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Idelber Avelar: A outra face do “grande educador”


06/07/2011 - 16h51

enviado pelo leitor Nelson Antônio Fazenda, por e-mail

O legado de Paulo Renato ocultado pela mídia

A OUTRA FACE DO AMIGO DO “FILÓSOFO” CANSADO…

Idelber Avelar: O que você não leu na mídia sobre Paulo Renato

Morreu de infarto, no último dia 25, aos 65 anos, Paulo Renato Souza, fundador do PSDB. Paulo Renato foi Ministro da Educação no governo FHC, Deputado Federal pelo PSDB paulista, Secretário da Educação de São Paulo no governo José Serra e lobista de grupos privados. Exerceu outras atividades menos noticiadas pela mídia brasileira.

Por Idelber Avelar*

Nas hagiografias de Paulo Renato publicadas nos últimos dois dias, faltaram alguns detalhes. A Folha de São Paulo escalou Eliane Cantanhêde para dizer que Paulo Renato deixou um “legado e tanto” como Ministro da Educação. Esqueceu-se de dizer que esse “legado” incluiu o maior êxodo de pesquisadores da história do Brasil, nem uma única universidade ou escola técnica federal criada, nem um único aumento salarial para professores, congelamento do valor e redução do número de bolsas de pesquisa, uma onda de massivas aposentadorias precoces (causadas por medidas que retiravam direitos adquiridos dos docentes), a proliferação do “professor substituto” com salário de R$400,00 e um sucateamento que impôs às universidades federais penúria que lhes impedia até mesmo de pagar contas de luz. No blog de Cynthia Semíramis, é possível ler depoimentos às dezenas sobre o que era a universidade brasileira nos anos 90.

Ainda na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein lamentou que o tucanato não tenha seguido a sugestão de Paulo Renato Souza de “lançar uma campanha publicitária falando dos programas de complementação de renda”. Dimenstein pareceu desconsolado com o fato de que “o PSDB perdeu a chance de garantir uma marca social”, atribuindo essa ausência a uma mera falha na campanha publicitária. O leitor talvez possa compreender melhor o lamento de Dimenstein ao saber que a sua Associação Cidade Escola Aprendiz recebeu de São Paulo a bagatela de três milhões, setecentos e vinte e cinco mil, duzentos e vinte e dois reais e setenta e quatro centavos, só no período 2006-2008.

Generosidade

Não surpreende que a Folha seja tão generosa com Paulo Renato. Gentileza gera gentileza, como dizemos na internet. A diferença é que a gentileza de Paulo Renato com o Grupo Folha foi sempre feita com dinheiro público. Numa canetada sem licitação, no dia 08 de junho de 2010, a FDE da Secretaria de Educação de São Paulo transfere para os cofres da Empresa Folha da Manhã S.A. a bagatela de R$ 2.581.280,00, referentes a assinaturas da Folha para escolas paulistas. Quatro anos antes, em 2006, a empresa Folha da Manhã havia doado a curiosa quantia – nas imortais palavras do Senhor Cloaca – de R$ 42.354,30 à campanha eleitoral de Paulo Renato. Foi a única doação feita pelo grupo Folha naquela eleição. Gentileza gera gentileza.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor do Grupo Folha. Os grupos Abril, Estado e Globo também receberam seus quinhões, sempre com dinheiro público. Numa única canetada do dia 28 de maio de 2010, a empresa S/A Estado de São Paulo recebeu dos cofres públicos paulistas – sempre sem licitação, claro, porque “sigilo” no fiofó dos outros é refresco –a módica quantia de R$ 2.568.800,00, referente a assinaturas do Estadão para escolas paulistas. No dia 11 de junho de 2010, a Editora Globo S.A. recebe sua parte no bolo, R$ 1.202.968,00, destinadas a pagar assinaturas da Revista Época. No caso do grupo Abril, a matemática é mais complicada. São 5.200 assinaturas da Revista Veja no dia 29 de maio de 2010, totalizando a módica quantia de R$1.202.968,00, logo depois acrescida, no dia 02 de abril, da bagatela de R$ 3.177.400, 00, por Guias do Estudante – Atualidades, material de preparação para o Vestibular de qualidade, digamos, duvidosíssima. O caso de amor entre Paulo Renato e o Grupo de Civita é uma longa história. De 2004 a 2010, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo transfere dos cofres públicos para a mídia pelo menos duzentos e cinquenta milhões de reais, boa parte depois da entrada de Paulo Renato na Secretaria de Educação.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grandes grupos de mídia brasileiros. Ele também atuou diligentemente em favor de g rupos estrangeiros, muito especialmente a Fundação Santillana, pertencente ao Grupo Prisa, dono do jornal espanhol El País. Trata-se de um jornal que, como sabemos, está disponível para leitura na internet. Isso não impediu que a Secretaria de Educação de São Paulo, sob Paulo Renato, no dia 28 de abril de 2010, transferisse mais dinheiro dos cofres públicos para o Grupo Prisa, referente a assinaturas do El País. O fato já seria curioso por si só, tratando-se de um jornal disponível gratuitamente na internet. Fica mais curioso ainda quando constatamos que o responsável pela compra, Paulo Renato, era Conselheiro Consultivo da própria Fundação Santillana! E as coincidências não param aí.

Além de lobista da Santillana, Paulo Renato trabalhou, através de seu escritório PRS Consultores – cujo site misteriosamente desapareceu da internet depois de revelações dos blogs NaMaria News e Cloaca News –, prestando serviços ao … Grupo Santillana!, inclusive com curiosíssima vizinhança, no mesmo prédio. De fato, gentileza gera gentileza. E coincidência gera coincidência: ao mesmo tempo em que El País “denunciava”, junto com grupos de mídia brasileiros, supostos “erros” ou “doutrinações” nos livros didáticos da sua concorrente Geração Editorial, uma das poucas ainda em mãos do capital nacional, Paulo Renato repetia as “denúncias” no Congresso. O fato de a Santillana controlar a Editora Moderna e Paulo Renato ser consultor pago pelo Grupo Santillana deve ter sido, evidentemente, uma mera coincidência.

Cursinhos pré-vestibular

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grupos de mídia, brasileiros e estrangeiros. O ex-Ministro também teve destacada atuação na defesa dos interesses de cursinhos pré-vestibular, conglomerados editoriais e empresas de software. Como noticiado na época pelo Cloaca News, no mesmo dia em que a FDE e a Secretaria de Educação de São Paulo dispensaram de licitação uma compra de mais R$10 milhões da InfoEducacional, mais uma inexigibilidade licitatória era anunciada, para comprar … o mesmíssimo produto!, no caso o software “Tell me more pro”, do Colégio Bandeirantes, cujas doações em dinheiro irrigaram, em 2006, a campanha para Deputado Federal do candidato … Paulo Renato!

Tudo isso para não falar, claro, do parque temático de $100 milhões de reais da Microsoft em São Paulo, feito sob os auspícios de Paulo Renato, ou a compra sem licitação, pelo Ministério da Educação de Paulo Renato, em 2001, de 233.000 cópias do sistema operacional Windows. Um dos advogados da Microsoft no Brasil era Marco Antonio Costa Souza, irmão de … Paulo Renato! A tramoia foi tão cabeluda que até a Abril noticiou.

Pelo menos uma vez, portanto, a Revista Fórum terá que concordar com Eliane Cantanhêde. Foi um “legado e tanto”. Que o digam os grupos Folha, Abril, Santillana, Globo, Estado e Microsoft.

*Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum, professor da Tulane University, que fica em Nova Orleans-LA-EUA e mantém o blog O Biscoito Fino e a Massa.


Fonte: Revista Fórum

Saiba aqui como os tucanos deram 250 milhões à mídia desde 2004

Leia aqui sobre os “negócios”  de Paulo Renato com os livros didáticos





21 comentários

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Desgoverno da minoria infecunda « Brasil Popular

14 de dezembro de 2011 às 00h28

[…] do blog do Luiz Carlos Azenha, “VI O MUNDO: O que você não vê na mídia”. <https://www.viomundo.com.br/politica/idelber-avelar-a-outra-face-do-grande-educador.html&gt;, em […]

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Klaus

08 de julho de 2011 às 09h24

Só duas palavras para contrapor ao texto e provar que as coisas só pioraram desde então: FERNANDO HADDAD.

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Aracy_

08 de julho de 2011 às 07h43

Para qual dos círculos do inferno de Dante terá ido o lobista Paulo Renato: o quarto, da ganância, ou o oitavo, da fraude?

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@anabellbar

07 de julho de 2011 às 19h36

Só uma correção, o salário para professor substituto com 18 horas semanais nas Universidades Federais eram de R$ 600,00, recebíamos sempre com atraso.

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Fabio_Passos

07 de julho de 2011 às 18h55

Este não fará nenhuma falta.

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Leonardo

07 de julho de 2011 às 18h25

Pelo visto Lula gostou muito da política do Paulo Renato, haja vista a abertura mais indiscriminada ainda das "fabricas de diplomas."

O Brasil tem 700.000 advogados (e mais 4 MILHOES DE BACHARÉIS ESPERANDO COM A BOQUINHA ABERTA O FIM DO EXAME DE ORDEM), para uma população de 200 milhoes de habitantes

Os EUA concentram 180.000 advogados para uma população de 310 milhoes de habitantes, sendo um país muito mais rico!

Tem algo MUITO errado nisso aí.

E culpa não é só do Paulo Renato.

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gilda azevedo

07 de julho de 2011 às 12h10

Isso sim é uma biografia completa. Parabéns!

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João-PR

07 de julho de 2011 às 08h59

Até que enfim um texto que coloca o Paulo Renato onde deve estar: entre os privatistas de plantão da triste era FHC.

Sejamos sinceros: não é porque morreu que virou santo.

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operantelivre

07 de julho de 2011 às 08h23

Mas que elemento de educação generoso esse Paulo Renato!!!
Tanta doação só deve ser para pagar as indulgências pelos pecados ainda ocultos e garantir cela VIP no paraíso. Deve ter ido para o céu.OH! Coitado. E como ficam seus pobres órfãos do PIG?

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Marcia Costa

06 de julho de 2011 às 21h59

Não esquecer daquela "saia-justa" que foi a aprovação do IESB aqui em BSB quando o Paulo Renato foi Ministro da Educação. Seu secretário Edson Machado foi considerado suspeito no processo de abertura deste Instituto em 1998 cuja proprietária era sua mulher, Eda Machado.

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Junior

06 de julho de 2011 às 21h51

Com uma ajuda de 250 milhoes ate eu puxava o saco do PSDB todos os dias…

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Nelson

06 de julho de 2011 às 20h49

Ainda durante o reinado dos tucanos, li um artigo do filósofo Paulo Arantes no qual ele lançava a tese da inutilidade da inteligência. Segundo Arantes, nunca houvera um governo com tão elevada densidade de intelectuais a constituí-lo e esse acúmulo de inteligência tinha pouca serventia para o país. Um dos argumentos utilizados pelo filósofo, para sustentar sua tese, foi uma declaração que dera o então Ministro da Educação, Sr Paulo Renato de Souza.
P R Souza afirmara que o Brasil não precisaria investir em pesquisa e tecnologia, pois elas estariam disponíveis no mercado; bastaria adquirí-las.
Que tamanha barbaridade tenha saído de um Ministro da Educação (ou seria Sinistro da Educação?) é quase de não se acreditar.
O mais incrível é que sua morte desatou uma avalanche de elogios ao ex-ministro que de forma alguma condizem com o seu "legado" para nosso país.

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Priscila Susan

06 de julho de 2011 às 20h39

Tive o prazer de entrar numa Universidade Federal e o desprazer de ser em 1996 até 2001, ou seja, todo o governo de FHC e como ministro da educação o sr. Paulo Renato de Souza. Foi uma tragedia para a educação pública neste país, foram anos difíceis peguei duas greves de três meses nas federais. Foi um tempo muito duros e além de um projeto de transformar as federais do norte-nordeste como reprodutora do que a USP-UNICAMP pensavam como se aqui não fossemos capazes de pensar ou produzir ciências. O sr. Paulo Renato foi o pior ministro da educação da história do Brasil.

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GilTeixeira

06 de julho de 2011 às 19h24

Esse senhor foi um péssimo homem público, coisa não rara nas hostes do PSDemB. Que Deus o perdôe, por que eu, ó…

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Morvan

06 de julho de 2011 às 19h23

Boa noite.
Olha aí mais um texto – muito bom, como sempre, do Idelber Avelar.
Nunca me esqueci, a propósito, das palavras do José Simão, o Macaco, o Esculhambador da República, sobre o privatista Paulo Renado:
"Num país onde o Paulo Renato é Ministro, tudo é possível".

Há que se pontuar que enquanto o Simão fazia este comentário pseudo-jocoso o Sr. Paulo Renato desmantelava a educação como um todo, do jeito que tucano gosta. Simão era voz quase solitária, pois além de nunca fazer humor seletivo, como os CQC, Casseta e Planeta, Chico Anísio e outros o fazem, sempre teve consciência do momento vivido pelo país.

Morvan, Usuário Linux #433640

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Leider_Lincoln

06 de julho de 2011 às 19h22

Eu fui universitário federal quando aquele pulha foi ministro. Subscrevo cada vírgula!

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    Daniel

    07 de julho de 2011 às 10h14

    Eu também. Comecei os estudos universitários em 2002, ano em que esse cretino ainda era ministro do outro cretino, o cretino-mor, Efe-gagá-Cê, o louco. Minhas aulas deveriam ter começado em março, mas começaram somente em maio, por conta das greves que ocorreram antes, motivadas pelo providencial sucateamento da educação superior federal. A partir de 2003, a situação na universidade que frequentava começou a melhorar, tendo mais estrutura, profissionais e qualidade e no ensino. O que atrapalho sobremaneira foram os desmandos de um quase eterno reitor que lá existia, indicado por PRS e F-gagá-C, mas isso já é outra parte da história…

joao paulo

06 de julho de 2011 às 18h17

Pra morrer de raiva!!!

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ZePovinho

06 de julho de 2011 às 18h08

Procurei,procurei,procurei e não achei metáfora melhor do que esta para o tal "choque de gestão":

[youtube d_TENoczGKU http://www.youtube.com/watch?v=d_TENoczGKU youtube]

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ZePovinho

06 de julho de 2011 às 17h50

Falou do Paulo Renato e me lembrei,de novo,do Corno de Quenga que era chefe dele.Liga não,FHC!!!Isso acontece com os melhores abacaxis de Sapé-PB.

[youtube _9zegzGPlIk http://www.youtube.com/watch?v=_9zegzGPlIk youtube]

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Ismar Curi

06 de julho de 2011 às 17h41

Ah! A rede, a internet, que importância ela tem agora. Como sobrevivíamos antes dela? Fico a imaginar, desde a ditadura todos esses grupos rindo da gente que pensa diferente, que tem ética. Viva a internet que não deixa pedra sobre pedra, que revira o avesso do avesso.

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