Carlos Fidelis: Bolsonarismo e intolerância em Santa Catarina — até onde pode chegar a crueldade?

Tempo de leitura: 6 min
Ilustração: Montagem/IA

O relato de uma mãe sobre manifestações que defendem o estupro de filhos de petistas expõe a gravidade da intolerância política e exige investigação, proteção à infância e mobilização nacional por civilidade e dignidade na política

Por Carlos Fidelis Ponte*

“Estou preocupada com o meu filho de 9 anos por que moro em uma cidade que as pessoas falaram que filho de petista tem que ser estuprado! Isso em um grupo de whatsapp”

Relato de uma mãe de Santa Catarina registrado pela jornalista do Cebes Fernanda Regina Cunha

Há algo de profundamente perturbador nas manifestações de intolerância política que vêm sendo denunciadas em Santa Catarina. Entre elas, destaca-se o relato estarrecedor de uma mãe que teme pela segurança de seu filho de apenas nove anos após tomar conhecimento de manifestações que defendem o estupro de crianças em razão das convicções políticas de seus familiares.

A denúncia exige apuração rigorosa e suscita uma questão que ultrapassa sua gravidade individual: o que acontece com uma sociedade quando o adversário político deixa de ser reconhecido como alguém que possui os mesmos direitos e a mesma dignidade?

Ninguém, muito menos uma criança, pode ser transformado em alvo de ameaças, perseguições ou violência por causa das escolhas políticas de sua família.

Essas manifestações de intolerância não representam a população de Santa Catarina em sua diversidade política, social e cultural, tampouco podem ser atribuídas indistintamente aos catarinenses que apoiam Jair Bolsonaro ou se identificam com o bolsonarismo.

Compartilhar uma preferência eleitoral não significa compartilhar as mesmas atitudes diante da violência.

Essa distinção, entretanto, não impede a crítica aos discursos políticos que contribuem para naturalizar a hostilidade e a desumanização dos adversários e não autoriza omissões. A responsabilidade por ameaças e agressões deve ser individualmente apurada, enquanto suas possíveis raízes culturais e políticas precisam ser examinadas com rigor.

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Outros episódios relatados em Santa Catarina mostram que a intolerância política também alcançou as escolas e as relações cotidianas.

Em Itajaí, segundo imagens e relatos divulgados pela imprensa, estudantes vestidos de vermelho foram agredidos por colegas que utilizavam bandeiras brasileiras. As agressões teriam sido acompanhadas de ofensas relacionadas à condição econômica dos alunos e de referências depreciativas ao Bolsa Família.

Em Florianópolis, a Polícia Civil investiga uma denúncia de agressão ocorrida após o resultado eleitoral, envolvendo, entre os suspeitos, um assessor parlamentar. Segundo a imprensa, a Justiça concedeu medidas protetivas à família atingida.

Embora distintos e sujeitos à apuração individual, esses episódios revelam como a intolerância política pode penetrar nas escolas, nas relações familiares e nos ambientes de trabalho, comprometendo espaços fundamentais de convivência e proteção social.

O aspecto mais perturbador dessa escalada de intolerância não está apenas na violência das ameaças, mas na disposição de justificar o sofrimento de pessoas consideradas adversárias políticas.

Defender o estupro de crianças como forma de punição pelas escolhas de seus familiares revela uma mentalidade profundamente perversa, na qual a violência sexual é concebida como instrumento de dominação, humilhação e castigo.

Nessa lógica, o corpo de uma pessoa é transformado em território de exercício do poder, e o sofrimento alheio passa a ser admitido como meio de atingir aqueles que são considerados inimigos.

Quando essa violência é dirigida, ainda que no plano das palavras, contra crianças, a crueldade assume uma dimensão ainda mais estarrecedora: aqueles que deveriam receber proteção integral são transformados em alvos de vingança por convicções políticas que sequer lhes pertencem.

Também é revelador que, segundo o relato da mãe, alguém tenha considerado admissível compartilhar uma manifestação dessa gravidade em um grupo de WhatsApp, como se a defesa de tamanha atrocidade pudesse integrar uma conversa política.

A possibilidade de expressar tamanha crueldade em um espaço coletivo suscita preocupação com ambientes sociais nos quais a hostilidade contra adversários pode encontrar acolhimento e a violência deixa de provocar a indignação que deveria despertar.

O problema ultrapassa, assim, a gravidade das palavras e alcança as condições sociais que permitem sua circulação e eventual aceitação. Sua condenação precisa ser imediata e inequívoca, sobretudo quando crianças são apresentadas como possíveis alvos de violência e vingança.

Há nessa lógica algo profundamente doentio, não como diagnóstico clínico, mas como expressão de uma deterioração moral que ameaça os fundamentos da convivência democrática.

Quando o reconhecimento da humanidade do outro passa a depender de suas convicções políticas, a divergência deixa de ser tratada como parte legítima da vida em sociedade e pode se transformar em justificativa para a exclusão, a tentativa de humilhação e a violência.

A desumanização do adversário compromete não apenas o respeito à dignidade humana, mas também os valores de solidariedade, igualdade e reconhecimento mútuo que tornam possível a convivência entre pessoas que pensam de maneira diferente.

A utilização da violência sexual como instrumento de tentativa de humilhação e desqualificação também encontra antecedentes no discurso político brasileiro.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu quando Jair Bolsonaro afirmou que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada. A declaração, que resultou em responsabilização civil e retratação judicial, oferece elementos para compreender criticamente a presença de discursos machistas e misóginos associados ao bolsonarismo, nos quais a desqualificação das mulheres e a hostilidade contra adversários políticos podem se combinar.

Embora a cultura política de um movimento não se reduza às atitudes de seu líder, suas declarações e os valores que elas ajudam a difundir não podem ser ignorados. O problema ultrapassa, portanto, a manifestação individual e alcança a circulação de discursos que banalizam a violência, reforçam preconceitos e comprometem o reconhecimento da dignidade dos adversários políticos.

A responsabilidade das instituições e das lideranças políticas torna-se especialmente importante diante desse quadro. A liberdade de expressão protege a divergência e a crítica contundente, mas não autoriza ameaças, perseguições ou incitação à violência.

Cabe às lideranças rejeitar publicamente essas práticas e às instituições assegurar investigação, proteção às vítimas e responsabilização dos envolvidos. Quando ameaças e agressões motivadas por divergências políticas não recebem respostas adequadas, amplia-se o risco de que a impunidade seja interpretada como tolerância, comprometendo a confiança nas instituições e favorecendo novas violações.

A atuação do poder público precisa, portanto, combinar investigação rigorosa, prevenção e proteção efetiva, especialmente das pessoas em situação de maior vulnerabilidade, impedindo que a omissão contribua para a naturalização da violência política.

Diante desse quadro, propomos a construção de uma campanha nacional que poderia receber o nome “Por civilidade e dignidade na política”, orientada pelo compromisso de que nenhuma ameaça fique sem resposta.

Não se trata apenas de exigir a apuração das manifestações denunciadas pela mãe, mas de enfrentar o conjunto de ameaças, agressões, perseguições e práticas discriminatórias que vêm sendo relatadas em Santa Catarina.

Os episódios descritos neste artigo apontam para uma preocupante atmosfera de intolerância e estupidez política, na qual o respeito às diferenças parece ceder espaço à hostilidade, ao preconceito e à crueldade.

A campanha deve exigir a apuração rigorosa das denúncias, a responsabilização de seus autores e a proteção das vítimas, especialmente crianças e famílias expostas a situações de risco. Deve também acompanhar as providências adotadas, respeitando o sigilo das investigações e a segurança das pessoas envolvidas, para assegurar que as denúncias recebam respostas efetivas.

Essa campanha precisa reunir entidades de defesa dos direitos humanos, organizações sindicais, movimentos sociais, instituições de proteção à infância e cidadãos comprometidos com a democracia.

É necessário exigir do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, assim como dos prefeitos e das demais autoridades públicas, uma condenação inequívoca dessas manifestações de intolerância, acompanhada de providências concretas e coordenadas para enfrentar a violência política.

A gravidade dos episódios relatados exige mais do que declarações de repúdio: requer atuação articulada das instituições, fortalecimento das redes de proteção e acompanhamento efetivo das investigações.

Ao governo federal cabe cooperar com as autoridades competentes e fortalecer as políticas de prevenção e enfrentamento à violência política e ao assédio eleitoral. As plataformas digitais também devem cumprir suas obrigações legais diante da circulação de ameaças e conteúdos que incitem a prática de crimes.

Dirigimos um apelo aos brasileiros de todos os matizes políticos para que condenem essas manifestações de violência e se unam na defesa das crianças e dos direitos fundamentais.

A civilidade que defendemos não se limita à cordialidade no debate público, mas exige o reconhecimento da dignidade humana, o respeito às diferenças e a rejeição incondicional de ameaças, discriminações e agressões.

O enfrentamento da intolerância não pode depender das preferências eleitorais das vítimas nem se restringir à solidariedade entre pessoas que compartilham as mesmas convicções. Nenhuma divergência política autoriza a violência, e é precisamente quando as diferenças se tornam mais profundas que o compromisso com a convivência democrática precisa se mostrar mais firme.

Quando ameaças contra crianças por causa das convicções políticas de seus pais encontram espaço para circular sem a condenação que merecem, não está em risco apenas a convivência entre adversários, mas o reconhecimento da dignidade humana como princípio que deve prevalecer sobre qualquer divergência política.

A resposta a essa denúncia, assim como às demais manifestações de intolerância e violência política, será uma medida da capacidade de nossas instituições de impedir que a crueldade encontre na omissão e na impunidade condições para se reproduzir.

Nenhuma mãe deveria precisar lutar para proteger seu filho do ódio político, assim como nenhum cidadão deveria temer agressões, perseguições ou discriminação por suas escolhas eleitorais. A dignidade humana, a proteção da infância e o direito de viver sem medo exigem compromissos que ultrapassem as divisões partidárias. Nenhuma ameaça pode ficar sem resposta.

*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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