Vanderlei Tenório: Como devolver o que nunca foi seu e sair como herói

Tempo de leitura: 3 min
Ilustração: Carlos Latuff (carloslatuff)

Por Vanderlei Tenório*

Imagine um síndico que passa anos desligando a água de um morador, bloqueando suas encomendas, dificultando a entrada das visitas e implicando com qualquer reforma que ele tente fazer no apartamento.

Depois de muito tempo, o síndico convoca uma reunião extraordinária e faz uma proposta:

“Se você prometer que não vai mexer em nada sem a minha autorização, eu volto a abrir o registro da água, libero suas encomendas e paro de fiscalizar a sua porta três vezes por dia.”

O morador, que já estava tomando banho de canequinha e carregando balde escada acima, aceita na hora. Os vizinhos comemoram o entendimento. O síndico recebe elogios pela capacidade de diálogo. E quase ninguém percebe que a grande concessão do acordo foi devolver ao morador uma parte daquilo que já era dele desde o começo.

Parece história de condomínio. Mas, em escala internacional, o roteiro não é muito diferente.

Pois bem. Foi mais ou menos isso o que aconteceu nesta semana entre os Estados Unidos e o Irã.

Um memorando de 14 pontos. Quatorze. E, se você espremer o texto direitinho, sai o seguinte suco de cinismo: o Irã entra com o programa nuclear, com a fiscalização permanente e com a promessa de ser um bom menino. O Tio Sam entra com o “perdão por ter sufocado você” e devolve parte das chaves que ele mesmo havia recolhido ao longo dos anos.

É o triunfo da paz dos fortes. Uma maravilha de igualdade. Parece um ladrão devolver a carteira vazia à vítima e ainda esperar um cartão de agradecimento no Natal.

O acordo funciona muito na lógica do “quebro suas pernas e depois vendo as muletas com desconto, desde que você me deixe revistar suas gavetas de seis em seis meses”. O Irã recupera gradualmente aquilo que nunca deveria ter perdido: o direito de comprar e vender sem que alguém telefone para o gerente do banco. Mas tudo condicionado a sorrir para Washington. Se o aiatolá espirrar sem pedir licença, o cadeado volta para a porta.

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E o que acho mais fascinante na geopolítica de alta-costura é a tal da não proliferação. O conceito é lindo, quase poético. Só quem pertence ao clube do charuto pode ter o brinquedo de explodir o planeta.

Se você já possui a bomba, tudo bem. É uma democracia consolidada e responsável, mesmo que, de vez em quando, resolva invadir um vizinho porque “acreditava” que ele tinha armas que nunca apareceram.

Agora, se está fora do clube e tenta acender um simples estalinho para se defender, transforma-se imediatamente em uma ameaça global.

O debate nunca foi sobre um mundo sem bombas. O debate é sobre quem pode ter o controle remoto da destruição total na mesa de cabeceira.

Nessa altura, alguém há de perguntar:

“E o tal do Estreito de Ormuz?”

Pois é. Aí entramos no terreno onde as grandes potências realmente se entendem: o dinheiro.

Quando começou o quiprocó, o mundo fingia estar profundamente preocupado com as criancinhas e com a população civil local, que já vinha sofrendo com as sanções havia décadas. Não estava. O mundo só entrou em pânico de verdade quando olhou para o preço do barril de petróleo.

O Estreito de Ormuz é aquele lugar por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta. Se aquilo fechar, a gasolina em Nova York sobe alguns centavos, o mercado financeiro em Londres tem uma crise de labirintite e a classe média brasileira começa a chorar na bomba de combustível, entoando a velha pergunta dos bolsoloides: “Quem é o presidente mesmo?”

No segundo em que o petróleo correu perigo, a diplomacia internacional, que normalmente anda na velocidade de um Fusca velho para resolver crises humanitárias, passou a operar na velocidade de uma Mercedes. Surgiram reuniões de emergência na ONU, cafezinhos diplomáticos com biscoitinhos amanteigados, tapinhas nas costas e, de repente, o acordo apareceu.

A velocidade para salvar um litro de nafta é sempre muito maior do que a velocidade para salvar uma vida. Se o Estreito de Ormuz transportasse apenas água mineral e boas intenções, estariam discutindo o memorando até o próximo século.

No fim das contas, o cessar-fogo é ótimo, claro. Evita que o mundo vire um churrasco antes da hora. Mas não resolveu grande coisa. As divergências continuam lá, as sanções podem voltar ao primeiro sinal de desobediência e o Tio Sam continua com a mão no disjuntor da energia dos outros.

É uma trégua de condomínio.

O mundo continua sendo aquele recreio da escola onde o garoto de dois metros de altura dita as regras do futebol, escolhe quem joga, inventa o impedimento quando lhe convém e, se estiver perdendo, enfia a bola debaixo do braço e vai embora. E o resto da ONU fica ali em volta, batendo palmas e dizendo:

“Que rapaz maduro. Como ele preza o diálogo.”

Viva a diplomacia internacional.

Mas, por via das dúvidas, abasteça o carro hoje à noite.

*Vanderlei Tenório é jornalista e professor.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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