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Raúl Zibechi: Com Biden haverá mais “revoluções coloridas” na América Latina
Golpe de Estado em Honduras (2009) patrocinado pelo governo de Obama. Foto: La Jornada
Política

Raúl Zibechi: Com Biden haverá mais “revoluções coloridas” na América Latina


18/01/2021 - 16h50

Com Biden haverá mais “revoluções coloridas” na América Latina

Por Raúl Zibechi *, em Rebelion 

Se o mandato de Trump foi abominável, o de Biden não será menos.

Recordemos a guerra na Síria, a liquidação da Primavera Árabe e a invasão da Líbia, promovidas e executadas pela equipe que agora retorna à Casa Branca.

As formas mudam, mas o fundo continua sendo o mesmo.

Em vez do muro, das restrições aos emigrantes e o discurso ultra de Donald Trump, virão as declarações corretas de Joe Biden sobre a democracia, as mulheres e os afrodescendentes.

Em vez do militarismo descarnado, as revoluções coloridas idealizadas pela Open Society de Soros para promover mudanças de regime que favoreçam seus interesses.

A pista foi dada por Thomas Shannon em primeiro de janeiro numa carta aberta publicada nos meios brasileiros.

Ele foi embaixador dos EUA no Brasil no governo de Obama e tinha sido subsecretário para Assuntos do Hemisfério Ocidental com George W. Bush.

A carta de Shannon, intitulada “A delicada verdade sobre uma velha aliança” foi publicada na revista Crusoé (https://bit.ly/2LLldiB), que se faz passar por jornalismo independente e anti-bolsonarista agora, mas cujos fundadores desempenharam um papel de destaque no processo contra Lula que resultou na sua prisão e na destituição de Dilma Roussef, operando na época a partir do influente (sic) O Antagonista (oantagonista.com).

Shannon inicia sua carta assegurando que a relação entre o Brasil e os Estados Unidos é uma das peças fundamentais do século XXI.

Relata em seguida as semelhanças entre suas sociedades, para arrematar que o presidente eleito (Biden) conhece bem o Brasil e a América Latina, assegurando que nenhum presidente norte-americano iniciou seu mandato com tanto conhecimento e experiência sobre a região.

Na segunda parte de sua missiva, Shannon empreende um feroz ataque ao governo de Jair Bolsonaro, porque ele fez tudo o que era possível para complicar a transição na relação bilateral, ao expressar sua preferência por Trump nas recentes eleições e por ter criticado a Biden, que pediu em um debate uma ação mais enérgica de Brasília contra o desmatamento.

Para Shannon, é inadmissível que Bolsonaro tenha repetido as infundadas acusações do Presidente Trump sobre fraude nas eleições norte-americanas, já que foram interpretadas isso como um ataque à democracia dos Estados Unidos e ao futuro governo de Biden.

Contudo, o mais grave começa depois. Shannon diz ao governo o que ele deve fazer em três aspectos (a pandemia, as mudanças climáticas e a posição diante da China em relação às redes 5G), e logo ameaça: é algo que não será perdoado facilmente nem esquecido, arremata o diplomata.

Alguns poderão se alegrar, inclusive entre a esquerda, de que o novo governo dos EUA baixe o polegar para Bolsonaro.

Na minha opinião, tanto o silêncio do Partido dos Trabalhadores do Brasil como do próprio Lula mostram as dificuldades da esquerda diante da mudança em curso na Casa Branca.

Não se trata de Jair Bolsonaro, mas sim de nossos países, da soberania das nações.

O presidente do Brasil deve ser condenado e afastado pelo seu próprio povo. Já deu todos os motivos para que a sociedade se mobilize para destituí-lo, mas que do Império ameacem com novas revoluções coloridas é uma péssima notícia.

Poderão atacar agora governos de ultra-direita, mas atropelarão tudo o que ficar no seu caminho, seja conservador ou progressista.

A operação para derrubar Bolsonaro já conta com um considerável apoio midiático e institucional.

A Ordem dos Advogados do Brasil, que jogou sujo contra Lula e pediu a destituição de Dilma (https://bbc.in/3soJjAA), está promovendo agora a destituição de Bolsonaro.

Seu presidente, Felipe Santa Cruz, declarou que o ritmo do processo será ditado pela pressão das ruas, chamando, de fato, a mobilização popular (https://bit.ly/3q5ntQS).

Para a direita democrática, essa que aposta na defesa do meio ambiente com medidas cosméticas, que enfeita o gabinete de Biden com mulheres e afro-descendentes, mas que continua sustentando a violência policial/patriarcal, chegou o momento de colocar um freio da ultra-direita.

Os bolsonaristas fizeram o trabalho sujo contra a esquerda, mas já não são mais úteis, da mesma forma que Trump.

Para compreender essa virada, basta lembrar as guerras centro-americanas, onde o Pentágono apoiou primeiro os genocídios militares para logo em seguida promover opções centristas, como as democracias cristãs, pra recompor o cenário diante do forte desgaste dos golpistas na Guatemala e em El Salvador.

Na América Latina, as destituições ilegítimas (outros diriam golpes) de Manuel Zelaya (2009), Fernando Lugo (2012) e Dilma Roussef (2016), ocorreram sob o governo progre de Barack Obama (2009-2017).

Não podemos esquecer Trump, mas também que, pelas mãos de Biden, retornem personagens nefastos como Victoria Nuland, organizadora do golpe e posterior guerra na Ucrânia.

PS do Viomundo: Na avaliação de Renzo Bassanetti, Raul Zibechi é, com Atílio Boron, um dos melhores analistas progressistas em geopolítica da América Latina.

Tradução do espanhol: Renzo Bassanetti





4 comentários

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Zé Maria

23 de janeiro de 2021 às 17h27

Evidente que o Báidi armou um Esquema
pro FDP do Navalny voltar pra Rússia.
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55726750

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Zé Maria

23 de janeiro de 2021 às 16h19

Mal iniciou o Mandato, e o Báidi já quer derrubar o Putin.
Revolução Colorida na Rússia? Essa é de se querer ver …

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Zé Maria

21 de janeiro de 2021 às 17h23

Ontem, empossou-se o Novo Imperador da América.

Bolsonaro vai ter de sentar no Mastro da Bandeira dos EUA,
só bater continência não vai adiantar, se quiser permanecer.

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