VIOMUNDO

Diário da Resistência


Vladimir Safatle: Os impasses do lulismo
Política

Vladimir Safatle: Os impasses do lulismo


07/01/2013 - 11h12

por Vladimir Safatle, em CartaCapital

O governo Dilma alcançou a metade de seu mandato. Eis um bom momento para colocar questões a respeito dos rumos que o Brasil tomou desde o primeiro governo Lula. Rumos próprios à mais longa experiência de continuidade programática dos períodos democráticos.

Há tempos, procuramos o tom adequado para avaliações dessa natureza. A experiência do PT no poder suscita reações muito apaixonadas e pouco analíticas. Por um lado, vemos aqueles que não se cansam de assumir um tom laudatório, insistindo na genialidade política de Lula, no novo protagonismo brasileiro na cena internacional, no caráter bem-sucedido de seu “capitalismo de Estado” e na inegável constituição de uma nova classe média. Por outro, temos a negação absoluta na qual as conquistas do governo seriam meros fenômenos “naturais” advindos de decisões tomadas por governos anteriores, as negociações políticas teriam alcançado um nível de corrupção “nunca visto”, assim como o aparelhamento do Estado. Tais análises usam, na maioria das vezes, esquemas liberais que, em plena crise econômica global, continuam a ver o Estado como “mau gerente” (como se empresas como Citibank, Lehman Brothers e GM, salvas pelo Estado, fossem bem gerenciadas) e ter uma perspectiva, no mínimo, seletiva a respeito das indignações causadas pela corrupção.

Essas avaliações parciais nos impedem de tentar compreender o modelo representado por aquilo que o cientista político André Singer chamou de “lulismo” com seus resultados concretos e suas limitações. Compreendê-lo é tarefa importante neste momento, porque talvez estejamos assistindo, com o governo Dilma, ao esgotamento do lulismo. Um esgotamento cujo sintoma mais evidente é o fato de Dilma Rousseff parecer encaminhar-se para ser a gerente de um lulismo de baixo crescimento.

Talvez a pergunta que mais se coloque atualmente é: o que significam esses dois últimos anos de baixo crescimento? Um erro de dosagem nas políticas macroeconômicas, uma inflexão sem maiores significados resultante do mau cenário internacional ou a prova de que o modelo em vigor no panorama brasileiro chegou a um impasse?

Sabemos o que foi o acordo que produziu o lulismo. Ele consistiu na transformação do Estado em indutor de processos de ascensão por meio da consolidação de sistemas de proteção social, do aumento real do salário mínimo e incentivo ao consumo. Na outra ponta do processo, o governo Lula autocompreendeu-se como estimulador da reconstrução do empresariado nacional em seus desejos de globalização. Para tanto, a função do BNDES como grande financiador do capitalismo nacional consolidou-se de vez.

No campo político, o lulismo baseou-se, por um lado, na transformação de grandes alianças heteróclitas em única condição possível de “governabilidade”, retirando da pauta dos debates políticos toda e qualquer modificação estrutural nos modos de gestão do poder. Ele ainda referendou um modo de gestão de conflitos políticos que encontra suas raízes brasileiras na Era Vargas. Trata-se da transposição dos conflitos entre setores da sociedade civil para o interior do Estado. Assim, durante o governo Lula, o conflito entre os monetaristas e desenvolvimentistas encontrou guarida na briga entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. A luta entre ruralistas e ecologistas incrustou-se nos embates entre o Ministério da Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente. Do mesmo modo, as querelas entre os militares e os defensores dos direitos humanos expressaram-se na colisão entre o Ministério da Defesa e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

O que seria, em situações normais, sintoma de esquizofrenia política foi, graças à posição de Lula como “mediador universal”, uma oportunidade para o governo “ganhar em todos os tabuleiros”, sendo, ao mesmo tempo, o governo e sua própria oposição. Assim, por “fagocitose de posições” o governo Lula conseguiu o feito de esvaziar tanto as oposições à direita quanto à esquerda. Contribuiu para isso a inanição intelectual completa da oposição à direita (PSDB, DEM e PPS) com seus acordos tácitos com os setores mais atrasados do debate de costumes e suas cruzadas moralizadoras feitas por frequentadores de escândalos de corrupção.

Mas como o governo Dilma administrou tal nova situação? No plano econômico, tudo se passou como se o governo acreditasse que a continuidade bastasse. No entanto, a despeito dos avanços ligados à ascensão social de uma nova classe média, o Brasil continuava um país de níveis brutais de desigualdade. Por isso, seu crescimento só poderia trazer problemas como os que vemos em outros países emergentes de rápido crescimento (como Rússia, Angola etc.).

Como uma larga parcela da nova riqueza circula pelas mãos de um grupo bastante restrito com demandas de consumo cada vez mais ostentatórias, como o governo foi incapaz de modificar tal situação por meio de uma rigorosa política de impostos sobre a renda (impostos sobre grandes fortunas, sobre consumo conspícuo, sobre herança etc.), criou-se uma situação na qual a parcela mais rica da população pressiona o custo de vida para cima. Não por acaso, entre as cidades mais caras do mundo encontramos atualmente: Luanda, Moscou e São Paulo. Ou seja, o governo parou de pensar a desigualdade como o problema central da sociedade brasileira.

Acrescenta-se a isso o fato de os salários brasileiros continuarem baixos e sem previsão de grandes modificações. A maioria absoluta dos novos empregos criados nos últimos dez anos tem salários de até um e meio salário mínimo. Uma opção para a melhoria dos salários seria a diminuição dos itens que devem ser pagos pelas famílias. Uma família da nova classe média brasileira deve gastar, porém, quase metade de seus rendimentos com educação e saúde privada. Se o governo tivesse um programa para a universalização da educação e saúde pública de qualidade, poderia contribuir, por meio do fortalecimento do serviço público, para a minimização dos efeitos perversos da desigualdade. Mas o governo Dilma será lembrado, em 2012, pela sua desconsideração soberana com os professores em greve por melhores condições de trabalho e infraestrutura. Diga-se de passagem, é notória a relação problemática do governo com os sindicatos.

Como se não bastasse, a política lulista de financiamento estatal do capitalismo nacional levou ao extremo as tendências monopolistas da economia brasileira. O capitalismo brasileiro é hoje um capitalismo monopolista de Estado, onde o Estado é o financiador dos processos de oligopolização e cartelização da economia. Exemplo pedagógico nesse sentido foi a incrível história da transformação do setor de frigoríficos em um monopólio no qual uma empresa comprou todas as demais se utilizando de dinheiro do BNDES. Em vez de impedir o processo de concentração, o Estado o estimulou. Como resultado, atualmente não há setor da economia (telefonia, aviação, produção de etanol etc.) que não seja controlado por cartéis, com seus serviços de péssima qualidade e seus preços extorsivos.

Ou seja, economistas pagos regiamente por bancos e consultorias entoam, de maneira infinita, o mantra do alto custo da produção por causa dos impostos, do alto custo da mão de obra em razão dos direitos trabalhistas e da intervenção estatal (como se esquecessem de que as nações que mais crescem, como China, Rússia e Índia, são países de forte intervenção estatal na economia). Melhor seria se eles se perguntassem sobre o impacto da desigualdade e dos processos de oligopolização no baixo crescimento brasileiro.

No plano político, a situação é também digna de profunda preocupação. Por não poder encarnar o papel de “mediadora universal”, Dilma optou por um governo com menos bipolaridade e mais centralizado. Com isso, selou-se de vez a incapacidade do governo em formular e discutir alternativas. Todos falam em uma única voz, mas ela não diz muito mais do que se espera na gestão cotidiana. Por isso, os quadros do governo são marcados por uma tendência a certo “gerencialismo”, onde grandes modificações saíram completamente do debate. Contribuiu para isso a trajetória do PT de afastamento definitivo dos núcleos de debate da sociedade civil (universidades, movimentos sociais etc.).

Essa saída de cena das grandes modificações encontra, na vida partidária brasileira, sua expressão mais bem-acabada. No governo Dilma consolidaram-se dois partidos que têm, como grande característica, não ter característica alguma. PSD e PSB são “partidos-curinga”, ou seja, podem estar em qualquer jogo, fazer qualquer tipo imaginável de alianças, até porque não representam, de maneira estruturada, setor algum da sociedade civil. Eles parecem indicar o futuro da política brasileira, isso enquanto não ocorrer uma radicalização paulatina dos extremos, talvez a única condição para que voltemos a pensar politicamente.

Leia também:

Rodrigo Vianna e a tese do fatiamento do PT

André Singer: Programa da esquerda é a Constituição de 88





39 comentários

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Vandirson

04 de março de 2014 às 11h57

O que Safatle idealiza é sonho pequeno burguês e usa um enrolation macroeconômico para a tal sociedade ideal com produtos tecnológicos de ultima geração, todos teríamos os mesmos ipads só que pasmem… de procedência nacional, tudo que a sociedade consumo quer é produzir… o grande problema como dividir, ao negar que o governo implementou uma política êxitos de emprega e renda, vem com criticas a reforma tributária ou taxar grande fortunas, a elite nacional já faz um estardalhaço(junto com psol, pstu…) quando o governo tem a coragem de mexer na política como a de juros, porque esse discurso é da ala financista nacional Pérsio Arida, Gustavo Franco e a trupe, apresentar criticas sobre o capitalismo de estado praticado por China, Rússia e Índia, falamos mil maravilhas do desenvolvimento desses paises, agora chega o coro dos descontentes faz uma omelete entre macroeconomia e reforma política, ta complicado conversar sério… entoar Charles anjo 45 é achar que tem tucano na favela, salve a esquerda aristocrata

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Izaías Almada: A síndrome Safatle/Dutra (I) « Viomundo – O que você não vê na mídia

09 de janeiro de 2013 às 00h10

[…] Vladimir Safatle: Os impasses do lulismo […]

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Zequinha

08 de janeiro de 2013 às 09h39

Pois é, também o senhor Fernando Henrique fazia misérias na economia que nem os artistas do Cirque du Soleil fariam melhor.

Responder

    abolicionista

    08 de janeiro de 2013 às 13h12

    Fazia trapalhadas que nem Chaplin conseguiria imitar.

Zezinho

08 de janeiro de 2013 às 07h46

Safatle esqueceu do PMDB como “partido curinga”.

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Isidoro Guedes

07 de janeiro de 2013 às 23h25

Safatle pode estar com a razão. Essa opção de Dilma pela postura de gerente e por não fazer política (mesmo tendo sido uma militante da esquerda armada nos “Anos de Chumbo” da ditadura militar) pode resultar no fortalecimento do conservadorismo ou de um (pseudo) progressismo de resultados no médio e longo prazos. Pois com o PSB se “endireitando” e o PSD (um partido camaleão e que diz não professar ideologia alguma – mas que na verdade está servindo de colchão aos desabrigados da direita) se fortalecendo, é o conservadorismo que ganha e braçada a braçada vai avançar no longo prazo.
Está, portanto, na hora do PT reavaliar o seu ainda necessário “pacto de governabilidade” e que caminhos trilhar para não entregar o ouro ao bandido sem que seus adversários (travestidos de aliados) façam muito esforço. Sem que o próprio lobo entre para o jantar sem precisar se fantasiar de cordeiro para o banquete.

Responder

Isidoro Guedes

07 de janeiro de 2013 às 23h24

Safatle pode estar com a razão. Essa opção de Dilma pela postura de gerente e por não fazer política (mesmo tendo sido uma militante da esquerda armada nos “Anos de Chumbo” da ditadura militar) pode resultar no fortalecimento do conservadorismo ou de um (pseudo) progressismo de resultados no médio e longo prazos. Pois com o PSB se “endireitando” e o PSD (um partido camaleão e que diz não professar ideologia alguma – mas que na verdade está servindo de colchão aos desabrigados da direita) se fortalecendo, é o conservadorismo que ganha e braçada a braçada vai avançar no longo prazo.
Está, portanto, na hora do PT reavaliar o seu ainda necessário “pacto de governabilidade” e que caminhos trilhar para não entregar o ouro ao bandido sem que seus adversários (travestidos de aliados) façam muito esforço. Sem que o próprio lobo entre para o jantar sem precisar se fantasiar de cordeiro.

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Mário SF Alves

07 de janeiro de 2013 às 22h40

Neste momento estou assistindo o Roda Viva. O entrevistado é o escritor e editor franco-americano André Schiffrin.
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Acabei de vê-lo referir-se a uma tal burguesia intelectual branca.
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André Schiffrin nasceu em 1935, em Paris, fala sobre o mercado editorial da atualidade de dá um panorama da literatura no mundo de hoje.

http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/transmissao

http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/transmissao

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    Mário SF Alves

    08 de janeiro de 2013 às 00h03

    E… detalhe, advinhem a qual País ele tinha por referência quando mencionou a tal burguesia intelectual branca?
    ________________________________
    Quase resposta: ele não se referia ao Brasil.

abolicionista

07 de janeiro de 2013 às 21h09

Acho que Vladimir comete um equívoco grave ao apostar na “radicalização paulatina dos extremos”. Isso pode ter dado certo na Europa em 68 e em países com uma cultura de participação democrática consolidada, mas não se aplica ao Brasil. Aqui a radicalização dos extremos serviu, no passado bastante recente, como desculpa para que as elites sepultassem com cimento e sangue o ideal de um país que superava seu atraso. Nossa democracia é um ideal a ser perseguido, não uma realidade. Vladimir precisa colocar os pés em nossa história, pensar “a partir do” e não apenas “sobre o” Brasil. É duro ter de dizer isso para quem é tão atacado pela direita retrógrada, mas não dá para entender o Brasil com a cartilha da Sorbonne. Nunca devemos subestimar o estrago social e político provocado por um sistema de produção e uma economia que, até o fim do século XIX, baseava-se no trabalho escravo. O Brasil é ainda um herdeiro da escravidão, e a cultura da desigualdade e do privilégio deitou raízes profundas em nossa sociedade, não é algo que se resolve num passe de mágica, e que pode tornar-se um passo pra trás.

Responder

FrancoAtirador

07 de janeiro de 2013 às 21h01

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Tag: MÍDIA BANDIDA

O “Lulismo” e os meios de comunicação

Apesar da inegável capacidade de Lula de estabelecer com as camadas populares uma relação profunda de identificação, o poder dos meios de comunicação na sociedade brasileira não foi minado.

Lula é percebido como alguém que ameaça, com sua estima popular e com suas possibilidades presidenciais até 2014, o status quo midiático brasileiro.

Destruir o capital político do ex-presidente, que havia crescido com o triunfo de seu candidato Fernando Haddad nas últimas eleições municipais, parece ser um objetivo visível.

Por Ariel Goldstein*, no Página/12, via Carta Maior (Tradução: Katarina Peixoto)

Buenos Aires – Num artigo recente, o historiador inglês Perry Anderson estabeleceu as diferenças entre a cobertura feita pela mídia internacional e a brasileira sobre o governo Lula, assim:

“Aquele cujas impressões a respeito de seu governo viessem da imprensa internacional teria um choque ao encontrar o tratamento dado a Lula nos meios de comunicação brasileiros. Praticamente desde o início, a The Economist e o Financial Times ronronaram satisfeitos com as políticas pró-mercado e com a concepção construtiva presidência de Lula (…). O leitor da Folha ou do Estadão, para não falar da Revista Veja, estava vivendo num mundo diferente. Normalmente, em suas colunas, o Brasil estava sendo governado por um grosso aspirante a caudilho, sem a menor compreensão dos princípios econômicos ou respeito pelas liberdades civis, uma ameaça permanente à democracia e à propriedade privada”.

Uma situação similar se produziu durante a recente visita da comitiva brasileira a França. Enquanto o ex-presidente estava junto da mandatária Dilma Rousseff, e o país era lembrado na capa do semanário francês Challenge como “Brasil, o país onde se precisa estar”, as declarações do empresário condenado por corrupção Marcos Valério sobre um suposto benefício de Lula do esquema do Mensalão inundavam as páginas dos periódicos de maior tiragem nacional.

A insistência na desqualificação da imagem de Lula por parte da imprensa obrigou Dilma Rousseff a ensaiar uma defesa, na França: “Repudio todas as tentativas de destituir Lula da imensa carga de respeito que o povo brasileiro tem por ele”, ao tempo em que Hollande observava que “Lula tem na França uma grande imagem” e “é visto como uma referência”.

A ênfase crítica especial que a imprensa brasileira demonstrou com o ex-presidente obriga necessariamente a uma reflexão: é verdade, como observa Anderson, que “o relacionamento direto de Lula com as massas” interrompeu um ciclo, “minando o papel dos meios de comunicação na formação do cenário político”?

Apesar da inegável capacidade de Lula de estabelecer com as camadas populares uma relação profunda de identificação, o poder dos meios de comunicação na sociedade brasileira não foi minado. Lula é percebido como alguém que ameaça, com sua estima popular e com suas possibilidades presidenciais até 2014, o status quo midiático brasileiro. Destruir o capital político do ex-presidente, que havia crescido com o triunfo de seu candidato Fernando Haddad nas últimas eleições municipais, parece ser um objetivo visível.

A relação tensa entre Lula e o PT com os meios de comunicação possui uma história que antecede à sua chegada à presidência – o que produziu uma mutação na relação. Estas tensões começaram a aumentar durante as eleições de 1989, 1994 e 1998, quando os meios dominantes teceram múltiplas acusações para desacreditar o candidato petista. Durante as eleições de 1989, sobressaiu a atuação da Rede Globo para construir, como rival de Lula, Collor de Mello, um candidato da elite brasileira e sem lastro partidário, editando o debate televisivo do segundo turno notoriamente a favor deste.

Esta história de operações contra a sua imagem explica a aversão em relação aos meios de comunicação, que existe tanto em Lula como em outros líderes partidários, como José Dirceu, seu chefe da casa civil entre 2003-2005.

Apesar disso, a elaboração de uma legislação reguladora da comunicação parece estar distante, no Brasil. Em que pese a insistência do que poderia ser chamado de “a velha guarda dirigente do PT”, como Dirceu, Genoino e o atual presidente, Rui Falcão, que que saíram intensamente prejudicados com a cobertura do julgamento do mensalão, Dilma Rousseff proclamou em numerosas ocasiões: “Prefiro o barulho da imprensa ao silêncio das ditaduras”, proporcionando uma resposta, tanto às exigências de regulação como às acusações dos grandes meios de que assim se tentaria cercear a “liberdade de expressão”.

O conflito se torna estrutural, pois remete a questões que vão desde o papel do comunicador popular que Lula exerce, o que o situa na lógica alternativa à unidirecionalidade dos grandes meios, até a mudança de elites políticas produzida pelo PT, que dificulta as mediações internas características das relações governo-imprensa, previamente, assim como a agenda progressista do governo, que tende a entrar em conflito com a cosmovisão dos meios conservadores.

É por isso que os recorrentes picos de tensão que atravessam esta complexa relação parecem desde o começo uma medição de forças entre atores que não permitem resoluções de “soma zero”; entre a negociação e o conflito os contornos dessa transição se vão definindo.

(*) Sociólogo (UBA). Bolsista do Conicet, no Instituto de Estudos da América Latina e do Caribe (Iealc).

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21464

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Alexandro Rodrigues

07 de janeiro de 2013 às 19h23

Precisamos de um novo poste!

Responder

Mário SF Alves

07 de janeiro de 2013 às 18h54

Eh! Vladimir, que coisa, hein? Diante de tudo isso, face a tal impasse, poderíamos considerar o PSOL como solução? Ainda que o PSOL tivesse igual representatividade política e tivesse a história do PT – realmente daria para acreditar que o PSOL iria poder fazer qualquer coisa? Quero dizer, qualquer coisa de diferente. Como você disse, a economia brasileira está pautada pelo capitalismo monopolista. Pode ser. Entendo que ainda sofremos os reveses de um capitalismo suii generis, subdesenvolvimentista (neoliberal ou não). O Lula pegou a direita de surpresa. Alguém mais ainda teria essa chance?

_______________________________________________
Circunstâncias, meu caro, circunstâncias… com ou sem Kátia Abreu. É a REALIDADE; fazer o quê? Ou lidamos com ela ou faremos sucumbir o modelo desenvolvimentista que tanta alegria e esperança nos tem dado. No caso de sucumbir o modelo, quem ganharia com isso?

Hipótese – A radicalização política como possibilidade. Claro, aí a coisa seria diferente. De pronto, nossos adversários e inimigos iriam tremer e, assustados, nos respeitariam. Porém, não como políticos, mas igualmente como inimigos.

Na dúvida, prefiro acreditar que só a consolidação da democracia pode abrir caminho para o aprofundamento do modelo de desenvolvimento “inicialmente” adotado; só a consolidação da democracia pode aumentar o grau de liberdade do Governo ante as adversidades impostas pelo sistema econômico hegemônico.
Moral da estória: parece-me, ou consolidamos a democracia ou vamos todos nadar, nadar e morrer na praia.

Responder

    Márcio

    07 de janeiro de 2013 às 22h20

    Tenho meus sonhos revolucionários também, mas tô contigo…é bem por aí.

    Mário SF Alves

    07 de janeiro de 2013 às 23h19

    Pois é. Essa dinâmica, conforme referido, ainda que muito distante de uma abordagem de fundo eminentemente teórico, é, a meu ver, puro FLUXO DE MASSA, prezado Márcio. E o que é mais importante, é fluxo de massa crítica.
    _________________________________________________
    Paradoxalmente, embora centrada na ideia da luta pela consolidação da democracia, tal dinâmica não nega, nem tampouco freia ou engessa sonhos revolucionários.
    ________________________________________________________
    O problema e o motor da ideia é o conceito fundamental MASSA CRÍTICA. Ou seja, é ele que, ao pressupor a democracia como resultado de construção coletiva, exige, ainda que em nível elementar, a indispensável reflexão/determinação política, e sua práxis correspondente: engajamento, organização e resistência.

    abolicionista

    08 de janeiro de 2013 às 14h30

    Concordo. A resposta está na consolidação da democracia, perfeito…

souza

07 de janeiro de 2013 às 18h13

existem questões chaves que para serem resolvidas dependem de um grande apoio político no congresso nacional que não é a realidade hoje.
para unir estas forças políticas necessita de negociações não muito desejadas, tais como o ministério da agricultura.
até aonde não precisa desta forças políticas a coisa vai, apesar das dificuldades e do cenário internacional.

Responder

    Zezinho

    08 de janeiro de 2013 às 07h46

    Como é que é? Não tem apoio político no Congresso? É muita alienação mesmo!

Ulisses

07 de janeiro de 2013 às 15h53

Alem de uma choradeira enjoativa do Saflate, este comentário não pude deixar de observar:
“Mas o governo Dilma será lembrado, em 2012, pela sua desconsideração soberana com os professores em greve por melhores condições de trabalho e infraestrutura. Diga-se de passagem, é notória a relação problemática do governo com os sindicatos”
Nunca os professores das escolas e universidades federais foram tão assistidos como no governo do PT. Tradicionalmente as escolas e universidades sempre fizeram greves, mesmo sabendo que não levariam nada. Neste governo, acharam pelo tudo que tinham recebido, poderiam levar ainda mais. Abusaram da exigência. Pergunte a opinião da população sobre a greve? Pergunte aos professores sobre a greve? A resposta! Qual greve? Já estão com planejamento de decretar outra este ano! E nunca os salários dos professores foi tão valorizados. Lembro da década de 90, quando os professores estacionavam suas sucatas ao lados de carrões dos alunos dos cursos mais preferidos como medicina, odontologia, Direito e os cursos agrários. Agora, os professores estacionam carrões ao lados de seus alunos privilegiados da sociedade brasileira.

Responder

    Lucas

    07 de janeiro de 2013 às 17h25

    pfftt, logo se vê alguém falando algo do qual não tem idéia. Tu acha agora que professor ganha muito dinheiro? Diretamente do mundo da lua.

    Ulisses

    07 de janeiro de 2013 às 20h57

    Caro companheiro. Eu sou professor. Desde desde julho de 1994. Vivi as duas realidades, FHC e Lula. Comi o pão que o diabo amassou com FHC, sua redução das bolsas de pós graduação (mestrado e doutorado ao ponto que colega meu no exterior ficou sem a bolsa), fiz meu mestrado sem a bolsa, vivi a sua tentativa de privatização de ensino público pelas mãos do seu ministro da educação Paulo Renato, não havia concurso para substituir os professores que aposentavam eram contratados professores substitutos, vi o sucateamento das universidades, sem investimentos, sem recursos para laboratórios e sem dinheiro para consertar equipamentos básicos de análise, chegamos ao ponto de não haver dinheiro para pagar a conta de luz da universidade. Depois vi a realidade Lula, fiz meu doutorado integral 3,5 anos com bolsa do CNPQ, Lula criou 14 novas universidades, abriu concurso para professores, as universidades federais são parque de obras, novos prédios, laboratórios, equipamentos modernos de pesquisa, o CNPQ e a CAPES hoje oferecem bolsa de pesquisas e pós graduação para todos, existe o próuni. Não digo que somos marajás, mas recebemos salários muito melhores que no tempo FHC. Poderia ser melhor? Sim, mas sejamos honestos, temos de pensar em todo o povo Brasileiro, não apenas em nossos umbigos. Você viveu estas duas épocas?

    Lucas

    08 de janeiro de 2013 às 10h07

    não, não vivi as duas épocas. Eu vivo agora a época onde professores da rede pública municipal ganham salários base de miséria e são obrigados a trabalhar em 2 ou 3 lugares diferentes para se sustentar. De fato a vida de professor universitário deve hoje ser melhor que antes. Estes, no entanto, não são a maioria da categoria dos docentes.

    Ulisses

    08 de janeiro de 2013 às 10h35

    Caro companheiro, sua resposta demonstra o quanto você não entendeu o texto. Quem é responsável pela educação básica e 2º grau são os estados e municípios. O governo federal é responsável pelo ensino superior. Foi a greve das universidades e escolas técnicas federais que o artigo citou.

    abolicionista

    08 de janeiro de 2013 às 12h48

    Lucas, embora não seja um grande fã da política educacional do governo Dilma, sou obrigado a concordar com o Ulisses, você está atirando para o lado errado.

    Mário SF Alves

    07 de janeiro de 2013 às 23h38

    Sem lulismo, tenho de reconhecer, sua resposta ao Lucas é de lavar a alma. Parabéns.
    ______________________________
    Parabéns, ainda que o Lucas estivesse noutra dimensão. Dimensão do campo educacional, diria. Quase óbvio, não, Lucas?

    abolicionista

    08 de janeiro de 2013 às 13h11

    Concordo, Mário, embora tenha muitos pontos de discordância em relação à política educacional do atual governo, sou obrigado a defendê-la diante desse tipo de crítica tacanha. O Vladimir acerta em dizer que ficou mais difícil criticar o governo, mas ele parece desprezar o fato de que essa dificuldade vem por conta da necessidade de lidar com contradições reais, com problemas cujas raízes estão, em última instância, na própria dinâmica de acumulação capitalista. Quando a política era tramada por trás das cortinas e com o governo completamente submisso ao capital estrangeiro, como acontecia no período FHC (que seguia os moldes neoliberais), podíamos assumir uma posição crítica muito mais agressiva (mas falsamente radical, quero crer). Paradoxalmente, essa posição de ficar sempre contra o governo proporciona uma espécie de conforto teorico. Quando se abre a possibilidade, ainda que pequena, de colocar nossas reivindicações e anseios em prática, somos obrigados a enfrentar as contradições de nosso modo de produção. Por exemplo, todos queremos um país desenvolvido, mas não queremos que esse desenvolvimento prejudique nosso meio-ambiente. Contudo, o agronegócio tem participação significativa no PIB, e o potencial agroexportador brasileiro não é algo que possa ser desprezado. Não estou defendendo o agronegócio, apenas dizendo que as coisas ficaram mais complexas. A realidade, às vezes, é uma ducha de água fria. E, no Brasil, a realidade tem sido uma madrasta impiedosa para nossos ideais.

    Mário SF Alves

    08 de janeiro de 2013 às 20h24

    Vale ressaltar:
    “Não estou defendendo o agronegócio, apenas dizendo que as coisas ficaram mais complexas. A realidade, às vezes, é uma ducha de água fria.”
    _____________________________________
    Pois é, prezado Abolicionista, penso que se realmente queremos participar da construção de nosso País, antes precisamos entendê-lo, por mais complexo ou cansativo que isso possa parecer ou que realmente seja. É como se antes de entender o Brasil, tivéssemos a obrigação de entender nosso quintal, nosso jardim, nosso Bairro ou nosso condomínio. Por sorte, via de regra, às vezes, basta entender o condomínio.
    ________________________________________________
    E mais, é ingenuidade considerarmos nosso País como se ele fosse uma ilha isolada no mundo; assim como é ilusão imaginar o Brasil como apenas mais um país. Não é. Os predadores (internos e os outros) o veem com olhos muito, muito grandes, e usam de todas as armas “legais” para esfolá-lo vivo; mantê-lo subdesenvolvido, pois dessa forma será imensamente mais fácil sugá-lo. A geopolítica na qual se insere o Brasil é, sim, complexa. Creio que sempre tenha sido assim, mas, nunca como agora. Nunca a liderança do Brasil foi tão significativa na América Latina, por exemplo.
    _________________________________________________
    É… amigo, exercer liderança política num contexto deste, imagino, deve ser complicado mesmo. No entanto, por outro lado, a capacidade crítica mínima necessária para levar adiante aquela que poderia ser a nossa maior bandeira é notavelmente simples. _____________________________________________
    Abs.,
    MSFA

Francisco

07 de janeiro de 2013 às 14h34

A “paradeira” da economia nos último dois anos são o espaço de tempo entre o investimento e o retorno (ferrovias, portos, transposição, estradas, aeroportos, hidrovias e hidroelétricas).

O retorno não vem porque não é o tempo. Preocupante é que também não vem porque o “investimento” não terminou: esta tudo semi-parado por tantos motivos que encheriam um catalogo telefônico.

Se todas essas coisas forem terminadas ainda com um petista no poder, tudo terá valido a pena. Se não, o prejuizo para a esquerda será imenso. Quanto ao caráter socialista do governo, é esse ai. O que se esperava de um “assalto ao poder” pela via das urnas? É isso aí!

Quem quiser mais, vai ter que pegar no clavinote.

Responder

    leprechaun souza

    07 de janeiro de 2013 às 17h08

    a questão é justamente essa, o investimento na infra como promessa de retomar o crescimento via “economia real”, ou seja, depois de feitos os investimentos o capital (re)migraria para o setor produtivo gerando empregos: há dois problemas, isso não aconteceu em nenhum lugar do mundo onde foi tentado e segundo a economia real já não capaz de gerar a mesma a acumulação da economia especulativa (ficcional). Retomar a economia real como base em princípios keynisianos, construir um estado de bem estar retardatário, pleno emprego, etc parece mais utopia que pensar no colapso do sistema. Mas se a esquerda tradicional (iluminista) deixar de sonhar com estas coisas não sobra nada.

    Mário SF Alves

    07 de janeiro de 2013 às 23h52

    Seu realismo, caro leprachaun, beira às raias do determinismo. Determinismo pós-histórico; determinismo fukuyamico. Esqueceu-se da China, da Índia e da Rússia? Esqueceu-se do desespero que assola a Europa? Já pensou sobre isso? Ou o discurso da NOVA [velhíssima!] ORDEM ainda lhe parece fazer pleno sentido?

    abolicionista

    08 de janeiro de 2013 às 16h44

    Argumento interessante, leprechaun, seu raciocínio parece bem influenciado pelo pós-fordismo e faz lembrar algumas colocações do Robert Kurz. Concordo em parte com você, o setor produtivo realmente não consegue mais impulsionar a economia como, digamos, na época de Roosevelt. Mesmo economistas keynesianos como François Chesnais admitem isso. A terceira revolução industrial levou a produtividade a níveis estratosféricos e, de certo modo, o capital parece ter vencido a resistência do trabalho e caminhar para uma auto-implosão ou, como você sugeriu, o colapso. Acho que há um messianismo oculto nessa crença cega no colapso, numa catástrofe redentora (que acho melhor que as coisas piorem de vez do que permaneçam como estão). Mas que tal pensarmos um pouco mais na realidade brasileira? Um país que conviveu com a escravidão até o final do século XIX, que sempre manteve uma grande parcela de sua população alijada do trabalho assalariado, será que alguma vez as promessas burguesas fizeram sentido aqui senão como “comédia ideológica’, como afirma Schwarz? Seria completamente utópico falar num estado de bem-estar brasileiro, estamos infinitamente longe disso, basta olhar nossos índice de desigualdade. Ainda que estejamos caminhando em direção ao colapso, eu prefiro que façamos isso com justiça social (ou com distributivismo e assistencialismo, se você preferir). Isso é pragmatismo? Não sei, para mim o mais pragmático é sentar-se no sofá e esperar pelo fim do capitalismo.

Marcos Rocha

07 de janeiro de 2013 às 14h01

Por que nenhum partido propõe um total reforma da educação neste País?

Imagine fazer um projeto de 20 anos, um compromisso inscrito na Constituição, a ser cumprido, obrigatoriamente por todo e qualquer governo, de qualquer partido, dando prioridade à construção de escola, ensino de QUALIDADE, com professores passando por rigoroso concurso de seleção e bons salários?

Se o ensino fundamental e médio forem de excelência, será que daqui a 20 anos precisaremos de cotas para negros?

Não haverá redução de desigualdade, violência e desemprego com uma geração bem instruída?

Será que um esforço supra partidário, convocando a iniciativa privada a investir num projeto educacional desse porte, com incentivos fiscais não valeria a pena?

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lulipe

07 de janeiro de 2013 às 13h22

O Governo do PT faz malabarismos na economia que nem os artistas do Cirque du Soleil conseguiriam igual….

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Eunãosabia

07 de janeiro de 2013 às 11h46

“e na inegável constituição de uma nova classe média.”””

Bem, é a tal da classe média do R$ 291,00, né gente? um casal que tenha a renda mensal de um um slário mínimo e que more no Campo Limpo ou na Rocinha, pelos padrões petistas é classe média….

“e incentivo ao consumo””.. gente, o consumo pelo consumo como única forma de promover o crescimento econômico é suicídio, sua duração depende da capacidade ociosa da economia e de uma bolha de crédito, como foi o caso da economia mundial, tentar fazer um país crescer apenas através do consumo só dura até semana que vem… outra coisa, Lula investiu menos do que FHC como proporção do PIB, e a única forma de manter a economia em crescimento sustentável é através do investimento, no atual governo o investimento é pífio.

Somos o último PIB do continente, tem país da AL crescendo a taxas de 5, 6% e sem inflação, culpar a crise por esse desempenho medíocre não convence mais ninguém.

Já há relatos de que podemos sofrer falta de energia, os pilares macro econômicos implantados por FHC e mantidos por Lula já não existem mais, foram eles que mantiveram o Brasil por 16 anos… nossa situação não é nada boa.

Saludo a todos.

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    tiago carneiro

    07 de janeiro de 2013 às 15h21

    Creio que temos um mentecapto aqui.

    abolicionista

    07 de janeiro de 2013 às 17h45

    Pelo que me consta, o apagão tinha sido no governo FHC… mas não dá para cobrar boa memória de quem elogiou o Pinochet…

    Mário SF Alves

    07 de janeiro de 2013 às 23h56

    Abolicionista, meu caro, hoje o que não lhe falta é inspiração. Gostei disso.
    Abraços,

    MSFA.

    Zezinho

    08 de janeiro de 2013 às 07h53

    E os inúmeros apagões da era PT? Causados pela falta de investimento e aparelhamento dos cargos e ingerência? Não dá para cobrar honestidade de quem defende o PT e os mensaleiros…

    abolicionista

    08 de janeiro de 2013 às 16h26

    Pois é, Mário, e a gente nunca deve esquecer de que os “pilares macroeconômicos” implantados por FHC foram os mesmos que o Pinochet implantou no Chile com a ajuda de Milton Friedman. De certo modo, o Eunãosabia é coerente em elogiar FHC e Pinochet (ou seja, “há método em sua loucura”): ambos são adeptos do neoliberalismo e filhos ideológicos do Tatcherismo. O Eunaosabia vive na guerra Fria, vive encontrando comunistas debaixo do colchão e tem orgasmos múltiplos quando houve falar dos economistas austríacos, é uma personificação de um período histórico que, graças ao bom Deus, ficou para trás.


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