Marcelo Zero: Não será mais possível tornar a América grande de novo. Mesmo no mapa
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Por Marcelo Zero*
Parece-nos óbvio que a votação da resolução da ONU que adotou um mapa-múndi que corrige as distorções das áreas dos países ocasionadas pela tradicional projeção Mercator é inteiramente adequada e está em sintonia com uma ordem mundial simétrica e multipolar. Foi um voto de simbologia importante e significativa.
Parece-nos também óbvio que o ridículo voto contrário e isolado dos EUA, que classificou a iniciativa da União Africana como algo que faria parte de um projeto ideológico muito mais amplo e radical, que se inseriria no contexto de uma suposta “guerra cultural contra o Ocidente”, reflete o isolamento geopolítico do governo trumpista. É simbólico da decadência do Império.
Contudo, a afirmação de que a tradicional projeção Mercator seria intencionalmente “eurocêntrica” não nos parece inteiramente verdadeira, embora ela, de fato, aumente desproporcionalmente as áreas de muitos países que estão em latitudes mais elevadas.
Mas há de se considerar que esse é um efeito geométrico da projeção de uma esfera na superfície de um cilindro, o que mantém os paralelos e meridianos em ângulos retos (90°). Tal projeção mantém as distâncias exatas e é algo muito útil para a navegação, algo para o qual a projeção Mercator foi concebida.
A projeção Mercator, agregue-se, aumenta artificialmente as áreas que estão em latitudes elevadas, independentemente dessas áreas estarem no Hemisfério Norte ou Sul.
O que acontece é que no Hemisfério Norte há muito mais áreas terrenas em latitudes elevadas do que no Hemisfério Sul. Com efeito, no Hemisfério Sul as áreas continentais e nacionais estão muito concentradas em latitudes mais baixas, ao contrário do que ocorre no Hemisfério Norte.
O Brasil, por exemplo, fosse um país situado entre as latitudes 40º e, digamos, 65º Sul, apareceria, evidentemente, muito maior no mapa com uma projeção Mercator.
No mapa anexo, elaborado com uma projeção Mercator entre 82º de latitude Norte e 82º de latitude Sul, vê-se claramente que a Antártica, mesmo sendo apenas parcialmente representada, apresenta-se como uma massa geográfica descomunal.
De qualquer forma, o mapa-múndi adotado praticamente por unanimidade pela ONU, embora vá distorcer distâncias e formas, pois curvará paralelos e meridianos (é impossível projetar uma esfera em um plano sem criar algum tipo de distorção), representará melhor os tamanhos reais dos países e, mais ainda, a ascensão geopolítica crescente do chamado “Sul Global” na ordem planetária em rápida mutação.
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E o Império, isolado, terá de aceitar. Não será mais possível tornar a América grande de novo. Mesmo no mapa.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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