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Diário da Resistência


Kaline Fávero: As doenças respiratórias e o uso de agrotóxicos
Lucas do Rio Verde. Foto Wikipedia
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Kaline Fávero: As doenças respiratórias e o uso de agrotóxicos


10/05/2011 - 01h10

por Manuela Azenha, em Mato Grosso

Resultados de uma pesquisa feita em Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, servem de alerta: o número de internações de crianças por problemas respiratórios na cidade é, proporcionalmente, muito maior que em São Paulo, uma das cidades mais poluídas do país.

Só novos estudos poderão confirmar se, de fato, isso se deve a uma peculiaridade local: o uso intensivo de agrotóxicos.

Orientada pelo professor Vanderlei Pignati, do núcleo de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), a mestranda Kaline Aires de Souza Fávero apresentou a conclusão da tese de mestrado em abril passado.

Os dados acendem o sinal de alerta: o número de internações de crianças de menos de 5 anos de idade em Lucas é cinco vezes maior que o de São Paulo, proporcionalmente, e 39% superior à média de Mato Grosso.

Notória produtora agroindustrial, Lucas do Rio Verde tem sido alvo de uma série de pesquisas após sofrer um acidente ampliado de contaminação por pulverização aérea. O trabalho é inédito no Brasil.

Manuela – O que a pesquisa apontou?

Kaline Aires de Souza Fávero – Fazendo as análises com os dados que nós tinhamos, que era o número de internações por doenças respiratórias dessas crianças, a gente verificou que teve associação com o uso de agrotóxicos no período de 1 a 3 meses após o uso dessas susbstâncias.

Manuela – Quantas crianças foram examinadas e quais foram os sintomas?

Kaline – A gente não verificou sintoma por sintoma, usamos dados secundários do sistema online Datasus. Não fomos a campo pegar os dados primários, que são entrevistas. Com o que tinha no sistema do SUS, calculamos e fizemos as análises estatísticas, por regressão e correlação, que são as análises indicadas para calcular isso. Mas eu não sei te falar agora qual o número exato de crianças pesquisadas, porque foi no período de 2004 a 2009.

Manuela– Vocês foram atrás de quais sintomas no sistema Datasus?

Kaline – Não fomos atrás de sintomas. No sistema Datasus, tem o número de crianças que foram internadas por doenças respiratórias. São classificadas pelo capítulo 10 do CID (Classificação Internacional de Doenças).

O capítulo 10 envolve todas as doenças respiratórias. Então, se o médico colocou no prontuário que a criança tinha chiado no peito, tosse, ou qualquer doença classificada dentro do capítulo 10 do CID, foi notificado e nós utilizamos na pesquisa. No sistema Datasus, nós não temos acesso ao prontuário médico, só ao dado pronto.

Manuela – Como vocês associaram as doenças respiratórias ao uso de agrotóxicos?

Kaline – A gente observou a quantidade utilizada de agrotóxicos por ano no município. Por exemplo, pegamos uma quantidade X de agrotóxicos utilizados em cada mês de 2004 a 2009 e nós tínhamos uma quantidade por mês de internações no mesmo período, então fizemos análises estatísticas, através de programas estatísticos reconhecidos, e as contas são analisadas através do modelo de regersssão de Poisson e de correlação de Pearson.

Não são análises laboratoriais ou clínicas, são estatísticas. Não afirmam, mas supõem. Não posso te falar com certeza se as doenças respiratórias foram causadas por agrotóxicos. Os dados indicam que pode ter sido a causa. Inclusive, no final da minha pesquisa, recomendo que se faça mais pesquisas para confirmar o resultado, porque os dois anos de pesquisa foram um tempo curto demais para isso. Essa pesquisa era de mestrado e, portanto, tinha o prazo estipulado de duração: dois anos.

Manuela – Existe um aumento da incidência de doenças respiratórias durante os anos pesquisados?

Kaline – De 2004 a 2009, esse número aumentou, sim. Até porque aumentou o número da produção, de área planatada, do uso de agrotóxico e consequentemente, o de internações por doenças respiratórias. A gente tentou ver se tinha alguma relação e, pela análise estatística, tem. Mas é preciso fazer estudos mais aprofundados para confirmar isso.

Manuela– Existem planos de continuidade dessa pesquisa?

Kaline – Sim. Mas a minha pesquisa é única no Brasil, não existe nenhuma outra pesquisa que associe doenças respiratórias com o uso de agrotóxicos. Então, a gente quer que outras pessoas também pesquisem isso, para não ficar uma pesquisa só minha. Até porque não é só em Lucas do Rio Verde que tem área plantada. O estado do Mato Grosso tem muitas outras cidades com características semelhantes.

Manuela– Quais foram as suas dificuldades no processo de pesquisa?

Kaline –  Queríamos ter utilizado os dados primários, os do prontuário do paciente, mas os prontuários não eram completos. Foi a maior dificuldade, porque seria melhor pegar as informações na fonte do que as já no sistema, que não estão disponiveis em detalhes para nós, pesquisadores. Eu cheguei a ir ao hospital consultar os prontuários, eram mais de 50 mil e não estavam digitalizados. Então, decidimos deixar de lado esses dados e utilizar os dados secundários do sistema.

Manuela– Por que essa relação entre doenças respiratórias e uso de agrotóxicos nunca foi estudada?

Kaline– Quando entrei no mestrado, escolhi essa área. Como eu sou fisioterapeuta, atendia muita criança com doença respiratória no município de Primavera do Leste. A princípio, a pesquisa seria feita lá, mas meu orientador, o professor Pignati, já tinha o grupo de pesquisa em Lucas, cidade com características semelhantes. Em ambas, a distância entre as áreas urbana e rural é muito pequena. O clima de Primavera é muito bom, não é como em Cuiabá, que é muito seco e quente. Então, comecei a questionar se seria mesmo só por uma questão climática a incidência de doenças respiratórias.

Manuela–Que tipo de medida pode ser tomada a partir dos resultados apontados?

Kaline – O mais importante é ficar atento a isso. Não tenho pretensão nenhuma em dizer que não se deve usar agrotóxicos nas lavouras em Lucas. A minha pretensão é que os funcionarios da Saúde notifiquem as possíveis intoxicações, porque isso não acontece. Às vezes, a intoxicação é nitidamente por agrotóxico e isso não é notificado. Seria importante um conhecimento maior.

Quando é pelo clima, não tem o que fazer, mas quando for provocado pelo homem, será que não estamos utilizando agrotóxico demais? São dúvidas que surgem. Será que se está usando em excesso, será que está prejudicando a cidade, será que as lavouras estão muito proximas? Porque o maior número de pessoas era da cidade. A minoria era da zona rural.

O poder público tem que instituir programas de saúde e trabalhar com a questão dos agrotóxicos, limitar o uso exacerbado. É preciso ter profissionais da Saúde que se apliquem mais. Os prontuários mal preenchidos me fizeram desistir de usar dados primários. Isso ainda será passado para eles, é que ainda não fizemos a devolutiva para o município, porque defendi meu mestrado semana passada. Mas acho que é isso: crianças menores de cinco anos estão sofrendo, sendo internadas porque a cidade está sendo afetada. A cidade tem a vantagem da economia depender do agronegócio e a desvantagem dessa atividade trazer esses malefícios para a saúde.

Manuela – Por que os funcionarios não notificam as intoxicações?

Kaline – Acho que é por falta de treinamento. Não existe ainda uma política pública que ensine a reconhecer e notificar as intoxicações por agrotóxicos. Por que não existe esse treinamento, eu não sei dizer. Na minha pesquisa, a gente fez os cálculos e observamos que se compararmos o número de crianças internadas por doenças respiratórias em Lucas com o número em São Paulo, que é uma cidade conhecida pela alta poluição ambiental, em Lucas é cinco vezes maior, proporcionalmente.

E se comparamos com a taxa de internações em Mato Grosso, Lucas tem 39% a mais que o estado. Então, é muito elevada a taxa para um município pequeno, são aproximadamente 34 mil habitantes. Dizer que é só pelo clima? É preocupante.

Manuela – Qual era o perfil dessas crianças?

Kaline – É dificil traçar um perfil, já que os prontuários não eram completos. Não tinha a profissão dos pais, por exemplo. Eu queria dizer que essas pesquisas feitas em Lucas não são para, de maneira alguma, denegrir a imagem do município. Mas é que ele tem características muito fortes no estado. É o quinto maior produtor de grãos de Mato Grosso, é um municipio que está crescendo, e esse cresimento pode trazer coisas que não são tão boas. As pesquisas indicam que há alguma coisa errada.

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12 comentários

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Para capturar os votos que podem salvá-lo, Michel Temer está disposto a envenenar ainda mais o Brasil – JF Clipping

24 de julho de 2017 às 10h31

[…] O Viomundo já denunciou a alta incidência de doenças respiratórias em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, uma das capitais do agronegócio. […]

Responder

Wanderley Pignati: Uso abusivo de agrotóxicos está aumentando o câncer em todas as idades « Viomundo – O que você não vê na mídia

27 de novembro de 2012 às 00h52

[…] Kaline Fávero: As doenças respiratórias e o uso de agrotóxicos […]

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JOSE DANTAS

31 de maio de 2011 às 17h03

Seria bom que os brasileiros pintados de verde pela mídia, principalmente aqueles que pertencem as classes sociais menos favorecidas desse País, entrassem em alerta máximo para outro sinal muito mais sinistro que começa a mostrar a cara:

O Brasil está importando feijão preto da China e isso é um absurdo.

Ao combater o produtor rural e defender os biocombustíveis, que não poluem, o brasileiro comum, aquele que não recebe dinheiro de ONG nenhuma, estará contribuindo para que em breve além do feijão preto tenhamos que importar o restante dos produtos agrícolas que se consome por aqui.

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Washington Novaes: O terreno difícil dos agrotóxicos | Viomundo - O que você não vê na mídia

27 de maio de 2011 às 10h36

[…] Aqui para ler entrevista com a pesquisadora que investigou a relação entre agrotóxicos e doenças respiratórias. […]

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DCI: Os agrotóxicos no aquífero Guarani | Viomundo - O que você não vê na mídia

19 de maio de 2011 às 12h53

[…] Leia aqui sobre a pesquisa de Kaline Fávero a respeito da relação entre agrotóxicos e doenças r…   […]

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JotaCe

10 de maio de 2011 às 18h45

LUZES E SOMBRAS (1A)

Prezada Manuela,

Parabéns pelo teu trabalho. É de fato lastimável que, embora o uso de agrotóxicos seja uma constante no país, seu maior consumidor no mundo, e que conta com tantas universidades, só agora tal pesquisa tenha sido desenvolvida. A Universidade Federal de Mato Grosso, através de tão relevante e pioneiro trabalho, se identifica assim, e mais uma vez, com as grandes causas cidadãs, como a da saúde pública, por exemplo. (Cont.)

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JotaCe

10 de maio de 2011 às 18h44

LUZES E SOMBRA (1B)
E os resultados da pesquisa, apesar dos quase exagerados cuidados da autora, Kaline Fávero, em comentá-los, demonstram mesmo inconclusivos talvez pela forma em que ela os apresentou, como é grave o problema em Lucas do Rio Verde. Sugiro aqui a outros interessados do tema, também a leitura do trabalho intitulado ‘Exposures of children to organophosphate pesticides and their potential adverse health effects.’. (Os ‘organophosphate pesticides’ aqui conhecidos como organofosforados, integram a categoria mais comum de agrotóxicos empregados no Brasil). O trabalho, direto, claro, até no título, contém valiosas informações e é assinado pelos pesquisadores da Universidade da Califórnia (Berkeley), Eskenazi (Cont.)

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Mário SF Alves

10 de maio de 2011 às 18h36

A questão é: sendo o Brasil um país de dimensão continental – 8,5 milhões de Km² – e, tropicalíssimo, regado à energia solar durante o ano inteiro, porque a matriz tecnológica tem de ser TOTALMENTE a capitalista, também conhecida como agricultura de altos insumos?
Tá faltando o quê? Zoneamento agrícola? Vontade política? Um novo CONTRATO SOCIAL? Ou, tudo isso junto + o fim da ditadura econômica capitalista?

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JotaCe

10 de maio de 2011 às 18h35

LUZES E SOMBRAS (2)

B., Bradman A., e Castorina R. ([email protected]). Voltando à brasileira pesquisa, no meu entender não pode ser menosprezada a informação de que existe uma correlação positiva entre o uso deles no município e o das crianças portadoras de tais afecções. Nem os dados que dizem ser o percentual daquelas mesmas crianças 5 vezes maior, proporcionalmente, do que o de S. Paulo, cidade sabidamente poluída. Não menos singular e expressivo é o número assustador, mesmo incompleto, dos 50 mil prontuários de crianças internadas para uma população total e de todas as idades do município – cerca de 46 mil segundo o IBGE. A pesquisa insinua luz, mas implica certas dúvidas. Pode até se dizer que extrapolariam a natureza do trabalho, ou se justificam pelo tempo que levou a sua execução, mas é o caso de se perguntar: o que se passa realmente em Lucas do Rio Verde? Como têm suas autoridades se comportado face à indiscutível importância (Cont.)

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JotaCe

10 de maio de 2011 às 18h30

LUZES E SOMBRAS (3)
do assunto? Que outras pesquisas foram por elas desenvolvidas a respeito? Há, de fato, plena liberdade de pesquisas dessa ordem naquele município? Será o povo novamente iludido com o espetáculo circense da manipulação midiática de conhecidas empresas televisivas ou de autoridades municipais? Parece que, face a tamanhos despropósitos, tenhamos nós, simples cidadãos brasileiros, de cobrar diariamente que nossas autoridades cumpram o seu dever. E que participem, ao lado do povo, da busca pela solução de graves problemas que o afligem. Como o que assola a criançada de Lucas do Rio Verde o mesmo que, de resto, deve ser o de muitas regiões do país e que parece singularmente esquecido pela ANVISA no âmbito federal… Cordial abraço do,

JotaCe

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Alberto

10 de maio de 2011 às 17h28

Manuea, parabéns pelas pergunats de grande importância para a Saúde Pública que você fez a Kaline Fávero. Pelas respostas vimos da gravidade que uma pessoa leiga não pode supor. Alguém precisa tomar uma posição, o lado da defesa da saúde humana e do meio ambiente. E está passando da hora. Há muitos anos li um livro sobre os efeitos dos agrotóxicos na saúde humana. Era estarrecedor, até amimetização deles no organismo em hormônios, ora masculinizando, ora feminilizando embriões e fetos. Mais tarde vou procurrar lembrar o nome do livro, acho que era da LPM.

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