito mais competente pra falar do assunto do que a gurú da informação, Miriam Leitão!
Hahahahaha! :)
Parabéns Azenha. É sempre bom ouvir quem entende ao invés das "otoridades" contratadas pelo PIG que mal sabem assinar o nome.

Responder

NELSON NISENBAUM

14 de março de 2011 às 14h50

Parabéns ao meu querido colega de Santa Casa (até o quarto ano!), que mudou de carreira, e agora "tá mandando"! Brilhantes entrevistas.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Loja
Compre aqui
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação e traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.