Mais do que porcentagens enganosas, a matemática das urnas prova que frear a margem conservadora no Sudeste é a única garantia para fazer valer a hegemonia progressista no Nordeste
Por Luís Fernando Vitagliano*, em A Terra é Redonda
1.
Em geral, as pessoas que acompanham pouco ou estão pouco atentas ao desempenho eleitoral dos candidatos olham para proporções e porcentagem. A própria grande mídia tende a incentivar essa simplificação. Mas, se quisermos discutir minimamente o desempenho eleitoral no Brasil, é preciso olhar para os números absolutos. Sem grandes teorias, eles revelam muita coisa e podem dar um bom panorama do momento em que nos encontramos, desde os desafios, passando pelas dificuldades que a conjuntura e o crescimento da extrema direita nos impõem.
Se considerarmos a onda de avanço da direita em geral, podemos ver que esse movimento tem forte presença no Sul/Sudeste do País. Mas ganha maior dimensão em São Paulo, talvez menos pela força proporcional (São Paulo é proporcionalmente muito menos votante à direita que qualquer estado do Sul, por exemplo). Mas dada a quantidade de votos estocada no estado, adquire um papel importante porque concentra em menor espaço uma arena de disputa que tem reflexos nacionais.
Entre 2010 e 2014, a votação do PSDB cresceu aproximadamente três milhões de votos no Estado de São Paulo, ou seja, um incremento de mais de 10% dos eleitores (repare: incremento, não aumento proporcional). Enquanto Dilma perdeu votos de um período a outro (teve em 2010, 10.428.163 votos e em 2014, 8.484.047 votos no estado – uma queda de aproximadamente 2 milhões de eleitores). A diferença em favor de José Serra no estado de São Paulo em 2010 foi de pouco menos de dois milhões de votos.
Mas a diferença em favor de Aécio Neves no estado foi de quase sete milhões de votos. Para se ter uma ideia, a diferença construída no Nordeste todo foi de 12,2 milhões de votos a mais. Com isso, apenas no estado de São Paulo, Aécio Neves diminuiu a desvantagem do Nordeste para apenas 5 milhões de votos.
Dilma Rousseff venceu Aécio Neves com uma diferença de aproximadamente 3,5 milhões de votos no geral. Ou seja, nenhum outro estado significativamente populoso do Sul, Sudeste apresentou uma diferença que pudesse pesar em favor de Aécio. Embora São Paulo tenha permitido a ele uma votação expressiva, seu baixo desempenho no Nordeste, em Minas Gerais e Rio de Janeiro pesou desfavoravelmente. No balanço do Sudeste, com o revés nos outros estados, Aécio Neves teve um desempenho ligeiramente melhor que o de José Serra quatro anos antes e o PSDB cresceu pouco menos de 300 mil votos no Sudeste em 4 anos, passando de 7.672.382 para 7.961.780 votos.
2.
Nas eleições de 2018, que foram amplamente vencidas pela extrema direita, a votação em São Paulo obtida por Jair Bolsonaro apresentou uma diferença de mais de 8 milhões de votos. Superou em pouco mais de 1 milhão aquela derrota que o próprio Aécio Neves havia imposto a Dilma Rousseff e tornou-se a maior diferença em favor de um adversário do PT no estado de São Paulo. Porém, somados os outros estados, Jair Bolsonaro conseguiu uma diferença de 13 milhões de votos em seu favor no Sudeste, o que o fez já, região por região, superar a diferença que Fernando Haddad havia conseguido no Nordeste.
Se Aécio Neves quase venceu em um ambiente nacional desfavorável, Jair Bolsonaro venceu com folga em um ambiente nacional bastante favorável. O Sudeste permitiu essa folga já desbancando a diferença certa que o PT conquistaria no Nordeste. Se Fernando Haddad conseguiu uma diferença de quase 12 milhões de votos em seu favor, Jair Bolsonaro teve uma dedução de 8 milhões de votos de São Paulo e outros cinco milhões em Minas, Rio e Espirito Santos foram decisivos para uma vitória expressiva no geral.
O cenário foi outro em 2022. Lula manteve a folgada vantagem na votação do Nordeste, mantendo a diferença para os pouco mais de 12 milhões de votos. Mas a redução de votos no Sudeste não veio com a mesma intensidade. A diferença em São Paulo em favor da direita foi de cerca de 2,5 milhões de votos e no Sudeste como um todo, conseguiu uma vantagem de 4 milhões de votos. Ou seja, no saldo, Lula conseguiu uma gordura de 8 milhões de votos, enquanto Fernando Haddad tinha conseguido um saldo em seu favor de 5 milhões de votos contrapondo Nordeste e São Paulo e um saldo negativo em relação a contraposição NE/SE.
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É certo que a direita vence em São Paulo assim como é certo que a esquerda vence no Nordeste. Nas últimas eleições, a diferença no Nordeste tem se mantido constante na casa dos 12 milhões de votos. Isso pode mudar? Certamente. No sentido inclusive de que pode cair. Mas, não é exagero supor que pelo menos 10 milhões de votos a mais Lula vai conseguir no Nordeste numa contagem pessimista.
O que tem variado significativamente é a diferença em São Paulo em particular e no sudeste no geral. Aécio Neves conseguiu uma diferença em torno de 7 milhões de votos no Sudeste em seu favor, avançou bem em São Paulo, mas perdeu em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad com uma diferença grande, de 8 milhões de votos no estado de São Paulo e mais de 13 milhões de votos se somada toda região Sudeste. Essa diferença por si só já superou qualquer dianteira que se conseguiria no Nordeste.
3.
Já em 2022, a vantagem de Jair Bolsonaro em relação a Lula no Sudeste foi em torno de 4 milhões de votos apenas – a menor desde a vitória de Dilma Rousseff na região em 2010. Então, de 7 milhões de votos em 2014, subiu para 13 milhões em 2018 e caiu para 4 milhões em 2022. Supõe-se que com a votação consolidada no Nordeste, nenhum concorrente do PT pode vencer uma eleição com menos de 8 milhões de votos a mais no Sudeste para compensar a desvantagem do Nordeste. Esse número pode variar um pouco, mas o certo é que a região é muito mais volátil que as outras em termos de segurança do voto. Há realmente uma disputa na região que equivale a aproximadamente 48% do colégio eleitoral nacional.
São Paulo pode trazer (como já trouxe) essa votação quase que sozinha para a direita, dada a atual conjuntura de antipetismo no estado. Mas, a questão para a direita é vencer em São Paulo, manter o desempenho melhor no Sudeste, que precisam “endossar” a vantagem ou corre-se o risco de ser uma vitória de Pirro. De outro lado, a estratégia petista quer diminuir a distância de votação em São Paulo, principalmente, mas com importância para Rio de Janeiro e Minas Gerais. Se não conseguir avançar em São Paulo especificamente, pelo menos diminuir seu impacto ainda no Sudeste.
Neste contexto, é importante olhar para o bolsonarismo e os dados que a votação recente nos revela. Se compararmos a votação do próprio Jair Bolsonaro entre 2018 e 2022, podemos nos surpreender com a solidez dos números.
Região Sudeste – Votação de Bolsonaro (2018 vs 2022)

Embora tenha perdido espaço proporcional no Sudeste, veja que em termos absolutos, o bolsonarismo é uma força com consistência eleitoral. As tabelas a seguir nos permitem observar que a maior oscilação negativa da votação de Jair Bolsonaro entre 2018 e 2022 ocorreu na região Sudeste, mas é pouco significativa.
4.
Considerando a votação de 2018 e 2022, no Sudeste, Jair Bolsonaro teve uma diminuição de cerca de 2 milhões de votos. Se considerarmos o fato já demonstrado de que de 2018 para 2022, a vantagem de Bolsonaro no sudeste caiu de 13 milhões de votos para 4 milhões de votos, como é possivel que a votação de Bolsonaro tenha caído apenas 2 milhões de votos?
Na verdade, o que houve foi uma recuperação de apoio da esquerda nas diversas regiões e não uma queda do apoio a extrema direita. Embora Jair Bolsonaro não tenha tido uma redução significativa de votos (perdeu cerca de 2 milhões de votos na região), sua vantagem foi totalmente corroída pelo crescimento da votação de Lula.
Jair Bolsonaro teve mais votos em 2022 que em 2018. De modo geral, é o crescimento da votação do PT em Lula em 2022 que explica a derrota de Jair Bolsonaro. Das 27 unidades da Federação, 21 tiveram aumento de votação para Jair Bolsonaro entre 2018 e 2022. Veja os números das tabelas a seguir que mostram o comportamento do voto da direita em Jair Bolsonaro entre 2018 e 2022:
Região Sul – Votação de Bolsonaro (2018 vs 2022)

Região Centro-Oeste e Distrito Federal – Votação de Bolsonaro (2018 vs 2022)

Região Norte – Votação de Bolsonaro (2018 vs 2022)

Região Nordeste – Votação de Bolsonaro (2018 vs 2022)

5.
Se considerarmos que nas eleições de 2018 Jair Bolsonaro teve 55,13% dos votos e nas eleições de 2022 foram 49,10% dos votos, parece que ele diminuiu a votação. Por isso as proporções e porcentagem podem enganar. Na verdade, Jair Bolsonaro aumentou a votação em relação a 2018 em praticamente todas as regiões (só não aumentou no sudeste), no geral subiu sua votação de 57.796.986 votos em 2018 para 58.206.354 votos em 2022. Ou seja, um saldo positivo de 409.368 votos.
Já pelo lado de Lula, comparando com a votação de Fernando Haddad em 2018, podemos ver que o PT teve um aumento significativo de votantes apesar da própria votação de Jair Bolsonaro ter crescido.
O resultado final das eleições de 2022 foi uma diferença bastante pequena em favor de Lula em 2022: 2.139.645. Numa conta de padaria que pode chocar, a diferença em favor de Lula foi de 16 mil votos, mais a queda de votos de Jair Bolsonaro em São Paulo, Minas e Rio de Janeiro – três de seis estados apenas em que ele perdeu votos. Disso se conclui que se Jair Bolsonaro tivesse repetido a votação em São Paulo, Minas e Rio, a diferença em relação a Lula seria de menos de 20 mil votos.
Jair Bolsonaro só diminuiu a votação na Região Sudeste. Aumentou nas outras quatro regiões do país. Das 27 Unidades da Federação, diminuiu a votação em apenas 6 estados (São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, no Sudeste, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Paraná). Sintomaticamente estados onde o conservadorismo é alto e a extrema direita tende a crescer não deram a Jair Bolsonaro mais votos do que ele obteve em 2018. O Nordeste, ao contrário, aumentou a votação de Jair Bolsonaro comparados 2018 e 2022. O líder da extrema direita superou a barreira dos 10 milhões de votos no Nordeste. Coisa que o PSDB de José Serra e Aécio Neves não haviam conseguido fazer. Em Pernambuco, por exemplo, berço de Lula, Jair Bolsonaro aumentou em 250 mil a sua votação entre 2018 e 2022.
O que explica então a vitória de Lula em 2022 não é a perda de apoio político de Jair Bolsonaro entre os eleitores do país, mas a capacidade de engajamento que Lula conseguiu mobilizar para que votos nulos/brancos e abstenções se convertessem em votos a seu favor.
Lula registrou em seu favor mais de 13.305.093 votos em 2022 em relação ao total obtido por Fernando Haddad no pleito presidencial de 2018. Foram 60.345.999 de votos em 2022, a maior obtida por um candidato na história, contra 47.040.906 de Haddad em 2018. Jair Bolsonaro por sua vez não teve menos votos que em 2018, teve mais, como mostramos.
Comparativo de Votos: Lula (2022) vs. Haddad (2018) no 2º Turno


Lula (2022) teve menos votos que Fernando Haddad (2018) apenas no Maranhão e no Tocantins – mas ainda sim venceu Jair Bolsonaro nos dois estados. No Estado de São Paulo, conseguiu um aumento significativo de 4,3 milhões de votos, mesmo perdendo na contagem geral, foi uma aproximação que permitiu a vitória eleitoral geral. E isso se explica também pela opção de tornar o próprio Fernando Haddad candidato a governador e palanque para as eleições presidenciais, somando ainda com Alckmin como vice.
Mas, em estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul, o aumento de votação também foi significativo. Minas Gerais, seguindo a tradição de quem ganha no estado, ganha no país, foi o único estado do sudeste em que Lula venceu Jair Bolsonaro. Ao todo foram 13 estados vencidos por Jair Bolsonaro e 14 por Lula.
Disso, pode-se dizer que Lula precisa reduzir para menos de 8 milhões de votos a derrota no Sudeste. De preferência, manter a derrota em torno dos 4 milhões de votos. Além disso, é importante que mantenha a vantagem no Nordeste, se não de 12 milhões de votos como tem ocorrido nas ultimas cinco eleições, pelo menos em torno dos 10 milhões de votos. Neste caso, são os dois grandes desafios que a eleição vai proporcionar.
Por isso é importante observar que manter a dianteira conquistada no Nordeste é tão difícil quanto reduzir a diferença da direita no Sudeste, mas esse movimento de pinça é decisivo para a vitória eleitoral, que não se trata de proporções mais de número de votos.
*Luís Fernando Vitagliano é doutor em “Mudança social e participação política” pela EACH-USP. Autor, com Marcio Pochmann, do livro O atraso do futuro e o “homem cordial” (Hucitec). [https://amzn.to/3CRWcNw]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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