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Fidel a Frei Betto: EUA precisam deixar de querer colonizar Cuba e AL
Política

Fidel a Frei Betto: EUA precisam deixar de querer colonizar Cuba e AL


30/01/2015 - 12h42

Fidel e Frei Beto - foto Cubadebate

Frei Betto se encontra com Fidel Castro em 2014, em Havana. Foto: Cubadebate ntra com Fidel Castro em 2014, em Havana

Frei Betto: “Para Fidel, EUA ainda são inimigos”

Após encontro, teólogo conta que líder cubano está lúcido e que, embora veja aproximação com os EUA como positiva, considera que americanos precisam fazer mais

por Karina Gomes, no Deutsche Welle, via CartaCapital

Amigos de longa data, Frei Betto e Fidel Castro conversaram por uma hora e meia na residência do líder cubano em Havana sobre política internacional e até física quântica. O encontro ocorreu na terça-feira 27. O escritor, expoente da teologia da libertação no Brasil, estava preocupado com o estado de saúde do ex-presidente, que não aparecia em público e em fotos desde agosto do ano passado.

“Mas o encontrei muito bem. Ele está completamente lúcido, embora mais magro”, disse Frei Betto em entrevista à DW Brasil.

Enquanto anotava cada detalhe da conversa, o ex-presidente cubano, de 88 anos, disse que a abertura de diálogo entre os Estados Unidos e a ilha é positiva, mas o governo americano ainda é visto como inimigo e colonizador. “É preciso dar fim ao embargo econômico”, ressaltou Fidel.

Frei Betto, que anualmente visita Cuba, vai voltar ao país em abril para a comemoração dos 30 anos do livro “Fidel e a Religião” (1985), baseado em mais de 20 horas de entrevistas feitas por Frei Betto com o então ditador sobre sua visão religiosa.

Deutsche Welle: O que Fidel Castro comentou sobre a aproximação entre Cuba e Estados Unidos?

Frei Betto: Ele disse que essa é uma iniciativa de paz, mas deixou claro que o governo americano ainda é visto como um inimigo. Não basta apenas estar disposto ao diálogo. Deve-se suspender o bloqueio econômico, anular as leis que determinam o embargo ao regime cubano [lei Torricelli e ata Helms-Burton] e tirar Cuba da lista dos países considerados terroristas. Meras formalidades, como troca de embaixadas, não são suficientes para dizer que as relações estão normais.

DW: O que isso representa depois de mais de meia década do embargo imposto a Cuba?

FB: Posso dar a minha opinião. Eu comentei com ele que a retomada das relações diplomáticas representa um encontro de um caminhão consumista com um Lada [marca russa do carro mais usado em Cuba] da austeridade. Por outro lado, eu disse que o fato de o presidente Barack Obama vir a público e admitir que o embargo não funcionou é assumir que foi derrotado pela resistência do povo cubano nesses 53 anos de bloqueio.

DW: Como Fidel vê essa atitude de Obama?

FB: Ele acha que a atitude de Obama significa uma mudança de métodos, mas Fidel quer saber quais são os objetivos. Se os métodos mudam e os objetivos, não, de nada adianta. Fidel deixou claro que os Estados Unidos precisam mudar o objetivo de querer colonizar Cuba e a América Latina, de querer achar que o modelo de democracia deles é o ideal para a humanidade.

DW: Qual é o estado de saúde de Fidel Castro?

FB: Ele está absolutamente lúcido. Eu até quis tirar uma foto para mostrar como ele está bem, mas ele preferiu não tirar. Ele está mais magro, mas absolutamente lúcido, e anotou tudo o que a gente falou durante a conversa. Anotar tudo é um costume. Ele é uma pessoa que sabe tirar informações e opiniões do interlocutor. Conversamos por uma hora e meia no final da tarde, acompanhados da mulher dele, Dalia. Eu vou uma vez por ano a Cuba e ele sempre me chama para ir à casa dele.

DW: Você e o líder cubano têm uma relação fraternal de longa data. Você estava preocupado com a saúde de Fidel Castro, antes de encontrá-lo?

FB: Eu estava preocupado, porque há muito tempo não se falava nada e ele não aparecia em público. Havia uma grande interrogação mesmo entre os próprios cubanos. Desde agosto do ano passado, ele não dava nenhum sinal de vida. Temia que ele estivesse muito doente, mas eu o encontrei muito bem em sua casa, acompanhando a Celac [Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe, na Costa Rica] pelo canal Telesur, enfim, muito tranquilo.

DW: Durante a cúpula da Celac, que começou na quarta-feira, o presidente Raúl Castro disse que a aproximação não tem sentido sem um fim total do bloqueio.

FB: Eu acho exatamente isso. Não adianta falar “vamos ser amigos” se você tem uma faca apontada para o meu pescoço. Enquanto o bloqueio não for suspenso, é uma mera hipocrisia. Além disso, Cuba deve ser tirada da lista dos países terroristas.

DW: Você também esteve com o vice-presidente Miguel-Diaz Canel?

FB: Na quarta-feira de manhã, ele e eu tivemos um encontro com o movimento estudantil na Universidade de Havana. Foi uma longa conversa sobre neoliberalismo e o reatamento das relações entre EUA e Cuba. Miguel concordou que esse é um passo importante, um reconhecimento.

DWComo os cubanos têm recebido essa mudança?

FB: Os cubanos estão lidando com isso de uma maneira muito diplomática e elegante. Eles não querem tripudiar sobre o fato de Obama ter admitido que o embargo não funcionou. Como há muitos cubanos nos Estados Unidos, eles têm muito interesse em que esse reatamento seja feito o quanto antes, assim como têm interesse na ida de turistas americanos à ilha. A previsão é que, com o reatamento, Cuba receba cerca de três milhões de turistas dos EUA, o que ainda não foi autorizado por Washington. E isso é importante para a economia cubana. A questão para eles agora é trabalhar na infraestrutura.

DW: Fidel ressaltou o papel do papa Francisco na retomada das relações diplomáticas entre os dois países?

FB: Ele comentou com muita admiração, principalmente, a boa resposta que o papa deu sobre liberdade de expressão, ou seja, ela deve existir, mas não para ofender e humilhar. Referindo-se ao jornal francês Charlie Hebdo, o papa disse que “se xingasse a minha mãe, eu responderia com um murro”. Fidel gostou muito dessa resposta.

DW: Como vocês se despediram?

FB: Eu disse que continuo orando por ele e por Cuba. Ele agradeceu e eu desejei que Deus o abençoe.

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14 comentários

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FrancoAtirador

01 de fevereiro de 2015 às 17h53

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Lafaiete de Souza Spínola

31 de janeiro de 2015 às 22h43

O cubano é um povo alegre que soube (e sabe) ser valente e heroico ao enfrentar o império do norte.

“Em Cuba, o coração está fora do eu, ele pertence ao nós.”

http://blogln.ning.com/profiles/blogs/cuba-1964-1965

Responder

    FrancoAtirador

    01 de fevereiro de 2015 às 13h01

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    Grande Lafaiete.

    Ainda chegaremos lá.

    Um Abraço Camarada e Libertário.
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juares

31 de janeiro de 2015 às 16h19

Precisamos entender que já somos colonizados a longa data. Por sermos um jovem país ( 500 anos apenas, enquanto as antigas sociedades europeias e asiáticas, possuem milhares de anos ), as elites dominadoras, quando descoberto o Brasil, já dispunham de um manual de controle de um país colonizado e o vem aprimorando década a década. Portanto, quando fomos descobertos, eles – as elites – já dispunham deste manual de controle e dominação de uma sociedade. No início levaram nosso pau brasil, nosso ouro e ainda “pegavam” as nossas melhores e adolescentes índias em trocas de espelhos e penduricalhos. Depois foram aprimorando as formas de dominação. Vieram as multinacionais, uma forma mais prática de domínio e lucros sem guerras, “modus quo” além dos ensinamentos de Maquiavel. Precisavam dar legitimidade as suas organizações, então criaram as organizações mundiais, ONU, OEA, FMI BANCO MUNDIAL, etc, onde com a complacência de políticos nativos ( infelizmente em todo país existe espécies com esta genética mercenária ), em troca de um pouco mais de penduricalhos. Mas, e se alguns desses colonizados, tivessem a audácia de querer romper a estrutura política internacional? Ora bolas! Simples, impeçamos que eles possam se fortalecer militarmente, como não tem poder econômico de criar exércitos do tamanho dos nossos, temos que impedir que ele tenham uma arma atômica, então criamos um organismo internacional que venham impedir que eles tenham esta arma, só nós podemos ter, daqui prá frente mais ninguém! De lá (início ) para cá, quando se manisfestava qualquer insatisfação dos colonizados, pela experiência, deles, sediam os anéis e ganhavam mais algumas décadas para reveter o quadro, ou a perda. Não deixaram que desenvolvessê-mos o transporte ferroviário, pois precisavam vender seus caminhões Mercedez, Volks, Scania, agregados, viriam, o diesel e os óleos da Shell, Texaco, Mobil, os pneus da Pirelli, Godyewar, Bridgestone, e as peças. Guerra prá que, deixemos que eles fiquem com os penduricalhos das vendas, senão não seria demais. Como na indústria automobilística bilhões saem no nosso país tupiniquim todos os anos, no supermercado de alimentos, via Gessy Lever, Uniliver, P&G, Bunge, Nestlé, Coca-Cola, Pepsico, MacDonalds, etc, mais bilhões, na farmácia mais bilhões anuais são levados pela Johson e Johson, Gillete, E.M.S., Novartis, pfizer, Roche, Shering, etc. . No setor de eletroeletrônicos, a Philips, Dell, Samsung, Nokia, Sony, IBM, Intell, HP, Toshiba, Canon, Panasonic, etc., no agronegócio temos, a Monsanto, Cargil, Nutrimental, etc. . No setor de máquinas pesadas, temos Massey Ferguson, Hyundai, Mercedes benz, Scania, Cartepillar, etc. No mercado econômico, a Visa, Mastercard, HSBC, Santander, etc. No setor automobilístico, as montadoras Volks, GM, Hyundai, Ford, Honda, Fiat, Renault, etc. Fiquemos por aqui para que ao final desta leitura, não infartarmos ou viremos um voluntário de uma destas seitas terroristas anti-americanas, que se explodem ( já pensei nisso ). Podíamos pensar que pelo menos as minas de minério, nos pertence. Infelizmente, também são dominadas pelos americanos, ingleses e agora ( aprendendo as leis do capitalismo ) a China. No fim de cada ano, foi-se dezenas e dezenas de bilhões de dólares para suas matrizes para o conforto e bem estar dos colonos. Nada mudou, não é mesmo? A verdade é que eles descobriram e aprimoraram a democracia primeiro que nós, criaram os órgãos para protegerem seus interesses comerciais e políticos de forma a não correr nenhum risco, e parece que não nos restou muita coisa. Dou-lhes um conselho: se queres aproveitar o conforto e segurança de toda esta fortuna, não será aqui no Brasil, se é que a receita ficou no controle de somente 1% de toda a humanidade. Pelo menos lá fora fora estará próximo ( geograficamente ) destes poderosos. Já é um consolo.

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Adriano Medeiros Costa

31 de janeiro de 2015 às 14h55

Viva Fidel!

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Fernando Autran Gonçalves

31 de janeiro de 2015 às 11h17

A grande dificuldade que Cuba enfrenta atualmente é a de conseguir ampliar e diversificar o consumo e a produção sem provocar desigualdade. Afinal, não é tão difícil encher as esquinas de automóveis e crianças pedintes, como foi feito nos países ocidentais menos desenvolvidos. O processo de acumulação primitiva de capital que vitimou os povos da América Latina não é um bom caminho para Cuba.

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FrancoAtirador

31 de janeiro de 2015 às 03h44

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(http://www.dw.de/novo-cabo-submarino-entre-brasil-e-europa-deve-baratear-internet/a-17375853)
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Servidor_Raiz)
(http://jornalggn.com.br/noticia/a-ferramenta-de-espionagem-da-nsa)
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Responder

    FrancoAtirador

    31 de janeiro de 2015 às 03h51

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    (http://gizmodo.uol.com.br/vamos-falar-sobre-o-fairview-o-plano-da-nsa-para-possuir-a-internet)
    (http://gizmodo.uol.com.br/eua-brasil-fairview)
    (http://mundorama.net/2013/09/28/brics-cable-levando-a-cabo-uma-resposta-brasileira-a-espionagem-internacional-por-gills-lopes)
    (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/26787/cabo+de+fibra+otica+submarino+que+une+cuba+a+venezuela+comecou+a+funcionar.shtml)
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    FrancoAtirador

    31 de janeiro de 2015 às 12h12

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    (http://www.sk1z0fr3n1k.com/arquivo/tag/nsa)
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FrancoAtirador

31 de janeiro de 2015 às 00h36

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O que querem os United States?

Não querem Democracia em Cuba.

Querem Capitalismo Neoliberal.
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Responder

Patricio

30 de janeiro de 2015 às 14h28

Karina Gomes, Deutsche Welle, CartaCapital tratam Fidel como ditador.
Os manda-chuvas da Gringolândia colocaram Pinochet, Mubarak, Videla, Garrastazu, Netanyahu e uma inumerável corja de assassinos no poder. No entanto, estes e aqueles são tratados com deferência por essa gente. Dá para pedir mais respeito à imprensa e aos jornalistas? Não dá.
Mas dá licença, moçada. Fidel e o povo cubano tiveram a coragem de dar um pé na bunda desses imperialistas vagabundos.

Responder

Leo

30 de janeiro de 2015 às 13h55

Frei Beto diz que continua orando por Cuba e por Fidel. Tudo bem, está correto, mas será que ele orou durante décadas para que o ditador não mais torturasse os cubanos?

Em outro ponto, FB considera que Obama reconhece a perda dos EUA para a resistência Cubana. Muita pretensão! Na verdade, considerando o viés fortemente islâmico de Obama, sua característica populista e a aceitação que demonstra pelos comandos marxistas, podemos dizer que essa aproximação de Cuba nada mais reflete a nova ordem mundial que romperá as fronteiras de todos os países e que estará sob um governo único.

E registrem: água, terras, energia e petróleo são fontes escassas. A nova ordem reconhece este fato e pretende estocar esses recursos naturais para as gerações futuras. Pensem em que lugar do mundo está ocorrendo essa estocagem de commodities tão valiosas em detrimento da atual população?

Responder

    Paulo Figueiró

    30 de janeiro de 2015 às 15h59

    Leo – quantas vezes você foi a Cuba nos últimos 50 anos?

    Leo

    31 de janeiro de 2015 às 12h36

    Respondo com outra pergunta: conheces algum cubano que já tenha sido torturado e preso pelo regime cubano?

    Meu caro, não se iluda com a religião fundamentalista marxista. Ela é assim mesmo: prende, mata, tortura e não tem apreço algum pela moralidade.


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