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Marcelo Zero: Gandhi decerto não gostou de ter o seu túmulo profanado por Bolsonaro
Marcelo Zero: Diferentemente de Bolsonaro, Gandhi era pacifista e ferrenho combatente das desigualdades da pobreza. Fotos: Reprodução e Alan Santos/divulgação Planalto
Política

Marcelo Zero: Gandhi decerto não gostou de ter o seu túmulo profanado por Bolsonaro


26/01/2020 - 21h49

Gandhi não Gostou

por Marcelo Zero*

A parceria estratégica entre Índia e Brasil foi estabelecida oficialmente pelo presidente Lula, em 2006.

Foi também no período Lula que se criou o foro do IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e o grupo do BRICS, do qual a Índia faz parte.

Naqueles tempos, o Brasil tinha política externa autônoma, voltada para articulação dos interesses dos países em desenvolvimento no cenário mundial.

Os resultados políticos vieram. Também os econômicos. Entre 2006 e 2012, as exportações do Brasil para Índia aumentaram de US$ 938 milhões para US$ 5,57 bilhões, ou seja, foram multiplicadas por mais de cinco vezes.

Entretanto, com a crise e com uma política externa que abandonou a cooperação sul-sul e que põe ênfase exclusiva no alinhamento submisso aos EUA, o relacionamento com a Índia vem se tornando irrelevante.

Politicamente e economicamente.

Entre 2017 e 2019, as exportações para aquele país caíram de US$ 4,65 bilhões para apenas US$ 2,76 bilhões, menos da metade do número observado em 2012.

Nesse ano do governo Bolsonaro, a Índia foi somente nosso 17° parceiro comercial. Ressalte-se que, nesse último ano, tivemos déficit de quase US$1,5 bilhão com a Índia.

A tendência é que esse déficit se amplie, pois o Brasil importa óleo diesel da Índia, bem como pesticidas e fungicidas para a agricultura.

Com a Petrobras cada vez mais abandonando o refino, as importações de diesel tendem a aumentar. Deverão aumentar também as importações de pesticidas, com a política de liberação desses produtos no Brasil.

A promessa de retirar a queixa brasileira contra os subsídios ao açúcar indiano na OMC, feita sem nenhuma contrapartida, deverá também prejudicar os interesses comerciais do Brasil.

Embora Bolsonaro e Modi tenham algumas afinidades ideológicas, é pouco provável que a viagem do brasileiro à Índia tenha algum efeito prático significativo, dada à política externa subalterna de Bolsonaro.

O número de acordos firmados (15) não assegura nada. Oito deles são meros Memorandos de Entendimento, promessas vazias de cooperação, que não criam obrigações, perante o Direito Internacional Público.

Mas, mesmo aqueles que criam obrigações mútuas, só funcionam, na prática, com empenho de ambas as partes e vontade política. Vontade política própria, frise-se. Coisa que falta ao governo do capitão. Isso e visão estratégica.

As prioridades estratégicas da Índia são seu relacionamento com China e Rússia, seu conflito com o Paquistão e sua recente aliança militar com os EUA. O Brasil de Bolsonaro, mero súdito geopolítico dos EUA, tende a ter importância cada vez mais secundária, ao contrário do que se verificou no governo Lula.

Não há, pois, nada a se comemorar nessa viagem protocolar e vazia.

Gandhi, pacifista e ferrenho combatente contra as desigualdades e a pobreza, perturbado em seu túmulo profanado, decerto não gostou.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

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2 comentários

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Zé Maria

29 de janeiro de 2020 às 20h26

https://pbs.twimg.com/media/EPdRQQuX4AMpyLp?format=jpg
“125 anos de Apparício Torelly, o Barão de Itararé.
O barão que não era barão, mas que foi duque e,
muito modestamente, voltou a ser o barão que não era.
Grande inspiração de humor político nesses tempos obscuros”
#baraodeitararé
https://twitter.com/cbaraodeitarare/status/1222535170600902656

Máximas e Mínimas do Barão de Itararé

. De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

. Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.

. Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

. Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

. Quando pobre come frango, um dos dois está doente.

. Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

. Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.

. Quem só fala dos grandes, pequeno fica.

. Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.

. Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. (*)
*( Ge-gê: apelido de . . Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras
no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra).

. Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.

. Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

. O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

. Os juros são o perfume do capital.

. Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire
o dinheiro que já gastamos.

. Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.

. O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente
se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

. A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.

. Cobra é um animal careca com ondulação permanente.

. Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

. Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

. Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.

. É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.

. A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.

. Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar
que um dia ficará chato como o pai.

. O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe
os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.

. Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo
que o deixaria louco de raiva, se acontecesse com você.

. Mulher moderna calça as botas e bota as calças.

. A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

. Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

. Pão, quanto mais quente, mais fresco.

. A promissória é uma questão “de…vida”. O pagamento é de morte.

. A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Apparício Torelly, (o “Barão de Itararé), que também usou
o pseudônimo de “Apporelly”, era gaúcho de Rio Grande,
nascido em 29/01/1895.
Estudou medicina, sem chegar a terminar o curso, e já era
conhecido quando veio para o Rio fazer parte do jornal O Globo,
e depois de A Manhã, de Mário Rodrigues, um temido
e desabusado panfletário.
Logo depois lançou um jornal autônomo, com o nome de “A Manha”.
Teve tanto sucesso que seu jornal sobreviveu ao que parodiava.
Editou, também, o “Almanhaque — o Almanaque d’A Manha”.
Faleceu no Rio de Janeiro em 27/11/1971.
O “herói de dois séculos”, como se intitulava, é um dos maiores
nomes do humorismo nacional.

Extraído de “Máximas e Mínimas do Barão de Itararé”,
Distribuidora Record de Serviços de Imprensa – Rio de Janeiro, 1985,
págs. 27 e 28, coletânea organizada por Afonso Félix de Souza.

Mais em: https://www.culturabrasil.org/itarare_maximas_e_minimas.htm

Responder

Zé Maria

27 de janeiro de 2020 às 01h36

Se Boçalnaro realmente conhecesse Mahatma Gandhi,
estaria chamando o Libertador da Índia de
‘comunista subversivo terrorista vagabundo’ …

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