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Emiliano José: Celebrando Dilma


25/12/2010 - 13h18

Heranças atávicas

Dilma foi um tsunami tão forte quanto Lula. E um tsunami que provocou a recuperação, parcial que seja, dos valores de uma sociedade patriarcal, misógina, homofóbica, autoritária e elitista. A parte da sociedade que assumiu esses valores de modo militante recusa conquistas já consagradas pelas sociedades democráticas avançadas. E o fez abraçando-se a religiões, pretendendo que o Estado brasileiro deixasse de ser laico, e se rendesse a princípios que contrariam os avanços da ciência e dos direitos à saúde, e atacando principalmente o direito das mulheres. O artigo é de Emiliano José.

Emiliano José, na Carta Maior

A contingência da passagem de ano sempre nos leva a algum tipo de balanço, e o ano de 2010 não será fácil de esquecer. Pelo fato simbólico da eleição de uma mulher para a presidência da República. E pela circunstância de que a assunção dessa mulher à condição de principal protagonista da cena política fez emergir preconceitos atávicos que muitos de nós, quem sabe ingenuamente, imaginávamos sepultados definitivamente.

As mudanças não são fáceis de serem aceitas. E uma mulher na presidência da República no Brasil se, num primeiro momento, poderia parecer um acontecimento quase banal, era um fato novo, muito novo, inédito, e representava quase um novo marco civilizatório. Tão forte que provocou reações que muitos de nós não imaginávamos possível. A eleição do presidente operário em 2002 provocou uma avalanche de preconceitos da elite brasileira, que foram solenemente ignorados pelo nosso povo. Lula termina seu mandato com um recorde de aprovação: 83%.

Dilma foi um tsunami tão forte quanto Lula. E um tsunami que provocou a recuperação, parcial que seja, dos valores de uma sociedade patriarcal, misógina, homofóbica, autoritária e elitista. A parte da sociedade que assumiu esses valores de modo militante recusa conquistas já consagradas pelas sociedades democráticas avançadas. E o fez abraçando-se a religiões, pretendendo que o Estado brasileiro deixasse de ser laico, e se rendesse a princípios que contrariam os avanços da ciência e dos direitos à saúde, e atacando principalmente o direito das mulheres.

Tudo por causa de uma mulher. Tudo contra uma mulher. Tudo tendo um significado político, evidentemente. Mas um significado político que se entrelaça com revelações culturais profundas, a evidenciar que o ovo da serpente do pensamento conservador ultradireitista não desapareceu da cena brasileira. E seria ilusório, creio, imaginar que tivesse desaparecido. Não foi ocasional que a campanha adversária tenha ressuscitado e valorizado até a famosa Tradição, Família e Propriedade (TFP) para afirmar suas posições. Ou que igrejas tenham retornado a posições de 1964.

A raiva contra a mulher ficou manifesta na discussão desonesta sobre o aborto. Como se a questão fosse ser apenas contra ou a favor do aborto, e não a discussão sobre o direito à saúde das mulheres, a assistência às mulheres vítimas de abortos clandestinos, normalmente mulheres pobres. Estima-se que morrem mais de 500 mulheres por ano no Brasil devido aos abortos clandestinos.

E as que não morrem, seriam o caso de colocá-las todas na cadeia?

Impossível. Ora, ora, tudo próprio de uma sociedade hipócrita, farisaica, que não olha para sua própria face. O próprio Serra, como ministro da Saúde, tinha posição mais humana. Mas, na campanha, preferiu abraçar as teses do medievo trevoso, só abrandadas quando foi revelado o aborto feito por sua própria mulher, revelação feita por algumas alunas de Mônica Serra.

As teses contra os homossexuais só perderam força quando perceberam o impacto eleitoral negativo. Mas, como conseqüência disso, temos assistido cenas freqüentes e deploráveis de ataques a homossexuais. A raiva contra os nordestinos, que revisitava o arianismo, surgiu com vigor logo que se revelou a vitória de Dilma. Para que não nos enganemos, o pensamento foi expresso especialmente por uma parcela da nossa juventude.

Não creio que devamos tratar esses acontecimentos como secundários. Nem com raiva. Com indignação, sim, sem dúvida. Mas, também, com a compreensão de que há ainda uma longa marcha para a mudança de mentalidade de nossa sociedade. Quem viveu bem mais de três séculos sob a escravidão não pode esperar que o espectro da Casa Grande tenha desaparecido. Esse espectro, aqui e ali, ressurge, e muitas vezes, com força.

E especialmente quando uma mulher resolve confrontar toda essa cultura, ao se pôr como principal mandatária do País. É verdade que a maioria da sociedade brasileira optou pela continuidade de um projeto transformador. No entanto, a luta por uma nova sociedade, livre de preconceitos, de discriminações, de racismos, continua mais que atual. Feliz 2011.





13 comentários

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Glecio_Tavares

26 de dezembro de 2010 às 19h43

Quando chegarem as eleições municipais muitos ministros vão ser candidatos então será o momento de fazer um ministerio mais PROGRESSISTA.

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adhemar

26 de dezembro de 2010 às 18h39

azenha!!!!!vamos tomar nossa cerveja,esqueça tudo ponto final,afinal a dor de cotovelo estão com eles,nós temos é que comemorar 2010 não foi facil,mais terminou fantastico,olha digo mais,eles teram mais um poblema,eles teram que passara pelo lula pra chegarem na dilma,e o lula com 83% de aprovação é pedra no sapato deles,lula livre e solta não é uma mosca na sopa não,é um elefante aguarde vc vai ver,ja estou preparando pro embate

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Rosana

26 de dezembro de 2010 às 15h56

o Severino disse TUDO !!!!!!!parabens!

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Alexandre

26 de dezembro de 2010 às 14h49

O SORRISO DE JOSÉ ALENCAR, TAXA DE JUROS E A [MINHA] COMOÇÃO!
A imprensa divulgou que o ministro da Fazenda, o ínclito Guido Mantega, visitou o [confiável] vice-presidente José Alencar. No encontro, José Alencar teria reclamando dos juros!… Não é comum uma pessoa – em meio a tanto sofrimento – preocupar-se com aspectos, digamos, colaterais!…
… O que foi dito em relação ao escritor Fernando Sabino vale de sobra par o bom e impávido José Alencar: “Nasceu homem e cada vez mais se torna um menino!”
Sinceramente, o sorriso do José de Alencar deixou os meus olhos marejados!… E trouxe de volta em mim a fé na condição humana!…
O sorriso do José de Alencar foi o único presente de Natal que eu recebi este ano!…

Messias Franca de Macedo
Feira de Santana, Bahia, Brasil Nação

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    Messias Macedo

    26 de dezembro de 2010 às 21h50

    Erratas:
    … No encontro, José Alencar teria reclamado dos juros!…;
    … vale de sobra para o bom e impávido José Alencar:…

    Saudações respeitosas,

    Messias Franca de Macedo
    Feira de Santana, Bahia, Brasil Nação

Mario L

26 de dezembro de 2010 às 12h23

texto interessante, devemos ficar alerta a direita está incomodada, partiram pro tudo ou nada perderam mais tem a imprensa durante quatro anos para atacar o povo Lula e Dilma vamos seguir avançando Prouni, Escolas Tecnicas, Faculdades, Fies todos defndendo o Novo Governo.

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José Manoel

25 de dezembro de 2010 às 20h14

Azenha: ou eu estou burro ou não estou entendendo nada!!!!!!!!!! Tem gente aqui que fica reclamando da Dilma!!!!!! Imagina se tivéssemos a seis dias de receber o vampiro como presente grego!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    Geysa Guimarães

    26 de dezembro de 2010 às 11h26

    Certo você, José Manoel. Eu, por ex., tenho que me ajoelhar todos os dias, elevar as mãos aos céus e agradecer a vitória de Dilma.
    Se os serristas mandassem em todo o Brasil, além de São Paulo, eu teria que estar providenciando minha mudança até a posse. A prefeitirana desta democradura aloysista defecaria ainda mais sobre nós.

Marcia Costa

25 de dezembro de 2010 às 19h39

Natal a gente sempre reúne a família. Meu irmão mora em SP e é leitor assíduo do Estadão. Gente fiquei abismada em ve-lo repetir os mesmos argumentos da direita. Triste ver uma pessoa tão querida se perder nas garras desse PIG… Estou no RJ (moro em BSB) e me assusto com as cópias das personagens das novelas, a sujeira das ruas dos suburbios, as histórias de volência do assalto das Forças Públicas ao Alemão. Mas, daqui a alguns dias a esperança vai se renovar…

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Severino

25 de dezembro de 2010 às 17h44

Prezado Azenha, estou abismado, nem gosto mais de cavocar a Internet a procura das opiniões maravilhosas que antes encontrava por toda parte. Parece que a desconfiança e o medo do capeta eram tamanhos, que agora deram de achar que a própria Dilma, pela qual tanto lutaram, também poderia ser disfarçadamente da turma do capeta. Compadre Azenha, nada é mais destruidor do que a desconfiança. Já vi gente até que depois de ter apostado um milhão na Dilma, hoje não apostaria dez centavos por seu governo. Não posso saber como isso aconteceu, parece que os jornais não têm culpa nenhuma sobre isso. O que posso achar é que são pessoas acostumadas a julgar tudo por símbolos, etiquetas e aparências. Para estas pessoas, se o camarada é do PMDB, já é ladrão. Mal sabem que eu, Severino, por exemplo, conheço prefeitos do PMDB, não apenas um, que empenharam a fortuna da própria família para salvar seus municípios de toda sorte de desgraças. Apenas pelo verdadeiro sentido de missão política e pelo reclamo de seus amados conterrâneos. Para alguns, o selo do PT é sinal de decência e capacidade e na verdade não é. No fundo, quem acha isso não conhece o nosso Brasil. Meu pai, comunista fiel, tinha amigos democratas que eram da Arena, porque a Arena era o grande partido onde faziam política e poderiam chegar até Brasília, que era tudo o que queriam, para reivindicar o progresso de seus municípios. Conversavam sobre acontecimentos de Brasília como se falassem sobre a previsão do tempo, e meu pai sempre trazia suas ilusões para a crua realidade. Todos pessoas de bem. Todos políticos de vocação. Nesse ponto, Lampião foi muito proveitoso, porque ensinou que a ofensa a quem é humilde pode levar à vingança contra tudo e contra todos. Ninguém no Nordeste, a menos que seja louco, ofende sequer a um esmoler.
Prezado Azenha, não conheço muitos dos ministros da nossa querida Dilma, mas lhe digo que grande parte do que ela poderá fazer depende de nossa fé, e não de futricas e fuxicos negativos. E tem mais, Lula ainda está vivo, é um santo nacional, mas agora todos nós devemos entender que é a vez da Dilma.

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Laura Antunes

25 de dezembro de 2010 às 16h53

De fato, o que rola muito contra Dilma é inveja brava, odiosa. Ela tem o seu valor. E foi pelo valor que tem que Lula a escolheu e a mostrou para o povo, que se encantou com ela. Nem mais e nem menos. Dilma tem tudo para ser amada cada vez mais pelo povo. Há no inconciente coletivo brasileiro, como disse João Santana, uma cadeira de rainha, quiçá de santa, vazia, que será ocupada por Dilma, na maior. Aposto!

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Depaula

25 de dezembro de 2010 às 13h33

Emiliano, você e Dona Lô merecem meus cumprimentos pela falat de vergonha de celebrar Dilma em grande estilo.
… Tão no lucro… Estão reclamando de barriga cheia! Dilma empurrou muito! Dá quase 30%, na cota de mulheres candidatas, né não? Reclamando por que de negra só tem a Luíza Bairros?
– …
– Ela, a Luíza Bairros, é a única negra em todo o ministério? Dilma ficou mal na fita com os negros? Acha que Dilma aí meteu o pé no jacá? Poderia ter colocado mais o pé na senzala? Acha mesmo que precisava? Ô Dona Lô, é ministério, não é frente minha amiga, mesmo sendo um governo de coalizão! A culpa é da agenda do racismo oculto? Que diacho é isso, senhora? A senhora né fácil não, viu Dona Lô? É difícil demais lhe agradar, senhora! O seu nível de exigência é alto demais! Dilma está é frita com uma amiga assim que nem você!"

No Governo Dilma as mulheres estão reclamando de barriga cheia?! http://talubrinandoescritoschapadadoarapari.blogs

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    Leider_Lincoln

    26 de dezembro de 2010 às 23h08

    Como deixaram passar um comentário cretino destes?


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