O escândalo que a imprensa não quis nomear

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Montagem: Reprodução

A recusa da grande mídia em utilizar a “gramática do escândalo” contra a extrema direita revela um jornalismo estruturalmente antipetista que suaviza corrupções para preservar seu alinhamento conservador

Por Lidiane Vieira, Pollyanna Brêtas e André Madruga*, em A Terra é Redonda

Meses antes do início formal da campanha presidencial de 2026, a família Bolsonaro ocupa o noticiário entrelaçada no escândalo do Banco Master.

O site The Intercept Brasil divulgou áudios e conversas de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, banqueiro responsável pelo banco Master e atualmente preso, com pedido de R$136 milhões para o financiamento do filme biográfico do ex-presidente, Dark Horse. O dinheiro, como quase tudo que envolve o Master, viria de fundos de previdência de estados governados por aliados.

No início de maio, Lula e Flávio Bolsonaro apresentavam intenções de voto em empate dentro da margem de erro, com pequena vantagem para o senador do PL.

As primeiras pesquisas que mediram os efeitos da revelação identificaram um redirecionamento de eleitores: a vantagem passou para o petista, que agora lidera com 46,5% das intenções, enquanto Flávio Bolsonaro recuou para 41,4%, segundo dados do Meio/Ideia.

O eleitorado se moveu, mesmo que discretamente. Mas e a imprensa, como reagiu?

Contribuições acadêmicas já consolidadas acompanham a mídia nas eleições desde a redemocratização e atestam um posicionamento consistentemente antipetista. No passado, o PSDB era a alternativa ao projeto político representado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Com a desarticulação competitiva dos tucanos na corrida presidencial, a imprensa foi capaz de convencer-se de que Jair Bolsonaro representaria uma alternância política saudável. No dia da votação do segundo turno O Globo publicou editorial no qual defendia que a direita, na figura do ex-capitão, seria capaz de representar “amplas parcelas do eleitorado que terminaram sufocadas pelo longo ciclo de ‘progressismo’”.

Desde o acirramento das disputas ideológicas no Brasil em direção ao ambiente polarizado que conhecemos, o clima de período eleitoral que retornava de quatro em quatro anos passou a se apresentar em estado de permanência.

A mídia manteve-se como participante ativo deste processo e contribuiu para uma confusão cognitiva quando organizava ideologicamente o campo. Ao categorizar candidatos, projetos e personagens como de esquerda, que descrevia como antidemocrática, direita ou centro, a imprensa demonstrava suas preferências.

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Por isso, é importante monitorar os meios de comunicação para além do período eleitoral, como propõe o Manchetômetro há mais de uma década.

Se em 2018 a escolha era muito difícil para o Estado de S. Paulo, no novo ciclo pedia-se por uma coligação de centro que derrotasse “Bolsonaro e a esquerda”. Em 2026, dados do Relatório “De Olho na Imprensa” demonstram um maior alinhamento à direita declarada.

Um dos filtros interessantes para evidenciar as distinções da cobertura periódica é o tema do escândalo político. Casos de corrupção estão longe de ser novidade na política brasileira, contudo a espetacularização foi um fenômeno recente protagonizado pela mídia, especialmente a televisionada.

Com destaque para o Mensalão e a Lava Jato, os programas jornalísticos exploraram imageticamente as notícias e contribuíram para uma deterioração da confiança nas instituições públicas, fomentando uma espécie de crise representativa e de fuga para candidatos identificados como outsiders.

Longe do cumprimento das promessas de imparcialidade e defesa do interesse público, a imprensa comporta-se como ator politicamente articulado com interesses a serem defendidos. Para demonstrar tal assimetria recorrente, propomos uma análise dos editoriais da primeira semana após a divulgação dos áudios de Flávio Bolsonaro para Vorcaro e o desdobramento do caso.

As curvas de negatividade na cobertura dos editoriais

Segundo dados do relatório De Olho na Imprensa, o Índice de Viés (IV) agregado dos três jornais em relação ao governo federal havia atingido, no início de março, seu ponto mais desfavorável desde junho de 2025.

O IV de março ficou em –1,92, o mais negativo desde junho de 2025, com o Estadão na dianteira com –3,00, seguido pelo Globo com –1,93 e a Folha com –1,29. A cobertura de Lula especificamente seguiu trajetória semelhante: o IV de março para o presidente foi de –2,12, também o mais desfavorável desde junho de 2025.

Esse recrudescimento em março foi alimentado por uma agenda que combinava pressão econômica e crise política. As pesquisas que indicavam queda na aprovação de Lula e ascensão de Flávio Bolsonaro, combinadas com os desdobramentos da crise no INSS envolvendo Lulinha e a divulgação do PIB de 2025 com o pior resultado desde 2020, dominaram o noticiário. O cenário produzia uma narrativa coerente para os jornais: um governo em xeque, econômica e politicamente vulnerável, diante de um adversário em ascensão.

O escândalo deflagrado pelo The Intercept, com a revelação das mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, chegou justamente nesse momento de pico da negatividade anti-Lula. Os editoriais ao longo dos primeiros sete dias publicados pelos três jornais representam, portanto, uma inflexão conjuntural relevante: pela primeira vez em muitos meses, o alvo central da crítica editorial não é o governo federal, mas o principal candidato de oposição.

Isso não significa, necessariamente, uma reorientação estrutural do posicionamento da imprensa, mas é um dado analítico que precisa ser observado. Principalmente porque tanto Lula quanto o PT não saíram ilesos dessa cobertura. Em abril, o IV agregado caiu para –1,41, o mais negativo desde dezembro de 2025, uma alta significativa em relação ao pico de março, mas ainda em território fortemente negativo. Isso sugere que o escândalo Flávio-Vorcaro funcionou como um moderador temporário da hostilidade em relação ao governo, sem revertê-la.

O padrão é perfeitamente consistente com a nossa hipótese: a mídia não abandonou o antipetismo, mas foi obrigada a redistribuir a negatividade de forma conjuntural, diante de um fato de grande impacto que envolvia diretamente o candidato que vinha tentado se construir como alternativa.

A análise comparada dos três editoriais de 15 de maio é bastante reveladora. O Estadão foi o mais contundente na condenação moral de Flávio Bolsonaro, mas rapidamente converteu o episódio em munição para um apelo à construção de uma alternativa conservadora “séria”, o que revela que o alvo implícito do editorial era menos Flávio Bolsonaro do que Lula, fato que dialoga também diretamente com as escolhas das publicações para a repercussão do caso, com o espaço concedido a candidaturas do campo da direita como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).

É verdade que os editoriais reconhecem elementos comprometedores da conduta de Flávio Bolsonaro.

O Globo destaca a proximidade incomum entre o senador e Daniel Vorcaro, relação que Flávio Bolsonaro não apenas omitiu dos eleitores, mas negou publicamente. Ou seja, mentiu.

A formulação é relevante porque não se trata de uma simples ausência de informação, e sim de uma declaração incompatível com os fatos revelados. O jornal também identifica um conflito de interesses decorrente do mandato parlamentar do senador. Entretanto, a análise permanece restrita à dimensão individual do problema. Pouco se explora o fato de que a relação entre o Master e a política não se limita a Flávio Bolsonaro, mas envolve atores importantes de todo o campo político que o sustenta.

Essa delimitação do escopo da investigação é significativa. O caso não se resume à intimidade entre um banqueiro e um pré-candidato presidencial. Governadores ligados ao bolsonarismo, como Cláudio Castro, direcionaram bilhões de reais da previdência estadual para aplicações no Master. No Congresso, lideranças de partidos aliados, como Ciro Nogueira (PP-PI), defenderam mudanças regulatórias que poderiam beneficiar o banco em detrimento do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), com potenciais impactos sistêmicos para a economia.

Ainda assim, esses elementos permanecem periféricos ou ausentes na maior parte da cobertura editorial. O contraste com a Operação Lava Jato é inevitável. Naquele momento, a imprensa não se limitou a investigar indivíduos específicos, mas procurou construir uma narrativa abrangente sobre um suposto sistema de corrupção associado a determinado campo político. No caso Master, observa-se uma disposição muito menor para mapear redes de apoio, relações institucionais e responsabilidades coletivas.

A Folha de S. Paulo oferece um exemplo particularmente ilustrativo dessa ambivalência. O jornal afirma que Flávio Bolsonaro chega à disputa presidencial com poucas credenciais.

Ainda assim, o problema é tratado como uma crise de imagem ou transparência, e não como mais um capítulo de uma trajetória marcada por controvérsias públicas. Diferentemente do tratamento frequentemente dispensado a lideranças petistas, os escândalos anteriores envolvendo o senador não aparecem como elementos constitutivos de sua identidade política.

Mais reveladora ainda é a tentativa recorrente de aproximar o episódio de Lula. A referência à audiência entre o presidente e Daniel Vorcaro surge como esforço de equilibrar responsabilidades e preservar a lógica da equivalência entre os dois principais polos da disputa política nacional. O procedimento reproduz uma tendência consolidada do jornalismo político brasileiro: a busca permanente por simetria entre atores que ocupam posições muito distintas nos acontecimentos narrados. Nesse caso, porém, a equivalência parece especialmente artificial, uma vez que as evidências divulgadas dizem respeito diretamente às relações entre o banqueiro e o universo político bolsonarista.

A Folha adotou postura dura mas introduziu uma válvula de escape ao mencionar a audiência de Daniel Vorcaro com Lula, sustentando o enquadramento da falsa equivalência mesmo quando os fatos não a autorizavam. O Globo foi o mais técnico-jurídico, apostando na pressão pela investigação policial, um posicionamento que evita o julgamento político explícito, mas mantém o candidato sob pressão.

O Estadão é o mais severo na avaliação moral de Flávio Bolsonaro, chegando a considerá-lo indigno da Presidência. Entretanto, mesmo nesse caso, a crítica não se converte em investigação aprofundada das estruturas políticas que tornaram possível sua ascensão.

O jornal parece mais preocupado com a busca de uma alternativa conservadora eleitoralmente viável do que com a compreensão das conexões entre o escândalo e a direita brasileira contemporânea. A questão central não é a natureza do fenômeno político representado por Flávio Bolsonaro, mas a possibilidade de substituí-lo por um candidato capaz de derrotar Lula nas urnas.

Esse padrão ajuda a compreender por que parte da cobertura do caso Master insiste em inserir Lula e o STF em narrativas cuja conexão com os fatos revelados é secundária ou inexistente. Trata-se de uma atualização do antigo enquadramento da polarização como confronto entre dois extremos equivalentes.

O problema é que a literatura recente sobre comportamento político tem apontado justamente para a existência de uma polarização assimétrica, marcada por uma radicalização mais intensa da direita do que da esquerda. Sob essa perspectiva, a insistência em distribuir responsabilidades de forma equilibrada entre os dois pólos deixa de ser um exercício de neutralidade e passa a funcionar como mecanismo de obscurecimento das diferenças efetivamente existentes.

Embora os três grandes jornais tenham adotado tom crítico em relação a Flávio Bolsonaro, a cobertura editorial do escândalo Master revela menos uma disposição de investigar as conexões políticas do caso do que uma preocupação com seus efeitos eleitorais. O foco predominante não recai sobre a extensão das relações entre o banco e o campo bolsonarista, mas sobre os danos potenciais à candidatura presidencial do senador.

Há um elemento adicional que merece atenção e que está presente de forma singular no editorial de O Globo de 15 de maio: a comparação entre o orçamento destinado ao filme Dark Horse e produções como Ainda estou aqui. Trata-se do único jornal a fazer essa referência, o que é significativo. O filme de Walter Salles tornou-se um símbolo cultural da resistência democrática ao bolsonarismo. Ao mencioná-lo, O Globo inscreve o escândalo em um registro cultural e não apenas político-criminal, uma escolha editorial que, consciente ou não, aprofunda o contraste moral entre os dois campos.

Por fim, o dado mais importante para a nossa pergunta está no editorial do Estadão de 16 de maio: “a direita democrática tem diante de si uma oportunidade preciosa, que é permitir ao Brasil se libertar de Lula e suas ideias envelhecidas sem se submeter a Jair Bolsonaro”.

Ali está articulada com transparência a lógica que organiza toda a cobertura: a imprensa não quer Lula, não quer Jair Bolsonaro, e está à espera de uma “direita democrática” que nunca se materializa, em parte porque os próprios jornais ajudaram a construir as condições que inviabilizaram esse projeto ao longo de anos de cobertura antipolítica e de criminalização seletiva.

Nesse sentido, os editoriais de maio de 2026 são documentos preciosos por revelar a teleologia política que habitualmente organiza a cobertura de forma mais difusa e naturalizada.

O antipetismo demonstrado pelo O Estado de S. Paulo recorrentemente há tantos anos aparece sintetizado no editorial de 21 de maio de maneira grosseira quando o jornal, diante a ficha suja dos Bolsonaro, afirma que ter permitido que Lula voltasse ao poder era motivo suficiente para que o país desprezasse Flávio. Os paladinos da moralidade e da boa gestão ficam cegos diante de um partido identificado à esquerda e as pautas progressistas.

A gramática do escândalo

Um dos achados mais relevantes desta análise comparada é precisamente o que está ausente na maior parte dos editoriais: a palavra “escândalo”, que surge de maneira discreta após sete dias. Quando os protagonistas de episódios de corrupção ou comportamento ético questionável eram Lula, o PT ou figuras associadas ao campo petista, a imprensa mobilizou rapidamente esse enquadramento, com toda a carga semântica que ele carrega de ruptura moral, de crise sistêmica, de exigência de consequências imediatas.

No caso Flávio-Vorcaro, os três jornais optaram por uma gramática distinta: “suspeitas”, “indícios”, “proximidade incomum”, “intimidade de estarrecer”. O tom é de perplexidade e de demanda por investigação, não de condenação do fato como escândalo político em si.

Isso não é apenas uma escolha lexical, mas demonstra um enquadramento com consequências políticas. A literatura de comunicação política, especialmente a partir dos trabalhos de Entman (1993) sobre framing, mostra que nomear um evento como “escândalo” ativa esquemas cognitivos específicos no leitor, como urgência, responsabilização, exigência de punição.[1] Chamar o mesmo evento de “episódio” ou “caso a investigar” produz um efeito oposto de suspensão do julgamento, contenção da demanda pública por consequências.

O Globo é o exemplo mais nítido dessa operação. Ao reconhecer a presunção de inocência e logo relativizá-la, o jornal cria uma arquitetura retórica que parece equilibrada mas funciona como freio ao enquadramento de escândalo. A frase que demanda investigação policial ocupa o lugar que, em outros contextos, seria ocupado pela exigência de responsabilização política imediata.

Quando o Manchetômetro monitorou a cobertura de episódios como o mensalão ou os desdobramentos da Lava Jato envolvendo Lula, os editoriais dos mesmos jornais não hesitaram em usar o repertório do escândalo, inclusive antecipando julgamentos que a própria justiça ainda não havia feito. Os editoriais demoraram dias para chamar todo esse enredo de escândalo político, mesmo com o histórico amplamente conhecido dos personagens envolvidos.

Há ainda um segundo nível de assimetria que está na origem da informação. O fato de que a revelação partiu do The Intercept, e não de uma reportagem investigativa da própria grande imprensa.

Os três jornais cobriram o caso, mas nenhum o produziu. Isso contrasta com o protagonismo que a imprensa tradicional assumiu em outros momentos de exposição do PT, muitas vezes em cumplicidade ativa com a estratégia da Lava Jato. A mídia que antes vazava e amplificava agora aguarda, pondera e pede investigação.

Inflexão na curva de negatividade

A periodização da curva de negatividade ganha contornos ainda mais precisos quando se considera o que ocorreu entre o pico de negatividade de março-abril e a revelação do The Intercept. No dia 7 de maio, Lula visitou a Casa Branca para um encontro com Donald Trump que durou cerca de três horas, com participação de ministros de ambos os países.

O evento produziu um noticiário incomum para os padrões da cobertura recente: imagens de um presidente brasileiro recebido pelo líder americano mais poderoso do momento, conduzindo negociações comerciais e geopolíticas de amplo espectro.

Nas redes sociais, Donald Trump descreve Lula como “presidente muito dinâmico”, e ao ser questionado por repórteres declarou que havia tido uma “ótima reunião” com um “homem bom, um cara inteligente”.

Para a imprensa brasileira, esse tipo de declaração apresenta um problema de enquadramento difícil de resolver: criminalizar ou minimizar um presidente que acaba de ser publicamente elogiado pelo líder da direita global com quem os próprios jornais têm grandes afinidades ideológicas.

Uma pesquisa realizada após a visita indicou que 60% dos brasileiros consideraram o encontro “bom para o Brasil”, dado que os jornais dificilmente podiam ignorar. O resultado foi uma janela de cobertura relativamente menos hostil ao governo federal, que durou até a semana do escândalo Flávio-Vorcaro.

A sequência cronológica, pico de negatividade em março, breve atenuação em torno da visita a Washington, revelação do Intercept em 13 de maio e editoriais de 15 e 16, é ela mesma um dado analítico relevante: mostra que a intensidade da cobertura negativa ao governo não é uma constante rígida, mas responde a conjunturas específicas, o que torna ainda mais significativo o fato de que o escândalo envolvendo o principal adversário de Lula não produziu uma inversão duradoura dessa tendência estrutural.

Os editoriais analisados reafirmam resultados de décadas de pesquisas sobre a imprensa brasileira: o antipetismo é transversal e inquestionável. Mesmo com a cobertura sendo matizada pelo enfoque no futuro da candidatura de Flávio Bolsonaro, houve espaço significativo dedicado a erodir a legitimidade lulopetista no tabuleiro democrático.

Durante algumas décadas, os editoriais esconderam-se atrás de uma retórica de defesa do centro, como símbolo de equilíbrio e responsabilidade longe dos extremos. Com a radicalização política, o apreço por uma alternativa “conservadora séria” e uma “direita democrática” dominam a narrativa como a via que salvará o Brasil do bolsonarismo e da esquerda.

Se ainda é cedo para discernir os resultados políticos para a candidatura de Flávio Bolsonaro e para o capital político da família, esse escândalo contribuiu para delinear ainda mais o posicionamento da mídia. Em um passado recente, o ex-capitão e sua trupe pareceram um remédio amargo diante dos efeitos benéficos de vencer o PT e ter Paulo Guedes no comando de uma política econômica fiscalista.

Nesse contexto, a vitória do bolsonarismo foi legitimada especialmente por O Globo e Estadão. Agora que o sonho dourado acabou, os editoriais lembraram do passado corrupto e antidemocrático desta família. E diferente dos últimos anos, que investiam em um projeto de centro, já se moveram em direção à idealizada direita democrática.

Enquanto os editoriais debatiam os estragos do escândalo, a campanha de Flávio Bolsonaro tratava de mudar de assunto. A troca do marqueteiro – gesto clássico de refundação narrativa em momentos de crise – sinalizou que a equipe reconhecia a gravidade do problema, mesmo que o candidato insistisse publicamente em minimizá-lo. Na sequência, vieram as viagens aos Estados Unidos: encontros com membros do Congresso americano, fotos estratégicas em Washington, o esforço de projetar uma imagem de estadista em vez de réu político.

O Brasil que aparecia nessas imagens era o de um senador com trânsito internacional, não o do áudio embaraçoso pedindo dinheiro a um banqueiro preso. Dois temas de forte apelo conservador entraram na pauta como combustível para essa reorientação: a declaração do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, que permitia ao candidato ocupar um espaço de defesa da soberania econômica sem sair do campo ideológico que lhe é confortável.

Se a imprensa acompanhou esse movimento com o mesmo escrutínio dedicado ao escândalo, ou se permitiu que a agenda da campanha pautasse a cobertura, é a pergunta que os próximos capítulos desta análise se propõem a responder.

Para além do pleito de 2026, a dúvida que torna os estudos de mídia indispensáveis para democracia brasileira é entender quem mais a imprensa é capaz de apoiar sob a retórica de impedir que Lula, ou qualquer representante do Partido dos Trabalhadores, chegue ao poder.

Nota

[1] Entman, Robert M. Framing: Toward Clarification of a Fractured Paradigm. Journal of Communication, v. 43, n. 4, p. 51–58, 1993.

*Lidiane Vieira é doutoranda em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.
*Pollyanna Brêtas é jornalista especializada em economia.
*André Madruga é graduado em Comunicação Social pela Universidade Facha.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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