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Wilson Cano: Na guerra ao Estado nacional, alunos estão com o inimigo
Política

Wilson Cano: Na guerra ao Estado nacional, alunos estão com o inimigo


26/12/2015 - 00h59

Cano

Do Brasil Debate (reprodução parcial)

Qual foi o papel histórico da Petrobras na construção desse projeto nacional que você está descrevendo, que durou até meados dos anos 80?

Essas grandes estatais, como a Petrobras e a Eletrobras, foram peças fundamentais – mesmo no sentido político-econômico. A Petrobras, além de resolver nosso problema de petróleo, foi responsável pela implantação da indústria nacional de máquinas e equipamentos. Porque, a partir do momento em que se tomou a decisão de internalizar a produção petrolífera e as refinarias, principalmente as refinarias de petróleo, essas refinarias foram montadas.

Como? A Petrobras chamou aquelas indústrias – e muitas delas eram indústrias de fundo de quintal, eram empresas pequenas, empresas médias, que haviam sido geradas principalmente durante a Segunda Guerra Mundial – ela convocava esses empresários e passava todos os desenhos técnicos, plantas, condições, enfim, ela ensinou essa gente a produzir uma refinaria de petróleo.

E como as encomendas da Petrobras eram descomunais, muito grandes para a dimensão do nosso parque nacional de fabricação de máquinas e equipamentos, o peso dela na demanda nessas coisas era um peso extremamente importante. Como também a Eletrobras tem um peso no que tange a questão de material hidráulico e elétrico. A Petrobras teve isso, ela foi praticamente a geratriz dessa indústria nacional de máquinas e equipamentos.

A Petrobras também sempre teve uma importância simbólica, na construção de uma identidade nacional e na ideia de que o Brasil poderia ser um país moderno, um país avançado, mas hoje parece que a gente assiste a desconstrução desse imaginário.

Como o senhor vê essa tentativa de desconstrução da imagem da Petrobras?

Sempre se tentou fazer uma desconstrução da Petrobras, desde antes dela nascer. A luta que a direita desencadeou contra a tentativa de se implantar uma empresa estatal do petróleo foi muito grande e custou a vida de (Getúlio) Vargas. Essa que é a verdade. E se venceu aquilo graças a uma série de condições. Ou seja, entendo que o suicídio de Vargas em agosto de 1964 representou, na verdade, uma postergação. O ano de 54 poderia ter sido 64 com a implantação do golpe militar.

O suicídio do Vargas, como ele tinha um amplo apoio popular, o gesto dele, eu entendo, foi um gesto político que teve como consequência imediata empurrar a tentativa de um golpista mais à frente, que ocorreria então em 64. Esta luta do petróleo foi uma luta nacional e aqui nós tivemos não só os trabalhadores, estudantes, e um importante movimento militar nacionalista que defendeu intransigentemente a construção da Petrobras. Foi uma luta muito importante. A Petrobras não só é importante por esse lado político da economia, como também pelo lado material no sentido de estimular, induzir o desenvolvimento de produção de setores complexos de máquinas e equipamentos.

A Petrobras pode liderar uma estratégia de política industrial?

Sem dúvida. Tem uma química fina, química básica que você tem que desenvolver, que você não desenvolveu ainda. Nós estamos engatinhando em fármacos; nós somos grandes importadores de fármacos, por exemplo. Então, todo esse setor da química fina é um setor que ainda não está ocupado, mas ocupado por importações, basicamente. Hoje, nós somos grandes importadores de produtos químicos; perdemos, inclusive, a concorrência em vários segmentos da indústria química.

Então, esse lado da química é um lado estratégico fundamental, que está sendo paralisado. Houve um grande avanço nos anos 70, começo de 80, depois ficou congelado; ficou mais no caso na extração do petróleo do que refino, mas o desenvolvimento subsequente que se daria, que estava pensado no Proálcool, se tinha projeto de desenvolver um alcoolquímica, era um projeto menor que na verdade naufragou, mas você tem esses flancos importantíssimos do setor industrial que não estão completos ainda.

A Petrobras passou a viver uma nova fase na história com a descoberta do Pré-sal. Tem toda uma discussão em torno de como explorar o Pré-sal. O governo optou por um regime de partilha em detrimento, de um lado, da concessão, e de outro lado da operação 100% Petrobras. Como o senhor vê tudo isso e a tentativa, hoje, de mudança do regime de partilha para um regime de concessão?

A tentativa de mudança é uma tentativa de mudança entreguista, claramente entreguista. Há diversos projetos, mas o que mais transpareceu foi o projeto Serra. É um projeto entreguista, porque evidentemente você tem a Petrobras além da questão fiscal e financeira. Petrobras é capaz em regime de preços normais – não agora com barril de petróleo a 40 dólares – de gerar um excedente financeiro e fiscal enormes. E o Brasil tem a vantagem de que ele teria esse petróleo, ter todas essas condições de ser um grande produtor de petróleo, mas não a de ser um país petroleiro. E o que é um país petroleiro? Um país petroleiro é um país que tem o petróleo, uma riqueza monumental, mas que essa é a sua riqueza.

Veja a desgraça da Venezuela. A Venezuela é um país petroleiro; 75% das exportações: petróleo. 75% da receita fiscal do Estado: petróleo. 25% do PIB: petróleo, 2% do emprego: petróleo. Veja o abismo que tem, e não é só isso, porque essa dimensão fiscal do petróleo nesses países é extremamente complicada ao se fazer a gestão da política econômica. Enquanto você tem um barril a 100 dólares você tem uma receita fiscal compatível com 100 dólares, mas na hora que esse barril para 50, a receita fiscal também cai pela metade. E aí o que você faz? Fecha escola, fecha hospital, o que é que você faz para continuar administrando o país?

Então, é um pandemônio, é um negócio complicadíssimo. Nós não teríamos esse problema, inclusive, caso o excedente financeiro gerado pela Petrobras fosse muito grande com o Pré-sal, já, inclusive, se dispunham de formas e criações de instituições de fundo soberano que permitiriam contornar essa questão das oscilações do preço internacional do petróleo. Teríamos, então, uma fonte geradora de importantíssimo excedente, que poderia restaurar a parte da capacidade de geração de investimentos.

A Petrobras, hoje, vive um momento muito crítico e a reação da presidência da Petrobras é de uma venda enorme de ativos e de uma reestruturação da empresa; de mandar embora terceirizados e, diante disso, o Sindipetro e os petroleiros, de uma forma em geral, se posicionaram com uma greve, cuja pauta não é a pauta de sempre, que costuma ser a pauta salarial, mas uma pauta em defesa da Petrobras. Tem a frase “Defender a Petrobras é defender o Brasil”. Como o senhor vê esse movimento?

Acho muito saudável porque estamos vivendo um mar revolto do neoliberalismo terrível. O neoliberalismo é uma coisa extremamente contagiante e contaminou a sociedade, a mídia, a opinião pública e você tem hoje uma sala de aula de jovens de 20 anos que são conservadores. Se você tivesse numa sala com alunos de 40 anos e a maioria fosse conservador é uma coisa, tem uma certa plausibilidade, agora você encontrar uma turma com jovens de 20 anos de idade conservadores, isso é terrível porque você não vê futuro neles.

E a condução política, o pensamento político desses jovens mais tarde vai ser o pior possível. Ou seja, vai ser uma máquina decididamente conservadora e nada de nacional, porque o neoliberalismo desnacionaliza.

Ou seja, todo conjunto de política, privatizações, abertura comercial e financeira etc. é uma guerra declarada ao Estado nacional. Não porque os americanos gostem de lidar com o Estado nacional dos outros, mas é que o capitalismo na forma como ele chegou nos anos 80 e 90 exige a abertura de toda e qualquer fronteira para ele poder realmente realizar a sua valorização internacional. Se você não tivesse cometido essas aberturas decorrentes do Consenso de Washington, a crise de 2007, 2008 não teria sido uma crise estupenda, uma catástrofe; teria sido muito menor.

PS do Viomundo: O processo de inserção soberana do Brasil no mundo já era. Precisávamos de um consenso interno semelhante ao que houve no Japão, na Coreia, na China e na Índia. Um a um os peões vão caindo. Eletrobras, Petrobras, o domínio de empresas estrangeiras sobre as terras e os insumos, o controle das usinas de produção de álcool, o acesso aos recursos minerais…

Leia também:

Rita Dias: Como o governo Dilma está matando a Eletrobras



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10 comentários

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Nelson

27 de dezembro de 2015 às 23h05

“Não porque os americanos gostem de lidar com o Estado nacional dos outros, mas é que o capitalismo na forma como ele chegou nos anos 80 e 90 exige a abertura de toda e qualquer fronteira para ele poder realmente realizar a sua valorização internacional.”

Aqui, tenho que discordar do professor. As inúmeras intervenções que o Sistema de Poder que domina os EUA perpetraram em outros países bem antes dos anos 80 e 90 mostram que, sim, eles gostam “de lidar com o Estado nacional dos outros”.

E o comunismo nunca foi o problema principal, mas um instrumental conveniente para justificar as intervenções imperialistas. O problema sempre foi a tendência dos povos em quererem seguir caminhos mais autônomos, soberanos.

Então, o Sistema citado tinha que “lidar com o Estado nacional” cujo governo estava seguindo o caminho errado, o rumo não recomendado. Se esse governo não corrigisse a rota, seria, mais cedo ou mais tarde, derrubado.

Responder

    Nelson

    28 de dezembro de 2015 às 22h39

    Errata

    Onde você leu “As inúmeras intervenções que o Sistema de Poder que domina os EUA perpetraram em outros países (…)”, o correto é, por concordância de número, “As inúmeras intervenções que o Sistema de Poder que domina os EUA perpetrou (…)

Nelson

27 de dezembro de 2015 às 22h58

“todo conjunto de política, privatizações, abertura comercial e financeira etc. é uma guerra declarada ao Estado nacional”.

É geopolítica e geoestratégia, meu camarada. Para os que insistem em acreditar que a candura e a amabilidade permeiam as relações entre as nações.

Responder

FrancoAtirador

27 de dezembro de 2015 às 14h18 Responder

FrancoAtirador

27 de dezembro de 2015 às 10h04

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A Verdade é que, na América do Sul, a Hillary venceu a Guerra da Informação:
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(https://www.rt.com/news/information-war-media-us)
(http://ribaroli.blogspot.com.br/2014/03/os-misseis-da-midia-que-criam.html)
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FrancoAtirador

26 de dezembro de 2015 às 14h33

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Mírense en el Ejemplo de Aquella Juventud de La Puerta del Sol.
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Esquerda Jovem Espanhola já é a 1ª Força Eleitoral
na Catalunha e no País Basco, e a 2ª em Madri.
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(https://es.wikipedia.org/wiki/Anexo:Resultados_electorales_de_Podemos#Elecciones_generales_de_2015)
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