Jordan Michel-Muniz: Irã, o decadente dólar contra os Brics+

Tempo de leitura: 7 min
Irã fecha o Estreito de Ormuz e bloqueia 20% do tráfego mundial de petróleo, o que impactará na economia global

Por Jordan Michel-Muniz*

Numa versão digital do cavalo de Troia, na virada de 2025 para 2026 a CIA e o Mossad (serviços secretos dos EUA e Israel, respectivamente) usaram terminais telefônicos Starlink para se infiltrar entre o povo iraniano.

Organizaram um levante armado para abrir as portas do Irã à ‘democracia’.

Ou melhor, para reimplantar a monarquia com Reza Pahlavi, o filho do déspota que puseram no poder em 1953, após derrubarem o governo democrático do Irã para roubar petróleo.

Até um diplomata holandês foi pego usando a mala diplomática no contrabando de telefones.

Deu chabu na revolução colorida.

O governo iraniano reagiu e eliminou golpistas, com amplo suporte da população.

De lá pra cá Rússia e China enviaram dezenas de cargas com armamento para reforçar o Irã.

Antes, em junho de 2025, EUA e Israel bombardearam instalações nucleares do Irã, na Operação Martelo da Meia-noite, além da estação de televisão e outros alvos civis.

Afora diversos e constantes assassinatos de cientistas e militares iranianos efetuados por agentes terroristas israelenses.

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Ontem (28/02/2026) mataram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em cujo governo de 37 anos o país conquistou largo progresso tecnológico e social.

No mesmo ataque assassinaram quatro comandantes militares, além da filha, genro e neta de Khamenei, uma menininha de apenas 14 meses de idade.

Também bombardearam pelo menos dois hospitais, em Teerã e Ahvaz, repetindo o que Israel fez na Palestina: impedir o socorro aos feridos.

Com que direito?

Milhões de iranianos ocuparam praças e ruas por todo o país para honrar Khamenei, unidos no luto por seu líder. Manifestações similares ocorrem em outras nações islâmicas.

É este o temido ditador que o Ocidente anunciava em suas mídias corporativas?

Reverenciam Khamenei.

Venezuelanos também se juntaram nas ruas em protesto contra o sequestro do ‘ditador’ Nicolás Maduro e de Cilia Flores, sua esposa. Ditador?

As verdadeiras ditaduras são as democracias de aparência do Ocidente, a serviço de oligarcas belicistas.

Que não reclamem quando muçulmanos revoltados detonarem bombas nos EUA e Europa.

Irã hasteou a bandeira vermelha da vingança sobre a cúpula da mesquita Jamkaran, em Teerã.

EUA, Israel e Europa espalham o terror impunemente e o Irã é que oferece risco ao mundo?

Mas EUA e Israel querem a todo custo a riqueza do Irã – petróleo e gás – além de cortar rotas de comércio essenciais aos projetos econômicos de Rússia e China.

Falei disto há poucas semanas, aqui no Viomundo, em Quatro pensamentos e um funeral.

Disse que o ataque ao Irã era quase certo, que as cartas estavam na mesa, mas seria difícil o pedófilo Trump dar uma chance à paz.

Trump adotou a violência bélica e o protecionismo tarifário visando reverter a decadência do dólar, cuja participação no comércio mundial cai ano após ano.

Em 1971 os EUA estavam quebrados, devido à guerra no Vietnã.

Sempre estão metidos em alguma guerra.

Então, o presidente Nixon aboliu o lastro em ouro do dólar – a conversão do dólar em ouro.

O mundo engoliu a trapaça, fortalecida em 1974 pela imposição da venda do petróleo somente em dólares – o petrodólar.

O dólar passou a depender da confiança mundial nos EUA e na capacidade de pagarem sua dívida – os Bônus do Tesouro, que sustentam a impressão sem fim de dólares.

Isto levou a uma dívida impagável – 39 trilhões de dólares –, bolha que explodirá pelo declínio dos EUA e do uso da sua moeda.

Ninguém mais crê nas promessas ou grandeza estadunidenses, exceto bolsonaristas.

Trump admite tal fraqueza no seu lema – ‘Fazer os EUA grandes de novo’ (Make America Great Again, MAGA): só quem se apequenou fala em voltar a ser grande.

A decadência do dólar foi acelerada porque EUA e Europa impuseram todo tipo de sanções econômicas a quem não se submete.

A pior delas foi excluir bancos de alguns insubmissos do sistema bancário global – o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, ou ‘Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais’).

Ao usar o dólar como arma atiraram no próprio pé.

Os atingidos decidiram negociar entre si nas suas moedas e criar operação bancária alternativa – o DCMS (Decentralized Cross-border Messaging System, ou ‘Sistema de mensagens transfronteiriças descentralizado’), o pagamento BRICS.

Até países não afetados notaram a armadilha, aderindo ao mecanismo criado pelos BRICS e ao comércio sem dólar, originando os BRICS+.

Destas mudanças nasceu um mundo multipolar, avesso a hegemonias, mais justo e igualitário, que o Ocidente deseja sufocar e eliminar.

Trump inclusive ameaçou punir – com tarifas e tropas – quem não negociasse em dólar, numa intimidação aberta à América Latina.

Assim como o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores foi ataque à relação da Venezuela com China e Rússia, a nova guerra no Golfo mira na parceria do Irã com os mesmos países, pois os governos russo e chinês encabeçam a desdolarização (dollar bypass).

Neste sentido, a agressão dos EUA é simultaneamente guerra contra Rússia e China, em especial porque o Irã exporta 90% do petróleo para a China, representando 15% da importação chinesa deste produto.

Os EUA sonham em se apossar do petróleo iraniano, como em 1953, conforme exposto acima.

Quanto a isto, a guerra é um latrocínio que não poupa crianças.

Outro ponto que mencionei em Quatro pensamentos e um funeral acentua tal motivação.

Lá eu disse que “instalar governo títere no Irã permitiria aos EUA privar a China deste petróleo e fechar caminhos essenciais à Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), ou Nova Rota da Seda, vital ao crescimento econômico chinês”.

E acrescentei que “desmontaria igualmente a conexão ferroviária transcontinental na qual Rússia, Azerbaijão e Irã puseram o equivalente a 25 bilhões de dólares, ligando São Petersburgo aos portos iranianos de Bandar Abbas e Chabahar, e daí por mar a Mubai (Índia), evitando o Canal de Suez e baixando muito custo e risco”.

Por fim, com ajuda da China e da Rússia, as forças armadas iranianas têm dado apoio permanente à resistência palestina, libanesa, iraquiana e síria, contra o expansionismo israelense e o imperialismo dos EUA.

Fica claro que Rússia e China sabem que também estão sendo atacados na guerra ao Irã, e que não permitirão a derrota iraniana, de toda maneira improvável, como mostrarei.

Trump enviou dois porta-aviões, dezenas de navios e centenas de aviões à região, com enorme investimento econômico e político, enquanto de novo fingia buscar acordo pela diplomacia.

Os genocidas de Israel fizeram de tudo para incitar Trump à guerra.

O jornal The Jerusalem Post informa que o ataque foi tramado e decidido com semanas de antecedência, sob a cortina de fumaça dos diálogos pacificadores.

Suspeita-se que por trás dos acordos guerreiros houve chantagem israelense, ameaçando expor o conteúdo integral dos arquivos pedófilos de Epstein (tido como agente financiado do Mossad), o que desnudaria a podridão das oligarquias dos EUA e Europa, com Trump à frente.

Se for este o caso, o efeito é duplo: a guerra tira o foco dos crimes contra as crianças, ao mesmo tempo que se esquece que a necessidade de ocultar a pedofilia desencadeou a guerra.

Como covarde, Netanyahu fugiu para a Europa, deixando que outros morram pelo que ele ordena.

Foi à Grécia e cruzou a Europa para chegar a Berlim, onde está escondido. Nenhum país europeu cumpriu a ordem de prisão aplicada a ele pelo Tribunal Penal Internacional.

Assim exibem os valores morais do fundamentalismo anglo-eurocêntrico.

Os EUA estão acostumados a massacrar países indefesos: Iugoslávia, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen, Afeganistão…

Várias vozes da União Europeia (UE) e OTAN deram apoio à agressão militar, gente também infectada pelo neonazismo.

EUA e Israel até armaram o povo curdo para uma invasão terrestre ao Irã a partir do Iraque, conforme alertou o governo turco.

Pense por um minuto no caso inverso: se a Rússia resolvesse bombardear França e Reino Unido porque estas nações falaram em dar bombas atômicas à Ucrânia.

Achariam justo? E nem sequer há bombas atômicas no Irã.

É disto que se trata, quando os EUA afirmam que o Irã ameaça sua segurança e suas bases militares que, por coincidência, cercam o Irã: quem ameaça quem?

Aliás, a alegação de que o Irã prepara armas nucleares é fingida, equivale à farsa das armas de destruição em massa que Saddan Hussein teria, desculpa usada para arrasar o Iraque.

Se o problema é ter arma atômica, deveriam bombardear Israel, que possui dezenas delas.

E depois os EUA deveriam atacar a si mesmos na Alemanha, Bélgica, Itália, Países Baixos e Turquia, onde mantêm ilegalmente arsenal atômico.

A defesa das liberdades e dos direitos das mulheres iranianas é outro engodo, visto que não vale para dezenas de milhares de mulheres palestinas assassinadas pelos nazistas de Israel.

Nesse sábado, 28/02, cerca de 150 crianças iranianas foram assassinadas por bombas sionistas, uma delas lançada sobre escola de meninas. E a guerra recém começou…

Quanto ao fundamentalismo religioso, ele existe no cristianismo, por exemplo, quando mulheres pobres morrem por não ter direito ao aborto legal.

Daí o lema: tirem seus rosários dos nossos ovários!

Fundamentalismo católico machista, tanto que mulheres não podem oficiar missas.

O que pode ser pior que o fundamentalismo judeu, com o genocídio na Palestina?

Não havia fundamentalismo muçulmano antes de o Ocidente massacrar, colonizar e saquear povos da região, na partilha do Império Otomano, após a Primeira Guerra Mundial, em 1918.

O fundamentalismo é – acima de tudo – uma defesa cultural contra a expropriação e ocupação territorial.

Por fim, existe o engano de falar que o Irã precisa de democracia.

Democracia que Trump ignora ao iniciar guerra sem autorização do Senado e que ele afronta ao ofender juízes da Suprema Corte e burlar a proibição de aplicar tarifas extraordinárias.

Democracia que não existe na Europa, governada pela oligarquia plutocrática não eleita da Comissão Europeia.

Como dito no início, foram os EUA que destruíram a democracia iraniana, não os aiatolás.

Por enquanto, pouco se sabe do tamanho da destruição e do total de vítimas.

Certo é que se o Irã foi atingido, revidou, atacando Israel e diversas bases dos EUA no Golfo Pérsico, mostrando tolerância zero com vizinhos que se deixam usar nas agressões à nação iraniana.

E também fechou o Estreito de Ormuz, bloqueio que se for mantido provocará o caos no mercado petrolífero e, por extensão, na economia mundial.

Tudo indica que será uma guerra de desgaste, de administração de recursos.

É uma questão de dosar o uso de armamentos, limitados para ambos os lados do conflito.

Neste aspecto o Irã leva vantagem, pois os EUA precisam trazer de muito longe o que lhes falta, e sem os EUA os israelenses tampouco resistirão.

Além disto, os ianques desfalcaram seus arsenais no apoio à Ucrânia, tentando balcanizar a Rússia. A indústria bélica dos EUA é caríssima e lenta na reposição de estoques.

Que a guerra não provocada pelo Irã vire a derrota do nazi-sionismo!

Que seja o primeiro prego no caixão do imperialismo estadunidense e o começo da expulsão dos colonos europeus brancos que ocupam criminosamente a Palestina semita de pele escura.

Parafraseando o final dos discursos de Catão, o Velho, no Senado Romano, ‘Delenda est Israel’, isto é, Israel deve ser destruída.

Se quiserem que recriem Israel na Europa, já que a Europa é a responsável por todos os holocaustos: o holocausto negro na escravidão, o holocausto indígena na colonização e o holocausto judeu no nazismo.

Então, que não façam outros povos continuarem a pagar pelos crimes europeus.

Só com o fim do imperialismo dos EUA e do sionismo genocida haverá paz na Ásia Ocidental.

*Jordan Michel-Muniz é ativista social, mestre e doutor em Filosofia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e pesquisa temas ligados à geopolítica, democracia e às injustiças.

Este texto não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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