Luis Felipe Miguel⁠: A Folha, de novo

Tempo de leitura: 5 min
O diretor de redação da Folha, Sérgio Dávila Foto: Reprodução

Tentando justificar a normalização da candidatura presidencial de um miliciano, o diretor de redação do jornal paulistano o compara ao New York Times

Por Luis Felipe Miguel*⁠, em seu Substack

Eu não ia publicar nada hoje, nem pretendia voltar ao assunto, mas ontem o diretor de redação da Folha, Sérgio Dávila, lançou um texto inacreditável para comparar o seu jornal com o New York Times.

O Times, como se sabe, há tempos tem anunciado em editorial seu apoio a candidaturas do Partido Democrata, no enfrentamento à guinada dos republicanos para a extrema direita.

Ainda assim, como o artigo dele destaca, produziu uma importante reportagem sobre a manobra desonesta dos democratas do Alasca, que lançaram um homônimo do candidato republicano à reeleição no Senado para confundir os eleitores e dividir os votos.

Vale tudo contra a extrema direita? Não sei. Mas o compromisso do jornalismo com a informação verdadeira e de interesse público não pode ser rebaixado.

Na verdade, o comportamento do diário nova-iorquino mostra que a imprensa pode afirmar seu compromisso com valores ético-políticos inegociáveis, sem com isso cair no partidarismo e trair sua obrigação profissional.

É o contrário do que a Folha fez. Ela se recusou a assinalar o caráter inaceitável da candidatura de Flávio Bolsonaro — um candidato que não escondia seu desprezo pela democracia e pela Constituição, com laços notórios com o crime organizado e cujo projeto central se resumia ao enriquecimento próprio e à blindagem de si mesmo contra a justiça.

Não se trata da ausência de um editorial defendendo a única candidatura presidencial defensável, sob qualquer critério. É que o noticiário da Folha cumpriu muito mal a tarefa de informar seus leitores, como já apontei antes.

O subtexto do artigo de Sérgio Dávila, que ele mesmo não teve coragem de enunciar com todas as letras, mas que sugere, é uma equivalência entre o comportamento do New York Times, de dar a notícia doa a quem doer, e o da própria Folha. “O que nos une ao jornal norte-americano é a primazia do jornalismo profissional. Daí a importância que damos ao furo, à informação de interesse público que a Redação apurou e que o leitor ainda desconhece.”

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Parece que quem critica o jornal paulistano está chateado porque ele fez reportagens críticas a Lula, a seu partido, a seu governo, a sua campanha, a personagens de seu círculo íntimo.

Mas não é isso. O problema é que a Folha inflacionou a cobertura crítica a Lula e ao PT na mesma medida em que diminuiu a atenção dada aos inúmeros escândalos que envolviam Flávio Bolsonaro e sua entourage. Construiu uma falsa equivalência entre duas candidaturas absolutamente dispares e, assim, foi um instrumento de desinformação do público.

Houve um período em que, embaixo de seu nome, a Folha ostentou o slogan “um jornal a serviço da democracia”. Por muito tempo, foi “um jornal a serviço do Brasil”. Já era assim que se definia no tempo em que apoiava entusiasticamente a ditadura militar. Agora, diz ser “um jornal em defesa da energia limpa”.

É tudo balela. A Folha é, claramente, um jornal a serviço da Faria Lima, nisso sendo igual a praticamente toda a imprensa corporativa brasileira. Mostrou este compromisso no esforço de normalizar a candidatura de Flávio e mostra, de novo, no eterno terceiro turno da eleição presidencial, quando tenta impor, para o candidato vitorioso, o programa econômico a que o povo brasileiro disse não nas urnas. Mas esse é um tema a ser aprofundado em outro texto.

Só aponto uma “curiosidade”: hoje a Folha dá quase meia página a Rui Costa Pimenta, o eterno candidato presidencial do PCO. É um partido irrelevante, sem nenhum lastro na sociedade, cujo chefe se faz de palhaço, mas talvez não seja — a polícia investiga a suspeita de que suas candidaturas sirvam para o desvio de dinheiro do fundo eleitoral, em benefício dele próprio. Fez 15 mil votos para presidente, o último colocado, uma votação que ele precisaria quadruplicar para sonhar com uma vaga de deputado estadual. Em suma, o que Pimenta fala não tem mais interesse jornalístico do que o que fala o pipoqueiro da esquina. Mas por que a Folha lhe dá tanto destaque? Porque ele está defendendo Flávio Bolsonaro.

* * *

Nas eleições de meio de mandato, o GOP (Grand Old Party, o grande velho partido, como os republicanos são chamados nos Estados Unidos) levou uma taquarada e tanto. A apuração deles é primitiva e ainda não temos o resultado final, mas já está certo que ele perdeu a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes, por muitas cadeiras, além de vários governos estaduais.

Era esperado que perdesse, mas perdeu muito mais do que o esperado. A vantagem democrata deve ficar em umas dez cadeiras no Senado e umas cem na Câmara. Ao que parece, o eleitorado decidiu finalmente rejeitar o trumpismo, impactado pela alta do custo de vida que a guerra sem sentido contra o Irã está provocando.

A questão é se os republicanos vão se divorciar de Trump. Afinal, quando o laranjão ganhou surpreendentemente as primárias e se sagrou o candidato do partido nas eleições presidenciais em 2016, muitas de suas lideranças históricas ensaiaram um distanciamento — em parte por pudor, por julgarem que não dava para apoiar alguém tão obviamente desqualificado, em parte por ressentimento, já que no processo tinham sofrido os ataques baixos, grosseiros e caricatos que são a marca do jeito dele fazer política.

Mas, com raras e honrosas exceções, todos voltaram ao ninho, se abrigaram sob as asas de Trump para ganhar cargos e vantagens, mesmo pagando o preço de se tornarem capachos absolutos, já que o que ele exige é uma submissão completa até a seus delírios mais descompensados.

O GOP, hoje, é o partido de Trump e nada mais. Será que consegue virar algo diferente?

O ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2020, também pareceu um sinal de que estava na hora dos republicanos mudarem de rumo. Como sabemos, não foi o que aconteceu.

Agora, lideranças do partido, lambendo as feridas do desastre na eleição, também ensaiam críticas ao presidente.

Até o vice, J. D. Vance, veio a público culpar a guerra contra o Irã pela derrota. É uma tentativa de jogar a conta em seu principal rival para uma possível indicação como candidato em 2028, o secretário de Estado, Marco Rubio, mas que o coloca também em rota de colisão com o chefe.

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. Convém não nos animarmos demais com as reações imediatas ao vexame atual do bolsonarismo. Já ocorreram vexames do mesmo tipo antes e a direita brasileira voltou a se alinhar com o Jair. Mas esse também é um tema para outro texto.

Seja como for, a derrota de Trump, que é também a derrota dos bilionários, das big techs e de um jeito particularmente imundo de fazer política (sobre isso, leiam a newsletter de Robert Reich), é a segunda linda notícia que temos a comemorar nestas duas últimas semanas.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). 

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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