Gabriel Vitullo: Quem define o que é política? O anticorrupcionismo e o mercado na agenda política da imprensa dominante

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O presidente Lula durante entrevista ao Jornal Nacional Foto: Ricardo Stuckert

Por Gabriel E. Vitullo*

A sabatina de Lula pela Globo expôs, de maneira particularmente nítida, uma concepção de jornalismo que merece ser discutida para além da própria entrevista.

Os muitos minutos dedicados aos escândalos de corrupção e o espaço reduzido concedido às propostas não constituem apenas uma escolha editorial entre tantos assuntos possíveis. Expressam uma determinada concepção do que importa na vida pública e, sobretudo, do que deve ser considerado politicamente relevante.

Há aqui algo que se aproxima do que Martín Caparrós chamou de “honestismo”: a transformação da honestidade em critério privilegiado para julgar a vida pública, deslocando para o terreno moral questões que deveriam ser discutidas como escolhas, interesses e projetos em disputa.

O político é convocado, antes de tudo, a provar que é honesto, como se a política pudesse ser reduzida à oposição entre bons e maus, puros e corruptos.

A própria imprensa passa, então, a ocupar uma posição de superioridade moral a partir da qual interroga, acusa e julga os candidatos — particularmente Lula — como se pudesse situar-se fora do conflito que pretende examinar.

O problema não está, evidentemente, em perguntar sobre corrupção. Ele surge quando a corrupção passa a funcionar como chave privilegiada de interpretação da própria atividade política.

Nesse enquadramento, partidos, governos, instituições e políticos aparecem principalmente sob a ótica dos escândalos, enquanto interesses sociais, projetos de sociedade e alternativas econômicas ocupam um espaço muito menor. A vida pública deixa de aparecer como campo de disputa entre diferentes interesses e projetos e passa a ser apresentada, sobretudo, como um problema de comportamento moral.

Essa lógica produz também uma espécie de infantilização dos candidatos. Eles são permanentemente convocados a demonstrar que aprenderam as regras elementares do bom comportamento: precisam ser honestos, equilibrados, moderados e responsáveis.

A disputa eleitoral transforma-se, assim, numa espécie de teste moral e administrativo no qual os candidatos devem provar que são capazes de comportar-se corretamente. Quanto mais a discussão se desloca para esse terreno, menor tende a ser o espaço para perguntar que interesses estão em jogo, quem ganha e quem perde com determinadas decisões e quais projetos de sociedade estão sendo efetivamente defendidos.

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Mas a sabatina não terminou nos escândalos. Quando o foco se deslocou para a economia, apareceu outra operação igualmente importante: determinadas escolhas deixaram de ser apresentadas como escolhas.

A responsabilidade fiscal, a necessidade de controlar gastos e certos arranjos econômicos foram tratados como exigências quase naturais, como limites objetivos que qualquer governo deveria simplesmente reconhecer. O que se naturaliza desse modo é uma determinada concepção da ordem econômica, que deixa de aparecer como uma entre outras possibilidades e passa a funcionar como parâmetro de razoabilidade.

Há uma curiosa simetria entre essas duas operações. De um lado, moralizam-se os políticos, permanentemente convocados a demonstrar que são honestos e responsáveis. De outro, naturalizam-se determinadas regras econômicas, apresentadas como limites objetivos dentro dos quais a ação governamental deve necessariamente se mover.

O candidato é chamado a demonstrar que compreendeu as regras do jogo; o modelo econômico, ao contrário, é apresentado como algo que não precisa ser discutido, apenas respeitado.

É nesse ponto que a questão da imprensa se torna incontornável. Quem seleciona os temas, estabelece sua hierarquia, define o tempo dedicado a cada um e determina os termos em que uma resposta será considerada adequada não está simplesmente observando o jogo político. Está participando dele.

O problema não é reconhecer que jornalistas e meios de comunicação possuem opiniões ou preferências — algo inevitável em qualquer atividade social —, mas perceber os efeitos produzidos quando essa participação é apresentada sob a aparência de uma posição exterior, neutra e puramente fiscalizadora.

Foi nesse sentido que a reação de Lula ao PowerPoint me pareceu especialmente significativa. Ao lembrar o papel desempenhado pela imprensa na construção de personagens como Moro, ele conseguiu, ainda que por alguns instantes, deslocar o foco da entrevista e recolocar a própria imprensa dentro da cena que ela pretendia observar de fora.

A referência aos “salvadores da pátria” foi importante justamente porque rompeu com a ficção de neutralidade: jornalistas, meios de comunicação, juízes e outros atores não estão simplesmente descrevendo a política. Também participam dela, ajudam a construir reputações, definem quais questões merecem atenção e contribuem para estabelecer quem será apresentado como herói, vilão, corrupto ou salvador.

Não se trata, evidentemente, de negar à imprensa o direito de questionar candidatos sobre corrupção, fiscalizar governos ou cobrar responsabilidade na gestão dos recursos públicos. Trata-se de perguntar por que determinadas questões recebem tamanho destaque enquanto outras são tratadas como secundárias ou sequer aparecem. E, sobretudo, de perguntar por que determinadas escolhas econômicas são apresentadas como necessidades objetivas, enquanto as decisões políticas que as sustentam desaparecem de vista.

A questão ganha ainda maior importância quando se observa como determinadas formas de organização econômica são retiradas do campo da controvérsia. A naturalização do mercado significa apresentar regras fiscais, relações entre Estado e empresas, políticas de investimento, formas de propriedade e critérios de distribuição de recursos como se fossem decorrências inevitáveis da racionalidade econômica. A economia aparece, então, como o domínio da necessidade, enquanto à política resta o domínio das paixões, dos interesses particulares e, não raro, da corrupção.

Esse enquadramento contribui para um esvaziamento da própria política. Se a política é corrupção, resta à sociedade desconfiar de seus representantes; se a economia é necessidade, resta aos governantes administrar corretamente aquilo que já foi definido como inevitável. Em ambos os casos, diminui-se o espaço para a disputa sobre alternativas. A questão deixa de ser qual projeto deve prevalecer e passa a ser quem é suficientemente honesto e responsável para administrar as regras consideradas dadas.

É justamente aí que o anticorrupcionismo pode se encontrar com a naturalização de uma determinada ordem econômica. A crítica à corrupção parece colocar-se acima das divisões políticas, enquanto determinadas concepções econômicas também são apresentadas como exteriores à disputa ideológica. O resultado é uma curiosa combinação: muita política na fiscalização moral dos políticos e pouca política na discussão sobre a economia.

A intervenção de Lula sobre o papel da imprensa na construção de figuras como Moro introduziu uma fissura nesse enquadramento. Ao trazer a própria imprensa para dentro da cena, colocou em questão sua pretensão de ocupar uma posição exterior ao jogo político. É uma lembrança incômoda, mas necessária: a imprensa não apenas observa a política; também participa da produção de seus sentidos, da hierarquização de seus temas e da construção pública de seus protagonistas.

É por isso que a pergunta mais importante talvez não seja apenas o que os candidatos dizem quando são entrevistados, mas quem define os termos nos quais eles devem responder. Quem decide quais são os problemas relevantes? Quem estabelece o que conta como responsabilidade? Quem determina quais escolhas são consideradas legítimas e quais aparecem como irresponsáveis? Quem pode julgar os políticos sem ser, ele próprio, reconhecido como parte do jogo?

A questão, no fundo, é saber quem define o que é política. E essa definição nunca é neutra.

*Gabriel E. Vitullo é professor de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Norte [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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