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Julian Rodrigues e Lincoln Secco: É preciso soterrar a ilusão de que derrotaremos Bolsonaro mantendo o programa neoliberal
Marcha Sobre Roma, em 28 de outubro de 1922, representou a ascensão ao poder do Partido Nacional Fascista e o fim da democracia liberal, pela nomeação de Benito Mussolini como chefe de governo por Vítor Emanuel III, que transferiu o poder político para os fascistas sem conflito armado
Política

Julian Rodrigues e Lincoln Secco: É preciso soterrar a ilusão de que derrotaremos Bolsonaro mantendo o programa neoliberal


23/02/2021 - 16h47

ATÉ ONDE VAI BOLSONARO?

Por Julian Rodrigues e Lincoln F. Secco*, no GMarx-USP

A prisão do deputado fascista Daniel Silveira foi uma reação do STF (portanto, dos setores “liberais”) ao mais recente arroubo autoritário de Bolsonaro (o decreto de armas).

Do ponto de vista da constitucionalidade “liberal-democrática” é extremamente controversa a detenção.

Decisão monocrática, ato de ofício, flagrante mal justificado, fundamentação na Lei da Segurança Nacional (da ditadura).

Um extenso debate sobre os limites da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar.

Politicamente é um nítido “freio de arrumação”. O STF sustenta uma ação dura contra o extremismo bolsonarista.

No entanto, o debate não é mais institucional apenas.

A Constituição foi rasgada para punir José Dirceu e José Genoíno antes.

A Constituição foi violada para limitar os gastos públicos necessários para dar suporte àquilo que ela mesma prevê: a aposentadoria, o SUS, o custeio da educação pública, as políticas de diminuição da desigualdade social etc.

Não há saída fácil. A Câmara acovardou-se diante do partido da Lava Jato e dos seus funcionários do STF, aprovou um impeachment ilegítimo e permitiu que Bolsonaro zombasse das leis por décadas.

Não seria agora que deveria zelar pela formalidade, já que depois da prisão de Lula tudo é permitido.

A prisão do bolso-fascista é um episódio menor. Mas, qual o cenário global ?

Bolsonaro ganhou o controle das duas casas parlamentares.

Trouxe o “centrão” para o governo – de fato. Cooptou parte da “direita liberal”, meteu uma cunha no DEM e no PSDB.

Na prática, desmontou uma candidatura forte desse setor, tipo Doria, ou Huck.

Bolsonaro tem sólido apoio nas Forças Armadas, nas polícias e milícias.

Grande parte do judiciário ainda o apoia ou o teme.

Ao mesmo tempo, recompôs-se totalmente com o “mercado”. Entregou a autonomia do Banco Central, fetiche antigo dos ultraliberais. E vai entregar o esmagamento dos servidores públicos.

Mas também está de olho nos votos e vai fazer alguma espécie de auxílio emergencial, encampando uma vez mais uma reivindicação da esquerda para amenizar o sofrimento da população e não perder popularidade.

Ele editou um decreto de liberação total de armas, sinalizando para sua base fascista-miliciana, e isso não incomoda nem as Forças Armadas e nem as polícias, embora devesse.

Lembremos que os oficiais alemães apoiaram Hitler mesmo sabendo que os nazistas alimentavam uma arma própria: as Waffen-SS.

Poderíamos imaginar um apego de servidores militares ao monopólio das armas pelo Estado, mas isso não ocorreu por dois motivos.

Os nazis desmontaram o serviço público, descaracterizaram-no como uma máquina burocrática supostamente impessoal e infestaram-no de funcionários políticos. Os militares foram privilegiados com o rearmamento alemão, envolvendo-se em grandes compras e oportunidades de corrupção.

No Brasil, os militares nem sonham em ser uma máquina de guerra e nem possuem inclinação para o sacrifício em batalhas reais como os alemães.

Mas recebem todos os privilégios corporativos e oportunidades de negócios.

Assim, lucram tanto com a reforma administrativa (que retira recursos da população, mas mantêm sua parte no orçamento), quanto com as privatizações que, no curto prazo, obtêm recursos para manter seus privilégios.

Que isso seja uma falácia e que a destruição do Estado social coloca em questão a própria necessidade de um exército, pouco lhes importa. No longo prazo estarão todos mortos.

Por isso eles mais dependem do que sustentam o governo.

Se é verdade que Bolsonaro perdeu seu principal apoio ideológico externo com a derrota de Trump, ele não perdeu seu foco estratégico que é o fechamento do regime ou se colocar em posição de força inamovível.

No plano tático, Bolsonaro comprou o “centrão” e comanda a Câmara e o Senado.

Tem apoio total do mercado, oferece o circo para seus apoiadores mais fanáticos e busca distribuir pão à sua base eleitoral empobrecida.

Life is hard. Esse é o tamanho do desafio da esquerda.

O bolsonarismo, sendo uma modalidade fascista, tem enraizamento social e não será derrotado sem uma longa luta social e político-ideológica.

A agitação deve ter base nas pautas do povo: auxílio, vacina e uma candidatura agregadora para 2022. Com Lula se possível, ou com o seu candidato Haddad, se necessário.

Ainda assim, confiar tão somente no calendário eleitoral pode até manter a esquerda viva como oposição no próximo quadriênio, mas não muda a correlação de forças.

O fascismo se combate no dia a dia, no cotidiano, na conversa de família, na disputa de rua.

Mas o que vale para o militante, vale muito mais para o dirigente. Nenhuma composição, nenhuma concessão.

A ilusão de que derrotaremos Bolsonaro mantendo o programa neoliberal precisa ser soterrada.

A população não aceita isso. Parte expressiva dela aceita o fascismo porque ele tem a capacidade de adiar suas promessas para o grande dia de Nacht und Nebel (noite e névoa) em que petistas, comunistas, tucanos, gays, intelectuais, sindicalistas, artistas et caterva serão expurgados e a população encontrará o êxtase numa orgia de revolta e ordem.

Parece-lhe irracional? Bem-vindo ao mundo do fascismo.

*Julian Rodrigues é professor, jornalista e ativista LGBTI e de Direitos Humanos

*Lincoln F. Secco é professor do Departamento de História – USP





1 comentário

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Darcy Brasil Rodrigues da Silva

25 de fevereiro de 2021 às 10h32

“É preciso soterrar a ilusão de que” a luta contra o fascismo é uma luta eleitoral, e não uma luta contra um golpe de estado que ameaça a realização das próprias eleições em 2022. Não derrotaremos o fascismo nem defendendo programas inspirados no keynesianismo, como os que propõem os economistas dos partidos social-democratas brasileiros. A prioridade de impedir a consecução de um golpe de estado recomenda a mais ampla aliança e o adiamento do debate eleitoral para o momento em que a realização das eleições estejam asseguradas. A luta contra o fascismo não pode travestir uma disputa eleitoral entre o PT e o bolsonarismo. Se esse encaminhamento do PT continuar prevalecendo, de duas uma: ou sofreremos um golpe de estado fascista-miliciano, ou veremos Bolsonaro ser reeleito em 2022. A insistência do PT em enxergar na luta contra Bolsonaro um processo eleitoral já deflagrado, que deve ser aproveitado para produzir a quinta vitória presidencial de um candidato do PT é motivada por uma ilusão, uma superestimação da capacidade desse partido recuperar o vigor político que tinha até 2013, que poderá custar muito caro aos trabalhadores e ao povo brasileiro. Eleger um nome do PT em 2022 não é a prioridade histórica dos que somos democratas e progressistas. A prioridade é derrotar política e ideologicamente Bolsonaro a partir de uma Frente Ampla Antifascista que deveria dar intensidade a essa luta desde o presente, não confundindo esse movimento com um processo eleitoral. As eleições, lá no distante 2022, poderão vir a ser um momento importante desse movimento antifascista, mas não o fim, o propósito da luta antifascista.

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