VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Dr. Rosinha: Batalha de Acosta Ñú e Dia da Criança no Paraguai


16/08/2012 - 11h51

Dr. Rosinha, especial para o Viomundo

Comecei a escrever este artigo ainda no segundo semestre de 2008, após uma viagem à Assunção. Deixei-o arquivado. Volta e meia abria o arquivo, lia a pequena anotação e pensava: “qualquer dia preciso escrever sobre este tema”.

Entendo que a oportunidade de escrever é hoje, 16 de agosto, dia das crianças no Paraguai. Também me faz concluí-lo a polêmica sobre a suspensão do Paraguai no Mercosul.

Alguns intelectuais e parlamentares da direita brasileira chegaram a fazer o discurso de que a suspensão do Paraguai do bloco seria uma repetição da Guerra da Tríplice Aliança: Argentina, Brasil e Uruguai contra o vizinho Paraguai.

Em 2008, ouvi uma versão de um fato da Guerra da Tríplice Aliança e a anotei. Um parlamentar paraguaio contou-me o seguinte: “Na fase final da guerra, na batalha de Acosta Ñu, 20 mil soldados aliados (brasileiros, argentinos e uruguaios) lutaram contra apenas 500 veteranos paraguaios, comandados pelo general Bernardino Caballero, e 3.500 crianças, cujas idades eram inferiores a dez anos. Sem piedade e sem distinguir se adulto ou criança, os aliados mataram a todos, inclusive as mulheres que lutavam ao lado de seus filhos. Não pouparam sequer as que tentavam socorrer os feridos ou resgatar corpos. E que, quando os combates cessaram, o Conde D’Eu mandou incendiar o matagal, matando os feridos e as mulheres que os socorriam”.

Ouvi isto, fiquei indignado, como não poderia de ser, e anotei. Desde quando ouvi e anotei história, fui buscar informações sobre este fato. Li alguns artigos na internet e uma meia dúzia de livros de história do Paraguai e da Guerra da Tríplice Aliança. Entre esses livros, “Maldita Guerra”, de Francisco Doratioto.

O autor explica que o título do livro foi tirado de uma carta que Duque de Caxias escreveu para o General Osório, em 6 de junho de 1867, que continha a seguinte frase: “E vamos, meu amigo, ver se concluímos com essa maldita guerra, que tem arruinado o nosso país, e que já nos causa vergonha pela sua duração”.

Doratioto, na introdução do livro, afirma que “entre 1740 e 1974, o planeta teve 13 bilhões de habitantes e assistiu a 366 guerras de grande dimensão, ao custo de 85 milhões de mortos. O resultado dessas guerras parece ter sido um prêmio à agressão, pois em dois terços delas o agressor saiu-se vencedor. […]A Guerra do Paraguai faz parte, portanto, da minoria, pois o agressor, o lado paraguaio, foi derrotado”.

A guerra perdurou de dezembro de 1864 a março de 1870, e milhares de paraguaios, argentinos, brasileiros e uruguaios morreram, a maioria de fome, doença e exaustão física.

O autor também informa que no dia 16 de agosto de 1869 travou-se a “batalha de Campo Grande, conhecida como Acosta Ñu no Paraguai, e dela participou um grande número de jovens paraguaios, que contavam entre 14 e 15 anos de idade. […]Do lado paraguaio, misturados aos soldados, encontravam-se crianças com barbas postiças para parecerem adultas”.

Outras informações dão conta que algumas crianças pintavam o rosto com carvão para parecerem mais velhas. Essas crianças não colocavam a barba postiça e pintavam o rosto por vontade e iniciativa própria, mas sim por ordem do comando superior, em cujo ápice estava Solano López.

Desde o início da guerra, crianças paraguaias foram obrigadas pelo ditador López a lutar. No “Maldita guerra”, Doratioto cita Taunay: 

“Oh! A guerra, sobre tudo a guerra do Paraguai! Quanta criança de dez anos, e menos ainda, morta quer de bala, quer lanceada junto à trincheira que percorri a cavalo, contendo a custo as lágrimas!” (pág. 409).

Solano López, por ocasião da batalha de Acosta-Ñu, em 1869, já havia praticamente perdido a guerra. Portanto, já não havia “justificativa para Solano López colocar crianças a lutar contra soldados profissionais” (Doratioto).

“Nessa circunstância, a persistência em jogar contra os aliados tropas improvisadas, composta em grande parte de velhos e crianças, somente pode ser classificada de indefensável. Alguns trabalhos populistas, cultuadores, implícita ou explicitamente, da tirania, se limitam a destacar a coragem de crianças e velhos e a buscar levantar no leitor a indignação de, afinal, os aliados terem lutado e matado um inimigo mais fraco. Esses trabalhos induzem o leitor a admirar a Solano López, em lugar de responsabilizar o ditador pela morte de crianças e velhos, ao levá-los a lutar numa guerra já perdida. Por essa lógica míope, dever-se-ia admirar Hitler por resistir o avanço aliado, sem render-se, ao preço da destruição final da Alemanha e, mais, em outra identidade entre os ditadores, também utilizar-se de adolescentes e velhos para enfrentar o avanço soviético sobre Berlim” (Doratioto, Maldita Guerra, pág. 409).

Não sei quantos paraguaios e brasileiros conhecem a história verdadeira desta maldita guerra, iniciada pelo ditador Solano López. Sabemos que a maior vítima foi o povo, principalmente as crianças, velhos e mulheres do Paraguai.

Na atual conjuntura, no Brasil, há quem, por desinformação, má-fé, ignorância ou oportunismo, trace paralelos indevidos ao afirmar que a suspensão do Paraguai do Mercosul seria mais uma agressão dos países que no passado constituíram a Tríplice Aliança.

No massacre da Acosta Ñu, há responsáveis dos dois lados, mas um principal culpado – o ditador Solano López. Na suspensão do Paraguai do Mercosul, a culpa recai sobre os golpistas paraguaios.

Aliás, será que a raiz do golpe não seria a mesma do ditador Solano López?

Ambos os casos, o massacre de Acosta-Ñu e o golpe de Estado que a direita aplicou no Paraguai, me deixam indignado. Não menos indignado também me deixa o populismo, o oportunismo e a má-fé da direita brasileira.

O dia da batalha de Acosta-Ñu, 16 de agosto, é hoje o Dia da Criança no Paraguai.

Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e vice-presidente brasileiro do Parlamento do Mercosul. No twitter: @DrRosinha

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12 comentários

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Emídio Rainer

16 de agosto de 2017 às 19h19

É triste ver que pessoas que não sabe nada da historia do Paraguai e muito menos dessa guerra queira atribuir somente a Lopes o genocídio do povo guarani.O Paraguai era um pais que evoluía e isso incomodava a Inglaterra e seus vizinhos. Senão que motivo tinha o Brasil de extermina um pais que ja estava suficientemente acabado e dificilmente se levantaria novamente. A batalha de acostanhu foi sim desnecessária e covarde. A guerra ja tinha acabado com a queda de assunção e nao havia nessecidade de continuar

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Luiz Oliveira

21 de fevereiro de 2014 às 13h53

Eu acredito que o solano Lopes sim se preparou para a guerra quando prendeu o navio Marques de olinda e matou o governador brasileiro. Do mato grosso e os países aliados principalmente o Brasil defenderam seu solo sagrado a terra onde seus filhos nasceram e viviam por isto que nos brasileiros lutamos e morremos para defender o nosso pais de um ditador castelhano ditador que ameaçou a o império dos trópicos e nosso modo lusos

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Maurício Caleiro: A guinada conservadora de Dilma « Viomundo – O que você não vê na mídia

21 de agosto de 2012 às 10h30

[…] Dr. Rosinha: Batalha de Acosta Ñú e Dia da Criança no Paraguai […]

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Joel Leite: Chávez, de novo; feito o Roosevelt « Viomundo – O que você não vê na mídia

17 de agosto de 2012 às 19h18

[…] Dr. Rosinha: Batalha de Acosta Ñú e Dia da Criança no Paraguai […]

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Rafael Reis e Chrystel Ocanto: Venezuela tem muito mais do que ‘petrodólares’ para oferecer « Viomundo – O que você não vê na mídia

17 de agosto de 2012 às 09h51

[…] Dr. Rosinha: Batalha de Acosta Ñú e Dia da Criança no Paraguai […]

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Fred

17 de agosto de 2012 às 09h29

Penso que o Dr. Rosinha deveria ler “A Guerra do Paraguai – Genocídio Americano”.
Responsabilizar o Paraguai por essa guerra é brincadeirinha.

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Evandro Trigueiro Tavares

17 de agosto de 2012 às 09h12

“As guerras sempre foram travadas por crianças”. Frank Miller, em “The Dark Knight Strikes Again”.

Daí o termo “infantaria” que vem do francês “enfant”.

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Dr. Rosinha

16 de agosto de 2012 às 20h03

Agradeço pelos comentários feitos.
Em função das observações de Wanderson Brum sobre os efetivos dos exécitos, Francisco Doratioto registra que em fins de 1864, o efetivo militar paraguaio era de 77 mil homens, enquanto que o da Argentina era de 6 mil, Brasil, 18.320 e o do Uruguai de 3163. Com vês o ditador Solano López preparou-se para a guerra.
Doratioto chama a atenção para o fato que países com maior população, numa guerra prolongado, consegue repor seus efetivos e foi o que ocorreu.

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    Jotace

    18 de agosto de 2012 às 00h56

    Caro Dr. Rosinha,

    Apreciaria considerar ao ilustre deputado que, sem duvidar dos seus sentimentos, pode ter havido um tanto de precipitação de sua parte ao tentar homenagear as crianças paraguaias da forma como o fez. Melhor conviria que aludisse ao significado da data, sem pisotear aqui e acolá o nome de um ex-presidente a quem elas, como ademais todo o povo paraguaio, consideram como o maior herói nacional. É no que insiste também sua fonte predileta, Francisco Doratioto,que não aceita
    a chamada ‘versão marxista’ da guerra do Paraguai… E assim, o texto por si subscrito no blog, chega aos extremos de insinuar a ‘similitude’ de comportamento de Solano López com o grande flagelo que foi Adolf Hitler como fez aquele escritor, culpando o primeiro pela mortandade na realidade promovida pelos exércitos da Tríplice Aliança. Esquece aquele escritor o comportamento genocida então usual do exército brasileiro, como se deu pouco tempo depois nas atrocidades que praticou ao dizimar toda a população de Canudos, em 1896. Esta, ultimada por ‘cinco mil soldados que rugiam furiosamente frente a um velho, dois homens feitos e uma criança’ como bem o descreveu Euclides da Cunha. Como o termo ‘ditador’ detrata repetidamente a López no texto publicado, suponho que teria sido mais justo para com as crianças se ao menos mencionasse que tipo de ‘democracia’ vigorava no Brasil entre 1864 e 1870… Ou se destacasse o ‘heroismo’ do Conde D’Eu, ou do exército brasileiro na retirada de Laguna… História é história, devemos ir aos fatos, principalmente quando narrados a crianças. Assim penso eu que não integro a direita brasileira…Da mesma forma, tenho como inexplicável a omissão de como atuou no caso o império colonial britânico ao qual se deve não o papel de mediador, mas do verdadeiro agente causal da guerra pelos grandes interesses comerciais que detinha na região, ameaçados pelo processo de desenvolvimento paraguaio que promovia Solano López. O mesmo império ao qual se associa o fuzilamento ocorrido ontem, 16 de agosto, de cerca de 40 trabalhadores sul-africanos e uma centena de feridos muitos deles gravemente e que protestavam contra a falta de segurança no trabalho e os salários de fome, na terceira mina de platina do mundo, a inglesa Lunmic Pic… Ou que ameaça invadir a representação diplomática do Equador a fim de deter um jornalista nela refugiado por revelar atentados à liberdade humana, mas que se negava a extraditar o criminoso Pinochet… Com meus votos de sucesso para o Mercosul, um cordial abraço do, Jotace

Rodrigo Leme

16 de agosto de 2012 às 16h30

“O Paraguai não pdoe fazer nada, sozinho ele morre”. “É hora de fazer pressão no Paraguai, com sanções econômicas”. “Deixe o Paraguai sentir no bolso ir contra as reoluções da Unasul”.

Essas sao frases proferidas pro progressistas. Não muda nada do discurso americano sobre Cuba, por exemplo. E veja bem, pelo menos o Paraguai se ampara em uma Constituição…

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Wanderson Brum

16 de agosto de 2012 às 16h14

Na guerra o jovem morre e os velhos prosperam, os ricos engordam e os pobres definham…

A guerra do Paraguai foi no final das contas uma grande loucura, afinal o exercito guarani era muito menor do que o de qualquer um dos seus inimigos isoladamente, tal como a sua capacidade de repor as baixas, sem contar que contava com armamento inferior. Além disso, contou-se para o alargamento da duração do conflito a desorganização do exército aliado, o conflito de interesses entre os países e a falta de habilidade para guerra de pessoas que ocuparam o alto comando, a exemplo do Presidente Mitre da Argentina que fez muita bobagem em campo. E por fim é de se destacar, a falta de vontade dos lideres em construir uma solução que não implicasse no morticínio que se deu.

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Roberto Locatelli

16 de agosto de 2012 às 14h31

Governantes que mandam crianças para a morte numa guerra perdida…

O governo Grego está condenando suas crianças à fome, numa guerra perdida.

É o tipo de governante que o deus-mercado precisa.

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