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Política

Urariano Mota: Com o apoio do PSB à direita, Arraes dá adeus


10/10/2014 - 00h30

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A memória de Arraes e o PSB

por Urariano Mota, especial para O Vermelho

Para a nova face do PSB, que ainda mantém o nome de Partido Socialista Brasileiro, foi decisivo o papel da direção partidária de Pernambuco.

Nesta nova face, que alguns já chamam de novo fascio, têm lugares decisivos o avô Miguel Arraes e o neto Eduardo Campos. Mas como opostos e ruptura em um processo de morte, enterro e transformação. Façamos um brevíssimo recuo.

Em 13 de agosto de 2005, escrevi que os obituários, sempre tão generosos no olho e olfato de abutres, pois sempre esvoaçam e rondam a agonia dos grandes homens, daquela vez haviam falhado no alcance e na mira. Sempre tão bons no faro e argúcia, daquela vez os obituários haviam errado o cadáver do brasileiro Miguel Arraes.

No entanto hoje, no mais recente outubro de 2014, que continua o trágico 13 de agosto deste ano, o cadáver é outro. Ou melhor, Eduardo Campos ainda não é um cadáver, como foi o socialista e avô em 2005. Hoje, Eduardo Campos se tornou um fantasma, que ronda o Brasil a partir de Pernambuco.

A mudança no perfil do PSB foi de tal forma, que não devemos falar em diferenças. Talvez devêssemos falar na decomposição de um nobre que gerou um vampiro.

Quando era presidente nacional do PSB, Miguel Arraes alertava que as eleições não deviam contaminar o partido. Mas o que Arraes dizia, os valores pelos quais o pensador de esquerda Miguel Arraes lutava têm agora a moldura de marketing. As ideias de Arraes não mais lutam, hoje apenas enlutam. Em lugar da luta, o luto, das suas ideias. Para o luto de Eduardo Campos.

Desde o velório, diante do seu corpo, os sinais de esgotamento do PSB pulavam entre os vivos.

De fato, no contexto armado do show mortuário em frente ao palácio do governo de Pernambuco, cujo mote era uma tragédia, entre os telões com os atores políticos e pessoas com bandeiras eleitorais do PSB e de Marina Silva,  a ressurreição falava mais perto à terra. Porque o significado era mais simples e baixo, nas condições do show eleitoral criado em torno da missa: a ressurreição era para Marina Silva e a inclinação à direita.

Ali começou a campanha da onipresença da direita no Recife e no Brasil, de modo sufocante e matador da sensibilidade e inteligência.

A trágica morte de Eduardo Campos foi usada sem nenhum pudor. Desde o velório, plantaram-se boatos de que Dilma e o PT eram responsáveis pela morte física de Eduardo Campos.

Durante toda a campanha, Eduardo Campos se tornou o personagem El Cid, aquele que morto teve o cadáver posto, amarrado a um cavalo, a cavalgar na batalha, para que desse a ilusão de vida e assim melhor ânimo espalhasse na tropa. Mas o caminho à direita já estava aberto bem antes do feito heroico do novo El Cid.

Para o PSB, Arraes como pensamento já era passamento, morte, anterior ao desastre de 13 de agosto de 2014.

A sua prática, do avô, a sua destruição, pelo neto, estava em queda antes da tragédia do avião. Aquele abraçar contrários, ex-adversários, inimigos do avô Arraes, como Jarbas Vasconcelos, ao mesmo tempo que se voltava para um lugar distante de aliados, amigos de esquerda e socialistas históricos, a quem antes havia abraçado, isso já estava claro, porque se fazia a olhos vistos. Mas sempre com um sorriso aberto, que era um passaporte para a mordida, que a maioria de nós não víamos.

Uma das maiores contribuições de Maquiavel foi abstrair da análise política os propósitos virtuosos, repletos de valores éticos e edificantes. Mas isso não significa que a moral, no reino até dos animais, tenha deixado de existir. Daí que lembramos de passagem a mudança assustadora do PSB em Pernambuco, que se transformou também  em partido fincado em laços de amizade e genéticos.

Com Arraes, naquele tempo que se apagou definitivo, havia ex-companheiros do tempo da resistência democrática que o acusavam de concentrador, porque não distribuía generoso cargos, valores e representações, e, pior, não abria espaço para que os ex-companheiros também ascendessem ao poder no tempo das vacas gordas.

Quanta ironia, quando se compara com o PSB que Eduardo Campos construiu. O neto não seguiu o avô, embora tenha usado a sua memória mais de uma vez para receber apoios na esquerda e receber atenções materiais dos governos Lula e Dilma.

Quando se olha a administração pública, pela incidência de nomes vinculados aos Campos e Arraes, temos a impressão de que estamos diante de novos nobres, ou um clã de novos Kennedys.

A comparação, a lembrança do nome Kennedy, não vem por acaso, mas não cabe um aprofundamento nos limites deste artigo. O fato é que o DNA Arraes aparece em todos os caros cargos da administração.

Segundo uma pesquisa publicada no site Viomundo, em reportagem de  Conceição Lemes, Chico Diniz e Daniel Bento, os parentes de Eduardo Campos se estendiam da mãe Ana Arraes, no Tribunal de Contas da União,  a sobrinhos, tia, sogro, cunhada, ex-cunhado e primos em cargos relevantes de Pernambuco.

O que mais chamava a atenção na lista era a presença de três gerações de familiares de Eduardo e Renata Campos na administração estadual, inclusive jovens. É uma família de gênios, reconheçamos. Da mãe aos primos e filhos, a quem já prometem um futuro venturoso  na política.

Que diferença, para os princípios “atrasados“ do velho Arraes, que exigia da filha Mariana uma prática de jornalismo sem privilégios, pois a deixava correr perigo em programa de rádio de Direitos Humanos, como fui testemunha e com quem trabalhei.

Para o velho pensador, para o socialista Miguel Arraes, a família era acima de tudo os trabalhadores espoliados.

Uma das maiores dificuldades de Gregório Bezerra, no primeiro de abril de 1964, foi convencer camponeses a não virem ao Recife.

Massas de trabalhadores se dispunham a vir à luta armados apenas de facões, facas e enxadas contra fuzis e tanques do exército brasileiro. Bastaria esse fato para dar a dimensão do velho. Mas ainda é pouco.

A coisa dita assim, até parece que massas ignorantes, fanatizadas, dispunham-se ao sacrifício, a entregar o próprio corpo ao genocídio. Mas não. Tal amor era manifestação testemunhal por atos concretos do que foi o primeiro governo Miguel Arraes.

É com ele que surge o revolucionário, o pioneiro e odiado “Acordo do Campo”: trabalhadores da cana-de-açúcar tiveram os mesmos direitos que os trabalhadores urbanos de Pernambuco: salário, décimo terceiro, carteira assinada… deixavam de ser escravos.

Daí o fanatismo daquela grande família.

As últimas notícias falam que na portaria da sede do PSB, a quem os jornais chamam com acerto de “sigla”, na região central de Brasília, chegaram a ser pregadas folhas com a inscrição: “Aqui o socialismo resiste. #nenhumvotonoPSDB”.

Coitados dos idealistas, tão inocentes. E tão frágeis, porque afinal se mantiveram neste novo PSB, que nega e renega o que foi o partido de Miguel Arraes. O compressor da direita de Eduardo Campos foi mais pesado.

Há nove anos, em um 13 de agosto, escrevi “Arraes, urgente”.

Naquele dia, para a memória de um dos mais ilustres brasileiros, lembrei uma declaração de princípios do velho político: “Como homem público, tenho que esperar tudo, sem queixa, porque é minha obrigação ir pra cadeia, se é pra manter a minha posição de defesa do povo e não capitular diante dele. É minha obrigação ir pro exílio, se não posso ficar na minha terra”.

Quantas ciladas a vida nos  prega. Hoje, com o apoio do PSB à direita brasileira, a história responde com o fantasma do neto Eduardo Campos: Arraes, adeus.

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12 comentários

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Eduardo

11 de outubro de 2014 às 14h48

Aprendi de meu pai o respeito ao grande brasileiro Miguel Arraes! No entanto, seu próprio neto não o respeitou! Morreu sujando vergonhosamente a imagem do avô como um traidor do povo brasileiro! Deixou seus filhos jovens e esposa que certamente o amaram e amam sua memória! Mas Não conseguirão apagar a memória minha de de milhões de brasileiros : A lembranca de que ele foi na hora da morte um grande traidor do povo brasileiro!

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Urbano

11 de outubro de 2014 às 12h35

Os ancestrais não souberam das bombas-relógios que estavam deixando… Uma já foi detonada e fez o maior estrago. A outra está chiando e faz tempo.

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Fernando Lopes

11 de outubro de 2014 às 00h30

Que foto horrível ! É só o que posso dizer…

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nilo walter

10 de outubro de 2014 às 22h36

Não se espantem . Está na cara, podem crer.

Sabem dos esgotos de Suape/jatinho.

Sob as asas dos tucanos inatingíveis .

Rompimento em 2012 deve-se a esses fatos conhecidos, fora os desconhecidos para nós mortais .

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carlos vanderlei xavier mendes

10 de outubro de 2014 às 18h26

E pensar que já fui eleitor de Beto Albuquerque, quando este foi secretário de transportes no RS. Naquele tempo o PSB era um partido de esquerda!

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    Julio Silveira

    11 de outubro de 2014 às 08h45

    Eu também, e mais surpreso ainda foi saber de seu envolvimento com o agronegocio no estado e no Brasil, por cinsequencia. Ou seja, a direita se traveste de esquerda para continuar sua luta por poder sibre o Oçamento publico.
    Esse tem sido um dos grandes problemas do cidadão brasileiro com base ideologica, identificar quem é que num país aparelhado pelo conservadorismo.

Nelson

10 de outubro de 2014 às 16h57

Texto magnífico, Urariano.

E pensar que sou conterrâneo do cidadão que aparece na foto a bajular e a apertar as mãos de um vende-pátria. É lamentável.

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dedé

10 de outubro de 2014 às 12h07

Texto extraordinário.

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O Mar da Silva

10 de outubro de 2014 às 11h16

A antiga esquerda vive uma hemorragia. Os socialistas que um dia se espelharam no estado de bem estar social europeu está se casando com uma direita que destila ódio a tudo que represente o menor sinal de democracia, o menor sinal de povo.

Eduardo Campos, Marina e cia ltda prestaram um lastimável papel ao futuro do Brasil. E ainda vão carregar uma multidão de inocentes úteis para a sua batalha pela ‘nova política’, que não resiste a comandos de pastores e a alianças espúrias com a direita.

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[email protected]!r [email protected]+e5

10 de outubro de 2014 às 10h49

Teve um leitor do “Vi o Mundo” que viu no acordo do PSB com o PSDB uma maneira de ficar de fora da “delação premiada” (entre aspas meesmoo) do Paulo Roberto Costa. Cada vez mais me convenço da validade dessa teoria.
No primeiro turno, a Veja publicou o “vazamento” do depoimento de Costa. Lá já figurava o Eduardo Campos que, agora, misteriosamente “sumiu”.
Se levarmos em conta que o “vídeo da delação” aconteceu um dia depois da adesão do PSB, já temos outro indício de algo escuso envolvendo esse partido.
Assim, das duas uma: ou a Veja mentiu no primeiro turno quando incluiu Campos na delação premiada ou editaram esse último o vazamento para prejudicar somente o PT no segundo turno.
De qualquer maneira, a coisa é nojenta. E Erundina está representando um partido que entrou para o lixo da história.

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    Francisco

    10 de outubro de 2014 às 15h26

    Se uma pessoa matar outra e no dia seguinte se filiar ao PSDB, não vai para a cadeia. Ninguém do PSDB jamais vai para a cadeia. NUNCA!

    A aliança dos dois é a aliança do jato com o aeroporto: perfeita!

    Pessoas mais atentas reparam que a única coisa que impedia um de ser o outro era o “D” de “Democracia”. Mas ela é algo descartável…

Narr

10 de outubro de 2014 às 10h34

De Miguel Arraes ao “eu sou o candidato do agronegócio”.

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