Maximilien Arveláiz: O que a oposição na Venezuela quer

Tempo de leitura: 3 min

Arveláiz: "Maduro conhece muito bem a herança violenta da direita que, desde o Caracazo, recorre à repressão contra a população que luta por melhores condições"

Maximilien Arveláiz, na Folha de S. Paulo

Os acontecimentos violentos que sucederam a vitória de Nicolás Maduro na Venezuela são reveladores do comportamento intransigente e oportunista de uma elite saudosista do tempo em que era dona absoluta do petróleo e obediente às ingerências dos Estados Unidos.

Incapaz de fazer qualquer concessão aos trabalhadores, essa elite organizou várias tentativas de desestabilização desde que Hugo Chávez chegou ao poder.

A onda de violência que resultou na morte de nove pessoas (todas apoiadoras do governo), após o pleito de 14 de abril, soma-se a uma coleção de práticas autoritárias da direita. O Henrique Capriles que hoje incita a população a realizar protestos violentos e insiste em não aceitar a derrota é o mesmo que participou ativamente do golpe de Estado contra Chávez em 2002, invadindo a embaixada cubana e prendendo um ministro ilegalmente.

Do mesmo modo, os deputados oposicionistas da Assembleia Nacional que hoje não reconhecem Nicolás Maduro como presidente e tumultuam as sessões do plenário são os mesmos que apoiaram a greve patronal da PDVSA e que boicotaram as eleições de 2005.

A oposição recorre a mecanismos desesperados e nada democráticos porque não consegue vencer por meio da lei. Bem que tentou. Em 2004, convocou um referendo revogatório para perguntar à população se Chávez deveria ser retirado da presidência, mas saiu derrotada.

Aqui vale uma observação. Por obra do próprio Chávez, a “ditadura” na Venezuela prevê, como um direito constitucional, a convocação de um referendo revogatório no terceiro ano do mandato do presidente, desde que se recolham as assinaturas necessárias.

Mas o que mais soa incoerente e oportunista é o fato de questionarem a lisura do processo eleitoral que levou Maduro à Presidência.

Em dezembro de 2012, quando Capriles ganhou a eleição pelo governo do Estado de Miranda, por uma diferença de somente 45 mil votos, a segurança do processo nunca foi posta em dúvida. Tal eleição foi organizada pelo mesmo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), presidido pela mesma pessoa, utilizando-se do mesmo sistema de votação do último pleito. Também não detectaram nenhuma fraude nas eleições primárias organizadas pelo CNE que escolheram Capriles como candidato oficial da oposição.

Por que questionam agora algo que nunca questionaram antes, principalmente quando obtiveram resultados positivos nas urnas? Gostaria de ver essa pergunta sendo feita pelos mesmos analistas da mídia que insistem em taxar de autoritário o governo da Venezuela.

Ao não reconhecer o resultado da eleição, a oposição pretende desintegrar as instituições democráticas que a revolução bolivariana construiu, desgastando um governo que quer trabalhar para aprofundar o processo de mudanças em curso e avançar na resolução dos problemas que ainda afligem a população.

Se observarmos a estratégia adotada pela direita nas últimas campanhas eleitorais, fica ainda mais fácil detectar o oportunismo. Aproveitando-se da fragilidade causada pela doença e pela morte prematura do presidente Chávez, Capriles centrou sua campanha no reconhecimento dos benefícios das missões sociais do governo, prometendo incrementá-las. Tão logo terminou o pleito, foi desmascarado pelos atos violentos que incentivou ao não aceitar a derrota.

Nicolás Maduro é fruto da história recente do nosso país. Conhece muito bem a herança violenta da direita que, desde o Caracazo, recorre à repressão contra a população que luta por melhores condições.

Para que cesse a violência, o presidente está instituindo o que chama de “governo de rua”, fazendo o debate das ideias com o povo organizado, em busca da paz, da união dos venezuelanos, da independência e da preservação do legado de Chávez. Que nos deixem trabalhar.

MAXIMILIEN ARVELÁIZ, 40, é embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

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Comentários

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Corday

A Venezuela está importando até papel higiênico do Brasil e está atrasando os pagamentos…

O que a oposição quer?!?!?

Jayme Vasconcellos Soares

O que Henrique Caprille e a elite venezuelana quer é que o governo implante uma política social igualitária, na qual as grandes riquezas paguem mais impostos, para atender as populações carentes; também é necessária a implantação de uma lei da mídia, que puna ou casse a imprensa que está querendo, através de factoides, criar a desordem e o terror na Venezuela; o método de terrorismo, que Caprille está usando, é orquestrado pelos Estados Unidos, ávidos que estão de piratear a maior reserva de petróleo do mundo, que está naquele País, e deve ser rechaçado pelo governo democrático da Venezuela, através de uma divulgação intensiva, via mídia pública, dos seus programas sociais.

wagner paulista de souza

“Outra, o tracking deles estava dando vantagem de 2 milhões para Capriles.”
Que traquizinho miserável de ruim, hein ?

Fabio Passos

Nao e de hoje que as “elites” brancas das Americas tentam o golpe quando apanham nas urnas.

No Brasil tambem e assim.
A tentativa de golpe contra Lula em 2005-06 so foi contida porque os golpistas temiam a reacao popular e pensavam que iam ganhar as eleicoes.

Felizmente as tentativas de golpe tem sido frustradas e o povo comemora uma vitoria atras da outra…

Chupa, PiG!

JOTACE

Excelente relato do Embaixador Maximilien. É de informações assim que necessitamos aqui no Brasil. Pela fidelidade aos fatos e interesse do povo brasileiro quanto a tudo que diz respeito à nação-irmã da Venezuela, bem que poderia ser divulgado em todas as latitudes do território do Brasil.

lulipe

A revolução bolivariana deixou faltar até papel higiênico para os venezuelanos…

    JOTACE

    Caro Lulipe,

    De fato, é como dizes, isto aconteceu. Justo porque o governo revolucionário nunca agiu conforme o figurino imperial adotado pelo fascismo na Venezuela. Como no Chile do grande Allende, recorreu a direita oligárquica ao expediente de esconder os artigos de primeira necessidade, papel higiênico inclusive. Está no modelo das chamadas revoluções coloridas. Mas o governo de Madura, que valoriza a Justiça e respeita a constituição, não julgou nem condenou por antecipação os habituais mercenários habituados a explorar o povo, a saquear a nação, desde longa data. A esperança é que no Brasil os fascistas não façam o mesmo, e até cheguem a usar depois os seus drones cujas bombas não fariam distinção e atingiriam até pessoas que, em sua boa fé, hoje os defendem. Abraço cordial do Jotace

    Wildner Arcanjo

    Tomar banho e lavar o bumbum resolve o problema. Mas a podridão da alma, de alguns, isso nem água sanitária resolve.

    jgomes

    Apesar de “5000 denuncias” a eleição também não foi acompanhada e fiscalizada por DIVERSOS organismos internacionais que a chancelaram?? Acho que o seu conceito de DEMOCRACIA está defasado ou falsificado…

Urbano

Os capatazes dos ianques estão indóceis com as mudanças perpetradas pelo Comandante Chávez…

Alemao

“Por que questionam agora algo que nunca questionaram antes, principalmente quando obtiveram resultados positivos nas urnas? Gostaria de ver essa pergunta sendo feita pelos mesmos analistas da mídia que insistem em taxar de autoritário o governo da Venezuela.”

Como já falei, houve mais de 5000 denúncias de irregularidades nos postos de votação.

A teoria da oposição é que o sistema permite que títulos de pessoas falecidas podem ser usados na votação, além da possibilidade de se votar mais de uma vez. Por isso a briga com o CNE, que não vai auditar as listas dos votantes para conferir se tem casos de pessoas que votaram mais de uma vez e/ou se no meio dos votantes há falecidos.

A diferença nas eleições no estado de Mirando foi de 4%, ou seja muito maior que nas nacionais. Se alguém teria que reclamar, esse alguém seria o perdedor.

A oposição está fazendo uso de seus direitos legais em contestar as eleições em frente ao grande número de denúncias.
Outra, o tracking deles estava dando vantagem de 2 milhões para Capriles.

    RicardãoCarioca

    Incitação violenta dos correligionários que produziram 9 mortes só deve ser um direito na sua cabeça.

    Alemao

    A Venezuela tem um índice de homicídios de 75 por 100mil habitantes ao ano.
    Considerando a população de 28 milhões e 365 dias ao ano dá em torno de 57 homicídios por dia.

    Cadê a prova de incitação violenta meu caro? Mostra os fatos. Num país aonde todos os meios de comunicação estão tomados por chavistas não deveria ser difícil de encontrar provas não é mesmo?

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