Marina Lacerda: O PL da misoginia, a Bancada Cristã e a constituição de um novo sujeito político
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Por Marina Basso Lacerda*
Em junho, grupo de trabalho da Câmara aprovou o relatório que criminaliza a misoginia, da deputada Tábata Amaral (PSB/SP).
A proposta já passara pelo Senado em março, por 67 votos a zero. Vale lembrar o que o texto mira: a misoginia organizada e monetizada nas redes, das comunidades “redpill” aos conteúdos que ensinam ou incitam violência contra mulheres, num mercado que lucra com o ódio.
No debate, a oposição afirmou que a lei ameaçaria a liberdade religiosa e a pregação bíblica, a ponto de criminalizar o ensino de que “a mulher tem que ser submissa”. Apoiavam-se na chamada maioria cristã do país – a população, alegou-se, é “70, 80% cristã”.
O episódio ecoa outro: em outubro, com 398 votos, a Câmara aprovou a urgência para criar a Bancada Cristã, também sob o argumento de que o Brasil é “uma nação de maioria cristã” – usado então para justificar uma voz confessional no coração do Estado, agora para tentar barrar uma lei.
À primeira vista, os episódios remetem à conhecida atuação da bancada evangélica, mas a cena revela um deslocamento. No GT, a “defesa da fé” veio de uma evangélica, uma católica e uma deputada sem vínculo denominacional. Uma ilustração praticamente didática.
Que haja protagonismo católico na agenda antigênero não é novidade: as ciências sociais sempre o registraram, e a própria noção de “ideologia de gênero” tem essa matriz, vinda desde Roma e espalhada pelo mundo. O que muda é a face. Nas duas últimas décadas no Brasil, a face mais visível e nitidamente desenhada dessa mobilização tem sido a bancada evangélica, e é ela que agora perde centralidade.
Trata-se do que a academia vem chamando de cristianismo cultural. Tobias Cremer, Anja Hennig e Oliver Hidalgo mostram que, na Europa e nos EUA, a identidade cristã é mobilizada menos como fé do que como marcador conservador – fronteira simbólica e política, não de devoção.
No Brasil, Ronaldo de Almeida, Paula Bortolin e João Moura descrevem essa articulação conservadora, coordenada e antipluralista. É um guarda-chuva que une católicos, evangélicos e conservadores seculares sob a mesma bandeira.
Aí, a “maioria cristã” deixa de ser dado demográfico e vira argumento político: uma “maioria moral” à moda da direita cristã norte-americana dos anos 1970, que converteu a fé em poder temporal e elegeu Ronald Reagan presidente dos EUA.
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Desde então, essa direita cristã ganhou peso no Partido Republicano e convergiu com correntes antes marginais – do paleoconservadorismo nacionalista à insurgência do Tea Party –, coalizão que se tornaria hegemônica com Donald Trump, sob a bandeira do America First.
No Brasil, a questão também se tornou partidária. Os evangélicos cresceram de 21,6% da população em 2010 para 26,9% em 2022, mas a bancada evangélica encolheu nesta legislatura, de 84 para 71 deputados: a base aumentou, mas seus votos escoaram para outro vaso, o Partido Liberal (PL), hoje um partido altamente coeso. As bancadas temáticas tornaram-se auxiliares de um amálgama maior.
E não é um partido qualquer. O maior partido da Câmara, já disputa com o Partido dos Trabalhadores a preferência do eleitorado, elegeu as maiores bancadas de pastores e de policiais e militares, e renova seus quadros com uma direita “desinibida”, orgulhosa de si, à la Fidesz na Hungria ou Rassemblement National na França. O PL caminha para ser o primeiro partido de massas da direita brasileira, com mobilização que funde uma versão da fé, nação e guerra de valores. O cristianismo cultural é um de seus tecidos conjuntivos.
Vista assim, a proposta de Bancada Cristã – com quem Tábata disse em entrevista que dialogaria para construção do texto sobre a misoginia a ser levado a Plenário – é menos causa do que sintoma. É o registro de uma identidade que se trans-denominalizou e se secularizou.
O que está em curso não é mais a religião invadindo a política – “do púlpito ao palanque” –, mas a formação de um novo sujeito político de direita centralizado por uma organização maior e de massas, o PL. Do púlpito ao partido.
*Marina Basso Lacerda é doutora em Ciência Política, com pós-doutorado pela USP, pesquisadora da USP e da UnB e autora de O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro (Zouk, 2019).
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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