Um estudo estratégico do Código Aberto sobre o Escudo das Américas, a nova arquitetura de poder hemisférico dos Estados Unidos e os riscos militares, econômicos, tecnológicos e geopolíticos à soberania brasileira.
Por Reynaldo Aragon*, no Código Aberto
Como os Estados Unidos reorganizam alianças militares, estruturas de comando, bases, corredores comerciais, redes de inteligência e instrumentos de influência para ampliar seu poder nas Américas? Com base em documentos oficiais, cartografia estratégica e análise da correlação regional de forças, o Código Aberto investiga a arquitetura do cerco ao Brasil, a disputa pela hegemonia diante da ascensão chinesa e os riscos concretos à soberania nacional. Um dossiê sobre os mecanismos de poder que estão redesenhando o continente e disputando a capacidade do Brasil de decidir seu próprio futuro.
O que está em jogo é a soberania brasileira

Ilustração: Código Aberto/IA
A soberania de um país não é ameaçada apenas quando soldados estrangeiros atravessam suas fronteiras. Ela também pode ser comprometida quando suas decisões econômicas passam a depender da autorização de outra potência, quando suas rotas comerciais ficam sujeitas a mecanismos externos de controle, quando sua infraestrutura estratégica se integra a sistemas sobre os quais não possui autoridade efetiva e quando seus vizinhos assumem compromissos militares capazes de modificar a correlação regional de forças. No século XXI, compreender o poder exige olhar além dos territórios ocupados. É preciso identificar quem controla os acessos, organiza as dependências, estabelece as regras e conserva a capacidade de impor custos aos países que procuram decidir por conta própria.
É exatamente essa transformação que investigamos em A geografia do cerco e as fronteiras do poder, estudo estratégico desenvolvido pelo Código Aberto para examinar a reorganização do poder norte-americano nas Américas e suas consequências para o Brasil. O trabalho nasce de uma questão que considero incontornável para o futuro do país. Em que condições a maior potência territorial, econômica e demográfica da América do Sul poderá preservar sua autonomia diante de uma arquitetura hemisférica que amplia a capacidade dos Estados Unidos de condicionar decisões políticas, militares, comerciais e tecnológicas em seu entorno?
A pergunta tornou-se urgente porque Washington deixou de tratar a recuperação de sua preeminência hemisférica apenas como uma intenção diplomática. A Estratégia de Segurança Nacional, publicada em dezembro de 2025, e a Estratégia de Defesa Nacional, divulgada em janeiro de 2026, estabeleceram explicitamente a prioridade de recuperar a predominância norte-americana no continente, assegurar acesso a posições geográficas estratégicas e impedir que potências concorrentes consolidem capacidades consideradas ameaçadoras. Sob o chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe, uma concepção histórica de supremacia regional foi atualizada para um mundo em que portos, dados, minerais críticos, sistemas financeiros e infraestrutura digital passaram a integrar o próprio exercício do poder.
O Escudo das Américas precisa ser compreendido dentro dessa transformação. Apresentado inicialmente como uma iniciativa de cooperação contra cartéis e organizações criminosas transnacionais, o projeto adquiriu uma dimensão institucional mais ampla. A declaração conjunta de setembro de 2026 estabeleceu três pilares de atuação envolvendo economia, segurança e coordenação multilateral. O documento prevê articulações sobre investimentos, cadeias de minerais críticos, fornecedores de infraestrutura digital, inteligência e instrumentos diplomáticos. Não estamos, portanto, diante de um debate restrito à criminalidade. Trata-se de uma iniciativa cuja agenda alcança diretamente setores que definem a capacidade de desenvolvimento e a liberdade de ação dos Estados nacionais.
O aspecto mais importante dessa reorganização não está necessariamente na quantidade de novas bases militares. Está na combinação de estruturas que já existem com acordos de acesso, presença rotativa, exercícios multinacionais, interoperabilidade, cooperação em inteligência e mecanismos jurídicos que ampliam a capacidade operacional de Washington. O SOUTHCOM ocupa posição central nesse processo, mas sua rede de parcerias não coincide integralmente com a composição política do Escudo. Tampouco todos os países participantes assumem compromissos equivalentes. Identificar essas diferenças é indispensável para compreender a distribuição real do poder no continente e evitar que um mapa politicamente impressionante substitua a análise das relações efetivas entre os Estados.
É nesse ponto que a geografia brasileira adquire importância decisiva. O Brasil compartilha fronteiras com dez países sul-americanos, possui uma extensa costa atlântica, concentra recursos energéticos e minerais estratégicos, abriga uma parcela fundamental da Amazônia e ocupa posição central nos projetos de integração física e econômica do continente. Sua inserção internacional também se transformou profundamente com a ascensão chinesa. A China tornou-se o principal destino das exportações brasileiras, participa de investimentos em infraestrutura e tecnologia e representa uma alternativa econômica de enorme importância para a diversificação das relações exteriores do país. Essa realidade torna a autonomia brasileira um componente relevante da competição entre as grandes potências.
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O problema não consiste simplesmente em escolher entre Washington e Pequim. A questão fundamental é quem terá condições de determinar as escolhas brasileiras. Uma ferrovia que aproxima o território nacional do Pacífico, um porto que modifica as rotas de comércio com a Ásia, uma rede de telecomunicações que reduz dependências tecnológicas ou uma política industrial voltada ao processamento de minerais críticos podem alterar a posição do Brasil nas cadeias internacionais de valor. Quando projetos dessa natureza passam a integrar disputas geopolíticas, decisões aparentemente técnicas assumem consequências estratégicas. O controle das rotas deixa de ser apenas uma questão de transporte. Passa a influenciar a capacidade de produzir, negociar, investir e estabelecer parcerias sem subordinação a interesses externos.
O Panamá, o Peru, o Paraguai, a Colômbia, a Argentina, o Equador e a Guiana ocupam posições diferentes nessa configuração. Alguns concentram instalações e acordos de cooperação militar. Outros possuem infraestrutura logística, acesso marítimo, capacidade operacional ou relevância para a integração regional. Nenhuma dessas condições transforma automaticamente um país em inimigo do Brasil. O que importa investigar é como capacidades nacionais distintas podem ser articuladas em estruturas internacionais de comando, segurança e influência, modificando o ambiente no qual Brasília precisa defender seus interesses. O cerco, enquanto categoria estratégica, não pressupõe uma linha contínua de tropas posicionadas contra nossas fronteiras. Refere-se à possibilidade de redução progressiva das alternativas de ação de um Estado pela concentração de instrumentos de poder em seu entorno.
Essa transformação também possui uma dimensão menos visível. A expansão dos sistemas de vigilância, da inteligência artificial, da integração de bases de dados, das operações cibernéticas e das tecnologias privadas de segurança cria novas formas de dependência entre Estados, empresas e instituições. O poder contemporâneo não se limita à capacidade de destruir uma infraestrutura. Inclui a possibilidade de conhecer seu funcionamento, condicionar seus fornecedores, controlar fluxos de informação e interferir nas condições em que decisões políticas são tomadas. Para um país da dimensão do Brasil, soberania informacional e autonomia tecnológica deixaram de ser assuntos especializados. Tornaram-se componentes inseparáveis da defesa nacional.
Há ainda uma mudança especialmente sensível na maneira como Washington relaciona criminalidade transnacional e segurança militar. A incorporação de organizações criminosas brasileiras a instrumentos norte-americanos de contraterrorismo e sanções amplia o alcance potencial de mecanismos financeiros, jurídicos e de inteligência sobre atividades vinculadas ao território nacional. Isso não constitui autorização automática para uma intervenção militar, mas produz riscos concretos de conflito entre jurisdições e interpretações sobre o emprego da força. A experiência latino-americana recomenda examinar com particular atenção os momentos em que problemas de segurança pública passam a ser enquadrados como ameaças internacionais sujeitas à atuação unilateral de potências estrangeiras.
A investigação considera inclusive cenários extremos, como uma eventual alteração da postura nuclear norte-americana na região. A gravidade dessa possibilidade exige atenção especial ao Tratado de Tlatelolco e aos compromissos de desnuclearização latino-americanos. Entretanto, a documentação pública examinada não comprova uma nova implantação de armas nucleares dos Estados Unidos em bases latino-americanas. Essa distinção é fundamental. Um estudo estratégico não pode confundir capacidade com intenção, exercício militar com preparação comprovada de ataque ou possibilidade futura com acontecimento consumado. O rigor não diminui a gravidade dos riscos. É o que permite reconhecê-los sem produzir alarmismo.
Foi com essa preocupação que estruturamos o dossiê. A investigação reúne documentos de segurança e defesa, declarações governamentais, acordos militares, registros de exercícios, informações sobre infraestrutura, indicadores econômicos, cartografia geográfica e estudos especializados. Seu objetivo não é apresentar uma coleção de acontecimentos desconectados, mas reconstruir as relações que permitem compreender a transformação do ambiente estratégico brasileiro. Também buscamos separar as intenções declaradas pelas autoridades norte-americanas das capacidades efetivamente demonstradas, dos efeitos materiais identificáveis e dos cenários que permanecem sujeitos à incerteza.
O resultado é uma apresentação de noventa páginas, organizada como um atlas estratégico das Américas. Sua construção visual não é um complemento decorativo. Os mapas permitem observar a distribuição territorial das relações de poder. Os gráficos dimensionam fenômenos que, apresentados apenas em palavras, poderiam parecer abstratos. Os infográficos explicam mecanismos institucionais e operacionais. A documentação permite ao leitor examinar a origem das informações e distinguir evidência de interpretação. Cada parte foi concebida para conduzir a investigação do contexto histórico às estruturas contemporâneas, das relações regionais aos interesses brasileiros, das capacidades observadas às consequências possíveis.
O estudo também procura enfrentar uma contradição que não podemos ignorar. O Brasil participa de exercícios e mantém acordos de cooperação com os Estados Unidos e com países integrados a diferentes estruturas hemisféricas de segurança. Essas relações podem produzir benefícios reais de treinamento, comunicação e defesa. Mas também exigem uma avaliação permanente sobre dependência tecnológica, circulação de conhecimentos operacionais, autonomia decisória e compatibilidade entre compromissos internacionais. Uma política de defesa soberana não se constrói pelo isolamento. Constrói-se pela capacidade de cooperar sem perder o controle sobre os próprios interesses.
A questão, portanto, ultrapassa governos e conjunturas eleitorais. O Brasil precisará decidir como proteger suas infraestruturas, diversificar suas relações comerciais, desenvolver tecnologia própria, fortalecer sua capacidade militar, preservar sua política externa e ampliar a integração sul-americana em um ambiente internacional progressivamente competitivo. Essas decisões envolvem interesses econômicos, disputas institucionais e escolhas de longo prazo. Não podem permanecer confinadas aos círculos restritos da diplomacia, dos comandos militares ou dos grandes grupos empresariais. Uma sociedade que desconhece as condições materiais de sua soberania dificilmente conseguirá participar das decisões que determinarão seu futuro.
É por essa razão que o Código Aberto disponibiliza agora A geografia do cerco e as fronteiras do poder. O estudo foi desenvolvido para jornalistas, pesquisadores, professores, estudantes, empresários, diplomatas, militares, representantes institucionais e todos os brasileiros interessados em compreender as transformações que atingem nosso entorno estratégico. Mais do que oferecer respostas prontas, ele apresenta evidências, relações, mapas e problemas que precisam entrar no debate público nacional.
Convido o leitor a baixar o documento completo, percorrer sua cartografia, examinar os dados, consultar as fontes e confrontar suas conclusões. É no conjunto da investigação que a dimensão do problema se torna perceptível. O que aparece isoladamente como um acordo militar, um exercício de treinamento, uma decisão sobre investimentos ou uma disputa portuária pode adquirir outro significado quando analisado dentro da reorganização mais ampla do poder hemisférico.
A soberania brasileira não será preservada apenas por declarações de independência, nem pela crença de que nossa dimensão territorial nos torna imunes às pressões internacionais. Ela depende de capacidade material, conhecimento estratégico, instituições preparadas, desenvolvimento econômico e participação consciente da sociedade. O primeiro passo é compreender a estrutura de poder diante da qual o país precisa tomar suas decisões.
É isso que este estudo procura tornar visível. Porque, antes de decidir como defender o futuro do Brasil, precisamos conhecer a geografia dos interesses que disputam esse futuro.
O estudo completo, com 90 páginas de mapas, gráficos, infográficos, análises e documentação, está disponível para leitura e download em PDF ao final desta publicação.
*Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net . É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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