Liszt Vieira: O cipaio Bolsonaro

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Foto: Marcelo Chagas

A subordinação de interesses nacionais aos ditames de Washington transforma o candidato da extrema direita em um instrumento de potências estrangeiras, e a disputa eleitoral presidencial ganha contornos de um embate geopolítico pela autonomia do país

Por Liszt Vieira*, em A Terra é Redonda

1.

O jornal argentino Pagina 12 publicou artigo assinado por Jorge Elbaum sob o título Cipayo en la niebla, chamando o presidente Javier Milei de “cipaio”. Um cipaio (ou sipaio) era um soldado indiano que trabalhava para o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais durante o século XIX. Essa palavra também virou o nome de uma famosa revolta contra o domínio inglês na Índia.

Portugal manteve forças de sipaios no seu Estado Português da Índia e, mais tarde, em outros dos seus territórios ultramarinos. Fora da Índia, o maior contingente de sipaios foi estabelecido por Portugal em Moçambique, passando o termo a designar nos anos vindouros, sob dominação portuguesa, uma força militar, mais vocacionada para o policiamento local e rural, que era comandada por um oficial europeu.

O Brasil também tem os seus cipaios. Não perde para a Argentina. O candidato Flávio Bolsonaro, por exemplo, em matéria de traição, não fica nada a dever a Javier Milei. Aliás, a pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 5 de agosto, mostrou que, para 34% dos brasileiros, o apoio de Javier Milei a Flávio Bolsonaro aumenta a chance de voto em Lula. Outros 17% afirmaram que o endosso do presidente argentino eleva a chance de escolha de outro candidato, nem Lula nem Flávio.

Flávio Bolsonaro passou a defender os interesses do governo Donald Trump contra o Brasil quando Jair Bolsonaro passou a responder a processos relacionados à tentativa de golpe de 2022. Daí decorre uma sequência de episódios envolvendo tarifas, pressão política dos EUA sobre o governo brasileiro e a atuação de Flávio e de seu irmão Eduardo Bolsonaro em Washington pedindo sanções dos EUA contra o Brasil.

Em julho de 2025, Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, vinculando explicitamente a medida ao tratamento dado a Jair Bolsonaro pela Justiça brasileira. Como os EUA têm superávit comercial com o Brasil, a justificativa americana combinava questões comerciais com críticas ao STF e ao governo Lula.

2.

Em julho de 2026, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, acusou Flávio Bolsonaro de ter prejudicado as negociações comerciais Brasil-EUA, afirmando que ele apresentou à Casa Branca argumentos que legitimam as justificativas utilizadas pelo governo de Donald Trump para impor tarifas ao Brasil.

Outro episódio importante foi a defesa, por Flávio Bolsonaro, da classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelo governo de Donald Trump. O governo Lula considera essa medida uma ameaça à soberania brasileira e afirma que ela poderia abrir espaço para formas de intervenção americana.

A aproximação não se limita ao comércio. Flávio Bolsonaro tem defendido uma política externa fortemente alinhada aos EUA e a Israel e criticado posições do governo Lula em relação ao Oriente Médio. Isso reforça a percepção de um alinhamento ideológico entre bolsonarismo e trumpismo. Sua atuação ultrapassou a defesa de uma política externa favorável aos EUA e representou a pressão de um político brasileiro sobre uma potência estrangeira para obter medidas contra instituições e políticas do próprio país.

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A acusação ganhou ainda mais peso no contexto da eleição presidencial de 2026. A imprensa internacional já descreve a eleição brasileira como envolvendo, além da disputa Lula-Flávio Bolsonaro, uma dimensão de confronto geopolítico entre Brasília e Washington.

A eleição presidencial brasileira de 2026 permanece em uma disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, já que os demais candidatos não são competitivos, estando todos abaixo de 5% das intenções de voto. De acordo com as pesquisas, Lula permanece em primeiro lugar. As oscilações da diferença entre Lula e Flávio não são muito importantes. Primeiro, porque a metodologia dos institutos de pesquisa varia de um para outro. Segundo, porque tudo indica, pelos dados disponíveis até agora, que teremos um segundo turno. E segundo turno é outra eleição, novos acordos e arranjos costumam ser feitos, e os debates diretos entre os dois candidatos influenciam a intenção de voto, sobretudo dos indecisos.

3.

Lula é considerado favorito. Os tarifaços de Donald Trump e suas críticas ao Pix jogaram no colo de Lula a bandeira da defesa da soberania nacional, da defesa da Pátria, uma bandeira antes desfraldada pela extrema direita. E a prova de corrupção de Flávio Bolsonaro no áudio que revelou ter recebido 61 milhões de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e ter desviado esse dinheiro do filme sobre seu pai, tornou Flávio Bolsonaro o personagem principal da corrupção no Brasil. Afinal, ele roubou dinheiro roubado, e não disse o que fez com esse dinheiro. A imprensa parou de cobrar, mas isso vai aparecer na campanha eleitoral.

Flávio Bolsonaro é um candidato politicamente enfraquecido. Não conseguiu um vice de outro Partido, o que vai diminuir seu tempo de TV na campanha. E também não conseguiu uma vice mulher. E, para piorar, o vice escolhido é acusado de estupro de vulnerável. A maior força de Flávio Bolsonaro reside no Sul e Centro Oeste, onde costuma ganhar a direita. O Sudeste e o Norte se dividem. E no Nordeste Lula tem grande vantagem.

Em geral, os elementos mais importantes numa eleição costumam ser a evolução da inflação e do custo de vida, principalmente o preço dos alimentos, os índices de emprego e renda, impacto de eventuais crises internacionais, especialmente ligadas ao petróleo e ao comércio exterior, desempenho dos candidatos nos debates, capacidade de mobilização nas redes sociais e abstenção eleitoral, que pode alterar o resultado em uma disputa apertada.

Nesta eleição, porém, a defesa da soberania nacional tornou-se uma bandeira importante a favor de Lula que defende o Brasil contra seu adversário, considerado intermediário de Donald Trump em sua tentativa de retomar seu quintal e dominar toda a América Latina. Para isso, delegou as decisões a seu secretário de Estado, Marco Rubio, anfitrião, amigo e parceiro dos cipaios Bolsonaro. Ele deve atuar, no mínimo, em três frentes: nas redes sociais, na mídia comercial e por intermédio dos ministros bolsonaristas no Superior Tribunal Eleitoral e no Supremo Tribunal Federal. Mas pode haver surpresas e ataques imprevistos, a ocorrência de pontos fora da curva não seria surpreendente.

Enfim, o que se pode afirmar até agora é que Lula é o favorito, mas provavelmente teremos um segundo turno. E, no provável segundo turno, segundo a pesquisa Quaest divulgada em 5 de agosto, Lula teria 44% das intenções de voto contra 39% de Flávio.

Se, durante a campanha eleitoral, Flávio Bolsonaro se equilibra mal em seu “não lugar” entre o Brasil e os EUA, depois da eleição vai descobrir que, como disse Cervantes, parafraseando Plutarco sobre Júlio Cesar, “ainda que a traição agrade, o traidor é sempre odiado”.

*Liszt Vieira é professor de Sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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