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Soros achou que Xi Jinping era Yeltsin, mas vai quebrar a cara com o líder chinês
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Política

Soros achou que Xi Jinping era Yeltsin, mas vai quebrar a cara com o líder chinês


13/09/2021 - 20h26

O sonho de George Soros: tornar a China uma oportunidade para privatizações selvagens

Por Michael Hudson, no Resistir.info, com tradução abrasileirada pelo Viomundo, via AEPET

Num artigo no Financial Times, “Investidores na China de XI enfrentam um rude despertar”, publicado em 30 de agosto de 2021, George Soros escreve que a “repressão de Xi à empresa privada mostra que ele não entende a economia de mercado. […] Xi Jinping, o líder da China, chocou-se com a realidade econômica. A sua repressão da empresa privada tem sido um entrave à economia”.

Traduzindo esta dupla linguagem orwelliana, “repressão à empresa privada” significa reduzir aquilo que os economistas clássicos chamavam de busca de renda não merecida.

Quanto ao suposto “entrave à economia”, Soros quer dizer polarização da economia, concentrando a riqueza e o rendimento nas mãos do 1% mais rico.

Soros apresenta seu plano de retaliação dos EUA à China sugerindo retenção do financiamento estadunidense (como se a China não pudesse criar o seu próprio crédito) até que a China capitule e imponha a espécie de desregulamentação e redução de impostos que a Rússia impôs depois de 1991.

Ele adverte que a China sofrerá uma depressão ao salvar sua economia seguindo linhas socialistas e resistindo à privatização ao estilo americano e à deflação da sua dívida.

Soros reconhece que o “setor mais vulnerável da China é o imobiliário, particularmente a habitação. A China tem desfrutado de um boom imobiliário prolongado nas últimas duas décadas, mas isso está chegando ao fim. A Evergrande, maior empresa imobiliária, está endividada e corre risco de falir. Isto pode causar um crash“.

O que vai significar uma redução dos preços da habitação. É exatamente o necessário a fim de impedir que as terras se tornem um veículo especulativo.

Eu e outros exortamos a uma política de tributação da terra a fim de arrecadar o valor crescente, de modo a que esta não seja comprometida junto aos bancos de crédito hipotecário para inflacionar ainda mais os preços do setor na China.

Alertando para as consequências econômicas da queda da taxa de natalidade na China, Soros escreve: “Uma das razões pelas quais as famílias da classe média não estão dispostas a ter mais do que um filho é que querem ter a certeza de que os seus filhos terão um futuro brilhante”.

Isto, naturalmente, é verdade para todas as nações avançadas de hoje.

É mais extremo nos países neoliberalizados, por exemplo, os países Bálticos e a Ucrânia – os países cartazes de Soros.

Soros revela o seu jogo ao afirmar que “Xi não compreende como funcionam os mercados”.

O que ele quer dizer é que o Presidente Xi rejeita a procura voraz por renda, a exploração livre para todos, e que molda os mercados para servir aos 99% e à prosperidade global da China.

“Em consequência, a liquidação foi autorizada a ir demasiado longe”, continua Soros.

O que ele quer dizer é, demasiado longe para manter o controle do 1%.

A China procura reverter a polarização econômica, não intensificá-la.

Soros afirma que as políticas socialistas da China prejudicam os seus objetivos no mundo.

Mas do que ele realmente reclama é que está prejudicando os objetivos neoliberais dos Estados Unidos quanto à forma como ele, Soros, esperava ganhar dinheiro para si próprio com a China.

Isto leva Soros a lembrar gestores de fundos de pensão ocidentais que “devem alocar os seus ativos de forma estreitamente alinhada com os valores de referência em relação aos quais o seu desempenho é medido”.

Mas a tragédia da financeirização das aposentadorias é que os gestores de fundos de pensão são avaliados pelo dinheiro que ganham financeiramente – de forma que prejudicam a economia industrial, ao promover engenharia financeira ao invés da engenharia industrial.

“Quase todos eles afirmam que incorporam padrões ambientais, sociais e de governação empresarial (ESG) nas suas decisões de investimento”, escreve Soros.

Pelo menos, é o que anunciam seus relações públicas.

A Exxon afirma limpar o ambiente através da expansão da perfuração de petróleo offshore na Guiana, etc.

Quanto aos “padrões sociais”, a lengalenga neoliberal é uma economia de gotejamento: ao fazer subir os preços das nossas ações, através da recompra de ações e do pagamento de dividendos mais elevados, ajudamos os assalariados a ganhar uma aposentadoria, apesar de promovermos deslocamento e desindustrialização da economia, fim dos sindicatos e “libertamos” a economia das leis de proteção ao consumidor e ao local de trabalho.

“O Congresso dos EUA deveria aprovar uma lei bipartidária exigindo explicitamente que os gestores de ativos investissem apenas em empresas onde as estruturas de governança reais sejam transparentes e alinhadas com as partes interessadas”, escreveu Soros.

Uau! Tal projeto de lei impediria os americanos de investir em muitas empresas americanas cujo comportamento não está de todo alinhado com as partes interessadas. Em que proporção: 50%? 75%? Mais?

“Se o Congresso aprovasse estas medidas”, conclui Soros, “daria à Securities and Exchange Commission os instrumentos de que ela precisa para proteger os investidores americanos, incluindo aqueles que não estão conscientes de possuírem ações chinesas e empresas de fachada chinesas. Isso serviria também aos interesses dos EUA e da comunidade internacional das democracias em geral”.

Assim, Soros quer impedir os Estados Unidos de investir na China.

Ele parece não ver que este é também o objetivo do Presidente Xi: a China não precisa de dólares norte-americanos e está de fato a desdolarizar.

George Soros está obviamente aborrecido pelo fato de o Presidente Xi não ser Boris Yeltsin e a China não segue a cartilha da dependência cleptocrática que demoliu a economia da Rússia.

Soros pensava que o fim da Guerra Fria simplesmente o deixaria comprar os mais lucrativos ativos geradores de renda, como ele pretendeu fazer nos países do Báltico e na Ucrânia.

A China disse “não”, por isso não é considerada uma “economia de mercado”, ao estilo de Soros.

Não tornou a sua organização social comercializável e evitou a dependência financeira que torna os “mercados” um veículo para o controle dos EUA, através de sanções e aquisições de empresas estrangeiras.

Nota: Privatizações selvagens. No Brasil diz-se privataria. Em inglês traduz-se por grabitization: uma fusão de grab (agarrar) e privatization (privatização). A palavra teve origem na Rússia cleptocrática do tempo de Yeltsin, a chamada prikhvatizatsiya, quando gigantescas empresas estatais foram entregues a empresários em troca de tostões.

Nota do Viomundo: Soros não tem nada de bobo. Ele financia muitos supostos “esquerdistas”, como fez a CIA na Guerra Fria, com o objetivo de tê-los na mão quando for necessário fazer campanha pelos direitos humanos na China. Na China, não na Arábia Saudita! Quando você descobrir uma galera de esquerda paga pelo Soros, é disso que se trata.





6 comentários

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Nelson

16 de setembro de 2021 às 10h34

Neste momento, o desgoverno de Jair Bolsonaro, e sua maioria do Congresso Nacional, estão prestes a darem mais um passo na direção da destruição definitiva do Estado nacional brasileiro.

A PEC 32, chamada de “reforma” Administrativa, está para ser votada e, se aprovada, acabar com a estabilidade do servidor público, entre outras barbaridades, decretando o fim do serviço público.

Grande parte do povo brasileiro nutre raiva do servidor público por duas razões, pelo menos: Uma delas, as deficiências do setor que vão se arrastando e demora muito tempo para serem sanadas. A outra, a postura da mídia hegemônica que sempre procura se referir ao serviço público ou ao servidor da forma mais negativa possível, apontando a estabilidade como a fonte dessas deficiências.

O importante papel cumprido pela estabilidade, como um freio aos desmandos dos governos de plantão, à corrupção e aos favorecimentos nunca é exposto por essa mídia. Da mesma forma, essa mídia nunca proporciona um debate aberto, sério, sobre o serviço público.

Assim, deixou uma sugestão ao Azenha e à Conceição: a publicação de matéria ou matérias acerca da estabilidade do servidor público e do serviço público em geral.

Lembro de ter lido, certa feita, no blog “Desemprego Zero”, se não estou enganado, que a estabilidade do servidor público foi instituída – imagine – nos Estados Unidos nos inícios do século passado. Mas, bobeei e não guardei o link nem copiei a matéria para guardá-la. Tentei buscar a matéria, mas não consegui localizá-la na Internet.

Seria importante uma matéria desse tipo para mostrar ao povo brasileiro que a estabilidade do servidor não é só mais uma das tantas invenções tupiniquins destinadas a garantir privilégios a alguns e também a sua importância para a própria população.

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Nelson

15 de setembro de 2021 às 11h41

DA IMPORTÂNCIA DE UM ESTADO FORTE QUE POSSA DETERMINAR OS RUMOS A SEREM SEGUIDOS POR QUALQUER NAÇÃO

O eminente jornalista Jânio de Freitas, um dos poucos da mídia hegemônica que conseguiu manter sua coerência por décadas, independentemente de governos, disse, certa vez, algo que, certamente, o fez passar a ser detestado por 11 entre 10 neoliberais, privatistas, liberais e outros “objetos” do ramo.

Freitas disse que a iniciativa privada não faz um país. Para isso, é preciso um serviço público estruturado e qualificado, frisou ele. Com toda a razão, pois a empresa privada não tem visão de comunidade, do todo, de nação. Sua prioridade primeira, não raro a única, é obter lucros.

Estou a demonizar a empresa privada, a pregar a sua extinção? Não. Apenas descrevo como a coisa funciona em sua crua realidade. Crua realidade que o aparato de propaganda do sistema capitalista faz o possível e o impossível para esconder.

O certo é que, para o bem do próprio capitalismo, da grande maioria das próprias empresas privadas, vários setores da economia têm que, obrigatoriamente, ser estatais. Não à toa, conforme o economista Ladislau Dowbor, nos países ricos – CAPITALISTAS, frisemos – o Estado abarca 40% da economia.

É de imaginarmos onde estaria a China hoje se a Revolução Chinesa, ocorrida no final da década de 1940, tivesse ouvido os conselhos do duo FMI/Banco Mundial e, ao invés de fortalecer seu Estado, tivesse optado pelo liberalismo que era recomendado pelos EUA e a Europa Ocidental.

O gigante asiático mantém seu Estado fortalecido e apontando os rumos da nação. Ao mesmo tempo, o gigante latino-americano, que já desmantelou grande parte do aparato estatal que construiu com muito sacrifício, pretende desmantelá-lo por completo.

Em benefício apenas das megacorporações capitalistas e dos países ricos onde estão sediadas e para desespero da grande maioria de seu povo.

Neste artigo, o economista Michael Hudson, nascido nos Estados Unidos e considerado por muitos o maior economista vivo, mostra, entre outras coisas, a importância que um Estado fortalecido tem para um país.

Hudson mostra ainda porque veremos, cada vez mais, a China e o povo chinês serem vilipendiados e difamados pelo monumental aparato de propaganda montado pelo sistema capitalista para cativar e alienar corações e mentes de bilhões de pessoas em todo o mundo.

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Morvan

15 de setembro de 2021 às 08h57

Soros adora “esquerdista” fisiológico e economia de mercado, desde que financeiro. Mercado é onde eu costumava comprar peixes. Hoje, é onde pessoas se venderam. Sem retorno.

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    Nelson

    15 de setembro de 2021 às 11h39

    “Mercado é onde eu costumava comprar peixes. Hoje, é onde pessoas se venderam. Sem retorno.”

    Definição certeira, Morvan. Parabéns. Tem a contundência de uma outra definição atribuída ao Alfred Neumann e publicada num dos números da revista Mad da década de 1990, se minha memória não falha:

    “Um país capitalista se faz com homens corruptos e livros caixas rasurados”

    Morvan

    16 de setembro de 2021 às 09h33

    Bom dia. Obrigado pela resposta, Nelson.

Carlos Zupp

15 de setembro de 2021 às 07h37

Como assim? Esse cara é um bandido de primeira linha. Gostava de tê-lo por 2 minutos na minha frente.

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