Paulo Ramos: Olhar para Brixton, Bronx e Baixada

Tempo de leitura: 4 min

A emenda e o soneto

por Paulo Ramos, via Facebook

Tem havido um debate suscitado pela revista CartaCapital a respeito do cenário de produção e criação artístico-cultural no Brasil. De um lado, temos os críticos do momento atual, dizendo que existe um “vazio” cultural e que as coisas vão de mal a pior. De outro, há os menos catastrofistas que dizem que existem tantas coisas boas que é impossível acompanhá-las, ou que as coisas boas podem ser vistas hoje como puderam ser vistas no passado; basta procurá-las.

Do lado dos que desprezam a atualidade, eu diria que vemos o namoro com os grandes cânones, o flerte com as linhas consagradas, o reconhecimento de uma alta cultura – que não necessariamente “de elite” – e necessidade de uma releitura clássica.

Já entre os meramente satisfeitos com o dia de hoje existem os que estão atentos aos movimentos ligados a uma certa cultura popular, às novidades de mercado ou a adesão à produção underground.

De minha parte, eu reconheço que há muita coisa hoje que pode dar aversão, desgosto ou desesperança no futuro – por exemplo, a canção Camaro Amarelo ser premiada como a melhor música do ano pela Rede Globo de Televisão.

Porém, maior estranheza me causa ler um discurso catastrófico como se nada que é produzido hoje em dia prestasse; como se nada do que está posto no rádio, na TV, nos jornais, na internet etc. carregasse uma nesga de fertilidade inteligente.

O mais recente argumento posto na discussão é uma réplica de Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP e colunista da CartaCapital. Como uma emenda ao soneto que não fora compreendido, ele traz um novo elemento à discussão, qual seja, a do uso mercadológico da ideia de “popular” pela indústria cultural. É, sempre isso houve, desde Noel Rosa pelo menos.

Mas ele não descarta o centro de sua argumentação. “É fato, porém, que a cultura brasileira há tempos não consegue criar continuidades, sequências de trabalhos que fazem a linguagem artística avançar e que fornecem aos novos artistas um horizonte de exploração.”

Safatle, como acadêmico que é, não deve ter esquecido que linearidade, continuidade, sequências e coisas do gênero, não são palavras que interessam ao processo criativo. Muito menos ao gosto ou ao belo. Linearidade e coerência são coisas que importam ao especialista. Poderíamos perguntar até: quem é que precisa de linearidade?

Por outro lado, quem está dizendo que não há? A depender de onde se procurar não haverá, mesmo. Não foram os tropicalistas que se deram este nome, foi um jornalista que os reuniu e fez o “bem bolado”. Aliás, aquele que procurar por sonetos musicados ao som de um acordeom afrancesado, como nas músicas de Chico Buarque, não vai encontrar.

Mas se tentarmos uma busca por “emendas”, talvez valha a pena. Pois as rimas tão precisas quanto previstas e coerentes não são realmente a tônica de nossos dias. A haute culture não faz escola por aqui. Não foi um balé clássico que fez de 2 Filhos de Francisco um belo filme, mas o Cisne Negro pode inspirar um B.Boy do Hip Hop. Mario Quintana pode inspirar um M.C. e uma orquestra sinfônica pode tornar um pagode mais bonito.

Mas se tentarmos linearidade, que tal pensar em Tropicália, Jorge Ben Jor, Racionais MC’s, O Rappa, Paulo Lins, Ferrez, Emicida, Criolo, Caetano Veloso? Não vêm da Europa ou falam alemão, e ainda falam de coisas sujas, o crime, macumba…

Além de falarem de amor, do coditiano, de problemas sociais etc.

Outra emenda de Safatle pode ser “o problema não é a universidade que não ouve hip-hop (o que está longe de ser verdade), mas a periferia que não tem o direito de conhecer John Cage”.

Quem disse que não? Dito assim, parece como um dado e ponto. Será que ele sabe o que já leu o Emicida (cuja principal referência, segundo o próprio, é o Mario Quintana)? E os caras do O Rappa, será que ele tem a vaga ideia de onde eles vão buscar elementos pra tanta sonoridade da poesia cantada? E o que estudam os criadores dos afrescos modernos que embelezam as ruas da cidade e espalham arte pelo espaço público? E os saraus que ocorrem nas periferias de São Paulo não apresentam poesia?

É preciso saber que “a poesia não se perde, ela apenas se converte pelas mãos no tambor”, como canta O Rappa. As novidades, mesmo as da cultura, não precisam estar incrustadas no passado de cânones dos teatros municipais. Mas anterior a esta compreensão, é preciso a ação de olhar para Brixton, Bronx para a Baixada Fluminense e reconhecer que há algo que se ver lá.

Caso contrário, anterior a esta compressão e à superação desta inviabilidade, qualquer emenda ao soneto produzido por uma compreensão colonizada sempre precisará de emenda, e todo pas de deux será um tropeço.

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Comentários

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A esperança de óculos

[…] [i]  Publicado orginalmente na revista FPA Discute Classes Sociais, da Fundação Perseu Abramo. Uma versão preliminar deste ensaio foi publicado no Blog Vi o Mundo, em 17 de março de 2013: http://www.viomundo.com.br/politica/paulo-ramos-olhar-para-brixton-bronx-e-baixada.html […]

Caracol

Respondo aqui, Yuri, pois abaixo do teu excelente comentário não apareceu o “comentar”.
Concordo com você, Yuri Ismael, quando você diz que “o conhecimento abrangente sobre a música simplesmente não está chegando da forma como deveria à população”. Sem dúvida. Mas enquanto o julgamento estético repousar sobre o arcabouço cultural de uma pessoa, esse julgamento será sempre subjetivo: ele gosta ou não gosta. Julgar o julgador depende de um determinado contexto, logo, ele também será sempre subjetivo.
Acho, como você, que as fronteiras do conhecimento devem ser sempre alargadas e disponibilizadas. Eu não gosto de funk, mas acho que se alguém gosta, ele deve ouvir, e bom proveito (meu problema é com o volume daqueles idiotas que me obrigam a ouvir o que não gosto, da mesma forma que os histéricos e berrantes pastores de igreja evangélica). Portanto, meu problema aí é a tecnologia e a agressividade desses estafermos.
Agora… se eles gostam, e enquanto as fronteiras não forem alargadas…

    Yuri Ismael

    Exato, Caracol, daí a importância de lutarmos por uma formação artística plena dos indivíduos, que os possibilite sair dessa potente zona de conforto que é o reino da subjetividade. O Safatle menciona que John Cage não está chegando na periferia, e eu concordo plenamente: a indagação de Paulo Ramos (“como ele sabe?”) é muito ingênua, quase uma não-questão. O “fato” (como ele sabe?) de que um ou dois TALVEZ conheçam não nega o FATO, esse medível, apurável, de que as pessoas em formação escolar, de maneira geral, não estão tendo acesso ao conhecimento musical como deveriam (sem contar aqueles que já saíram da escola há muito tempo). E, venhamos e convenhamos, conhecer Mário Quintana tá longe, muito longe de ser tão difícil quanto conhecer John Cage, em termos de acesso a informação (pra começo de conversa, não dá pra conhecer música sem ouvir música, e das lojas especializadas aos camelôs, passando pela internet, é dificílimo encontrar coisas do repertório contemporâneo, de vanguarda). A única forma objetiva que teríamos de, inclusive, tornar irrelevante (porque ela deveria ser, em um mundo ideal) a questão do acesso e partir para reflexões mais profundas é garantir a formação escolar, por um lado, e talvez a expansão de escolas de música públicas, para quem já saiu da escola, por outro. Eu sou bem pessimista: no capitalismo, isso nunca acontecerá.

    Permaneço separando o julgamento subjetivo, espontâneo, apaixonado, do julgamento estético, pelo menos aquele que considera a questão de maneira dialética (e não meramente etnocêntrica). Meu gosto pessoal interfere, claro; porém, na medida em que entro em contato com julgamentos de pessoas mais esclarecidas do que eu, e que não se limitam à refletir a partir do meu arcabouço cultural imediato, meu próprio julgamento se transforma, por razões construídas socialmente – pra mim, é a partir dessa influência social mais abrangente que o julgamento pode se tornar mais objetivo, menos egocêntrico (embora nunca deixe a subjetividade de lado). E daí começam a surgir uma série de questões que embasariam uma definição objetiva do que é uma música de qualidade, tipo: tal obra acrescenta alguma coisa à práxis e à cultura musical como um todo, ou seja, desenvolve novas possibilidades (mesmo que mantenham a conservação de outras), ou é mera repetição fabril (alô, Adorno!) do que já foi feito, mera “repetição sobre o mesmo tema”? Será que um pagode, só por ser orquestrado, é capaz de se tornar boa música (é sutil, mas pra mim esse argumento do Ramos tem até um certo viés elitista)? O conteúdo literário das canções nos possibilita ter uma nova nova visão da realidade, expande minha percepção social, ou não consegue se desvincular da norma do “eu te amo, meu amor, I love you, paixão do meu coração”? Vê, as questões deixam de ser meramente relacionadas ao Ego, “isso ME representa, isso ME atrai, isso ME arrepia”, e passam a se voltar ao objeto em si, e à sociedade de maneira mais abrangente, “o que há de novo ali, na própria forma musical? Como aquela obra explica seu contexto? Como aquela obra se encaixa no cenário musical como um todo, inclusive histórico?”. É a partir daí que podemos saber se a poesia se perde ou se transforma; é a partir desse tipo de questão que Vladimir Safatle, Mino Carta e tantos outros, com toda propriedade e minha humilde concordância, se preocupam em apontar e denunciar o esvaziamento cultural de nossos dias.

    Mil perdões pelos posts compridos, mas eu me empolgo com esse tipo de discussão :)

    Caracol

    OK, Yuri Ismael, estamos avançando.
    Repare que você se desculpou por seus comentários “compridos”. Ora, a mim não importa quão compridos sejam seus comentários, desde que eles me façam entendê-lo. Se o que eu quero é entender o seu ponto de vista, eu tenho que “tolerar” que eles sejam compridos. Você, como artista e músico, vai saber harmonisar muito bem forma e conteúdo, não é mesmo?
    Enfim, no fundo, o que nós dois estamos falando é sobre tolerância.
    Você diz que sob o capitalismo, a expansão de escolas de música públicas, nunca acontecerá. Sem dúvida! Quem pensar diferente pode tirar o cavalinho da chuva!
    Um ponto de vista para elucidar: eu, particularmente, não aprecio um discurso populista. No entanto, caso o discurso populista seja a única via que permita o estabelecimento de contato das massas populares com a política e com os governos, com a direção e o sentido de vidas em seu dia-a-dia real e não do imaginário e onírico, ora, então viva o populismo!
    Então, como eu já disse: o meu problema maior, o que me tem atrapalhado a vida é a tecnologia, é o volume dessas aberrações musicais. A tecnologia avançou, não sou contra ela, mas sim ao uso que se faz dela, e que diabos, a tecnologia avançou milênios enquanto a natureza humana na sua essência avançou chongas. Na verdade, a coisa anda tão ignóbil que eu já cheguei à conclusão que a qualidade de vida de uma pessoa era melhor na Idade Média. Mesmo com peste negra, senhores feudais para explorar as pessoas, colchões de capim, etc.
    Reconheço que se trata de uma afirmação – na melhor das hipóteses – polêmica. Tudo vai depender do que eu e você entendamos o que venha a ser qualidade de vida, mas se eu gosto de som de alaúde… isso é objetivo ou subjetivo?
    Então, sejamos revolucionários sim e MUITO, mas também tolerantes.

    Caracol

    Desculpe: harmonizar com “z”.
    Como vê, a forma também a mim incomoda.

NPFreitas

O Yuri Ismael fez considerações muito relevantes, de alguém que realmente entende da questão. A respeito da obrigatoriedade do ensino de música na escola, também no meu Estado (PI), ainda quase nada. Ouço falar de alguma iniciativa, nas séries iniciais, em raras escolas privadas. Mas a abordagem da matéria é muito interessante no sentido de que, quando se fala em arte,a abordagem é essencialmente excludente da cultura popular e carregada de preconceitos. Este artigo precisa ser lido por Mino Carta que, em recente editorial da sua C. Capital, fala como se estivéssemos no vazio da cultura.

Urbano

Creio que a aridez cultural conseguiu o seu ápice, após trinta anos de esvaziamento. Na música então… Alguns poetas e literatos, principalmente da querida Boa Terra, quando abrem a boca é só para baianadas; com todo o respeito ao povo baiano, sábio que é, sem a menor sombra de dúvidas. Mesmo aqueles que fizeram algo bastante proveitoso, resolveram passar o pé em cima, ao emitir opiniões cafofas sobre a política que veio a ser implantada pelo Eterno Presidente Lula. Nem sequer se apercebem do ridículo a que se expõem com as suas baboseiras, sem um mínimo de consistência, nanicas mesmo. Pior são aqueles que em sua arte fizeram apenas figuração, com umas mal traçadas linhas ou versos de pé de ladeira, mas mesmo assim posam de fulgurantes pensadores, com a devida sabedoria e competência para defender os bandidos da oposição ao Brasil. Há quem não fale sequer em seu povo ou no Mateus, por exemplos. São uns verdadeiros despejantes e caminhantes atravessando uma densa selva.

Tatiana

Achei este texto excelente!

Lucas

Ok, vamos seguir a sugestão do autor: o que há em Brixton? Punk rock, o que há no Bronx: rap, o que há na Baixada Fluminense: funk da ostentação.
O autor do texto parece se degladiar com senhores dos anos 60 que provavelmente diriam que o que o Beatles fazem não é música, que música de verdade é um quarteto de cordas.
Hoje ninguém mais se pergunta se o rock, se o rap e o funk são cultura, arte. A grande questão é: passados 100 anos, olharemos para trás e pensaremos que o funk da ostentação era o que melhor estava sendo produzido nos anos 2010? Quero ver a desfaçatez de quem responder essa pergunta afirmativamente. Não se trata de reconhecer a “cultura do povo”, se trata de reconhecer o que realmente É BOM e o que NÃO É, independente de onde vem a cultura e a arte. Se nossa sociedade ainda é injusta e faz com que as classes mais pobres tenham menos oportunidades de produzir obras de uma estética de verdadeiro interesse, o que temos que fazer não é enaltecer qualquer coisa produzida na baixada, no bronx ou onde quer que seja (da mesma forma não temos que achar que qualquer besteira erudita tem qualidade, como por exemplo os versos oriundos de um ex-presidente do STF).

    Caracol

    Lucas, BOM é o que você e eu gostamos, RUIM é o que não gostamos. Ponto.
    Fico pensando nos trogloditas ficando assombrados enquanto um de seus artistas pintava as figuras rupestres na caverna. E naqueles que grunhiam por alguém estar sujando as paredes.

    Yuri Ismael

    Não acho que a questão do julgamento de valor deva se resumir a esse subjetivismo, a esse relativismo do “o que eu gosto é bom, o que eu não gosto é ruim”. Há duas coisas em questão aqui: o julgamento que parte do gosto pessoal, que é aquele “espontâneo”, que julga à primeira vista (ou audição) mesmo e não está muito preocupado em discutir suas próprias bases – esse é o relativo.

    Mas há também o julgamento estético, que parte de análises mais profundas, considerações mais abrangentes e detidas acerca da Arte – e que, por isso, nos oferece padrões de qualidade mais objetivos, ou pelo menos não apenas subjetivos. A análise estética tende a considerar o todo (social, histórico e geográfico – e, embora existam extremistas, a coisa tá longe de se resumir ao olhar sobre a cultura erudita) para poder apreender as possibilidades do fazer artístico e empreender uma comparação mais racional entre diferentes obras e correntes artísticas. Em suma, o julgamento estético é o que me permite afirmar (e essas são, de fato, minhas opiniões): eu não gosto de Mozart, mas ele era genial e sua música de altíssima qualidade; eu gosto pra caramba de Tears for Fears, mas, em comparação, sua música tá longe de ter um padrão alto de qualidade (obviamente que aqui não é lugar para entrar nos detalhes específicos da estética musical que embasam esse tipo de julgamento).

    Mas há uma outra questão que acho que ainda não foi seriamente considerada: seguindo a lógica do autor do texto, e a de Safatle, acredito que, mesmo que existam MCs, rappers e funkeiros que tenham alguma noção histórica da música (vou me centrar nessa arte, pois sou formado em Educação Musical), e não apenas da música popular, é fundamental para nós partir do pressuposto que o conhecimento abrangente sobre a música simplesmente não está chegando da forma como deveria à população. O instrumento por excelência de universalização, de democratização desse conhecimento, a educação escolar, ainda não absorveu – e está muito longe disso – a necessidade do ensino das Artes (e não no modelo da educação artística, mas o ensino de cada linguagem artística pelas mãos de profissionais qualificados nessas áreas).

    E falo isso com certo conhecimento de causa: em 2008 foi aprovada a Lei 11.769, que torna obrigatório o ensino de música nas escolas. O prazo de implantação disso em TODAS as escolas do Brasil se esgotou no ano passado, mas, pelo menos aqui no Nordeste, houveram poucos, pouquíssimos concursos para contratação de professores especialistas para a escola. Em João Pessoa, por exemplo, que é CAPITAL, ainda não houve NENHUM concurso após a promulgação da lei. E no resto do Brasil os Estados e Municípios estão sempre dando um jeitinho de lançar concursos para contratação de professores polivalentes de Educação Artística.

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