Jeferson Miola: Dois atos do teatro da conspiração das cúpulas militares contra a democracia

Tempo de leitura: 3 min
Charge: Laerte

Dois atos do teatro da conspiração militar

Por Jeferson Miola, em seu blog

Dois atos muito representativos do 8 de janeiro, que ocorreram com uma diferença de tempo menor que quatro horas e em palcos distantes 7,9 km entre si, fizeram parte do mesmo teatro da conspiração das cúpulas militares contra a democracia.

Um deles, o primeiro, foi contracenado no Palácio do Planalto. O segundo, no Quartel-General do Exército brasileiro – ou “Exército fascio-bolsonarista”, se se preferir.

O primeiro ato

Por volta das 18 horas de 8 de janeiro, no interior do Palácio do Planalto, ninguém menos que o próprio comandante do Batalhão da Guarda Presidencial, coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora, protegia terroristas que momentos antes haviam barbarizado e destruído as instalações do Palácio.

Enquanto um oficial da PM/DF bradava que “estão todos presos, coronel”, o oficial-comandante da Guarda Presidencial impedia a prisão dos criminosos e agia pessoalmente para liberá-los e, assim, deixá-los fugir impunemente.

O Batalhão da Guarda Presidencial é a unidade do Exército subordinada ao Comando Militar do Planalto que tem como missão proteger os palácios e residências presidenciais.

No dia 8 de janeiro, no entanto, o comando do Batalhão agiu em sentido diametralmente oposto ao seu dever institucional. Cumprindo ordens, naturalmente – não do GSI, mas do Exército.

Primeiro, o Batalhão da Guarda Presidencial retirou as tropas regulares e desguarneceu o Palácio, facilitando a ação dos criminosos, que encontraram as portas do Palácio destravadas para poderem invadir com inaudita facilidade.

O coronel do Exército Paulo Jorge da Hora, comandante do Batalhão da Guarda Presidencial. Fotomontagem: Metrópoles

E, depois da bárbara destruição, o comandante do Batalhão e seus comandados prevaricaram, traíram a Constituição e agiram com cumplicidade para liberar os terroristas – dentre eles, inclusive militares. 

O segundo ato

Por volta das 22 horas daquele 8 de janeiro, o Exército posicionou blindados e formou um denso cordão de soldados no acesso ao Quartel General do Exército.

A primeira e falsa informação, plantada na imprensa pelo próprio Exército, foi de que a barreira seria para impedir o regresso dos criminosos “ao lar” – ou seja, ao acampamento no pátio do QG.

“Agora ninguém mais entra; só sai”, diziam em off à imprensa.

Mas, na realidade, a fortaleza militar foi uma trincheira erguida para impedir que a PM do DF entrasse naquele território sem lei para cumprir o mandado de prisão de criminosos e terroristas ali amotinados.

É de conhecimento público que militares da reserva e da ativa, assim como integrantes da chamada família militar, se aboletavam no QG do Exército ao lado de terroristas do estilo daqueles que barbarizaram Brasília em 12 e 24 de dezembro com atos de terror.

A ordem do STF de desmontagem do acampamento e de prisão dos criminosos amotinados no QG só foi efetivamente cumprida na manhã de 9 de janeiro, depois do Exército providenciar a fuga de militares e de integrantes da família militar do local – dentre eles, segundo noticiou a imprensa, Dona Cida, a esposa do general-conspirador Villas Bôas.

As negociações dos ministros civis do governo – Justiça, Casa Civil e Defesa – com os comandantes militares, que se comportaram como chefes da conspiração e verdadeiros representantes dos amotinados, atravessaram a madrugada.

Um clima ríspido e tenso, na percepção de quem testemunhou a reunião. Com direito a temor de que um ministro civil pudesse receber voz de prisão de um atrevido general sedicioso que deveria ter sido exonerado e preso.

O 8 de janeiro foi uma operação orquestrada que envolveu múltiplos atores que devem ser identificados, responsabilizados e condenados.

Além do próprio Bolsonaro e dos agentes públicos e privados implicados de diferentes maneiras com os atos terroristas, é essencial, no entanto, se focar no papel central e de inteligência estratégica das cúpulas partidarizadas das Forças Armadas na conspiração para destruir o Estado de Direito e a democracia.

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Comentários

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Zé Maria

Excerto

“Um clima ríspido e tenso, na percepção de quem testemunhou a reunião.
Com direito a temor de que um ministro civil pudesse receber voz de prisão
de um atrevido general sedicioso que deveria ter sido exonerado e preso.”
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Comentário

Deveria!
Unzinho só.

abelardo

Me parece que uma boa parte dos atuais militares do exército, de modo premeditado, resolveram cerrar as fileiras do terrorismo e da subversão, para jogar no esgoto, de forma traidora e envergonhosa, a instituição militar do exército brasileiro, a sua história e a sua tradição. Se hoje, em pleno regime democrático e sob os olhares do mundo, o exército brasileiro se propõe a frequentar, proteger e se associar ao submundo do fascismo, do terrorismo e da insubordinação explícita, sem que nenhuma voz de alta patente se manifeste contra essa abominável bandidagem e ladroagem, que os protegidos do exército fizeram contra as instituições do governo brasileiro e da população, on que pensar dessa força militar?
Quem cala consente e qualquer manifestação que algum militar de alta patente venha publicar daqui em diante, perderá todo e qualquer valor, por que, para mim, tornar-se-à uma hipocrisia vil e inaceitável. Parece que tem militares com medo das apurações e das aberturas dos absurdos e covardes assuntos sigilosos. Afinal, quem tem, tem medo. Eu fico pensando que se hoje, à luz de pleno século 21 a traição, a omissão submissa, a insubordinação debochada, o terrorismo em verde oliva e a subversão sem hierarquia que as impeça, mesmo com toda tecnologia de segurança que grava, detalha e alcança a todos, que mesmo com todas essas barreiras tecnológicas eles fecham os olhos para deixar acontecer, eu imagino o que podem ter feito, ter escondido e ter enterrado, em plena ditadura militar, pós 1964, que sequestra a, torturava e matava, sem dó e sem piedade?
Eu avalio que perderam o pouco respeito que ainda tinham e suposto herói militar de brasileiras e brasileiros se tornaram hordas vergonhosas e verdadeiras de traidores e de baderneiros.

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