José Mário Neves: Qual a racionalidade do 8 de janeiro golpista em Brasília?

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Foto: Reprodução de imagem de Eraldo Peres/AP /picture alliance/

Qual a racionalidade do putsch de 8 de janeiro em Brasília? Queremos (dar o golpe), mas não podemos!

Por José Mário Neves*

Temos um fato evidente: o 8 de janeiro golpista foi uma ação desastrosa para o bolsonarismo, tanto que importantes lideranças aliadas a Bolsonaro tiveram que vir a público condenar a ação e seus governadores foram constrangidos a descer a rampa do Planalto com Lula.

É indiscutível que o Governo Lula e toda a institucionalidade democrática saíram muito fortalecidos depois dos acontecimentos desse dia, que significou uma importante derrota para o golpismo bolsonarista.

Diante dessa constatação, mesmo sabedores de que o bolsonarismo é alimentado por uma dieta de negacionismo, conspirações, mentiras e delírios, que podem parecer irracionais para qualquer pessoa minimamente orientada, cabe tentarmos entender qual a racionalidade dessa ação do ponto de vista deles, para podermos antever próximos embates e desafios.

O 8 de janeiro pode ganhar racionalidade política se o consideramos a partir de duas expectativas que não se realizaram: a de que o caos provocado em Brasília obrigaria as forças armadas (FFAA) a “saírem do muro”, desencadeando uma “intervenção militar”;  e a de que essa ação radical funcionaria como estopim, fazendo eclodir uma insurreição em todo o País.

A  expectativa de eclosão de uma insurreição nacional parece aposta pouco crível, pois exigiria preparação e articulação muito maior do que a tentativa de bloqueio de algumas estradas e refinarias e sabotagem de poucas torres de transmissão de eletricidade.

Não havia preparação, efetivos e capacidade de mobilização para essa aventura criminosa e desastrosa.

Vários indícios robustecem a avaliação de que a primeira expectativa – o desencadeamento de uma “intervenção” militar pela ação terrorista radical – foi o motivador provável do 8 de janeiro.

Entre os indícios disponíveis que reforçam essa compreensão, podemos destacar alguns:

— a guarida dos militares, muitas vezes com apoio logístico e proteção, aos acampamentos golpistas em frente aos quartéis;

— o posicionamento ambíguo e ilegal dos militares em relação à mobilização golpista com pedidos de “intervenção militar”, definida por eles como “mobilização pacífica e ordeira”;

— a numerosa participação de militares da ativa e da reserva e seus familiares – inclusive a esposa do general-conspirador Villas Bôas, conforme foi amplamente noticiado – nas manifestações e acampamentos golpistas.

A avaliação de que o movimento antidemocrático operou baseado nessa expectativa é reforçada por diversos vídeos dos terroristas presos, nos quais manifestam sua veemente indignação com os militares e o sentimento de que foram traídos.

Dada a forte plausibilidade dessa interpretação, cabe tentarmos entender a “ambiguidade” dos militares frente a esse movimento antidemocrático, que induziu o bolsonarismo à expectativa equivocada do desencadeamento de um golpe militar.

Embora a ambiguidade e o diversionismo façam parte do arsenal tático militar, não cabe considerar que as Forças Armadas tivessem deliberadamente buscado produzir essa confusão e induzir o movimento golpista a erro – um erro que está custando muito caro para todos eles!

Neste caso, é muito mais verossímil admitir que essa ambiguidade decorre da simpatia que parte significativa dos militares nutre pelo golpismo bolsonarista.

Faltou para essas direções militares a clareza das possíveis consequências desse o movimento antidemocrático e a coragem para dizer aberta e francamente para o movimento bolsonarista: somos golpistas como vocês, também queremos, mas não podemos!

Diante da afinidade evidente de parte significativa das Forças Armadas com o bolsonarismo – como testemunhamos ao longo dos quatro anos desse calamitoso governo – e da comunhão com o desejo golpista – que se materializou na desastrosa ambiguidade – cabe perguntar: por que os militares não puderam efetivar o (desejado) golpe?

Duas razões assomam com mais nitidez.

De um lado, a pressão internacional em defesa da democracia, com especial destaque para o incisivo posicionamento dos EUA, traumatizado pela invasão do Capitólio pelos trumpistas.

Do outro, a firmeza e coesão das instituições brasileiras, talvez um pouco assombradas com os riscos inegáveis que a continuidade do Governo Bolsonaro significaria para a democracia em nosso País.

A análise da racionalidade por trás da brutalidade irracional bolsonarista do 8 de janeiro evidencia que a institucionalidade democrática brasileira venceu um importante embate, mas que a “questão militar” certamente seguirá como um grande desafio ainda por longo período.

Depois da ação terrorista bolsonarista de 8 de janeiro, Lula tem expressado com veemência que “as Forças Armadas não são poder moderador como eles pensam que são”.

E tem defendido a sua profissionalização na defesa do povo brasileiro e da soberania nacional contra possíveis inimigos externos, em observação estrita à Constituição.

Tudo indica que parte significativa das instituições políticas e da sociedade civil brasileiras também entendeu que é preciso defender e reforçar a institucionalidade democrática, o que passa pela reconfiguração da mentalidade e do papel das Forças Armadas.

No entanto, diante de tudo que analisamos, ainda é o caso de perguntar: queremos (o enquadramento democrático das forças armadas), mas será que poderemos?

Se essa interpretação e a pergunta que a encerra fazem sentido, não podemos naturalizar o espanto frente ao fato gritante de que em nosso País hoje está em desenvolvimento uma batalha decisiva entre democracia e regime de exceção. 

*José Mário das Neves é doutor em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS.

Leia também:

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Manuel Domingos Neto: Estancar a depravação militar que estimulou e acoitou terroristas e vândalos

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