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Marcelo Zero: A ômicron é moderada, mas a política externa de Biden não
Política

Marcelo Zero: A ômicron é moderada, mas a política externa de Biden não


05/01/2022 - 22h10

A Ômicron é moderada, mas Biden não

Por Marcelo Zero*

Hoje, há um obstáculo maior à saída da crise que a pandemia. Trata-se da política externa dos EUA.

Os dados provenientes da Europa e dos EUA demostram que a variante ômicron, responsável pela quarta onda de Covid-19, é significativamente menos agressiva que as variantes anteriores.

Embora muito contagiosa, ela provoca um número proporcionalmente baixo de hospitalizações e mortes, concentrado entre os não vacinados.

Porém, enquanto o vírus se modera, criando brechas para a volta da normalidade, a política externa de Biden se radicaliza, apontando para a continuidade da crise.

Com efeito, a escalada de provocações na Ucrânia e em Taiwan demonstra que Biden está investindo em acirramentos dos conflitos com a Rússia e a China, num momento em que a saída da crise mundial exige alto grau de cooperação e negociação.

O caso da Ucrânia é exemplar.

OS EUA vêm, há anos, expandindo sua influência política e militar no Leste europeu, com o intuito de “cercar” geoestrategicamente a Rússia.

Essa não é uma diretriz nova, na política de defesa dos EUA.

Já em 1997, Zbigniew Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, publicou, na Foreign Affairs, um artigo intitulado “Uma Geoestratégia para a Eurásia”, que já antecipava algumas teses de seu livro “O Grande Tabuleiro de Xadrez”.

Nesse artigo, ele argumentava, com razão, que a Eurásia é o eixo geoestratégico do mundo, já que esse supercontinente, além concentrar boa parte do território e dos recursos naturais do planeta, conecta os dois grandes polos econômicos do mundo além dos EUA, a União Europeia e o Leste da Ásia.

Para Brzezinski, é vital que os EUA tenham o controle desse supercontinente, caso queiram permanecer como a única e inconteste superpotência.

Pois bem, a geoestratégia concebida por Brzezinski implicava várias ações de longo prazo concomitantes.

Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico, como o que foi anunciado há alguns anos.

Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia.

Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.

Tal geoestratégia vem sendo seguida, em maior ou menor grau, com avanços e recuos, pelos EUA.

Com efeito, a OTAN se expandiu bastante para o Leste europeu, em direção à Rússia. Hoje em dia, Polônia, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Bulgária, Romênia, Letônia, Estônia e Lituânia já fazem parte desse grande bloco militar.

Apesar dessa geoestratégia ser antiga, Biden a está intensificando.

A ideia central de Biden é a de usar a Ucrânia e seu conhecido conflito interno para expandir mais a OTAN e “sufocar” a Rússia militarmente, bem como econômica e comercialmente.

Os EUA já instalaram lançadores MK 41, capazes de lançar mísseis Tomahawks, na Romênia e tenciona fazê-lo em breve também na Polônia.

Caso o façam também na Ucrânia, que tem um governo de extrema direita totalmente alinhado a Washington, os EUA poderiam atingir Moscou em cerca de 7 minutos, com mísseis de alcance intermediário.

No caso de mísseis hipersônicos, o ataque poderia atingir a capital da Rússia em 5 minutos, o que geraria um tempo de resposta defensiva muito curto, comprometendo seriamente a segurança daquele país.

Obviamente, a Rússia não tolerará tal ameaça e já está fortalecendo suas posições na fronteira com a Ucrânia e na região de Donbass, área do leste da Ucrânia de maioria russa.

Os novos sistemas de mísseis hipersônicos russos, o Avangard, o Kinzhal e o Zircon, poderiam responder, com sobras, a essa ameaça. Apesar de não serem capazes de fazer grande diferença numa guerra nuclear franca, eles poderiam ser decisivos num conflito regionalizado.

Agora, imaginem se fosse o contrário.

Se a Rússia, por exemplo, ameaçasse instalar bases militares e plataformas de lançamentos de mísseis na fronteira do Canadá com os EUA, de modo a assegurar a destruição de Washington em 5 ou 7 minutos. Será que Biden assistiria a tudo passivamente? Claro que não.

Entretanto, Putin aposta numa solução negociada, que seria plasmada em acordos de segurança mútua e não-agressão. Esses acordos teriam de garantir que:

A Rússia e os EUA não devam usar o território de outros países para preparar ou conduzir ataques contra o outro;

Nenhuma das partes deve implantar mísseis de curto ou intermediário alcance no exterior ou em áreas onde essas armas possam atingir alvos dentro do território da outra;

Os Estados Unidos não abrirão bases militares nos países pós-soviéticos que ainda não sejam membros da OTAN, não usarão sua infraestrutura militar nem desenvolverão cooperação militar com esses Estados;

Nenhuma das partes deverá implantar armas nucleares no exterior, e qualquer uma dessas armas já implantadas deve ser devolvida. Ambas as partes devem eliminar qualquer infraestrutura para o desdobramento de armas nucleares fora de seus próprios territórios;

Nenhuma das partes deverá conduzir exercícios militares com cenários envolvendo o uso de armas nucleares; e,

Nenhuma das partes treinará pessoal militar ou civil de países não nucleares para o uso de armas nucleares.

Os EUA, contudo, não parecem ter interesse num compromisso desse tipo.

Querem aumentar a pressão sobre a Rússia.

Evidentemente, Biden também sabe que um conflito aberto e de grande intensidade na Ucrânia seria um grave erro, que poderia sair muito caro.

A estratégia dos EUA parece ser, assim, a de investir num conflito baixa ou média intensidade na Ucrânia, de modo a justificar a entrada desse país na OTAN e medidas adicionais de isolamento econômico e diplomático da Rússia.

O terreno para tais ações já está sendo preparado há tempos, com a ajuda da mídia ocidental.

Nesse contexto, a Rússia é invariavelmente apresentada como uma “potência invasora”, dirigida por um “ditador; e a população russófona de Donbass e da Criméia é sempre classificada de “mercenária”, quando busca organizar a sua defesa.

Caso as escaramuças se iniciem, os EUA pressionarão a Europa e outros aliados a isolar a Rússia e a aumentar o torniquete econômico das sanções.

Interessa, sobretudo, impedir a implantação do Nord Stream 2, gasoduto que abasteceria a Alemanha e outros países europeus com gás russo, passando ao largo da Ucrânia.

O eventual êxito dessa estratégia dos EUA descansa sobre dois pressupostos:

1) Países europeus e aliados de outras regiões a ela se somariam;

2) A China não se empenharia muito na defesa da Rússia.

Ambos os pressupostos são frágeis.

Embora países do Leste europeu pudessem a ela aderir de bom grado, não parece provável que países importantes da UE, como a Alemanha, sejam entusiastas da ideia. O Nord Stream 2, por exemplo, interessa muita mais à Alemanha que à Rússia.

Já a China sabe muito bem que o isolamento da Rússia visa, sobretudo, enfraquecer a sua estratégia de integrar a Eurásia, mediante os megaprojetos da Nova Rota da Seda. Portanto, é pouco provável que fique passiva, mesmo tendo atitude muito pragmática e ponderada.

No entanto, independentemente do êxito ou fracasso de uma eventual “operação Ucrânia”, é evidente que conflitos desse tipo, que têm desdobramentos globais, em nada contribuem para tirar o mundo, e os EUA, da crise.

Biden, de forma acertada, vem investindo muito em políticas internas anticíclicas para dinamizar a economia dos EUA, preparar a reconstrução do país e reduzir suas grandes desigualdades sociais. Porém, investe também numa política externa agressiva, que aposta num conflito estéril com as grandes potências emergentes.

Essa política externa, que é claramente incapaz de reconduzir os EUA ao status de única superpotência global, pois o mundo não voltará à década de 90 do século passado, será capaz, contudo, de atrasar ou impedir a saída da crise, a qual exige, é óbvio, forte cooperação internacional e ambiente de paz e estabilidade.

Ao Brasil, com certeza, não interessa conflitos desse tipo. O governo Bolsonaro, porém, contaminado por ideologias e camarões mal digeridos, poderá pensar de outra forma.

Mas isso deverá ser resolvido com a vacina das eleições.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

Leia também:

New York Times: Nos EUA, agora, todo dia é 6 de janeiro, diz editorial





3 comentários

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Pedro Paulo

07 de janeiro de 2022 às 13h25

Isso tá me parecendo 3 caras de 1,50 m quererem brigar com um gigante de + de 2 m de altura.
Esses países que cercam a Rússia serão dizimados.
Lembra tb o acordo de não agressão entre Alemanha e Rússia antes da 2° guerra.

Responder

Nelson

06 de janeiro de 2022 às 16h35

E dizer que a esquerda, não somente a brasileira, mas a de quase todo o planeta, caiu como uma patinha na lorota do “Estado mínimo” e do fim dos estados-nações. Essa lorota foi repetida à exaustão a partir do momento em que o neoliberalismo passou a ser empurrado goela abaixo de grande parte dos povos do mundo, mas, notavelmente após o ruir da União Soviética.

Enquanto isso, o que fazem os EUA, agora com Biden, mas já vinham fazendo em governos anteriores? Fortalecem cada vez mais exatamente o seu Estado, inclusive com aumentos sucessivos no seu já assombroso orçamento militar.

Então, essa esquerda que vive a citar o Marxismo dá mostras de não ter lido Marx ou, acaso tenha lido não o entendeu. Há, claro, sabemos disso, parte significativa da esquerda – a chamada esquerda liberal – que aí está somente para dividir e fazer o jogo do Sistema de Poder que domina os Estados Unidos.

Responder

    João de Paiva

    07 de janeiro de 2022 às 13h36

    Subscrevo teu comentário. Nelson Bel síntese. Na continente latino-americano vemos disso constantemente (Chile e Peru são os casos mais recentes, mas mesmo na Argentina e na Bolívia não se vê uma esquerda nacionalista e anti-imperialista no poder).


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