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Em desfile arrasador, Mangueira coloca patrono do Exército como repressor-em-chefe e mancha de sangue o monumento aos bandeirantes; Globo faz que não vê a Tuiuti
Reprodução TV Globo
Política

Em desfile arrasador, Mangueira coloca patrono do Exército como repressor-em-chefe e mancha de sangue o monumento aos bandeirantes; Globo faz que não vê a Tuiuti


05/03/2019 - 06h04

Da Redação

A Estação Primeira de Mangueira fez um desfile arrasador na segunda noite dos desfiles da Marquês de Sapucaí.

Tratou de reescrever a História a partir do ponto-de-vista dos negros e das mais de 300 etnias que existiam no Brasil antes da invasão dos portugueses.

Foi uma combinação de luxo, beleza e um samba enredo encantador, levado pelas arquibancadas.

A Mangueira ousou: colocou o patrono do Exército, Duque de Caxias, no papel que não se atribui a ele nos livros escolares: repressor-em-chefe de revoltas populares.

O personagem que o representou apareceu pisando sobre “corpos ensanguentados”.

A escola também pintou de “sangue” o monumento às bandeiras, de Victor Brecheret, que ocupa um lugar especial na memória oficial dos paulistas.

Tiverem papel de destaque a jornalista Hildegard Angel, à frente do carro alegórico que denunciou a ditadura militar, assim como a viúva de Marielle, Monica Benício, que veio a pé acompanhada por Rosemary.

O conjunto da obra foi de grande impacto.

A bateria fez um arranjo especial para o trecho do samba enredo que falava dos anos de chumbo da ditadura militar:

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Imediatamente antes desfilou a vice-campeã do ano passado, a Paraíso do Tuiuti.

A escola de samba do morro vizinho à Mangueira também trouxe um enredo político.

Tratou de um bode mítico do Ceará, de nome Ioiô, eleito vereador em Fortaleza pelo povão, mas impedido de assumir.

Comparou o causo a fatos recentes.

A comissão de frente da Tuiuti deixou claro que se tratava da usurpação, por endinheirados, do mandato popular dado ao bode pelo voto.

Ilustrou isso com o roubo da faixa presidencial.

A Globo fez que não viu. A apresentadora não só passou quase todo o tempo remetendo o enredo ao início do século passado, como questionou seguidamente se o bode de fato havia existido.

Mas em 2019 a comissão de frente da Tuiuti não foi tão impactante visualmente quanto a de 2018. O samba enredo também não tinha a mesma qualidade.

Mesmo a denúncia política exigia leitura de texto e entendimento de situações complexas.

A Tuiuti colocou coxinhas armados em uma ala e, no carro alegórico final, denunciou as contradições das barbies reacionárias que levaram Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, uma eleição que ele venceu sem enfrentar o bode, o ex-presidente Lula, condenado, preso e impedido de concorrer em 2018 pelos endinheirados do Brasil.

Abaixo, o roubo da faixa presidencial do bode:

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



6 comentários

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Julio Cesar

06 de março de 2019 às 12h23

Realidade ainda que tardia. A verdade historica sempre desagradou aos donos dos poderes que sequestram a verdade, por terem o direito de contar sua versão, quando são confrontados com fatos historicos inquestionaveis.

Responder

Arthur

06 de março de 2019 às 08h05

Dois meses de governo…e de repente aparece especialistas em história.
Indivíduos exigindo super econômia para o país, educação de primeira, emprego aos montes, saúde de primeiro mundo, segurança melhor do mundo…
Até antes das eleições não se falava nada a respeito.
Será que o povo acordou?
Ou é apenas uma parcela com medo de ver o país progredir com regras, leis que funciona, a meritocracia para o desenvolvimento, uma sociedade decente e com caráter?
Medo.
Pois sabem que se der certo não tem volta e terão que se adaptarem.

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    LUCIA MARTA DA CAMARA DINIZ GONÇALVES

    06 de março de 2019 às 22h05

    PeloamordeDeus! Quanta falta de empatia – afinal, o que seria “dar certo”? Acabar com a aposentadoria? Com a legislação ambientalista? O fim da CLT? Qual o problema de vocês ? Tomara que não tenhamos de nos adaptar à exploração e à crueldade, que haja respeito e sabedoria, e que todos possamos desfrutar das riquezas materiais e intangíveis do Brasil.

    henrique de oliveira

    07 de março de 2019 às 09h32

    Como que esse circo e seus palhaços , irão levar o BRASIL para o desenvolvimento? sinto muito cara mas o pior ainda esta por vir , não é má intenção é a constatação da realidade.

Cláudio

06 de março de 2019 às 01h39

Por que meus comentários não estão mais sendo publicados ? CENSURA SEM CURA ? … . . . …

Responder

marcio gaúcho

05 de março de 2019 às 13h07

Os acontecimentos comprovam que estamos num governo de linha militar, muito próximos de uma ditadura fascista. O aparelhamento do Estado, muito criticado quando o PT governava, agora está sendo realizado escancaradamente pelos militares. O Duque de Caxias, patrono da turma verde-oliva, nunca passou de um latrocida – isso mesmo, pois matava e pilhava. Enriqueceu com as escaramuças que promovia, capacho do império britânico, e seus descendentes vivem, hoje, como nababos. O Brasil retrocede social e politicamente. Economicamente, nem se fale. O que será desse bando de gente imbecil e ignorante, população chamada tecnicamente de nação, daqui há 10 anos, quando saberemos os resultados dessa aventura na qual embarcamos, pela irresponsabilidade de 57 milhões de eleitores militaristas e bolsonaristas, desalmados de direita sem saber o que ela realmente representa, e da omissão de outros tanto milhões de eleitores que anularam ou se abstiveram de votar. O caldo está na panela, fervendo. O que vai sair daí já é previsível!

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