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Lincoln Secco: Junho desnudou perigosamente o PT
Política

Lincoln Secco: Junho desnudou perigosamente o PT


07/08/2013 - 22h49

por Lincoln Secco, especial para o Viomundo

As manifestações de junho ainda deixaram um rescaldo. Não sabemos quando virá a nova onda. Embora generalizada, ela obrigou os prefeitos a tomarem medidas imediatas. Em agosto parece ter chegado a hora dos governadores.

A onda chegará ao Congresso, ao judiciário, às Forças Armadas e à presidência da República? A onda sequer é uma palavra agradável desde que o filme alemão de Dennis Gansell Die Welle (a onda) recolocou o nazismo diante de nós. A imagem da onda é a da fúria e do caos. Para onde vão os manifestantes de junho se eles não têm partido?

Do ponto de vista das classes sabemos algo sobre os manifestantes graças a artigos como o de Henrique Pissardo (no site Carta Maior). Por exemplo: a classe operária tradicional, os trabalhadores rurais e os movimentos populares de esquerda não protagonizam o movimento. Mas eles não estavam inertes, basta ver o aumento do número de greves no ano de 2012. E o apoio passivo da maioria da população às reivindicações de junho garantiu seu impacto político.

Hegemomia Popular?

Do ponto de vista histórico há algo a acrescentar. Nos anos 1990 o Brasil viveu o ataque neoliberal aos serviços públicos já degradados. Ainda assim, os governos foram impotentes para evitar a organização de várias conquistas da Assembléia Nacional Constituinte de 1988, como o sistema único de saúde e a universalização da educação. Assim como os indicadores sociais básicos, a esquerda cresceu.

Isto parece um contrassenso, pois aquela época ficou conhecida por “década neoliberal”. É que mesmo derrotada eleitoralmente em 1989, a esquerda (MST, CUT, UNE e partidos operários) havia exercido tal pressão popular nos anos anteriores que teve força para disputar hegemonia e fazer forte oposição aos governos do PSDB.

Deixo para os estudiosos gramscianos do Brasil a discussão se houve uma hegemonia de esquerda, mesmo naquele sentido restrito de ditar os valores fundamentais da vida política. Provavelmente não. Mas a presença de uma esquerda forte nos anos 1980 garantia ao menos a disputa daqueles valores. A contra-hegemonia criava o polo negativo indispensável para a democracia burguesa. Isso não mudava o padrão civilizatório, mas permitia um circuito virtuoso que obrigava o capitalismo selvagem a se civilizar. Quando a direita impôs-se, a estabilidade política e monetária (1994) ainda tinha que conviver com a potencial hegemonia de esquerda à sua porta.

Depois de 2002 vivemos o fenômeno contrário. Lula venceu acreditando que deveria fazer compromissos com o pensamento conservador. Decerto promoveu mudanças substanciais na área social e criou aquilo que o PT defendia desde seu V Encontro de 1987: o mercado interno de massas.

Da mesma forma Fernando Henrique Cardoso teve que dizer que não era neoliberal, ainda assim conseguiu reconfigurar a estrutura patrimonial do capitalismo brasileiro através das grandes privatizações. Não esqueçamos que no decênio neoliberal de Collor e FHC a desigualdade subiu em 58% das cidades brasileiras e no decênio petista caiu em 80% dos municípios (OESP, 5/8/2013).

Mas é justamente sob o impacto de mudanças sociais que estavam no programa original do PT que o pensamento que lhe deu origem começou a ceder sobre o terreno movediço daqueles que duvidam das próprias crenças. Tudo o que se seguiu se explica pelo enfraquecimento da contra-hegemonia de esquerda: a escolha de sustentabilidade tradicional do governo, a crença anacrônica no neodesenvolvimentismo (como acentuou recentemente Ricardo Musse), a adoção do lulismo (conceituado por André Singer) como política consciente de conciliação de classes e o medo de mobilizar a nova classe trabalhadora como acentuou Antonio David em artigos no Viomundo.

Por outro lado, pela primeira vez desde a redemocratização o pensamento de direita se fortaleceu na classe média, dominou amplamente a imprensa e começou a criar os seus novos institutos privados de hegemonia. Ele se abrigava antes nas cúpulas empresariais, nos clubes de elite, nas festas de celebridades, nas ceias de natal ou em rodas de amigos. Alguém poderá dizer que certas revistas semanais sempre achincalharam o PT. Não é verdade, contudo, que defendessem explicitamente os valores da direita. A palavra capitalismo não era empregada em sentido positivo nos anos 1980.

Mesmo na chamada década neoliberal, a direita via-se no canto do ringue ideológico porque enfrentava o PT. A classe média aderiu ao primeiro mandato do PSDB porque este partido, com origem suposta na esquerda, não tinha a cara de vetustas raposas. Quem conheceu a história do PT sabe que havia fortes tendências internas e externas ao partido propugnando uma aliança com os tucanos. E até hoje há quem se lamente por ela não se ter viabilizado.

Fernando Henrique não se assumiu como liberal. Após andar citando Gramsci, aderiu à terceira via de Schröder, Blair e Clinton. No seu segundo mandato ele perdeu o apoio político de uma classe média sempre dividida entre a direita e o PT. Mas a hegemonia não se resume às eleições. Tanto assim que em 2005 o PT perdeu aquele apoio nos setores médios e ainda não sabemos que valores ele difundiu para a classe mais desprotegida onde ele alargou seu respaldo eleitoral.

O PT raramente deixou de crescer. Mas as mudanças no mercado de trabalho, o ataque às greves, as crises e o declínio da militância conduziram o partido a apresentar-se em 2002 como uma enorme agremiação eleitoral que declinava em força ideológica e militante.

Quando cuspia os caroços chupados da árvore da vida, a direita consolou-se com o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Colheita Tardia

Estamos hoje diante do fenômeno curioso da colheita de inverno. Não se colhem rosas é evidente. A “demora cultural” (Sorokin) reflete uma posição de classe incapaz de aceitar os novos dinamismos da sociedade civil e direcioná-los construtivamente a um patamar superior.

Dessa maneira revivemos os ciclos em que os avanços políticos são desfeitos pela hegemonia tardia. Ciclos políticos e econômicos que ora colocam o Estado ora o mercado como protagonistas, pois a economia capitalista não é nunca seriamente transformada.

Seria a hegemonia tardia um oximoro? Gramsci pensou a hegemonia como um processo que pode começar na fábrica, nas disputas das classes trabalhadoras. Mas uma vez atingido o poder político, ela deve incorporar o poder de coerção. Vimos que o Governo Lula não conseguiu influenciar nem a sua polícia e muito menos as Forças Armadas ou o STF, cuja maioria dos ministros ele indicou. Restaria ao menos mobilizar as ruas como ameaça virtual aos seus adversários.

Junho desnudou perigosamente o PT, quiçá outras forças de esquerda. Isto porque agora a direita não teme mais a mobilização popular que podia ser convocada por petistas. O que não significa que tenha desvendado o enigma das massas sem partido.

É que não se deve reduzir a hegemonia a um sistema consensual, esquecendo o momento coercitivo. Parcelas da esquerda pensaram que a coerção era só um momento militar. Mas a história do PT também revela que a pressão popular nas ruas, as greves e os levantes de massas são formas de imposição coercitiva que provêm de fora da sociedade política.

É verdade que a hegemonia da direita é contrastada por algumas políticas governamentais. Nenhuma delas toca a propriedade privada ou as grandes fortunas, diga-se de passagem. E não têm meios de capilaridade social ao contrário do que apregoam porta-vozes da “liberdade de imprensa”.

Que as reivindicações de junho tenham o ar de contraditórias deriva da verdadeira disputa de hegemonia que hoje existe. Uma parte da esquerda coabita o governo com setores tradicionais de direita, mas a direita “moderna” e órfã vicejou onde a esquerda governista deixou-lhe o campo aberto, financiando-lhe (!) os seus institutos privados de hegemonia em nome da ideologia da liberdade de imprensa. Não realizou assim liberdade alguma posto que a massa de informações é controlada por grandes empresas.

Outra parte dos manifestantes solicita o que o Governo Dilma renunciou a fazer: avançar. Ir além do legado de Lula.

Que todos peçam mais do Estado não nos deve iludir. Há algo de esquerda nisso. Mas de direita também porque o que interessa é o rumo que as manifestações vão tomar. A direita também usa a defesa do Estado desde a Revolução de 30.  Quando diz que quer menos impostos e menos gastos públicos é só para que o Estado se concentre naquilo que ele deveria unicamente fazer: saúde, segurança, infraestrutura e educação.

Obviamente que se trata da defesa do Estado deles. Somente um núcleo duro defende explicitamente o Estado mínimo. Mas este núcleo é fundamental para dar autoconfiança à burguesia e vergar o arco histórico para trás, como gostava de dizer Florestan Fernandes. É ele quem dá continuamente a seiva para a erva daninha da direita moderada.

A hegemonia não é só uma capacidade eleitoral. É a direção de grupos aliados na sociedade civil e poder de pressão através de elementos que estão muito além dos partidos. A direção necessita de um programa que aponte para a mudança das relações sociais desde as empresas até a construção dos meios que disseminam os valores dominantes.

Lincoln Secco é professor do Departamento de História  daUniversidade de São Paulo (USP)

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21 comentários

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cvilela

09 de agosto de 2013 às 03h14

O problema, na visão dos partidos, sobretudo do PT, é ganhar eleições as próximas eleições. Mas isso não basta, na medida que o povo não assimila os valores que deveriam ser defendidos pela esquerda – soberania, novos paradgimas de caráter progressista em assuntos como aborto, legalização das drogas, olhar mas coletivista e não individualista etc. O governo do PT falhou em mudar a sociedade, não conquistou mentes e corações e apenas venceu pelo bolso.

Responder

    Rafael

    09 de agosto de 2013 às 12h34

    Olha, as mentes e corações de quem é beneficiário do PROUNI, bolsa-família, Luz para Todos, PEC das domésticas, PRONATEC e tantos outros programas de inclusão e redistribuição o PT conquistou sim. E não são poucas …

    Abolicionista

    09 de agosto de 2013 às 16h23

    Segundo essa lógica, Joaquim Barbosa seria petista.

FrancoAtirador

08 de agosto de 2013 às 20h38

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Globo é condenada por reportagem em Unidade de Conservação do Tocantins

ContextoLivre

A Justiça Federal no Tocantins condenou a emissora Globo e a empresa Quatro Elementos Turismo a repararem o dano causado à Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins pelo uso indevido de imagem durante a veiculação de uma reportagem exibida no programa Esporte Espetacular em abril de 2010, que associa a imagem da cachoeira da fumaça à prática de rafting esportivo, o que é incompatível com os objetivos das estações ecológicas.

A sentença da juíza federal Denise Dias Dutra Drumond acatou a ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal e condenou as empresas ao pagamento de indenização ao Meio Ambiente no valor de 500 mil reais e a reparação do dano por meio da produção de uma reportagem, previamente autorizada, com o tema “Turismo Sustentável na Região do Jalapão”, que deverá ser exibida em horário semelhante e com a mesma duração da anterior.

A reportagem exibida foi feita mesmo com o pedido de autorização negado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão federal que administra a área. De acordo com o relatório do ICM, a equipe foi avisada sobre o impedimento de realizar gravações com foco na prática de esportes radicais naquela área, tendo em vista que a Instrução Normativa do IBAMA 05/2002 determina que as matérias jornalísticas realizadas em Estações Ecológicas e Reservas Biológicas não deverão fomentar atividades que não sejam de caráter científico e preservacionista.

A Estação Ecológica foi criada para evitar a exploração turística e econômica desordenada. Para isso a legislação proíbe a visitação pública, exceto quando com objetivo educacional ou científico.

“Em outras palavras, a Estação Ecológica tem em seu anonimato um de seus grandes trunfos, pois fica assim protegida da curiosidade leiga e da depredação que a atividade turística em massa e desordenada promove. Logo, a exposição em si mesma da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins como área propícia à prática esportiva, diversa de sua finalidade legal específica, já configura o dano ambiental”, constatou Denise.

Na defesa, as empresas alegaram inexistência de dano ambiental e a Globo Comunicações alegou ofensa a liberdade de imprensa. O argumento foi rebatido pelo juízo federal. Para a magistrada, não se pode permitir abusos no desfrute da liberdade de imprensa e este direito não está imune à obrigação de indenizar caso haja lesão à bem jurídico de terceiros.

As informações são da Justiça Federal do Tocantins.

Data da sentença: 19/07/2013

Processo nº 0000260-30.2011.4.01.4300
(http://portal.trf1.jus.br/sjto/pagina-inicial.htm)

(http://contextolivre.blogspot.com.br/2013/08/globo-e-condenada-por-reportagem-em.html)

Responder

abolicionista

08 de agosto de 2013 às 20h25

É muito provável que Dilma vença as próximas eleições, mas a pergunta que fica é: e então? Continuará a política de alianças e a redução cada vez mais lenta da desigualdade? Até quando? Até o PSDB voltar? Quando sairão as reformas de base? Quando sairá a democratização da mídia? Depois da reeleição? Tá difícil de acreditar, viu…

Responder

Sala Fério

08 de agosto de 2013 às 19h57

Gosto do Lincoln Secco como explicador de Gramsci e Marx, mas não sei se concordo com o artigo acima. Minha percepção: quem detém a hegemonia é quem melhor consegue criar consensos, vontades coletivas e interferir no imaginário popular. Quem detém os meios para estabelecer comunicação com a massa de maneira mais convincente e eficaz é quem detém a hegemonia, em última instância. Mas há o mundo real, que também cria percepções ou ajuda a que certas percepções se criem na cabeça de cada indivíduo, o qual não pode ser ignorado. Então, se você ficar buzinando no ouvido de alguém que recebe bolsa-família que aquilo é uma porcaria não vai conseguir nada, mesmo que tenha a capacidade de buzinar isso bem alto e muitas vezes. No momento dado, noto haver uma certa sinergia (talvez não intencional, mas assim mesmo, concreta) ente as forças da esquerda emergente que usam elementos do discurso da grande mídia de direita e os repaginam, divulgando-os por outros meios em milhares de blogs e perfis de redes sociais, além da imprensa e dos microfones dos espaços onde se instalaram (grêmios acadêmicos, secundários e um número crescente de sindicatos). E, em contrapartida, temos uma direita raivosa e ressentida que aproveita os atos oportunistas da esquerda emergente para fazer os seus, aos milhões, com auxílio e amplificação da grande mídia que é capitalista e tucana. Claro que a esquerda que quer o poder também tem seus motes próprios, mas se apóia bastante no discurso dessa direita ressentida por ter perdido o poder formal. Chegaram até a marchar juntos em alguns momentos …

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assalariado.

08 de agosto de 2013 às 17h11

Em junho teve um momento na luta que foi necessário distinguir o que era um movimento/ passeata de esquerda e um de direita (foi a pauta), a qual cada bloco das vozes das ruas levavam consigo, que nos orientou.

Neste caso do artigo do Sr. Lincoln Secco o que se tem ser perguntado é: em que estágio da luta de classes no Brasil o lulismo nos colocou?

Inclusive, a minha culta ignorância política diz que a pauta, o divisor de aguas está entre estas duas situações:

(HEGEMONIA ELEITORAL) X (HEGEMONIA POLITICA).

Bem que algum articulista poderia escrever/ destrinchar essas duas formas de luta seus limites e suas consequências. Sim, qual é o passo seguinte mesmo?

Abraços Fraternos

Responder

Alexandre Tambelli

08 de agosto de 2013 às 14h58

Pensei algumas coisas:

1) A lógica das manifestações de junho foi no seu início, lógica horizontal e apartidária.

Os jovens do MPL saíram às ruas, não porque fossem contra a Política, os partidos políticos, os políticos. Eles saíram às ruas sem bandeiras partidárias, porque defendem a ideia que suas reivindicações em manifestações surtem mais efeito se for um coletivo apartidário. Com o passar dos dias perceberam que esse caminho foi um equívoco, pois, a direita se viu em condições de capitalizar para si as manifestações: afinal não tinha bandeiras de partidos e “supostamente” militância de esquerda.

A direita se apoderou das passeatas porque viu uma oportunidade com o apartidarismo do Movimento e por necessidade de reverter a pauta progressista das manifestações do MPL: Passe Livre é bandeira de esquerda. E quis, através da mídia tradicional, transformar as passeatas do passe livre em “múltiplas passeatas”, tentando passar a ideia de que a juventude nas ruas estava indignada com a Política, com os políticos, partidos políticos e Governantes, também.

Este fenômeno de indignação Política não esteve no início das manifestações, só uns 10 dias depois, quando o Arnaldo Jabor passou a defender os jovens manifestantes, e a Rede Globo editou um vídeo com caras-pintadas da emissora e fez as classes média e média alta tradicionais irem para as ruas, também!

Aqui era outro grupo de manifestantes, tanto que um post publicado aqui mesmo dizia que havia dois grupos de manifestantes, a partir de determinado momento das passeatas nas ruas: o MPL + mais o MST e militância de esquerda com suas bandeiras de partido (até do PT) que se incorporaram às manifestações junto com o Movimento, e outra manifestação da classe média e média alta tradicionais. Cada um bradava coisas distintas e até se desentendiam na Av. Paulista.

Não se faz uma análise das manifestações de junho sem questionar a construção de um pensamento coletivo através da mídia tradicional. A parcela mais à direita que foi às ruas em junho é capitaneada pelo discurso da velha mídia, se informa pela velha mídia e acaba por pensar e agir como a imprensa tradicional pensa. Separemos este grupo. Mídia esta que anda sendo desmascarada dia a dia e que está perdendo credibilidade em sequência.

2) A constatação de que a oposição ao PT à esquerda está diminuta não pode ser enxergada de dentro do PT. É de fora que se deve olhar, a mea-culpa deve ser feita pelos partidos que nela se encaixam e que não tem tido respaldo social. Talvez, por se distanciarem da realidade, por acreditarem que o povo é revolucionário e pelo radicalismo das propostas, que não falam o que a população em geral quer ouvir.

Uma vez ouvi assim: o povo quer é ser burguês. Em certo sentido é bem mais possível defender este lado do que defender que o povo queira fazer revolução. E um dado importante a ser colocado: a esquerda ao PT vive apregoando que PT e PSDB são partidos idênticos. Acabam mais ajudando as forças de direita em época de eleição do que angariando votos nesse radicalismo de não entender o que pensa da vida e o quer: o trabalhador, o estudante, o aposentado, em suma, o eleitor.

3) Está distante do ideário atual do PT fazer uma Revolução, romper com o Capitalismo. E, o PT sabe que não pode realizar uma ruptura abrupta com o status quo. Não estaria no poder faz tempo se saísse radicalizando em 2002. As transformações sociais que acredita são feitas sem processo revolucionário, de forma paulatina. Se queremos um partido de esquerda à esquerda do PT é preciso acima de tudo saber se comunicar com povo, e isto, o PT sabe melhor do que PCO, PSTU, PSOL, PCB, etc.

4) Uma constatação: o pensamento de direita existe desde sempre. O voto no PT, no bairro da elite paulistana onde moro, nunca chegou aos 20%.

O PSDB sempre tinha mais de 80% dos votos e parece que o quadro está modificando, porque o PSDB está a cada dia mais desacreditado, tanto é que o SERRA teve menos de 60% dos votos válidos em 2012.

Agora, isto não significa que o pensamento de direita deixou de ser de direita, apenas se mudará o candidato.

No caso das esquerdas? Nada de novo. O PT continua com o mesmo percentual de votos e tende a reeleger a Presidenta DILMA em 2014, até com chances de ser no 1º turno. A extrema-esquerda continuará do mesmo tamanho.

Que fique claro: nas manifestações de junho todos os partidos e políticos juntos perderam. Caberá agora a cada perdedor se levantar e vemos que novamente o PT sai na frente, pelo que tenho presenciado.

Os índices econômicos estão dando fôlego ao Governo Federal e pelo que tudo indica ele se fortalecerá diante de uma oposição enfraquecida e de uma mídia sem credibilidade.

5) Temos que diferenciar o discurso acadêmico da prática.
Queremos uma revolução, quem mais quer? Saiamos desse discurso maniqueísta PT X AntiPT.

Enxergar tudo nesta ótica não leva a lugar nenhum. O bolso do trabalhador é o voto na urna. Não é o discurso bonito e suas plataformas socializantes que vão agradar o eleitor. O vilão de tudo não é o PT, ele tem suas culpas, mas não pode recair tudo em suas costas.

Parece que toda análise das passeatas de junho precisa colocar o PT no centro das indignações dos jovens do Brasil, precisa encontrar meios de dizer, agora sim! O PT está numa encruzilhada. Será?

Quem acompanha as redes sociais viu que a militância de direita, que se empolgou em junho está em silêncio novamente, quem milita na Política da internet continua sendo os mesmos de sempre. E com os escândalos da Rede Globo e da Siemens e o PSDB essa juventude da direita e demais simpatizantes da direita na rede se retraiu ainda mais.

Responder

assalariado.

08 de agosto de 2013 às 13h06

Diria eu que, o mês de junho não só desnudou o PT como a dita esquerda como um todo. Se as massas, em sua maioria não tem partido, embora a pauta seja extensa, onde está o problema então?

O Sr. Lincoln Secco deu uma entrada boa para começarmos a pensar e, em seguida, a raciocinar onde o bicho tá pegando. A pergunta /resposta que fica em minha cabeça é:

A (HEGEMONIA), que temos que construir d´agora em diante será a (hegemonia eleitoral) x (hegemonia politica)? Vamos disputar palmo a palmo com a direita a (HEGEMONIA) perante as massas e, é claro, teremos que levar nas mãos e nos nossos cérebros um pauta de esquerda. Nada mais óbvio!

Sim, estamos poder/ não somos poder. Haja visto que, no campo eleitoral a esquerda envergonhada ganha a eleição, mas não leva. Basta observar o formato politico eleitoral no congresso nacional, onde a burguesia do campo e a cidade mesmo sendo apenas 5% da população, tem uma bancada de parlamentares com mais de 50% das cadeiras. E agora? Vamos avisar o povo?

Justamente porque esse governo da governabilidade despolitizou as lutas com o seu discurso político enviesado conduzindo as massas a uma visão alienada de sociedade dizendo que, para sermos ‘cidadãos’ (cidadania?), bastaria e basta ter um cartão de debito /credito e um calhamaço de carnes, pagos em ‘suaves’ prestações.

Ora, a social democracia petista foi tão pragmática na sua alienação politica, para com as massas que o que sobrou foi nada além de administrar o capital para o capital que nessas alturas de 12 anos de idade, mais se parece com o seu irmão mais velho, o PSDB. Os pragmáticos esqueceram(?) que vivemos numa sociedade de luta de classes e que não basta apenas ganhar governos, teremos que ganhar (HEGEMONIA) nos parlamentos, embora acho que a burguesia capitalista jamais vão aceitar um pauta de esquerda tipo: Reforma Agrária, 40 horas semanais, comissão de fabrica/ local de trabalho, gestão popular publica (saúde, educação, transporte, …) fiscalizada direto pelas massas,… Sim, para quem pensa esquerda, tem que pensar horizontal. Digo mais, será que as ‘nossas’ esquerdas aburguesadas estão preparadas para isso?

Quanto a colheita tardia, nunca é tarde. Vamos ser o fermento das massas, acabar de vez com o oportunismo politico das esquerdas e nos assumirmos como esquerda de fato e de direito, voltarmos as origens ideológicas acreditando que os assalariados, querendo ou não, parafraseando Marx: serão os coveiros da burguesia capitalista e seus capachos. Afinal de contas, onde é o centro nervoso do capital, não é as portas das fabricas/ escritórios para politizar os explorados da nação.

Saudações Socialistas.

Responder

Ozzy Gasosa

08 de agosto de 2013 às 12h50

A nova onda segundo o “fashibuque” começará dia 07/07.
Estão marcando segundo eles a maior manifestação do mundo.
Um exagero dos alienados e consumistas.
Mas quando estiver chegando a Copa, os coxinhas irão agitar novamente, não tenham dúvida..
É uma morte anunciada do governo, infelizmente.
O pior virá nas eleições com a Blablarina.
A Nova Inquisição está chegando, com a direita ret´rogada e os fnáticos religiosos.
O Estado ficará, ainda, mais refém dos religiosos extremistas.
Tomara que esse quadro mude …

Responder

    Alencar

    08 de agosto de 2013 às 17h06

    Temo que não, Ozzy.
    Você abordou um tema pouco comentado, mas fundamental para a preservação do nosso regime democrático.
    Estamos criando um vácuo, que pode ser preenchido por um mascarado extremismo religioso.
    De um lado uma direita clientelista e usurpadora e de outro uma esquerda acuada e agindo de maneira fisiológica.
    Sou um capitalista ferrenho e liberal convicto, mas prefiro um governo de esquerda estabelecido e sustentado por uma ideologia que esses aventureiros e oportunistas que estão rondando o poder.

Alfredo Silva

08 de agosto de 2013 às 12h07

Na minha modesta opinião, essa é apenas mais uma análise totalmente equivocada, que supervaloriza os “acontecimentos de junho”, que nada mais foram do que uma mera conspiração de setores reacionários, que resultou em uma “campanha de marketing viral online” de grande sucesso, que fez as pessoas irem às ruas da mesma forma como vão todos os anos no reveillon e no Carnaval, sucesso potencializado pela adesão da TV aberta, via Rede Globo, e pela capa da revista Veja daquela mesma semana. Um mero espasmo sem significado algum que irá parar na lata de lixo da História.

A popularidade de Dilma sem dúvida alguma irá se recuperar, mostrando que o lulismo sempre esteve certo, e que o modelo lulista “pelego e reformista” é genial, e é o melhor para o país, e continuará sendo.

A direita ultra-reacionária da turma da Veja que patrocinou a conspiração do marketing viral de junho irá cair no esquecimento, bem como a esquerda ultra-revolucionária que quer acabar com o “pacto social pelego” de Lula.

Os espasmo passou, e o vigor do pacto social lulista continua em alta, mostrando sua força e a necessidade da sua continuidade. Baixo desemprego e baixa inflação, combinado com aumento da renda e do IDH, são a prova de que o modelo lulista é irretocável e precisa continuar, sem nenhum tipo de “radicalização”. É a vitória final dos moderados sobre os radicais (de esquerda e de direita).

Responder

    Icaro

    08 de agosto de 2013 às 15h01

    Sim e Não, sim é verdade que os movimentos de rua, são o resultado de uma massiva campanha online, com Blogs, canais no fb, youtube, etc; (e que por sinal continuam muito ativos), junto com a força da mídia tradicional, que a muito tempo vem bombardeando a população com uma campanha anti-pt, cheia de viés, mentiras e tudo mais.
    Mas o companheiros maiores da direita, estão no judiciário, ministério público, grupos dentro da PF, procuradoria geral da União, e principalmente com ministros do STF.
    A campanha midiática da Globo e cia, não teria todo este efeito, se não fosse acompanhada pela maestral gestão do processo do mensalão feita pelo Joaquim Barbosa (com seu filho funcionário da Globo), suprimindo provas, escondendo processos, criando justificativas “Domínio de Fato”, para condenar pessoas sem provas, etc.
    Ou seja, o estrago esta feito, e não tem retorno, pois o judiciário “superior” sacramentou um julgamento no mínimo imoral e desonesto.

    A reforma política é importante, mas precisamos mesmo é de uma reforma no judiciário, que virou uma casta, que não esta condicionada a avaliação da povo. Onde membros podem matar pessoas na rua em flagrante e nem serem interpelados por policiais. Onde temos coisas como aposentadoria como punição. É claro, o que fazer é algo que deve ser discutido. Mas com certeza como esta não dá. É preciso acabar com os Deusembargadores e Ministros do Olimpo. Além é claro dos TC.

Julio Silveira

08 de agosto de 2013 às 10h47

O PT preferiu, para chegar ao poder, deixar de ser o PT, passar a ser um hibrido. Preferiu abdicar da trajetória de luta pela mudança cultural de nossa cidadania, que tem uma construção secular conservadora, inclusive nas classes menos favorecidas em completo prejuízo a seus interesses, para fazer remendos culturais que nenhuma garantia trazem para assegurar a cidadania a garantia da permanência quando atendidos seus anseios. Como vemos lucidamente que não há garantias permanência de conquistas.
O partido, pelas mãos e interesses de seus principais lideres, abriram mão de persistir na busca pela conscientização dos cidadãos, de mostrar-lhes que não existem escolhas fáceis, quando se quer atender aos anseios de toda uma sociedade, que se faz necessário sair de suas zonas de conforto.
A cidadania, cada dia a mais que passa, intui mais fortemente que algo esta muito errado na construção da cultura deste país. Que tem tornado seus cidadãos idiotas perenes, ante uma minoria que lhes sabota a tão ambicionada, idolatrada, propagada, igualdade. A cidadania, lá no fundo sabe o que lhes faz mal, mas preguiçosa, inclusive mental, não consegue forças culturais e respaldo politico para transformar em realidade sua conscientização, e o PT que entende ou pelo menos parecia entender essa realidade, a necessidade popular, mas parece que preferiu aderir, por oportunismo, inclusive em discurso, a cultura dominante e secular da sociedade brasileira, sem esperar que ocorressem esses movimentos causados por seus arroubos de consciência.

Responder

Ulisses

08 de agosto de 2013 às 10h06

Quanta bobagem. O PT nunca teve apoio da imprensa, sempre foi atacada abaixo dos rins por ela. O judiciário e as forças armadas (principalmente os de pijama) sempre demonizaram o PT. Gilmar Mendes, os Mellos (declaração que na atual contagem, Alkmin não pode mais ser declarado presidente – 2006) e o até traíra Joaquim Barbosa que armou com a PGR o mensalão escondendo as provas que acabariam com o processo inocentando todos os acusados. O PT sofreu apenas um ataque dos zé coxinhas, máfia de branco e a oportunista e golpista imprensa. Mas a aprovação da Dilma vai voltar aos níveis normais até o final do ano. O emprego está bem, a economia apesar da crise cresce, os médicos mostraram sua verdadeira face, a Marina é Itaú, quem mais mais quer elevar os juros do Brasil e o PSDB finalmente foi exposto a sua verdadeira face corrupta em São Paulo. Não há alternativa melhor que o PT e o povo não vai ser idiota em aventurar com quem já se conhece por seu histórico corrupto.

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    rui

    08 de agosto de 2013 às 13h18

    Muito bom, falou tudo. Parabéns

    Icaro

    08 de agosto de 2013 às 15h05

    perfeito.
    mas que ouve estrago ouve e devemos levar isso em consideração.

    lukas

    08 de agosto de 2013 às 19h06

    O PT deve houvir a voz das ruas.

Mardones

08 de agosto de 2013 às 09h13

É realmente uma questão em aberto a direção que as manifestações de junho vão tomar, dada a multiplicidade de queixas apresentadas pelos que foram às ruas e pelo que apoiaram de dentro de casa.

Ainda há muita água para rolar debaixo da ponte. Ano que vem deverá sair o veredito do mentirão petista – até agora o grande programa de governo da direita. Mas a delação da Siemens melou totalmente a apresentação dos tucanos como partido de gente cheirosa e ética.

Resta saber se Barbosa sairá pra dançar conforme a música golpista da moda. Eu creio que o resultado das manifestações será um aumento significativo no número de abstenções e anulação de votos em 2014.

E esse cenário é que deixa a direita ansiosa por vários candidatos, pois pode diminuir os votos inválidos.

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H.92

07 de agosto de 2013 às 22h59

As manifestações de junho podem é alçar a Marina Natura Itaú a presidência, afinal ela não tem partido, tem Rede, é o ‘novo’ e a mudança (#chanceBrazil, com Z) e até o Merdal, depois do escândalo de corrupção no metro de SP, que chamuscou de vez os tucanos paulistas, já flerta com a protegida dos banqueiros, que apoio o Feliciano e que de projeto para o país mesmo não tem nada!

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    mauricio

    08 de agosto de 2013 às 09h36

    É verdade. Mas acho pouco provável que essa classe média “apartidária”, que de arrancada dá 20% de votos à Marina, consiga elegê-la. São necessários os 50% dos votos, estes é o povo quem controla, e o povo, numa eleição, não troca o certo pelo incerto jamais. Se conseguir manter a economia nos números em que estão, inflação baixa e pleno emprego, Dilma deverá ganhar no primeiro turno.


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