Jamil Chade: Trump, Milei e aliados articulam sequestro de entidade de direitos humanos da região

Tempo de leitura: 5 min
Comissão Interamericana de Direitos Humanos vive ofensiva por parte da extrema direita do continente Foto: Reprodução

Comissão Interamericana de Direitos Humanos vive ofensiva por parte da extrema direita do continente

Por Jamil Chade*, ICL Notícias

O governo de Donald Trump e seus aliados de extrema direita na América Latina iniciam uma ofensiva para tentar controlar o principal órgão de direitos humanos do continente, inclusive barrando audiências sobre temas que possam não ser de interesse dos EUA.

Nos últimos dias, o bloco ultraconservador fez uma proposta de reforma da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ligada à OEA. Além disso, a Casa Branca protestou contra a realização de uma audiência do órgão que estava sendo organizada para tratar dos ataques militares dos EUA contra barcos nos mares do Caribe.

Para o Brasil, ativistas de direitos humanos e observadores, a articulação pode colocar em risco a independência da Comissão.

Num documento obtido pelo ICL Notícias, os governos dos EUA, Argentina, El Salvador, Equador, Paraguai e Peru apresentam o que seria supostamente um projeto para “fortalecer” a Comissão. Num prazo de doze meses, as mudanças teriam como objetivo reduzir atrasos no processamento de petições e casos de denúncias, proteger as vítimas, otimizar as audiências e dar maior transparência.

O que parece ser apenas uma proposta administrativa, porém, foi interpretada como um ensaio para um controle da Comissão e um abalo à sua independência.

A Comissão teve um papel histórico na luta contra as ditaduras latino-americanas e, nos últimos anos, passou a ser um espaço fundamental para as denúncias de violações em todo o continente. Sua atuação é ainda crítica para que a Corte Interamericana de Direitos Humanos possa julgar e, eventualmente, condenar um estado.

A iniciativa da extrema direita ocorre num momento em que Trump estabelece seu “Escudo para as Américas”, uma iniciativa que tem como objetivo oficial criar uma aliança para lutar contra o narcotráfico na região. A suspeita de diplomatas brasileiros e observadores é que o projeto vai muito além do crime organizado e que seria uma forma de organizar a hegemonia dos EUA no continente.

Um dos elementos é o desmonte e controle de órgãos e tratados que possam colocar algum tipo de limite para a atuação dos EUA e seus aliados na região.

Apoie o VIOMUNDO

A proposta, portanto, foi recebida em Brasília como parte de uma instrumentalização política por parte da Comissão pelos movimentos de extrema direita na América Latina.

Para diplomatas de países com governos progressistas, a iniciativa foi considerada como preocupante. Ao ICL Notícias, um deles destacou que é “grave” o fato de que um grupo de seis países remeta à CIDH um conjunto de propostas de mudanças na sua operação sem qualquer diálogo mais amplo.

Na avaliação do Brasil, por exemplo, as mudanças propostas afetariam a todos os usuários do sistema, incluindo governos, peticionários e sociedade civil. Para diplomatas mexicanos, a avaliação é de que tal reforma precisaria incluir a todos, e não ser feita de maneira sigilosa.

Pressão de Trump

A preocupação principal é de que esses governos coloquem pressão sobre a CIDH e sua secretaria. O fato de um dos autores da proposta ser o maior doador de recursos — os EUA — também coloca o órgão numa situação complicada.

Na última sexta-feira (13), a realidade é que o governo Trump já deu demonstrações de que não irá tolerar uma ação da Comissão contra suas práticas na região. Naquele dia, o órgão realizou uma audiência para ouvir denúncias contra o governo de Donald Trump em suas ações contra barcos supostamente usados pelo narcotráfico na região. Mais de cem pessoas foram mortas.
Em nota, porém, o Departamento de Estado não hesitou em atacar a iniciativa que, durante a reunião, ouviu denúncias por parte de ativistas norte-americanos, como a American Civil Liberties Union (ACLU).
“Hoje, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) extrapolou em muito seu mandato e agiu além de sua competência ao realizar uma audiência temática sobre as operações antiterroristas dos EUA no Caribe e no Pacífico Oriental”, disse o Departamento de Estado.

“A CIDH permitiu que a ACLU explorasse a audiência para tentar forçar os Estados Unidos a divulgar prematuramente argumentos e provas em dois casos pendentes perante tribunais federais dos EUA”, afirmou.

Em outro trecho, a nota afirma que a CIDH “não tem competência para analisar as questões em discussão, que dizem respeito à interpretação e aplicação do direito internacional humanitário, e não ao direito dos direitos humanos, e não deve ser usada como instrumento em uma estratégia de litígio interno da ACLU ou de qualquer outra parte”.

O final do comunicado manda um recado direto ao órgão.

“Os Estados Unidos instam a Comissão a aderir ao seu Estatuto e Regimento Interno no futuro e a evitar se intrometer em questões que estejam em litígio interno ativo e que estejam fora da esfera dos direitos humanos”, pede. “A convocação de audiências nessas circunstâncias corre o risco de minar — e não fortalecer — a credibilidade do sistema interamericano de direitos humanos”, completou.

O texto ainda defende que a Comissão precise “redirecionar seu foco para as petições individuais que estão paradas em sua pauta, às vezes há décadas. Esta Comissão tem a obrigação de atender às preocupações dos requerentes em tempo hábil”.

O ponto é exatamente o que defende o governo dos EUA na proposta redigida com os demais governos, para que a Comissão apenas se concentre em atender às petições individuais”.

Diferentes governos admitem que algumas das propostas apresentadas parecem inofensivas, o que poderia levar a um debate legítimo sobre a melhoria dos trabalhos da Comissão. Outras, porém, têm o potencial de causar uma desorganização no trabalho da secretaria.

O temor do Brasil, por exemplo, é que, se a Comissão criar um canal exclusivo para tratar dessas recomendações apenas com um grupo de países, quaisquer alterações de procedimentos que surjam desse processo gerariam desconfiança, minando a credibilidade e a legitimidade da própria Comissão.

Observadores também alertam para o impacto do movimento criado pelos EUA e seus aliados. Um deles é o acadêmico brasileiro Fabio Sá e Silva, que chegou a concorrer a um dos cargos de comissário do órgão, em 2025.

“No processo eleitoral passado, defendi reformas pontuais no funcionamento da comissão, mas também a necessidade de aprofundar o diálogo”, explicou. “O documento traz algumas propostas válidas, outras potencialmente problemáticas. Porém, o mais importante é assegurar que essas propostas sejam amplamente discutidas a fundo pelos estados e a sociedade civil”, defendeu.

“Espero que a Secretaria Executiva e os integrantes da Comissão abram o processo, convoquem audiências ou adotem alguma forma de consulta pública sobre essas propostas — ao invés de as negociarem de forma ad hoc e a portas fechadas. A comissão é um patrimônio dos estados e dos povos da região”, completou.

Paulo Abrão, ex-secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, também criticou a iniciativa.

“Parece-me claro que esta reforma do regulamento se dá, neste nível, com total autonomia e independência da CIDH, por meio da designação de pessoal de confiança”, disse.

Segundo ele, existe um precedente com a intervenção do então chefe da OEA, Luis Almagro. Em 2020, o uruguaio não renovou o mandato de Abrão na liderança da secretaria-executiva da Comissão. Agora, essa situação de abalo à autonomia do principal órgão de direitos humanos da região seria ainda mais preocupante.

*Jamil Chade percorreu mais de 70 países,cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele foi eleito o segundo jornalista mais admirado do Brasil em 2025. Foi indicado 4 vezes como finalista do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Zé Maria

.

Filme: “O Agente Secreto”

Alguns Prêmios Conquistados no Exterior

Golden Globe Awards (EUA):
Melhor Filme em Língua Não Inglesa e
Melhor Ator em Drama (Wagner Moura);

Critics’ Choice Movie Awards (EUA):
Melhor Filme Internacional – Língua Não Inglesa;

Film Independent Spirit Award (EUA):
Melhor Filme Internacional;

Los Angeles Film Critics Association Awards (EUA):
Melhor Filme Internacional;

Austin Film Critics Association (EUA):
Melhor Filme Internacional;

Latino Entertainment Film Awards (NY/EUA):
Melhor Filme Internacional – Língua Não Inglesa;

Critics Choice Awards Celebration of Latino Cinema & Television:
Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho);

Satellite Awards (EUA):
Melhor Filme Internacional e
Melhor Ator em Drama (Wagner Moura);

New York Film Critics Circle Awards (EUA):
Melhor Filme Internacional e
Melhor Ator (Wagner Moura);

International Cinephile Society:
Melhor Diretor & Melhor Roteiro Original (Kleber Mendonça Filho)
Melhor Ator (Wagner Moura);
Melhor Atriz Coadjuvante (Tânia Maria)

Boston Online Film Critics Association (EUA):
Melhor Ator (Wagner Moura);

Chicago International Film Festival:
Melhor Ator (Wagner Moura);

Paris Film Critics Awards (França):
Melhor Ator (Wagner Moura);

Festival de Cannes (França):
Melhor Diretor + Prix des Cinémas Art et Essai + Prix FIPRESCI (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Ator (Wagner Moura);

Filmfestival Köln (Alemanha):
The Hollywood Reporter Award
de Melhor Filme de Ficção;

Íntegra em:

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_accolades_received_by_The_Secret_Agent_(2025_film)

.

Zé Maria

Há muito tempo, a OEA está Aparelhada pela Direita
para atuar contra Governos de Esquerda na América.
A Ofensiva de agora da Extrema-Direita é para Extingui-la.

Zé Maria

Emergência Climática também é
Questão de Direitos Humanos.

Zé Maria

https://youtu.be/K6RbWsx3L4o

Zé Maria

https://noticias-stf-wp-prd.s3.sa-east-1.amazonaws.com/wp-content/uploads/wpallimport/uploads/2026/03/02133701/Sessoes-Corte-IDH.png

187º Período de Sessões da Corte Interamericana
de Direitos Humanos (Corte IDH) será na sede do Suprema Corte Brasileira.

Entre os dias 16 e 20 de março ocorre Seminário Internacional da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) na sala de sessões da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF).

Haverá audiência pública sobre opinião consultiva relacionada à democracia e à sua proteção no Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/sessao-no-stf-abre-periodo-de-atividades-da-corte-interamericana-no-brasil-nesta-terca-17/
.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também