Marcio Pochmann: O novo espírito do capitalismo na era digital

Tempo de leitura: 5 min
Imagem: Benjamin Jopen

A cooptação das lutas feministas e antirracistas pelo mercado revela a astúcia do sistema: a diversidade no topo não pode servir de máscara para a manutenção das desigualdades materiais na base

Por Marcio Pochmann*, em A Terra é Redonda

1.

O capitalismo possui uma característica histórica singular que está na sua capacidade de transformar crises e críticas em oportunidades de sua própria renovação. Diferentemente de sistemas econômicos que sucumbem diante das contestações sociais e crises, o capitalismo frequentemente sobrevive porque consegue incorporar parte das críticas e demandas que colocam em questão os seus próprios fundamentos.

Essa é a tese central de Luc Boltanski e Ève Chiapello em O Novo Espírito do Capitalismo. Ao analisar o período posterior às revoltas de Maio de 1968, os autores demonstraram como o capitalismo não apenas absorveu críticas dirigidas contra a hierarquia, a burocracia, a alienação do trabalho e a falta de autonomia individual inseridas no padrão de emprego fordista difundido no segundo pós-guerra mundial, convertendo-as em princípios de uma nova organização econômica neoliberal.

A firma rígida e vertical do passado deu lugar à empresa flexível, inovadora e organizada em redes. Da mesma forma, os valores associados às críticas culturais dos anos 1960, como a criatividade, a autonomia e a capacidade de adaptação, passaram a assumir centralidade na competitividade empresarial.

O neoliberalismo não eliminou as hierarquias, mas as reconfigurou ao substituir a supervisão direta pelo autogerenciamento, transferindo para o próprio trabalhador a responsabilidade do seu desempenho. Sob a lógica do “empresário de si mesmo”, o indivíduo passou a gozar de uma falsa autonomia em que a pressão por metas é internalizada e, com isso, o sucesso ou o fracasso corporativo passaram a ser vistos como mérito ou culpa exclusivamente individuais, gerando um aumento significativo no esgotamento psicológico e no burnout, conforme destacam Pierre Dardot e Christian Laval em A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal e Byung-Chul Han em Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder.

A grande capacidade de reconfiguração do capitalismo não tem sido a de somente resistir aos seus críticos. É de aprender com eles, para se adaptar e continuar a dominar. Neste sentido que emergem as duas das maiores transformações sociais em curso neste primeiro terço do século XXI, apropriada ao possível fenômeno semelhante que se encontra em marcha pela importante atualidade das lutas pela emancipação feminina e contra as desigualdades raciais.

2.

A ascensão da chamada SHEeconomy parece expressar uma mudança histórica profunda. A ampliação da escolaridade feminina, a maior participação das mulheres no mundo do trabalho, o crescimento da autonomia financeira e a presença crescente em posições de decisão representam conquistas sociais construídas por décadas de mobilização.

O estudo, por exemplo, do Morgan Stanley, um grande banco de investimento e serviços financeiros multinacionais dos Estados Unidos, identificou esse movimento como uma das grandes tendências econômicas do século XXI, destacando que, até 2030, cerca de 45% das mulheres estadunidenses entre 25 e 44 anos poderão estar solteiras. O dado se refere especificamente à condição de mulheres solteiras, embora esteja inserido em um processo demográfico mais amplo, marcado pela postergação da maternidade, redução da fecundidade e transformação dos arranjos familiares.

Mais do que uma mudança de comportamento, trata-se de uma transformação na própria organização da sociedade. O capitalismo contemporâneo rapidamente percebeu essa mudança.

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3.

A autonomia feminina passou a movimentar novos mercados de investimento, habitação, saúde, educação, previdência, tecnologia e serviços personalizados. A longevidade feminina tornou-se um setor econômico estratégico. Novas formas familiares produzem demandas adicionais de consumo.

A emancipação passou também a ser interpretada como oportunidade econômica. E é essa a contradição central do capitalismo contemporâneo que pode reconhecer e incorporar avanços sociais sem necessariamente alterar todas as estruturas que produzem desigualdade.

Sobre essa tensão que se destaca a análise de Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya encontrada em Feminismo para os 99%. As autoras alertam para o chamado neoliberalismo progressista, no qual pautas legítimas de reconhecimento, diversidade e igualdade podem conviver com políticas econômicas marcadas ortodoxia da financeirização, precarização do trabalho e concentração de riqueza.

O problema não está, evidentemente, na conquista da igualdade feminina. O desafio está na garantia de que essa igualdade não seja limitada a uma parcela privilegiada, mas permita alcançar a maioria das mulheres, especialmente aquelas submetidas às maiores vulnerabilidades econômicas e sociais.

4.

O mesmo debate aparece no campo racial. A ampliação da presença negra nas universidades, empresas, instituições públicas e espaços de liderança representa um inquestionável avanço democrático fundamental. A representatividade importa muito porque permite romper barreiras históricas e modifica padrões de exclusão.

Entretanto, a experiência histórica mostra que a diversidade nos espaços de poder precisa caminhar junto com a transformação das condições materiais que estruturam desigualdades. Isso porque uma sociedade pode ser mais diversa no topo e continuar desigual em sua base.

Por conseguinte, a questão central não estaria em escolher entre representação e transformação estrutural. Uma sociedade democrática necessita simultaneamente das duas dimensões. De um lado, a ampliação da presença dos grupos historicamente excluídos e, de outro, a modificação das estruturas econômicas e sociais que limitam a difusão das oportunidades.

O capitalismo do início do século XXI parece caminhar para uma nova etapa em que a própria vida se transforma em espaço de valorização econômica. Dados pessoais tornam-se ativos estratégicos, enquanto a inteligência artificial reorganiza o trabalho, a transição ecológica redefine investimentos e a economia dos cuidados ganha centralidade.

5.

A diversidade passa a integrar estratégias empresariais e institucionais. A SHEconomy, portanto, não seria apenas um fenômeno relacionado às mulheres. Ela estaria por revelar uma mudança mais ampla com o deslocamento do centro da acumulação econômica da fábrica para a própria vida social.

No passado do capitalismo industrial, o principal recurso era a força de trabalho. No presente do capitalismo digital, a informação, o conhecimento, o tempo, os comportamentos, os vínculos sociais e os modos de viver tornam-se centrais.

A grande disputa no segundo quarto do século XXI tenderá a ser definida a partir dessa nova fase de produzir uma sociedade mais democrática ou apenas um capitalismo mais sofisticado em sua capacidade de incorporar críticas e novas demandas da era digital. A história mostra que o capitalismo frequentemente transforma contestação em inovação. Foi assim depois de 1968. Poderia ser novamente com as pautas feministas e antirracistas da atualidade?

O desafio das sociedades contemporâneas parece estar nas lutas pela incorporação dessas conquistas sem reduzir direitos sociais a estratégias de mercado. A verdadeira emancipação não será medida apenas pela presença de mulheres e pessoas negras em posições de liderança, embora isso seja indispensável.

Será medida pela capacidade de construir uma sociedade em que igualdade, diversidade e dignidade sejam características estruturais e não apenas novas oportunidades seletivas de valorização econômica. Essa parece ser uma grande questão trazida pelo novo espírito do capitalismo digital em transformação por sua capacidade de adaptação dos mercados em mutação da própria sociedade.

*Marcio Pochmann é professor titular de Economia da Unicamp e presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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