Paulo Motoryn: Na reta final, Glenn Greenwald diz ao exterior que Brasil tem eleição manipulada pró-Lula

Tempo de leitura: 5 min
Imagem: Reprodução/Noites Húngaras

Jornalista intensifica campanha nas horas finais da eleição, distorce episódio do debate da Globo e amplifica conspiração sobre fechamento de embaixada dos EUA.

Por Paulo Motoryn*, em Noite Húngaras

A menos de 24 horas da abertura das urnas, Glenn Greenwald intensificou uma campanha nas redes sociais para apresentar ao público estrangeiro a eleição brasileira como um processo sob risco de manipulação pelo Judiciário em favor do presidente Lula.

Em uma sequência de pelo menos dez publicações em inglês feitas apenas em sua conta no Twitter nesta sexta-feira (2) e neste sábado (3), Greenwald foi além das críticas a decisões controversas do Judiciário brasileiro.

Passou a sustentar que uma suposta “ala pró-Lula” do Supremo Tribunal Federal estaria interferindo no processo para impedir uma “eleição livre” e chegou a estimar em 50% a possibilidade de que, caso Flávio Bolsonaro derrotasse Lula ou aparentasse caminhar para uma vitória, sua candidatura fosse barrada ou o resultado da eleição anulado.

Publicação feita por Glenn Greenwald no X às 15 horas deste sábado. Reprodução/X

Não há evidência apresentada por Greenwald que sustente essa previsão. Tampouco há, até agora, indicação de que o pleito não possa transcorrer normalmente. Neste sábado, o próprio presidente do TSE, o Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo, afirmou que não havia até então motivo para alarme.

O alcance real dessas mensagens fora do Brasil é impossível de medir. Também não é possível afirmar até onde essa narrativa chegará ou qual influência exercerá sobre autoridades e formadores de opinião estrangeiros. Mas há uma característica relevante: Greenwald escreve essas publicações em inglês e para uma audiência internacional. Algumas delas acumulavam centenas de milhares de visualizações poucas horas depois de publicadas.

Fechamento da embaixada dos EUA vira teoria conspiratória

O movimento ganhou força depois que os Estados Unidos suspenderam temporariamente os serviços de sua embaixada e consulados no Brasil alegando preocupações de segurança. Austrália também adotou medidas semelhantes. Greenwald destacou repetidamente o episódio e relacionou a situação aos alertas feitos pela campanha de Lula sobre uma possível interferência do governo Donald Trump no processo eleitoral brasileiro.

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Há, porém, uma informação fundamental sobre o episódio ignorada por Greenwald. A Polícia Federal cumpriu dois mandados de busca e apreensão, em São Paulo e no entorno do Distrito Federal, para investigar um suposto planejamento de atos contra instalações diplomáticas americanas.

Segundo a própria PF, a apuração nasceu da “cooperação permanente com agências de inteligência estrangeiras”. Depois das diligências, porém, a corporação informou que não encontrou elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados nem identificou suspeitos envolvidos com organizações criminosas. A investigação continua.

Greenwald divulgou a existência da operação para contestar suspeitas levantadas sobre o fechamento das representações americanas, mas sua narrativa enfatizou que a PF investigava possíveis ataques e não deu o mesmo peso ao resultado até então conhecido das diligências: as suspeitas iniciais não haviam sido confirmadas.

Cancelamento do debate da Globo vira combustível

O padrão se repetiu na descrição do cancelamento do debate presidencial da TV Globo. Greenwald escreveu a seus seguidores estrangeiros que Flávio Bolsonaro “desistiu por causa da censura”. O episódio real foi mais complexo. Lula já havia decidido não comparecer e conceder uma entrevista ao Flow.

Em seguida, decisões judiciais alteraram regras previamente acertadas: o TSE proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio de Lula e houve determinações judiciais sobre a participação de outros candidatos. Flávio Bolsonaro então anunciou que também não compareceria, alegando justamente “censura”. Diante do novo cenário, a Globo cancelou o debate.

Portanto, dizer que Flávio alegou ter desistido por causa de censura é factual. Apresentar essa versão política do próprio candidato como explicação objetiva do cancelamento, como faz Greenwald, é outra coisa.

O que o jornalista norte-americano faz é usar essa controvérsia como ponto de partida para uma conclusão muito mais ampla: a de que o Judiciário estaria deliberadamente manipulando a eleição para garantir a vitória de Lula.

Em outra publicação, afirmou que o Brasil estaria mergulhando em “ilegalidade” e “tirania” e descreveu magistrados como aliados de Lula empenhados em assegurar sua reeleição. Neste sábado, avançou mais um passo: afirmou que os grandes veículos brasileiros estariam agora alertando que a ala “pró-Lula” do STF censura para favorecer o presidente e interfere para impedir uma eleição livre.

Os editoriais e reportagens críticas às decisões judiciais passam, assim, a funcionar na narrativa de Greenwald como uma espécie de chancela doméstica para uma acusação muito mais grave dirigida ao exterior: não apenas a de que decisões específicas são abusivas ou equivocadas, mas a de que o próprio processo eleitoral brasileiro estaria sendo manipulado.

Greeenwald: da Vaza Jato à popularidade com a extrema direita

Greenwald conhece como poucos o poder político de uma narrativa internacional sobre instituições brasileiras. O jornalista americano ganhou projeção mundial em 2013 ao publicar, a partir dos documentos entregues por Edward Snowden, revelações sobre os programas de vigilância da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Em 2014, foi um dos fundadores do The Intercept.

No Brasil, tornou-se uma figuras importante por ter sido responsável por receber o material que deu origem às reportagens da Vaza Jato. No Intercept Brasil, pela obra de uma qualificada equipe de jornalistas brasileiras, as mensagens que colocavam sob suspeita a imparcialidade de Sergio Moro e a relação do então juiz com procuradores da Lava Jato o caso mudou a história do país. Naquele período, Glenn enfrentou ameaças, pedidos de deportação e tentativas de criminalização por causa de seu trabalho jornalístico.

A ruptura com o Intercept veio em 2020. Greenwald deixou o veículo que ajudara a fundar acusando seus editores de censurarem um texto seu sobre Joe Biden. O Intercept contestou a versão e afirmou que havia problemas factuais no artigo. Desde então, Greenwald passou a ocupar com frequência espaços conservadores nos Estados Unidos e a construir uma audiência própria, inclusive por meio de sua newsletter e das redes sociais.

Essa mudança não significa que Greenwald tenha simplesmente aderido ao Partido Republicano — ele próprio rejeita esse enquadramento e mantém posições que não cabem confortavelmente na direita americana. Mas sua agenda pública passou a convergir cada vez mais com temas centrais do trumpismo: ataques aos democratas, denúncias contra aquilo que chama de “regime de censura” e uma relação cada vez mais próxima com o ecossistema midiático conservador.

É nesse contexto que devem ser lidas suas publicações nas horas finais da eleição brasileira. O jornalista que um dia se tornou símbolo internacional da denúncia de abusos de poder agora usa sua enorme audiência em inglês para apresentar o Brasil como um país em que juízes aliados de Lula estariam dispostos a manipular uma eleição.

Não sabemos até onde essa narrativa chegará nem que impacto terá. Sabemos, porém, exatamente qual história Glenn Greenwald decidiu contar ao mundo às vésperas de os brasileiros irem às urnas.

*Paulo Motoryn é repórter e Noite Húngaras, uma newsletter de jornalismo investigativo escrita por ele, diretamente de Brasília, sobre política, democracia, extremismo e os bastidores do poder.

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