José do Vale: Pelosi pousou em Taiwan mas pode levar os EUA e o restante do mundo a escassez de medicamentos

Tempo de leitura: 4 min
Nancy Pelosi encontra a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. Foto: Reprodução de vídeo

Por José do Vale Pinheiro Feitosa*, especial para o Viomundo

A tensão causada esta semana pelo pouso do avião militar dos Estados Unidos em Taipei, capital de Taiwan, levando a bordo Nancy Pelosi, terceira personagem da hierarquia do poder de Estado, tem tantos efeitos colaterais, que se o episódio fosse medicamento, ele não seria aprovado pelos órgãos de controle.

Acontece que se Dona Nancy Pelosi fosse usuária de medicação de uso contínuo ou necessitasse de um medicamento específico, por exemplo, um antibiótico para eventual infecção, estaria em tensão decorrente de seu pouso provocativo, como todo o restante da humanidade.

Para simplificar nossa vida, usamos medicamentos de duas categorias principais: os sintéticos e os de biotecnologias. A maioria deles serve a grandes grupos de doenças (cardiologia, pneumologia, oncologia, oftalmologia, neurologia, ortopedia e demais aplicações).

Os medicamentos podem ser controlados pelo Estado para uso universal em sua população (como no SUS, aqui no Brasil) ou serem de livre comércio. E existem dois tipos de autorização tecnológica: os medicamentos de marcas e os genéricos.

Até o momento, o mercado mundial de medicamentos se distribui conforme a logística e as características de demanda e consumo em cinco grandes grupos de países: América do Norte, Europa, Ásia-Pacífico, Oriente Médio-África e América do Sul.

Vale alertar. Estou falando de medicamentos e não de materiais de próteses, parafusos ortopédicos, recursos físicos para exames de imagens, radioisótopos etc. Todos eles muito importantes na saúde pública e no exercício da medicina.

Retornando aos medicamentos, inclusive os imunobiológicos e recursos biotecnológicos.

Precisamos ter em mente que há um mercado mundial desses produtos, com cadeias produtivas interdependentes, mas com uma característica estratégica.

Toda a variação desses recursos se baseia em Ingredientes Farmacêuticos Ativos, conhecidos pela sigla IFA. É o Princípio Ativo dos remédios, cujo mercado se concentra na Ásia.  

Por isso, o enorme efeito colateral da visita de Nancy Pelosi a Taiwan.

Desde Trump e a devastadora epidemia de covid-19, os americanos acordaram em pleno pesadelo.

Tinham perdido toda sua capacidade produtiva interna. Não controlavam praticamente nada dos princípios ativos dos medicamentos e toda a escala produtiva tinha se transferido para a Ásia.

Para termos uma referência do tamanho financeiro deste mercado de Ingredientes Farmacêuticos Ativos: estima-se que, em 2027, ele chegará a 258,60 bilhões de dólares.  Atualmente está na faixa de 190 bilhões de dólares. 

A visita de Nancy Pelosi revela um conflito subjacente dos EUA com a China. Não são jogos de máscaras, mas algo mais consequente a atingir toda as estruturas mundiais, inclusive de saúde e alimentos.

Há um sentimento mundial de que os EUA e a OTAN estão pondo em curso uma grande guerra visando à Rússia e à China.

Há uma guerra aberta na Ucrânia e um cerco à China, como aconteceu com a visita Pelosi acompanhada de aviões de guerra e porta-aviões.

Grandes empresas (militares e de tecnologia, incluindo Facebook, Google, Microsoft, escritórios de representantes econômicos e culturais de Taiwan, Open Society, de George Soros) financiam e promovem “Jogos de Guerra”, tendo como alvo a China, segundo artigo da jornalista Debora Veneziale.

O Estado americano, via o seu Congresso e o Departamento de Defesa, está em plena provocação ao governo chinês, estimulando a independência de Taiwan, realizando manobras militares conjuntas na região, forçando visitas à revelia da China com o desfecho recente do pouso em Taipei de Nancy Pelosi.

No mesmo dia da tal visita, o parlamento da Grã-Bretanha praticamente “latiu” para o avião da deputada americana, garantindo que iria mandar delegações a Taiwan.

Igualmente a Lituânia insinuou reconhecer o governo independente do rochedo de 36.200 Km quadrados (quase mesmo tamanho da Guiné Bissau e um terço da Ilha de Cuba) com população de 23 milhões de habitantes.

Está em curso um aumento de beligerância, inclusive navegando a psicologia da guerra na Ucrânia, procurando mobilizar os parceiros dependentes das forças militares americanas no Pacífico, como a Coreia do Sul e o Japão, incluindo a Austrália, em seu arco de aliança para a guerra.

Na Europa, com a guerra da Ucrânia, o clima é de muita excitação por razões objetivas (migrações, energia e comércio), predominando o discurso de guerra, especialmente na Grã-Bretanha e na Alemanha.

Isso tudo demonstra uma disposição para alianças militares com guerras e não para o futuro da produção, circulação de mercadorias e seu consumo.

Em seu artigo, a jornalista argentina Debora Veneziale  chega a três conclusões:

a) no governo Biden, aconteceu a fusão estratégica de dois grupos de elite da política externa americana que se rivalizavam internamente, os falcões liberais e os neoconservadores, criando o maior consenso de política externa desde 1948;

b) a burguesia nos Estados Unidos chegou ao consenso que a China é um rival estratégico de modo que, apesar das perdas econômicas e comerciais num conflito, estabeleceu sólido apoio à política externa do governo;

c) as chamadas instituições democráticas de controles e equilíbrios dos EUA são completamente incapazes de impedir o espalhamento da política beligerante, devido ao formato da Constituição dos EUA, à expansão das forças de extrema-direita e à monetização das eleições.

Quando falamos em guerra envolvendo os grandes produtores de Ingredientes Farmacêuticos Ativos (o outro fora da China é a Índia), a sociedade e o futuro governo brasileiro hão de se preparar, dado o reflexo da situação de dependência atual ao mercado chinês.

Segundo matéria publicada pelo jornal Estado de São Paulo, 35% dos princípios ativos importados pelo Brasil para a produção de medicamentos vêm da China e 37%, da Índia. Ou seja, juntos, esses dois países asiáticos, dominam 72% da demanda brasileira.

Segundo representante da indústria farmacêutica brasileira, quase todos os antibióticos consumidos aqui são originários da China. E por aí vão os medicamentos para hipertensão, anti-inflamatórios, asma e estômago, refletindo a migração da indústria farmacêutica para lá.

Os gigantes asiáticos souberam aproveitar a onda de desnacionalização da Indústria de Produtos Sintéticos e Biotecnológicos para saúde de outros países.

Na verdade, estes países dominaram todo o ciclo de produção de medicamentos indo desde a química de base até a química fina (especialmente a química derivada do petróleo).

Uma guerra híbrida contra a população brasileira levou a mobilizações em que esta operou contra seus próprios interesses. Entregou seu petróleo ao mercado estrangeiro e destruiu o polo petroquímico de Itaguaí pela fachada perversa da Lava Jato e dos chamado políticos canastrões, como Temer ou outsider, como Bolsonaro.

Enquanto aqui o governo Bolsonaro transformou as Universidades em inimigas da sua “Nação Evangélica”, na China e na Índia seus governos agiram no sentido de promover parcerias com universidades, centros de pesquisa e indústria de IFA dos produtos biotecnológicos.

Dona Nancy Pelosi pousou de volta ao solo pátrio, mas sua Nação expôs a todos, inclusive ela, ao desespero da escassez em saúde.

Afinal, hoje em dia o mundo é dependente da produção chinesa e indiana de medicamentos. Uma guerra dos EUA contra a China afetaria todo o comércio asiático.

*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista.

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Comentários

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Zé Maria

Só falta os EUA convidarem a Ilha de Formosa a fazer parte da OTAN.

Claudio

Acho uma terceira guerra mundial inevitável, quanto mais fraco o governo americano mais chances de guerra; Biden é mais que fraco, ele é totalmente incapaz.

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